Anunciação é uma pintura a óleo sobre tela tradicionalmente atribuída a El Greco e usualmente datada por volta de 1600. A obra integra um conjunto composto por ao menos sete versões quase idênticas, de graus variados de qualidade, todas tradicionalmente creditadas a El Greco e datadas entre 1595 e 1605. O tema da anunciação do anjo à Virgem Maria foi frequentemente tratado por El Greco e o conjunto de versões a qual pertence a obra em pauta parece derivar da composição homônima elaborada pelo artista para o tríptico de Módena, obra de juventude executada entre o fim do período cretense e o início do período veneziano.Marques, 1998, pp. 22.

A Anunciação é uma obra emblemática do caráter "expressionista" da arte de El Greco, fulgurante de luzes, cores e acordes cromáticos, em que a cenografia é composta por zonas plasticamente distintas, mas interligadas por movimentos ascensoriais e entrecortadas pela presença de luzes místicas e lampejos flamejantes. A pintura está relacionada ao período final da vida do artista em Toledo, em que sua produção assume uma postura mais religiosa, em comparação àquela de seu período italiano, alienando-se dos recursos tradicionais da estética renascentista - talvez por influência das novas doutrinas elaboradas pela Contra-Reforma.Selmikaitis, 2005, pp. 47. A obra em pauta é conservada no Museu de Arte de São Paulo (MASP) desde 1952.

Iconografia 180px|esquerda|thumb|Anunciação, de Loy Hering (1545). Taft Museum of Art, Cincinnati. A representação da Anunciação é um dos temas mais populares da arte cristã, encontrando paralelo somente nas imagens da Virgem com o Menino e da crucificação. O episódio é narrado tanto em textos canônicos quanto em textos apócrifos. Segundo a narrativa em , o arcanjo Gabriel foi enviado por Deus para anunciar à Virgem Maria, esposa de José, descendente da casa de Davi, que ela seria mãe de Jesus, "Filho de Deus":

Diante de um questionamento de Maria ("Como se fará isto se não conheço varão?"), o anjo teria replicado: "O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer é Santo e será chamado Filho de Deus." Maria aceita seu destino: "Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra".

A iconografia da anunciação surgiu no Oriente Médio, onde a festa de Nossa Senhora da Anunciação é comemorada desde ao menos o século V, estendendo-se em seguida para todo o mundo cristão. A representação tradicional traz Maria posicionada à direita e o anjo posicionado à esquerda do observador, com Gabriel assumindo a postura de quem fala e a Virgem a de quem escuta e aceita. Maria era indistintamente representada como uma simples donzela, por vezes costurando um pano, simbolizando, de acordo com o Evangelho de João (10:1), o "o tecer do véu do Templo". O anjo era representado em postura ereta, com semblante inequivocamente masculino, por vezes estendendo a mão direita em direção à Virgem. No decorrer da Idade Média, a representação do episódio foi se tornando gradualmente mais complexa, desde a elaboração das vestimentas de Maria e do anjo até a inclusão de símbolos místicos, como ramos de lírio, um poço ou um recipiente com água, símbolos da pureza.Selmikaitis, 2005, pp. 45-46.

No século XII, tornou-se habitual a representação da Virgem da Anunciação segurando a Bíblia em suas mãos, como uma premonição de seu próprio destino. Integraram-se à iconografia a pomba branca ou uma luz divina, simbolizando o Espírito Santo. No sul da Europa, era frequente a ambientação da cena em jardins e palácios, ao passo que os artistas do norte preferiam retratar o episódio em ambientes domésticos ou eclesiásticos. Já no Renascimento, tornou-se comum a substituição da Bíblia por um livro de horas. A Virgem não mais era representada somente em atitude de resignação, mas também surpreendida pela visita do anjo. A dramaticidade deste ato, de efeito visual mais efetivo, foi continuamente explorada pelos artistas do Maneirismo e do Barroco. A iconografia tornou-se menos rígida, dando aos artistas certa liberdade inventiva. É nesse último contexto que se situam as inúmeras representações do episódio feitas por El Greco, ainda que suas obras façam uso frequente de certos atributos da iconografia medieval, sobretudo em sua vertente bizantina.

Anunciações de El Greco

180px|esquerda|thumb|El Greco. Anunciação (c. 1570). Museu do Prado, Madri. O tema da anunciação foi frequentemente tratado por El Greco, fazendo-se presente ao longo de toda sua trajetória artística, de sua chegada à Veneza aos seus últimos anos de vida. No inventário de obras do ateliê do artista, realizado no momento de seu falecimento, por exemplo, cinco pinturas desse tema estão registradas. A mais antiga representação do episódio atribuída ao artista data do início de seu período veneziano (c. 1567). Trata-se de um dos painéis do tríptico de Módena (conservado na Galleria Estense), obra representativa do período de transição entre o estilo pós-bizantino de sua nativa Creta e a poética tipicamente latino-européia com que entrou em contato em Veneza e Roma. A obra apresenta um desenho ainda inseguro, pouco maduro, o que leva alguns especialistas a duvidarem da autoria de El Greco.Brown, 2001, pp. 62. Já no fim do seu período veneziano, o artista executou uma segunda Anunciação (Museu do Prado, c. 1570), finalizada pouco antes de sua partida para Roma. A obra já demonstra importantes avanços plásticos em relação ao painel de Módena, evidenciando a assimilação de alguns dos elementos formais da arte italiana por parte do autor e permitindo estabelecer paralelos com a poética de mestres como Michelangelo e Ticiano.Selmikaitis, 2005, pp. 46-47.

As Anunciações do período romano são caracterizadas por uma técnica mais refinada e por composições mais harmoniosas. Data desse período a aproximação de El Greco do miniaturista Giulio Clovio, que deve ter exercido sobre o artista considerável influência. Clovio é autor de um célebre livro de horas dedicado à vida da Virgem, que pode ter servido de inspiração para que El Greco executasse algumas de suas telas. Em comum, as Anunciações de Veneza e Roma trazem a preocupação com a ambientação e com o tratamento conferido à arquitetura e à perspectiva. Em suma, são obras fortemente influenciadas pela estética do Alto Renascimento - sobretudo a de Michelangelo. Em algumas obras, El Greco chega a fazer uso do piso quadriculado como forma de acentuar a perspectiva, um recurso bastante utilizado pelos pintores renascentistas da Itália e do norte da Europa. 180px|direita|thumb|El Greco. Anunciação (1596-1600). Museu do Prado, Madri. Em Toledo, sobretudo nas últimas décadas de vida do pintor (período em que se insere a obra em pauta e suas variações) essas características formais de suas Anunciações "italianas" seriam profundamente modificadas. El Greco mostra-se mais interessado no tratamento das figuras e seu estilo demonstra uma atitude muito mais religiosa, se comparado ao período anterior. Provavelmente por influência das doutrinas advindas da Contra-Reforma, o artista passa a conferir menos importância à cenografia, às representações arquitetônicas e outros recursos visuais típicos das escolas veneziana e romana. Parece mais interessado em abordar uma imagem mental, em encenar um acontecimento místico, e não em representar o episódio como uma aparição histórica. Tal proposição estaria em acordo com o pensamento contra-reformista então bastante difundido do uso da iconografia religiosa sobretudo para o estímulo à devoção. É curioso também o fato de que a maior parte das Anunciações de El Greco foi executada justamente em seu período toledano. Uma possível explicação para tanto estaria no suposto contato do pintor com os escritos de Santo Ildefonso, personalidade muito popular em Toledo e que foi representada diversas vezes por El Greco em suas últimas décadas de atividade. Santo Ildefonso é um dos patriarcas da Igreja Católica e dedicou boa parte de seus estudos ao tema da Imaculada Conceição.

Exemplar desse contexto é o grande retábulo da Anunciação executada para o Colegio de Doña María de Madri (Museu do Prado, 1596-1600), considerada não apenas uma de suas melhores representações do tema, imbuída de um misticismo sem paralelo em sua produção, mas também como uma de suas obras-primas absolutas. Dessa mesma composição há duas réplicas autógrafas em escala reduzida, datadas do mesmo período, conservadas hoje no Museu de Belas Artes de Bilbao e no Museu Thyssen-Bornemisza de Madri. É possível que o sucesso dessa composição entre seus contemporâneos tenha estimulado o pintor a executar o grupo de pinturas ao qual pertence a obra em pauta. Ligeiramente posterior a este grupo é o tondo da Anunciação pintado para o "Hospital de la Caridad" de Illescas, executado em colaboração com o filho, Jorge Manuel Theotokopoulos. Ainda mais tardia é a Anunciação encomendada para a igreja do Hospital de São João Batista, hoje conservada na coleção Santander de Madri.

A obra Contextualização Em suas últimas décadas de atividade em Toledo, El Greco, já estabelecido como mestre de grande prestígio, recebia frequentemente encomendas públicas de diversas organizações eclesiásticas para executar retábulos de grandes dimensões. Não obstante, o artista também era bastante solicitado por clientes de variadas regiões da Espanha para produzir pinturas de menor escala, mas de execução igualmente acurada, para servir à devoção em capelas particulares ou para figurar em coleções privadas. Muitas dessas obras menores reproduziam as mesmas composições concebidas por El Greco para seus grandes quadros de altar, fato atestado pela existência de muitas versões repetidas de suas obras primas, atribuídas indistintamente a El Greco e a seus colaboradores. Tal fato é documentado já no século XVII. Em El arte de la pintura, Francisco Pacheco del Río comenta que El Greco tinha o hábito de executar réplicas em tamanho reduzido de suas composições mais populares (os assim chamados ricordi), de forma que pudessem ser mantidas à disposição da clientela em seu ateliê ou servir para a execução posterior de cópias. É o caso, por exemplo, do já mencionado retábulo da Anunciação, atualmente no Prado, do qual existem duas réplicas autógrafas reduzidas.

Outras composições, entretanto, eram elaboradas já em formato reduzido, com o objetivo de atender exclusivamente a clientela privada, não estando relacionadas a quaisquer encomendas monumentais oficiais, mas sim concebidas como obras postas à venda diretamente no ateliê do artista. A preferência da clientela por determinada composição estimularia a produção de mais cópias autógrafas. Tal hábito explica não apenas a existência de uma grande quantia de versões de obras populares(como o Êxtase de São Francisco, da qual o MASP possui uma versão, São Francisco e Irmão Leo meditando sobre a morte e Santo Ildefonso, entre outras), mas também a dificuldade em determinar quais obras seriam as "originais" (no sentido de "protótipo") e quais seriam as derivações. É provavelmente nessa categoria que a Anunciação em pauta se insere. 180px|direita|thumb|El Greco. Anunciação (c. 1600). Museu de Belas Artes, Budapeste.