O Estado Independente do Congo (em francês: État Indépendant du Congo), também conhecido como Estado Livre do Congo, foi um reino privado, propriedade pessoal de Leopoldo II da Bélgica entre 1877 e 1908.The New International Encyclopaedia. "Congo Free state" p. 277. Ocupava a maior parte da área da bacia do rio Congo,Encyclopædia Britannica 1910-1911-1922 "Congo Free State, pp 917-928. incluindo o território da atual República Democrática do Congo. Sua economia se baseava na intensa exploração do trabalho africano, nas condições mais degradantes,Genocide Studies Program. Yale University. Congo Free State, 1885-1908 para extração de borracha e marfim.
Em 1908, depois da brutalidade deste tipo de colonização ter por fim sido exposta na imprensa ocidental, esta propriedade privada passou a ser uma colónia da Bélgica — o Congo Belga.
As estimativas do total de mortos no Congo pelos homens de Leopoldo II variam de 1 milhão a 15 milhões, devido a fome, doenças, privações e assassinatos em massa. Milhares de outras pessoas foram mutiladas.
Exploração europeia
A bacia do rio Congo foi a última parte do continente africano a ser explorada pelos europeus, por se encontrar no interior do continente. Um por um, os outros grandes mistérios da África haviam sido investigados: o litoral, pelos marinheiros portugueses do infante D. Henrique, no século XV; o Nilo Azul, por James Bruce, em 1773; o alto Niger, por Mungo Park, em 1796; a vastidão do deserto do Saara, pelos competidores Alexander G. Laing, René Callié e Hugh Clapperton, na década de 1820; os manguezais do baixo Nilo, pelos Irmãos Lander, em 1830; o sul da África e o Zambezi, por David Livingstone, na década de 1850, e o alto Nilo, por Burton, John H. Speke e Samuel Baker, em uma sucessão de expedições, entre 1857 e 1868. Contudo, o Congo permaneceu um mistério, mesmo tendo sido uma das primeiras regiões a se tentar explorar.
Desde o século XV, os exploradores europeus navegaram pelo largo estuário do Congo, planejando abrir caminho até às cataratas e corredeiras que tinham origem a apenas 160 km da costa e viajam rio acima até sua fonte desconhecida. As corredeiras e cataratas na verdade se estendiam por 352 km pelo interior, e o terreno perto do rio era praticamente intransponível, o que persiste ainda hoje. Repetidas tentativas de se viajar através dessa região foram frustradas por graves eventualidades. Acidentes, conflitos com nativos, e acima de tudo as doenças fizeram com que grandes e bem equipadas expedições não conseguissem percorrer mais que 60 km através do legendário Caldeirão do Inferno.
Somente a partir da década de 1870 é que o Congo foi explorado pelos europeus e, mesmo assim, não pelo mar, mas pelo outro lado do continente africano. Partindo de Zanzibar, o jornalista galês (naturalizado estadunidense) Henry Morton Stanley tinha como objetivo encontrar o famoso Dr. Livingstone, de quem não se tinha notícias havia já alguns anos. Na verdade, Livingstone estava explorando a parte superior de um grande rio do interior, o Lualaba, que se supunha relacionado com o Nilo, mas que se revelou como sendo o alto rio Congo.
Após deixar Livingstone, Stanley navegou por km, Lualaba abaixo, até ao grande lago que ele chamou de Stanley Pool (lago Stanley; atualmente, lago Malebo). Então, em vez de perecer no impenetrável país das cataratas, Stanley optou por um longo desvio através da região, para se aproximar da feitoria portuguesa em Boma, no estuário do Congo.
Prelúdio à conquista
upright=1.1|thumb|esquerda|Leopoldo II da Bélgica Quando Stanley voltou à Europa em 1878, ele não tinha apenas encontrado Livingstone, mas resolvido o último grande mistério da exploração africana, e tinha aberto o coração da África tropical para o mundo, o seu maior legado. Mas tinha também arruinado a sua saúde.
Stanley foi consagrado em toda a Europa. Escreveu artigos, apareceu em reuniões públicas, pressionou os ricos e poderosos, insistindo sobre seu tema favorito — a oportunidade para exploração comercial das terras que ele mesmo descobrira ou, em suas palavras, "despejar a civilização europeia no barbarismo africano."
"Há de pessoas nuas" do outro lado das cataratas, escreveu Stanley, "e os industriais têxteis de Manchester estão à espera de vesti-los (…) As fábricas de Birmingham estão a fulgurar com o metal vermelho que será transformado em objectos metálicos de todos os tipos e aspectos que irão decorá-los (…) e os ministros de Cristo estão zelosos de trazer as suas pobres almas para a fé cristã."
A Europa não parecia animada com esta ideia: a grande jogada sobre o continente africano e as suas riquezas ainda não tinha começado. Fora do cabo da Boa Esperança e da costa do mar Mediterrâneo, nenhum Estado europeu tinha colónias africanas que pudessem ser consideradas significativas, e o interesse das grandes potências estava fortemente concentrado nas terras onde haviam feito a sua fortuna: as Américas, as Índias Ocidentais, a China e Australásia. Parecia por isso ser desprovido de sentido económico qualquer investimento de energias em África quando o retorno proveniente das outras colónias se mostrava maior e mais rápido. Também não existia qualquer interesse humanitário forte no continente, agora que o comércio de escravos para a América tinha sido extinto. Stanley foi aplaudido, admirado, condecorado e ignorado.
Foi nesta altura que o rei Leopoldo II da Bélgica entrou em cena. Nas palavras de Peter Forthard, Leopoldo era um homem alto e imponente, gozando de uma reputação de sensualidade hedonística, inteligência acutilante (o seu pai, uma vez descreveu-o como subtil e matreiro como uma raposa), com uma ambição desmedida e dureza pessoal. No entanto, era um monarca menor na "realpolitik" daquele tempo, reinando numa nação totalmente insignificante, uma nação que, de facto, ganhara existência apenas quatro décadas antes e que vivia sob a ameaça constante de perder a sua precária independência para as grandes potências vizinhas. Leopoldo foi uma figura da qual haveria toda a razão para se esperar que se dedicasse à manutenção da neutralidade estrita do seu país, evitando litígios com os seus poderosos vizinhos, dedicando-se aos prazeres da carne. No entanto, de uma maneira tão espantosa como inimaginável, conseguiu, virtualmente sozinho, alterar o equilíbrio de poder em África e apressar a terrível era de colonialismo europeu no continente negro.
Como monarca constitucional, Leopoldo foi encarregue das funções simbólicas normais, tais como abertura do parlamento, recepção de diplomatas, comparência a funerais de estado, etc. Ele não dispunha de poder formal para orientar a política nacional. Mas, durante mais de 20 anos, vinha estimulando a Bélgica a assumir um lugar entre as grandes potências coloniais da Europa. "As nossas fronteiras nunca poderão ser alargadas dentro da Europa", dizia. Contudo, "desde os tempos históricos que as colônias são úteis. Elas podem desempenhar um grande papel naquilo que faz o poder e a prosperidade dos estados. Vamos, pois, lutar para obtermos uma [colônia] nossa".
Por várias vezes, lançou diversos esquemas sem sucesso, tais como comprar uma província Argentina, comprar o Bornéu aos holandeses, arrendar as Filipinas à Espanha ou estabelecer colónias na China, Vietname, Japão ou nas Ilhas do Pacífico. Quando os exploradores da década de 1860 voltaram a sua atenção para a África, Leopoldo tentou criar esquemas para colonizar Moçambique, o Senegal e o Congo. Nenhum destes planos chegou a bom termo: o governo da Bélgica resistiu a todas as sugestões de Leopoldo, vendo a aquisição de uma colónia como uma boa maneira de gastar dinheiro com pouco ou nenhum retorno.
A solução encontrada pelo monarca foi extraordinária em sua simplicidade megalomaníaca. Se o governo da Bélgica não adquirisse uma colônia, ele próprio o faria, agindo na sua capacidade de cidadão comum.
Em 1876 Leopoldo II patrocinou uma conferência geográfica internacional em Bruxelas, convidando delegados das sociedades científicas de toda a Europa para discutir assuntos filantrópicos e científicos como a melhor forma de coordenar a fabricação de mapas, para prevenir o reaparecimento do comércio de escravos da costa ocidental e para procurar formas de enviar ajuda médica à África. A conferência foi uma encenação: em seu encerramento, Leopoldo propôs o estabelecimento de um comitê beneficente internacional para continuar o trabalho da conferência, aceitando modestamente o cargo de presidente. Surgia assim a Associação Internacional para a Exploração e Civilização da África ou Associação Internacional Africana.Joseph Conrad, Heart of Darkness (Quarta Edição) (Norton Critical Editions), 13 de dez. de 2005 - 544 páginas Outro encontro foi realizado no ano seguinte, mas a partir de então a Associação Internacional Africana tornou-se meramente uma frente da ambição de Leopoldo. Ele ainda criou uma série de comitês, culminando na Association Internationale du Congo, a qual, financiada e controlada por ele mesmo, Leopoldo, seria a precursora do Estado Indepedente do Congo.
Logo depois que Stanley retornou do Congo, Leopoldo tentou recrutá-lo. Stanley, ainda na esperança do apoio do Inglaterra recusou a oferta. Entretanto, diante da insistência do monarca, acabou aceitando. Leopoldo, aparentemente, era o único europeu disposto a financiar o sonho de Stanley: a construção de uma ferrovia sobre os montes de Cristal, do mar até a Stanley Poll, de onde poder-se-ia alcançar mil milhas no coração da África. Stanley — muito mais familiarizado com o rigor do clima africano e com a complexidade da política local do que Leopoldo — persuadiu seu patrão de que o primeiro passo deveria ser a construção de uma linha férrea e uma série de fortes. Leopoldo concordou, e, em sigilo, Stanley assinou um contrato de trabalho de cinco anos, com salário de £ por ano, e migrou para o Zanzibar sob nome falso. Para evitar desconfianças, trabalhadores e materiais foram obtidos através de diferentes rotas, e as comunicações entre Stanley e Leopoldo foram confiadas ao Coronel Maximilian Strauch. Foi então que Stanley foi informado da magnitude da ambição de Leopoldo: Stanley não iria simplesmente construir uma série de estações ferroviárias, mas iria construir uma nova nação. As instruções eram precisas: "A ideia era criar um novo Estado, tão grande quanto possível, e depois administrá-lo. No projeto era claramente inteligível que não havia possibilidade de garantir o menor poder político aos negros. Aquilo seria absurdo".
Sem encontrar nada de repreensível nas ambições de Leopoldo, Stanley seguiu com sua tarefa. Com todas as suas conexões na sociedade europeia, ele era, sem dúvida, o homem certo para tal tarefa. Em menos de três anos, sua capacidade de trabalhar duro, suas habilidades de jogar grupos sociais uns contra os outros, o constante uso de modernas armas para matar seus oponentes e toda a sua determinação abriram caminho para a criação do Congo.
Anos mais tarde, Stanley escreveria que a parte mais cansativa de seu trabalho não era trabalhar sozinho, nem negociar com os nativos, mas sim manter a ordem entre os diversos homens brancos que ele trouxera consigo e que reclamavam constantemente por motivos fúteis. "Praticamente todos eles", escreveu Stanley, "clamavam por gêneros de todos os tipos, o que incluía vinhos, tabaco, cigarros, roupas, sapatos, dentre um sem número de extravagâncias" (mencionou ainda folhas para aquecer suas camas).
Cansado, Stanley retornou a Europa, apenas para ser reenviado por Leopoldo, que lhe prometeu um surpreendente assistente: Gordon 'Chinês' (que não aceitou a oferta de Leopoldo, mas, em vez disso, escolheu encontrar seu destino em Cartum). "É indispensável", instruíra Leopoldo, "que você obtenha para o Comité d'Études (i.e., ao próprio Leopold) o máximo de terra que possível."