Revolver é o sétimo álbum de estúdio da banda britânica de rock The Beatles. Foi lançado em 5 de agosto de 1966, acompanhado pelo single de duplo lado A "Eleanor Rigby" / "Yellow Submarine". O álbum foi o último projeto de gravação dos Beatles antes de se aposentarem das apresentações ao vivo e marca o uso mais evidente da tecnologia de estúdio pela banda até o momento, aproveitando os avanços de seu lançamento do final de 1965, Rubber Soul. Desde então, passou a ser considerado um dos maiores e mais inovadores álbuns da história da música popular, com reconhecimento centrado na sua variedade de estilos musicais, diversidade de sons e conteúdo lírico.

A banda gravou Revolver após tirar uma pausa de três meses no início de 1966, e durante um período em que Londres foi festejada como a capital cultural da época. Considerada por alguns comentaristas como o início da fase psicodélica do grupo, as canções refletem seu interesse no LSD, na filosofia oriental e no avant-garde ao abordar temas como morte e transcendência de preocupações materiais. Sem planos de reproduzir seu novo material no palco, a banda fez uso abundante de técnicas de estúdio, tais quais a Automatic Double-Tracking (ADT), variação de pitch, reversão de fitas e o uso de instrumentos fora de sua configuração padrão ao vivo.

No Reino Unido, as quatorze faixas do álbum foram gradualmente divulgadas às estações de rádio nas semanas anteriores ao seu lançamento. Na América do Norte, Revolver foi reduzido a onze canções pela Capitol Records, com as três omitidas aparecendo no LP de junho de 1966, Yesterday and Today. O lançamento lá coincidiu com a última apresentação paga dos Beatles e a polêmica em torno do comentário de John Lennon de que a banda havia se tornado "mais popular que Jesus". O álbum liderou a parada britânica por sete semanas e a lista da Billboard Top LPs por seis semanas. A reação crítica foi altamente favorável no Reino Unido porém menor nos Estados Unidos em meio ao desconforto da imprensa com a franqueza da banda sobre questões contemporâneas.

Revolver expandiu as fronteiras da música pop, revolucionou as práticas na gravação em estúdio, avançou os princípios adotados pela contracultura dos anos 1960, e inspirou o desenvolvimento de gêneros como o rock psicodélico, electronica, rock progressivo e world music. A capa do álbum, projetada por Klaus Voormann, combinou traços de desenho ao estilo de Aubrey Beardsley com colagem de fotos e ganhou o Grammy Award para Melhor Capa de Álbum em 1967. Foi classificado em primeiro lugar nas edições de 1998 e 2002 do livro All Time Top 1000 Albums de Colin Larkin e em terceiro lugar nas edições de 2003 e 2012 da lista da revista Rolling Stone dos "500 Maiores Álbuns de Todos os Tempos". O álbum foi certificado em disco de platina duplo pela Indústria Fonográfica Britânica e seis vezes em platina pela Associação Americana da Indústria de Gravação. Uma edição expandida e remixada do álbum foi lançada em 2022.

Contexto Em dezembro de 1965, o álbum Rubber Soul dos Beatles foi lançado para ampla aclamação crítica. De acordo com o autor David Howard, os limites da música pop "foram elevados à estratosfera" por seu lançamento, resultando em uma mudança de foco dos singles para a criação de álbuns com qualidade consistentemente alta. No mês de janeiro seguinte, os Beatles realizaram overdubs em gravações ao vivo retiradas de sua turnê de agosto de 1965 para inclusão no filme-concerto Show dos Beatles no Shea Stadium. O empresário do grupo, Brian Epstein, pretendia que 1966 seguisse o padrão dos dois anos anteriores, em termos da banda preparar um longa-metragem e um álbum acompanhante, seguidos por turnês durante os meses de verão. Após os Beatles vetarem o projeto de filme proposto, o tempo alocado para as filmagens passou a ser mais três meses livres de compromissos profissionais. Esse foi o período mais longo que os membros da banda vivenciaram fora do coletivo do grupo desde 1962, e desafiou a convenção de que bandas pop deveriam trabalhar quase continuamente. O grupo teve assim uma quantidade de tempo até então inédita para se preparar para um novo álbum.

O biógrafo dos Beatles, Nicholas Schaffner, citou 1966 como o início do "período psicodélico" da banda, assim como os musicólogos Russell Reising e Jim LeBlanc. A jornalista musical Carol Clerk descreveu Revolver como tendo sido "decisivamente esclarecido pelo ácido", seguindo o uso contínuo do LSD por John Lennon e George Harrison desde a primavera de 1965. Através dessas experiências, os dois músicos desenvolveram um deslumbramento pelos conceitos da filosofia oriental, particularmente a respeito da ilusória natureza da existência humana. Apesar da insistência de seus companheiros de banda, após Ringo Starr também ter consumido a droga, Paul McCartney se recusou a provar o LSD. Com a intenção de melhorar a si mesmo, McCartney inspirou-se no estímulo intelectual que experimentou no cenário artístico de Londres, particularmente na sua próspera comunidade de vanguarda. Com Barry Miles como guia, ele mergulhou no nascente movimento da contracultura britânica, que logo emergiu como underground. Enquanto organizava datas para a turnê mundial da banda, Epstein concordou com a proposta da jornalista Maureen Cleave dos Beatles serem entrevistados separadamente para uma série de artigos que iriam explorar a personalidade e o estilo de vida de cada membro da banda, além de sua identidade como um Beatle. Os artigos foram publicados em edições semanais no jornal Evening Standard de Londres ao longo de março de 1966, e refletiu a transformação que estava em andamento durante os meses de inatividade do grupo. Dos dois compositores principais, Cleave considerou John intuitivo, preguiçoso e insatisfeito com a fama e o ambiente no interior de Surrey, enquanto Paul transmitiu convicção e uma fome por conhecimento e novas possibilidades criativas. Em seu livro Revolver: How the Beatles Reimagined Rock 'n' Roll, Robert Rodriguez escreve que, enquanto Lennon tinha sido a força criativa dominante dos Beatles antes de Revolver, McCartney agora alcançava uma posição aproximadamente igual à dele. Em um desenvolvimento posterior, o interesse de George pela música e cultura da Índia, e o seu estudo da sitar indiana, inspiraram-no como compositor. De acordo com o autor Ian Inglis, Revolver é amplamente visto como "o álbum em que Harrison atingiu a maioridade como compositor".

Histórico de gravação

Os Beatles esperavam trabalhar em espaços mais modernos do que o Abbey Road Studios da EMI em Londres, e estavam impressionados com o som dos discos produzidos no Stax Studios em Memphis. Em março de 1966, Epstein apurou a possibilidade deles gravarem seu novo álbum no Stax, onde, de acordo com uma carta escrita por George dois meses antes, o grupo desejava trabalhar com o produtor Jim Stewart. A ideia foi abandonada após os moradores locais invadirem o prédio da Stax. Também houve planos de usarem os estúdios da Atlantic Records em Nova Iorque ou o "Hitsville U.S.A." da Motown Records em Detroit.

No entanto, as gravações se iniciaram no Estúdio 3 da EMI em Londres no dia 6 de abril, com George Martin servindo novamente como produtor. A primeira faixa gravada foi "Tomorrow Never Knows" de John, cujo arranjo mudou consideravelmente entre a tomada inicial daquele dia e o remake subsequente.Notas internas por Mark Lewisohn (1996). Livreto de Anthology 2 (CD). Apple Records. pp. 18–19. Essa primeira versão de "Tomorrow Never Knows", assim como outros outtakes das sessões do álbum, foi incluída na compilação de 1996, Anthology 2. Também gravadas durante as sessões de Revolver foram as canções "Paperback Writer" e "Rain", lançadas em single no final de maio.

A banda trabalhou em dez canções, incluindo ambos os lados do próximo single, até 1º de maio, quando tiveram que interromper as sessões para se apresentarem no anual Poll-Winners Concert da NME. Em um período em que a revista Time apelidou Londres de "Swinging City", reconhecendo tardiamente a sua ascensão como a capital cultural da época, os Beatles se inspiraram ao assistir a shows de artistas visitantes, estreias de filmes, peças de teatro e outros eventos culturais. De fevereiro a junho, esses números artísticos incluíram Stevie Wonder, Roy Orbison, The Lovin' Spoonful, The Mamas & the Papas, Bob Dylan (com quem eles socializaram incessantemente), Luciano Berio e Ravi Shankar. Durante meados de maio, John e Paul participaram de uma festa particular para ouvir ao álbum Pet Sounds dos Beach Boys, e McCartney conheceu o diretor italiano Michelangelo Antonioni, que filmou o filme Blow-Up em Londres, inspirado no cenário contemporâneo da moda.

Em 16 de maio, Epstein respondeu a um pedido da gravadora Capitol Records, subsidiária norte-americana da EMI, para prover três novas canções para um próximo lançamento nos Estados Unidos, intitulado Yesterday and Today. Lançado em 20 de junho, esse álbum combinou faixas que a Capitol havia omitido dos lançamentos anteriores dos Beatles na América do Norte com canções que a banda havia originalmente lançado apenas em singles. Das seis gravações concluídas para Revolver, Martin selecionou três canções escritas por Lennon, já que as sessões haviam favorecido suas composições até então. Desejando limitar a interrupção da gravação que múltiplas aparições na televisão criariam, os Beatles passaram dois dias produzindo clipes promocionais para o single de "Paperback Writer". O primeiro conjunto de filmagens foi gravado no Estúdio 1 da EMI em 19 de maio, por Michael Lindsay-Hogg, diretor do programa televisivo Ready Steady Go! No dia seguinte, o grupo fez mais clipes para as duas canções no terreno da Chiswick House, no oeste de Londres. Diante das reclamações dos fãs sobre o distanciamento em seu novo trabalho, no entanto, a banda concordou em fazer uma aparição ao vivo no programa Top of the Pops no dia 16 de junho.

O companheirismo entre os quatro Beatles atingiu seu auge durante esse período. Mesmo assim, um desentendimento entre Paul e seus colegas de banda resultou na saída de McCartney do estúdio durante a sessão final, para a canção "She Said She Said" de Lennon, em 21 de junho, dois dias antes da banda voar para a Alemanha Ocidental para a primeira etapa de sua turnê mundial. Os Beatles passaram 220 horas gravando Revolver – um valor que exclui sessões de mixagem e se compara a menos de 80 horas de Rubber Soul. A mixagem final do álbum ocorreu em 22 de junho. Os Beatles comemoraram a conclusão do projeto comparecendo à inauguração da boate Sibylla's.

Técnicas de produção

Estética do estúdio

As sessões de Revolver aprofundaram a experimentação em estúdio evidente em Rubber Soul. Com os Beatles cada vez mais envolvidos na produção de sua música, o papel de George Martin como produtor havia se alterado para um "facilitador", ou colaborador, pelo qual a banda agora contava para tornar suas ideias uma realidade. Pela primeira vez no EMI, os gravadores de quatro trilhas haviam sido instalados na sala de controle do estúdio, ao lado do produtor e do engenheiro de balanceamento, ao invés de estar em uma sala dedicada. O novo engenheiro de som dos Beatles no projeto foi Geoff Emerick, na época com dezenove anos de idade. Emerick relembra que não ocorreu nenhum processo de pré-produção ou ensaio para Revolver, em vez disso, a banda utilizou o estúdio para criar cada canção do que muitas vezes era apenas um esboço de uma composição. Falando pouco antes do início das sessões, John disse que consideraram fazer do álbum um fluxo contínuo de faixas, sem intervalos para diferenciar cada canção.Sutherland, Steve, ed. (2003). NME Originals: Lennon. Londres: IPC Ignite!. p. 36.