O Que Fazer? foi escrito em 1862 por Nikolai Tchernichevski durante sua prisão na Fortaleza de Pedro e Paulo, em São Petersburgo. Publicada originalmente em 1863, a obra rapidamente se tornou um dos textos mais influentes do pensamento radical russo do século XIX. Sua combinação de enredo didático, utopia social e moral revolucionária marcou um ponto de inflexão na literatura russa: o romance deixou de ser apenas forma estética e passou a atuar como instrumento de transformação política e moral.
A trama, centrada em Vera Pavlovna, apresenta o ideal do “homem novo” — racional, disciplinado e devotado à regeneração social — em oposição à figura desencantada do “homem supérfluo”, que dominava a geração anterior de escritores como Turguêniev. Segundo Orlando Figes, “O Que Fazer?” pode ser lido como “uma resposta ideológica e moral a Pais e Filhos”, e sua publicação foi “um dos maiores erros da censura czarista, pois converteu mais homens à causa revolucionária do que todas as obras de Marx e Engels juntas”.FIGES, Orlando. A tragédia de um povo. Rio de Janeiro: Record, 2007.
O romance exerceu influência direta sobre o pensamento e a prática política do século XX: Lênin, Plekhanov, Kropotkin e Rosa Luxemburgo reconheceram ter sido profundamente marcados pela obra, e o próprio Lênin adotou seu título para o tratado político de 1902. Contexto histórico e influências A segunda metade do século XIX na Rússia foi marcada por intensas transformações sociais e intelectuais. O país, ainda sob a autocracia czarista, começava a abrir-se à influência das ideias ocidentais — à técnica, à filosofia moderna e às correntes políticas do liberalismo e do socialismo —, mas permanecia preso a uma estrutura social agrária e hierarquizada, sustentada na nobreza e na servidão.VENTURI, Franco. Roots of Revolution: A History of the Populist and Socialist Movements in Nineteenth Century Russia. University of Chicago Press, 1983.
Nesse contexto contraditório, formou-se uma nova geração de intelectuais e estudantes — muitos oriundos das universidades de Moscou e São Petersburgo — que viam na razão humana o novo princípio organizador da história. Inspirados pelo pensamento científico e materialista europeu, esses grupos fundaram sociedades secretas e círculos revolucionários que pregavam a reconstrução total da Rússia, muitas vezes por meio da violência política.WALICKI, Andrzej. A History of Russian Thought: From the Enlightenment to Marxism. Stanford University Press, 1979.
Foi nesse ambiente que surgiu Tchernichevski, figura central do radicalismo russo. Sua influência ultrapassou a literatura: ele sistematizou uma filosofia materialista e utilitarista em ensaios como O princípio antropológico na filosofia (1861), nos quais defendia que toda moralidade deriva das leis naturais e das condições materiais da existência.TCHERNICHEVSKI, Nikolai. “O princípio antropológico na filosofia”, 1861. Publicado em 1863, O Que Fazer? foi escrito por Tchernichevski durante sua prisão na Fortaleza de São Pedro e São Paulo, e pode ser lido como uma resposta ideológica e moral a Pais e Filhos de Ivan Turguêniev, publicado no ano anterior.FIGES, Orlando. A tragédia de um povo. Rio de Janeiro: Record, 2007. Enquanto Turguêniev apresentava o ceticismo e o desencanto de uma geração de “homens supérfluos”, Tchernichevski propunha o modelo oposto — o “homem novo”, racional e ascético, capaz de regenerar a sociedade. O contraste entre ambas as obras marcou um ponto de inflexão na literatura russa, convertendo o romance em instrumento de formulação política.
Além disso, segundo o biógrafo Eddy Trèves, Tchernichevski foi influenciado pelo pensamento utópico de Charles Fourier, especialmente pelos tratados Traité du libre arbitre e Traité de l’unité universelle, cujas concepções de harmonia social e de transformação integral do homem repercutem no ideal comunitário apresentado no “segundo sonho de Vera Pavlovna”.TRÈVES, Eddy. “Charles Fourier (1772–1837)”. In: L’Homme et la société, nº 26, 1972, p. 241–247. Essa perspectiva, que desloca a razão do plano transcendental para o plano sensível, é vista por intérpretes como o ponto de viragem do racionalismo russo em direção ao imanentismo e ao niilismo revolucionário. Enredo O romance começa com a notícia de um suicídio: um homem teria se matado com um tiro na ponte Liteiny, em 11 de julho de 1856. Em seguida, a narrativa recua para acompanhar Vera Pávlovna, que, em uma casa de veraneio na Ilha de Pedra (Kamenny Ostrov), recebe a trágica notícia da morte do marido.
A história passa então a relatar a juventude de Vera, criada em uma casa na rua Gorokhovaya, e seu primeiro pretendente — o vulgar oficial Storechnikov. Contrariando os pais, ela o rejeita e escolhe casar-se com o estudante de medicina Lopukhóv. O casamento lhe permite sair do lar paterno e mudar-se para uma modesta casa de madeira de um só andar, na 5ª linha da Ilha Vassílievski, entre as avenidas Média e Pequena. Lá, o casal institui novos costumes: ninguém beija as mãos de ninguém, e cada um dorme em seu próprio quarto.
Cinco meses após o casamento, Vera decide fundar uma oficina de costura para confeccionar vestidos femininos e passa a atender encomendas em casa. Para ampliar a clientela, conta com a ajuda de uma conhecida francesa, Julie Le-Tellier, do círculo de Storechnikov. A iniciativa prospera rapidamente: Vera distribui de modo justo os lucros entre as costureiras, e o número de funcionárias cresce, em cinco anos, de três para vinte. Com o tempo, as mulheres passam a viver juntas em um mesmo apartamento, com mesa comum e horários regulados de trabalho e descanso. A comunidade, contudo, não é ascética — as costureiras podem se casar, frequentar o teatro e passear nos arredores.
Nesse período, o amigo de Lopukhóv, o médico Kirsánov, apaixona-se por Vera. Ele mesmo já se afastara de uma antiga amante, Kriukóva. A doença de Lopukhóv faz com que Kirsánov visite cada vez mais o casal. Três anos depois do casamento, Vera sente esfriar o afeto pelo marido e se descobre apaixonada por Kirsánov. Honesta e avessa à mentira, confessa ao marido, por meio de um sonho que tivera, que deixou de amá-lo. Ainda assim, reconhece a dívida moral que tem com ele. Para libertar a esposa, Lopukhóv decide “sair de cena”: viaja a Riazã e encena o próprio suicídio — o mesmo evento com que o romance se inicia.
Um mês depois, Vera casa-se com Kirsánov e muda-se para a rua Serguéievskaia, próxima ao lado de Viborg, onde o novo marido trabalha. Cansada dos negócios da costura, ela se interessa pela medicina.
Mais tarde, Vera abre uma loja na avenida Névski, com o letreiro Au bon travail. Magasin des nouveautés. Kirsánov torna-se um professor reconhecido e ajuda a curar Iekaterina Polózova, diagnosticada com atrophia nervorum (“esgotamento nervoso”). O pai de Iekaterina conhece então um agente comercial norte-americano, Charles Beaumont, que compra suas ações e se casa com a filha. Logo se revela, porém, que Beaumont é, na verdade, Lopukhóv, que nunca se matou, mas emigrara para os Estados Unidos, onde reconstruíra a vida. Os Beaumonts voltam à Rússia e passam a morar perto dos Kirsánov, com quem mantêm uma amizade próxima, repleta de piqueniques e passeios de trenó. Temas filosóficos e políticos O livro, mais do que um romance, é uma obra de instrução de doutrinas políticas, estruturada como um manual de moral revolucionária.CARPEAUX, Otto Maria. História da Literatura Ocidental, vol. 6. Rio de Janeiro: Alhambra, 1964. A figura de Rakhmetov, o asceta revolucionário, encarna o ideal do homem do futuro: disciplinado, racional, desprovido de paixões e inteiramente devotado à reorganização científica da sociedade. A literatura, aqui, tem uma função pedagógica: modelar consciências e instruir o leitor quanto ao modo “correto” de viver.
Orlando Figes descreve Rakhmetov como um “Titã monolítico” que renuncia a toda alegria da vida, “dormindo sobre uma tábua de pregos e treinando o corpo e a mente até dominar o conhecimento da Humanidade”.FIGES, Orlando. A tragédia de um povo. Rio de Janeiro: Record, 2007. Segundo o historiador, esse personagem exerceu fascínio profundo sobre gerações de revolucionários, fornecendo o arquétipo do militante puro, ascético e devotado à causa — figura que influenciaria diretamente Lênin e o ethos do bolchevismo.
Essa concepção coincide com a formulação estética de Gueórgui Plekhanov, segundo a qual a arte deve “reproduzir a vida e ajuizar de seus fenômenos”.PLEKHANOV, G. Art and Social Life. Foreign Languages Publishing House, 1964. Assim, a arte assume uma função social: ensinar o que é a vida e como transformá-la. O resultado é a conversão da literatura em instrumento de difusão de ideias políticas.
Há uma antropologia implícita em O Que Fazer?: o ser humano é matéria organizada, e a moral é o resultado do equilíbrio racional dos interesses naturais — o “egoísmo racional”. A virtude é uma forma esclarecida de utilidade social. Essa visão antropológica define também a liberdade, que é entendida como o produto de uma estrutura social justa. Como observa Copleston, o ideal do autor é o de uma comunidade racional e autossuficiente, onde o amor e o trabalho se subordinam ao cálculo da utilidade.COPLESTON, Frederick. A History of Philosophy, vol. 9. London: Continuum, 1994. O indivíduo deve ser dissolvido no coletivo; o amor, dessexualizado e convertido em função econômica; e o ascetismo cristão é substituído pelo ascetismo revolucionário. No romance, o sofrimento é descrito não como experiência religiosa, mas como meio de regeneração social.
O niilismo russo do século XIX não se originou de um simples sentimento destrutivo, mas de uma forma secularizada do ideal cristão de regeneração. A ideia de salvação, antes espiritual, foi deslocada para o plano histórico e político. Intelectuais como Herzen, Dobroliúbov, Pisarev e o próprio Tchernichevski acreditavam que a ciência e a razão poderiam refazer o homem e a sociedade, substituindo a graça pela técnica e pela organização social racional.FRANK, Joseph. Dostoevsky: The Seeds of Revolt, 1821–1849. Princeton University Press, 1992. Essa ética do cálculo substitui a teleologia clássica por um pragmatismo imanente: o bem deixa de ser aquilo que aperfeiçoa a natureza humana e passa a ser aquilo que maximiza a eficiência social. O episódio conhecido como “segundo sonho de Vera Pavlovna” ilustra o ideal utópico do romance: uma sociedade socialista onde todos vivem em harmonia racional. O trecho expressa a tentativa de fundar uma moral imanente, na qual o bem se realiza pela organização racional das condições materiais.
A influência de Ludwig Feuerbach, do positivismo francês e do utilitarismo ocidental deu base a essa ética materialista. Segundo os intérpretes materialistas da época, a religião era frequentemente entendida como forma de alienação; a moral, como convenção social; e a liberdade, como produto das condições materiais. Segundo Lukács, o “novo homem” concebido por Tchernichevski age conforme um “egoísmo racional”: resolve conflitos morais de forma calculada, sem referência a princípios transcendentais.LUKÁCS, György. O que é realismo? São Paulo: Boitempo, 2017. Primeira Tradução do Romance para o Português Em 2015, o professor da Universidade de São Paulo, Angelo Segrillo, publicou a primeira tradução para o português do romance "O Que Fazer?". Impacto e Recepção