thumb|direita|A imanência do pensamento no cérebro tem sido um tema recorrente na história do pensamento materialista, estando presente desde sua origem moderna, notoriamente em La Mettrie, como também no materialismo indiano e na filosofia contemporânea. Materialismo é um termo abrangente e polissêmico na história da filosofia e das ciências que costuma significar uma ênfase na materialidade como base para a explicação do mundo e dos problemas filosóficos relativos ao conhecimento, à ética, à política e demais campos. O materialismo é considerado uma tradição marginal, esporádica e frequentemente vinculada a ideias heréticas na história. Parte da falta de definição do termo é decorrente de sua origem polemista, usado como acusação e forma de descredito de ideias alheias. Não obstante, passa a ganhar um sentido mais positivo ao longo de século XVIII, notadamente pelo filósofo iluminista radical La Mettrie, que primeiro se descreveu como materialista. Retrospectivamente, correntes da filosofia antiga são identificados como materialistas, especialmente o Atomismo.

No contexto do século XIX, o materialismo se torna um termo cada vez mais vinculado ao desenvolvimento das ciências naturais e sociais, manifestando-se especialmente nas tendências darwinistas, positivistas e socialistas. Torna-se também negativamente associado ao reducionismo, significando uma doutrina que minimiza a autonomia do humano e da política em favor de determinismos derivados das ciências físicas e biológicas.

Na filosofia contemporânea, existe uma convergência de interesses denominada de 'novos materialismos', que promove novos engajamentos com a tradição de pensamento materialista, como também articulações originais entre áreas da ciência e tendências intelectuais recentes que elaboram outras concepções de matéria, consideradas críticas dos paradigmas anteriores de materialismo e do domínio teórico do construtivismo e da filosofia analítica.

Etimologia

Conceito de matéria

Materialismo

História

Precedentes na Antiguidade

Ainda que o termo 'materialismo' tenha sido inventado no século XVII, sua elaboração remete a uma história precedente que permeia a própria origem da filosofia e as diversas correntes da filosofia antiga, que terminam sendo retrospectivamente classificadas como materialistas. Alguns elementos fundamentais para a futura emergência da noção de materialismo são talhados no curso da antiguidade - o próprio termo "matéria" foi inventado por Aristóteles no século IV a. c., a partir de hyle, em grego antigo, que seria mais tarde traduzido para o latim como "materia" ou "materies".

Física jônica

thumb|esquerda|A ideia do vórtex é um dos aspectos mais significativos do pensamento epicurista, que o considerava uma força de convergência dos átomos para a formação dos mundos.

Atomismo

Materialismo epicurista

Materialismo estóico

Polêmica platônica contra o materialismo

Hilemorfismo e Elementos em Aristóteles

Lucrécio

No período medieval

A presença de um pensamento que possa ser reconhecido como materialista durante o período da filosofia medieval torna-se escassa segundo a historiografia. As genealogias predominantes do materialismo costumam "saltar" o medievo, afirmando, de forma mais ou menos explícita, a perda de qualquer continuidade com as correntes da antiguidade, especialmente o atomismo, retomado apenas no renascimento com o restabelecimento do poema De rerum natura por Poggio Bracciolini, entre outros tradutores. Para Olivier Bloch, os sistemas materialistas são então "desprezados, ignorados ou refutados", não obstante, o mesmo aponta um contato indireto com representações atomistas da matéria, e debates em torno de sua estrutura, como também em torno da imortalidade e imaterialidade da alma, que surgem a partir dos textos de Aristóteles e de seus comentadores, especialmente Alexandre de Afrodísias, cuja negação da imortalidade da alma terá prolongadas repercussões na idade média tardia. Alguns embates com a ortodoxia teológica, em temas de interesse materialista, como a eternidade do mundo e a mortalidade da alma individual, se davam a partir do chamado averroísmo latino, no século XIII.

Ainda que um certo aristotelismo tenha sido atribuído à ortodoxia teológica da Idade Média, e das tentativas concretas de conciliar e sintetizar essa filosofia com a doutrina cristão, manifesta especialmente no tomismo, alguns eventos marcam uma tensão diante de aspectos do pensamento de Aristóteles. A condenação da filosofia natural aristotélica em 1277, motivada, entre outras coisas, por sua concepção de matéria como incorruptível e 'estofo' de todas as coisas no mundo, que contrariaria a doutrina do criacionismo, e portanto concederia à matéria um grau de agência além do aceito, teve repercussões significativas no estudo da filosofia natural. Por outro lado, essa mesma concepção do material se provou insatisfatória para outros pensadores interessados na física, como Roberto Grosseteste, Jean Buridan, Guilherme de Ockham e Nicolau de Autrecourt. As condenações sinalizam, portanto, um interesse propocional por parte de intelectuais do período em aprofundar a compreensão da matéria e sua relevância na explicação do mundo. Nesse sentido, outra linha de tensão entre aristotelismo e teologia cristã se formou em torno da questão da transubstanciação - a distinção aristotélica entre substância e acidente demanda que esse último esteja submetido sempre ao primeiro, que o acidente seja dependente da substância, consequentemente, a transubstanciação da hóstia em Cristo mantendo a aparência externa do primeiro implicaria uma inversão da ordem entre acidente e substância, persistindo o acidente, aparência, enquanto muda a substância. Em suma, a possibilidade de conciliação entre a filosofia aristotélica e as doutrinas teológicas cristãs mostrava seus limites na questão da matéria, exigindo a concessão de um status metafórico à transubstanciação e a deliminação do divino diante das determinações materiais. Essa problemática foi tratada no Quarto Concílio de Latrão, em 1215, onde foi estabelecido o termo "transubstanciação". Igualmente indesejada, pode-se adicionar, era a distinção aristotélica entre mundo celestial e mundo sublunar, cuja composição material e dinâmica seriam diferentes. thumb|Direita|Sete planetas, diagrama do século IX. Antes mesmo da restituição dos textos clássicos, e do influxo de traduções a partir do século XII, fora da cultura acadêmica que dará lugar à escolástica, poemas neoplatônicos como os de Bernard Silvestris e Allain de Lille tratavam das dinâmicas e potencialidades da matéria através dos conceitos de silva e hyle. Ambos autores vincularam suas interesses pela vida moral humana a uma compreensão de matéria e seu lugar na natureza, promovendo visões integradas do conhecimento teológico e natural.

Atomistas medievais Apesar do contato escasso com as representações atomistas, e do antagonismo generalizado por parte de figuras intelectuais e eclesiásticas do período, alguns autores, cristãos, muçulmanos e judeus, podem ser listados como simpáticos ou mesmo proponentes de concepções atomistas. Diversos usos e versões da filosofia atomista foram elaborados - frequentemente muito distintas da forma antiga, com mais ênfase em questões teológicas sobre o continuum e o infinito - começando com explicações detalhadas do pensamento antigo por teólogos de Baghdad e Baçorá, nos séculos IX e X, e posteriormente em centros intelectuais judaicos. Reencontros análogos com a teoria atomista ocorreram na Europa, especialmente a partir do século XII em Chartres, e no século XIV em Paris e Oxford. O revivalismo do corpus aristotelicum no mundo latino a partir do século XIII provocou uma maior familiaridade com as proposições de Demócrito, expostas e discutidas recorrentemente nos textos científicos de Aristóteles. No mundo intelectual árabe, a popularidade do hilomorfismo de inspiração aristotélica era contrastada pela visão atomista da escola teológica do Calâm, ainda que sua concepção de átomo, como desenvolvida por teóricos relevantes como Abū al-Hudhayl, fosse predominantemente matemática, faltando-lhe corporeidade e semelhanças substanciais com o pensamento de Demócrito ou Epicuro, por mais que ambos fossem conhecidos. Alguns dos mais notórios filósofos muçulmanos, como Ibn Rushd, Ibn Sı̄nā e al-Ġazālı̄, foram críticos dessa tendência atomista, favorecendo o hilomorfismo. Não obstante, essa ênfase matemática e teológica não impediu outros de tomar o átomo em seu caráter físico e material, como os acadêmicos de Oxford - Walter Chatton, William Crathorn, e John Wyclif. Destaca-se, além desses, Nicolau de Autrecourt, cuja teoria dos movimentos físicos baseava-se no atomismo, levando também à proposição da eternidade do mundo.

Adelardo de Bath

Nascido em torno de 1080, Adelardo foi um reconhecido tradutor inglês de textos científicos árabes e divulgador da ciência antiga, e responsável por provocar um novo interesse na filosofia natural e na matemática. Algumas de suas obras, como o diálogo Quaestiones naturales, onde elabora teorias sobre diversos tópicos de filosofia natural, tiveram uma prolongada recepção da educação medieval. Ainda que tenha sustentado a doutrina dos quatro elementos, geralmente aceita na época, manteve uma abertura para a possibilidade do atomismo, considerando que apenas a razão poderia oferecer respostas no domínio do microscópico, além do alcance do saber empírico, e que nesse sentido o teoria do átomo possuía uma validade. thumb|direita|Constantino, o Africano recolhendo amostras de urina.

Constantino, o Africano

Médico de Cartago, nascido em 1020, foi um importante tradutor de textos médicos árabes, judeus e gregos para o latim. Defendeu abertamente uma concepção de mundo constituido por átomos. Escola de Chartres

A escola de Chartres, notória no chamado renascimento do século XII, sendo um centro intelectual emblemático do período, produziu pelo menos um simpatizante do atomismo, Teodorico de Chartres, e pelo menos um adepto, Guilherme de Conches. Entretanto, a instituição propriamente não possuía vinculo com o materialismo, mantendo, na verdade, raízes platônicas, relativamente hostil aos atomistas que lá passaram.

Teodorico de Chartres

Chanceler da escola de Chartres, Teodorico foi um filósofo que contribuiu com o estudo da filosofia natural, restabelecendo o contato e o ensino da cultura científica antiga. Sua concepção de materialidade, também fundada nos quatro elementos, continha uma proposição de estrutura corpuscular para tais elementos. Guilherme de Conches

Também membro da escola de Chartres, Conches viveu entre 1080 e 1154, defendendo uma perspectiva mais abertamente atomista. Mantendo uma posição ortodoxa que reconhecia Deus como origem do mundo, ofereceu qualificações naturalizantes, afirmando que sua ação se dá através das leis da natureza, cuja realidade a razão teria capacidade autônoma de conhecer. Conches rejeitou explicitamente a doutrina dos elementos, criticando sua restrição à realidade empírica; propôs, alternativamente, particulas materiais simples e mínimas como princípio constitutivo do mundo.

Nominalismo