Augustin Lesage (Saint-Pierre-les-Auchel, 9 de Agosto de 1876 – Pas-de-Calais, 21 de Fevereiro de 1954) foi um pintor francês.
Ligado ao movimento espírita, estudado por André BretonNo artigo « A mensagem automática », revista Le Minotaure numero 3-4, 1933 encontra-se integrado na Colecção de Arte Bruta, da qual é uma das mais relevantes figuras.Jean Dubuffet integrou as pinturas de Lesage na sua colecção desde 1948, 3 anos apenas após tê-la iniciado (cf.Le Foyer de l'art brut), comprou a sua primeira tela "histórica" por 50.000 francos em 1964, e depois escreve um artigo sobre ele na publicação L'Art brut numéro 3 (1965). As pinturas de Augustin Lesage encontram-se expostas em permanência até hoje na já mencionada “Colecção de Arte Bruta”, e isto desde a sua abertura em 1975. Augustin Lesage faz parte de todas as edições do catálogo da Colecção (1971, 1976, 1986) bem como no livro do seu antigo conservador Michel Thévoz, A Arte Bruta de (1980). Foi também protagonista de uma retrospectiva apresentada em Lausanne em 1989 (com edição de um catálogo), e é citado nas obras que tratam o assunto da “Arte Bruta”, por exemplo, por John Maizels (2003), no capítulo dedicado aos "Artistas da Colecção de Arte Bruta", entre uma quinzena de outros criadores. Encontra-se inscrito no grupo dos “mediúnicos” da citada colecção o mais antigo históricamente (dado que começou a sua "carreira em 1912), Burnat-Provins em 1914, Madge Gill em 1919, Jeanne Tripier em 1927, Laure Pigeon em 1933, Crépin em 1938, Lonné em 1950, Lamy em 1989)
BiografiaA biografia e os textos de Hubert Larcher e de Christian Delacampagne no catálogo Augustin Lesage 1876-1954, Arras-Béthune-Lausanne-Florence-Le Caire, Philippe Sers Editeur, 1988; do capítulo «Lesage: A arte dos automatismos», Capítulo 4, pags. 58-67, in: Outsiders, fous, naïfs et voyants dans la peinture moderne (1889-1960) de Christian Delacampagne, Edições Mengès, Paris, 1989; a biografia do catálogo Art médiumnique, visionnaire, Messages d’Outre-Monde , Hoëbeke, Paris, 1999 e a biografia do catálogo Catálogo da Colecção de Arte Bruta, Lausanne, 1976 & 1986.
O mineiro Augustin Lesage nasceu em Saint-Pierre-les-Auchel no dia 9 de Agosto de 1876. Com sete anos perdeu a irmã Maria mais nova do que ele quatro anos. É nesta região mineira do Norte da França onde, naturalmente, começa a trabalhar nas minas, desde os catorze anos, depois de terminada a escola primária. Logo depois viria a falecer a mãe, de cancro no lábio. Aos dezoito anos conhece a futura mulher, de quem teve uma filha em 1895. Aos 20 anos foi mobilizado para o serviço militar, nos regimentos de Dunkerque e Lille e de onde regressa em 1900 para retomar a vida simples e dura de um trabalhador do subsolo.
O pintor médium Uma noite de 1911, tinha 35 anos, enquanto trabalhava no fundo da mina, muito assustado, ouviu uma voz que lhe anunciava: “Um dia serás pintor!” A mesma mensagem foi-lhe de novo comunicada pouco tempo depois, sendo a última vez que um desses recados lhe foi participado em termos orais. No ano seguinte iniciou-se no espiritismo, participando em sessões mediúnicas. No decurso de uma delas, numa presença que atribuiu à pessoa da sua falecida irmã Maria que falecera com três anos, começou a executar desenhos automáticos. Dessa vez foi por escrita automática, e por sua própria mão, que recados começaram a ser-lhe entregues: “As vozes que ouviste falavam a verdade: um dia serás pintor”.Algum tempo depois novo recado lhe é ditado: “Hoje não se trata de desenhos, mas de pinturas. Não tenhas receio e segue os nossos conselhos. De facto serás pintor e as tuas pinturas serão analisadas pela ciência. De princípio acharás ridículo. Seremos nós – através das tuas próprias mãos – que executaremos. Não procures compreender. Sobretudo, deves seguir os nossos conselhos. Antes de mais vamos-te indicar por escrito o nome dos pincéis e das cores que irás comprar na loja do Senhor Poriche, em Lillers. Vais lá comprar e encontrarás tudo aquilo de que necessitas.” Lesage fez as compras indicadas e iniciou a tarefa. Nova mensagem: “Agora vais trabalhar uma tela”. Pede a um amigo para lhe encomendar uma pequena tela, mas acaba por receber uma enorme tela quadrada de três metros de lado. Preparava-se para a cortar em pedaços mais pequenos, mas uma outra mensagem dá-lhe parecer contrário: “Não cortes a tela. Vai acabar por ser executada e tudo acabará em bem. Segue as nossas instruções e nós vamos ocupá-la por inteiro, na perfeição… começa a pintar”. Deste modo tem início a tarefa de Augustin, que se ocupa com a tela, para ele de dimensões monumentais (que, aliás, ainda hoje está patente na "Colecção de Arte Bruta" da cidade de Lausanne). Deu início à pintura, começando pelo canto superior direito da tela, que levou dois anos a concluir-se.“…todas as noites pintava, depois de findo o trabalho na mina. Chegava a casa fatigado, mas assim que dava início à pintura, a fadiga abandonava-me imediatamente. O espírito condutor manteve-me, durante três semanas, na execução de um pequeno sector da tela. A minha mão mal se mexia. A minha paciência esgotava-se; o trabalho não avançava. E havia tanto por fazer!” A partir de Julho de 1913 Augustin Lesage interrompeu o trabalho na mina para se dedicar à tarefa de médium de cura. Dezenas de enfermos afirmam ter sido curados por ele, e conseguiu ser declarado inocente em tribunal pela queixa que dele tinha sido feita em Janeiro de 1914, pelo exercício ilegal da medicina.Foi depois mobilizado para a guerra, entre 1914 e 1916, época em que continua a desenhar, desta vez postais de correio ilustrados por si. Depois de desmobilizado retoma a pintura que não irá deixar daí em diante e até ao fim da sua vida. Em 1921 recebeu a visita de Jean Meyer, director da Revue spirite, que se torna imediatamente o seu mecenas, o que permite a Augustin deixar definitivamente a mina em 1923, para se dedicar inteiramente à pintura. Em 1925 expõe duas telas na “Maison des Spirites”, em Paris, sendo depois organizada a sua primeira exposição pública no Congresso Espírita Internacional, onde se encontra com Léon Denis e com Arthur Conan Doyle. É o começo de uma série de exposições, como a do Salão das Belas Artes (Salão de Outono) em Paris e também o Salão dos Artistas Franceses. Em 1927 foi convidado pelo Dr. Osty do “Instituto Metapsíquico Internacional”, e solicitado pelo mesmo a apresentar-se no mesmo, que tinha sido fundado em 1920 por iniciativa de personalidades ligadas ao meio científico com o objectivo de estudar os fenómenos paranormais numa perspectiva racionalista. É ali que Augustin – perante numerosa quantidade de assistentes – executou uma tela de 2 por 1,5 metros e deu início a uma outra de tamanho menor. Dos encontros realizados entre os dois, o Dr. Osty realizará um estudo que foi publicado pela primeira vez em 1928 na “Revista Metapsíquica”.
O episódio egípcio No fim de 1938 Augustin Lesage pintou uma tela com o título “A Colheita Egípcia”, onde podem observar-se diversas figuras e cenas do antigo Egipto. Desde 1922 que Lesage havia sido informado pelos espíritos: “…quando pintares as colheitas de trigo no Egipto, a tua viagem ao Nilo estará próxima…” Efectivamente, a ocasião de fazer essa viagem apresentou-se em 1939 no quadro da associação Guillaume Budé e, no dia 20 de Fevereiro, Lesage e os seus amigos partiram para Alexandria. Uma vez no navio Lesage afirmou que: “…os meus guias revelaram-me que iria encontrar o fresco executado no Egipto antigo, com a representação de cenas das colheitas…” A estadia começou no Cairo, mas foi no Vale das Rainhas, junto de Lucsor que aconteceu o “milagre” tão esperado. Lesage foi convidado com os seus companheiros de viagem a visitar o túmulo de um egípcio chamado Mena. Qual não foi a estupefacção do grupo ao descobrir, numa das paredes a representação pintada a fresco de uma cena igual à que ele havia pintado, traço por traço, alguns meses antes. Lesage ficou persuadido nesse momento que a pintura fora feita por si, numa encarnação anterior, encarnando a pessoa do pintor Mena. “…O país que estava visitando era portanto aquele que tanto amara, onde vivi e trabalhei…” Uma polémica derivou a seguir do facto de o meio espírita e alguns biógrafos terem apresentado o episódio como sendo uma prova irrefutável da mediunidade de Lesage. Baseia-se ela, em grande parte, na afirmação segundo a qual Lessage não poderia ter visto o fresco egípcio antes da partida (com o pretexto de uma descoberta recente). Isso não tem, contudo, fundamento porque essa pintura foi mencionada numa obra a partir de 1905 e reproduzida em várias publicações antes de 1930. De facto, Lesage encontra a pintura como os seus guias espirituais lhe haviam anunciado, mas sem nunca ter dito que não a tinha encontrado alguma vez antes num livro, para depois a copiar para a tela. Seja como for, isso nada tira ao poder e estranheza das pinturas que executou, nem às suas profundas e sinceras ligações ao Egipto.
O legado de Lesage Quando faleceu, a 21 de Fevereiro de 1954, deixou perto de 800 telas repartidas por colecções públicas e privadas, a saber: Colecção de Arte Bruta de Lausanne (entre as quais a famosa primeira tela que se encontra permanentemente exposta e que foi adquirida em 1963; Colecção de l’Aracine – Museu de Arte Moderna Lille Métropole; "Museu de Arte Moderna da Cidade de Paris" (da qual uma tela depositada nos "Abattoirs" de Toulouse); A USFIPES (União Científica Francófona para a Investigação Psíquica e para o estudo da Sobrevivência) de Paris; O "Instituto Metapsíquico Internacional" de Paris.
A retrospectiva Em 1988-1989 foi organizada uma grande exposição retrospectiva de Augustin Lesage que deu origem a um catálogo racional da sua obra. A exposição desenvolveu-se em quatro etapas internacionais: Museu das Belas Artes de Arras e Museu de Beaulaincourt de Béthune, 15 Outubro de 1988 a 15 de Janeiro de 1989; Colecção de Arte Bruta de Lausanne Suíça, de 2 de Fevereiro a 30 de Abril de 1989; Intituto Francês de Florença (Italia), de 12 de Maio a 10 de Julho de 1989; Instituto Cultural Francês do Cairo (Egipto), no Outono de 1989.
Em diálogo com a arte contemporânea De 11 de Junho a 7 de Setembro de 2008, a fundação da Casa Vermelha (Maison Rouge) em Paris apresentou a exposição Os Inspirados, que colocou em paralelo as pinturas de Augustin Lesage e as esculturas de Elmar Trenkwalder. A obra «Se as profundezas do nosso espírito escondem estranhas forças capazes de aumentar as da superfície, ou contra elas lutar vitoriosamente, há todo o interesse em captá-las, captá-las primeiro, para submetê-las depois, se for o caso, ao controlo da nossa razão» André Breton, Manifesto Surrealista, 1924.
Os inícios, 1911 Os primeiros desenhos de Augustin Lesage datam das sessões espíritas organizadas em 1911, por ele e pelo seu grupo de amigos, onde é imediatamente classificado como médium. Nessa qualidade recebe mensagens sob a forma de desenhos que assina como “Maria”, nome de sua irmã mais nova, falecida em 1883 com a idade de três anos. Esses desenhos eram totalmente abstractos, com grafias em espirais, por vezes ondulantes. O papel é inteiramente trabalhado em toda a sua superfície, como que “encaixilhado” por tiras planas ou grinaldas. Os fundos aparecem cobertos por pontilhados coloridos. O verde, o negro e as três cores primárias repartem-se em massas equilibradas, sem que nenhuma prepondere sobre as outras. Quando os « espíritos » lhe ordenam de passar à pintura, começa a recobrir a folha com toques de pincel que configuram uma multidão de pontos que vai preenchendo toda a superfície do suporte. Sob a dominante castanho e azul ou castanho e verde lá se reencontram as estruturas espiraladas dos desenhos. Não teria chegado com esta série de composições a fazer mais do que uma dezena de trabalhos, antes de dar início à sua “Grande Obra”. A primeira tela 1912-1914