miniaturadaimagem|300px|Salto de precisão (saut de précision, no original), um dos saltos mais comuns na prática do parkour. Desenvolvido como um método de treinamento que permite ao indivíduo, ultrapassar de forma rápida, eficiente e segura qualquer obstáculo utilizando somente as habilidades e capacidades do corpo humano, o parkour foi desenvolvido inicialmente na França entre meados e final da década de 1980. O termo é proveniente de uma adaptação da palavra original parcours e foi sugerido por um amigo de David Belle, o qual por sua vez, junto com alguns amigos de adolescência, é considerado como fundador do parkour. Ainda, o termo parcours tem relação com o "Parcours du combattant", mais conhecido como a pista de obstáculos do pentatlo militar. A modalidade tem diversas influências de práticas corporais e entre estas, destacam-se as ginásticas e o Método Natural de Educação Física de Georges Hébert, também conhecido como "Méthode Naturelle", o qual também se utilizava de habilidades e capacidades corporais para superar obstáculos e desafios tanto em ambientes urbanos como quantos naturais. A modalidade pode ser praticada tanto individualmente quanto em grupo.

Ao praticante do sexo masculino, este é denominado traceur e seu equivalente feminino é traceuse. Ambas grafias são de origem francesa, porém para maior disseminação e facilidade de pronúncia, o termo em inglês 'tracer [trey-ser], foi o mais difundido. O parkour tornou-se uma prática reconhecidamente esportiva no Reino Unido, embora a concepção de esporte seja diferente daquela empregada no Brasil, dado aos diferentes tipos de esportes que a Educação Física nacional concebe.

Generalidades O fundador do parkour, David Belle atribui a inspiração para criar o método de treinamento, a seu pai e mentor Raymond Belle (1939-1999), o qual foi treinado na guerra da Indochina (período pré-guerra do Vietnã) e posteriormente atuou como soldado pelas forças armadas francesas. A partir de 1958, Raymond deixou o exército e entrou para o corpo de bombeiros de Paris na França. Raymond também é lembrado pelos seus feitos na ginástica, no esporte e pelos recordes em saltos, arremessos com vara e subida em corda, feitos estes que construiu enquanto fez parte da corporação. miniaturadaimagem|Salto do gato (saut de chat, no original em francês) também conhecido como cat leap, é um tipo de salto feito para se fixar em um lugar pendurando com as mãos.|esquerda O parkour é uma forma de prática corporal pouco explorada no quesito de fundamentação teórica e de produção científica no cenário acadêmico, o que torna a modalidade um pouco difícil de ser categorizada. De acordo com o seu fundador, David Belle, o parkour consiste essencialmente em superar todos os obstáculos, seja eles físicos ou mentais em qualquer tipo de ambiente, natural ou urbano.

A prática requer treinamento físico metódico, dedicação, comprometimento e visa principalmente a eficácia, poupando energia para ultrapassar os obstáculos e evitando ferimentos de quaisquer ordem. Os praticantes do parkour atribuem ao mote être et durer ('ser e durar', traduzido do francês), a importância do fortalecimento e da longevidade na prática por meio do treino constante, buscando sempre melhorar a si enquanto ser humano. Essa ideia de manter o corpo forte e vigoroso a longo prazo foi absorvida do Método Natural de Georges Hébert e ainda é propagada por muitos praticantes.

A prática do parkour é comummente vinculada em uma visão grosseira e deturpada de que seus praticantes são "puladores de prédios", arruaceiros e desocupados. Porém, somente quem realmente adentra a prática ou busca informações sobre, seja por curiosidade, ou por vontade, acaba por descobrir que o parkour é, acima de tudo, uma disciplina de cunho de exercício físico e moral, voltada para o desenvolvimento de habilidades e capacidades do corpo, usando de corridas, variações de movimentos quadrupedais, diversos tipos de rolamentos, formas de escaladas, equilíbrios, saltos e outras formas de movimento para ultrapassar os obstáculos de maneira rápida, eficiente e segura, os quais podem levar a novos patamares de exploração do movimento humano.

Terminologia

Existem outras duas formas de expressão com vínculo direto com a prática e em muitos países são tratados também como sinônimos do parkour: A "Art du déplacement" ('Arte do deslocamento', em português) e o "Free Running" (Corrida livre', em português).

O termo Art du déplacement foi o primeiro nome dado a prática corporal que viria a ser mais tarde também nomeada como parkour. Esse nome foi sugerido por Sébastien Foucan, considerado por muitos o co-fundador do parkour e também fundador do Free Running. O nome perdurou através dos Yamakasi, considerados o primeiro grupo de parkour.

Por sugestão de seu amigo Hubert Koundé, David Belle remodelou a palavra parcours ('percurso', em português), primeiramente retirando a letra 's', a qual não é pronunciada pela voz e substituiu o 'c' por um 'k' para sugerir agressividade e causar mais impacto ao pronunciar, e também como forma de universalizar o termo.

Sébastien Foucan, co-fundador do parkour também é considerado o fundador do Free Running. Embora semelhantes, a prática estabelecida por Sébastien Foucan expressa uma vertente mais artística do parkour, onde são realizadas acrobacias e a estética do movimento é ressaltada em detrimento da objetividade. O nome Free Running foi sugerido por Guillaume Pelletier para uma apresentação de Sébastien Foucan no documentário Jump London para o Channel 4 do Reino Unido, visando maior facilidade na comunicação com a língua inglesa e entendimento da prática.

Traceur e traceuse são derivados do termo fracês tracer [tʀase], cuja grafia, que embora semelhante a grafia em inglês tem pronúncia diferente e normalmente significa 'traçar', ou melhor dizendo, 'aquele que percorre um caminho'. O termo foi originalmente utilizado como o nome do grupo de parkour Original Tracers, que era liderado por David Belle, também eram parte deste grupo Sébastien Foucan e Stéphane Vigroux.

História O parkour surgiu de uma necessidade de movimentar-se impetrada por David Belle, seus primos e seus amigos durante a sua adolescência, inicialmente em Fécamp na Normandia e posteriormente, nos subúrbios de Paris, em Lisses e Sarcelles, onde David Belle buscou reforçar os laços com seu pai e começou a ter os primeiros insights sobre o que viria a ser o parkour, como a importância do fortalecimento físico e mental e os elementos que David Belle descreve com um tipo de filosofia. Entretanto, a ideia do movimento tem suas raízes que remetem ao final do século XIX com Georges Hébert, criador do Método Natural e posteriormente no século XX, com Raymond Belle, ex-soldado, atleta, bombeiro francês e uma das grandes inspirações para o desenvolvimento do parkour.

Georges Hébert miniaturadaimagem|Georges Hébert, criador do Método Natural de Educação Física Inicialmente, as maiores influências para o desenvolvimento do parkour foram Raymond Belle e o Método Natural de Educação Física de Georges Hèbert (1875-1957), método este ao qual Raymond Belle foi instruído na infância e adolescência. Georges Hébert foi um oficial da Marinha e profissional de Educação Física francês que observou o comportamento e o movimento dos homens das tribos africanas e de diversas outras partes do mundo durante as suas viagens como tenente da marinha francesa. Georges Hébert também pregava que um corpo sadio e atlético deveria combinar também coragem e altruísmo.

Georges Hébert desenvolveu seu método com base em 10 grupos de habilidades: marcha, corrida, saltos, movimento quadrupedal, escalada, equilíbrio, lançamentos, levantamentos, defesa pessoal e natação. Todos esses movimentos deveriam ser imbuídos com o desenvolvimento de outros elementos como força de vontade, coragem, frieza, resiliência, benevolência, honra e honestidade, e também havia a necessidade de desenvolver a respiração e a musculatura. O treinamento pelo Método Natural de Hébert se expandiu pelas forças armadas e posteriormente por escolas, academias e clubes. Ainda, os estudos de Georges Hébert deram origem a um livro publicado em 1912 intitulado L’education physique virile et morale par la méthode naturelle ('A Educação Física, virilidade e moral pelo Método Natural', em português).

Ainda, Georges Hébert, idealizaria uma pista de obstáculos para o treinamento da marinha francesa a qual foi denominada de parcours du combattant (ou 'percurso do combatente', literalmente). Mais tarde, esse sistema de treinamento e a pista de obstáculos ganhariam o respeito e admiração por forças armadas diversas ao redor do mundo, sendo copiado e adaptado por países como os EUA em decorrência das grandes guerras mundiais que viriam nos anos seguintes.

Posteriormente, Raymond Belle usaria alguns do elementos do Método natural de Georges Hébert para incentivar a busca pelo movimento em seu filho, David. Assim, seja pela influência de Raymond, ou pela sua relação com o treinamento de Hébert, futuramente o parkour viria a usar alguns do elementos do Método Natural como a marcha, a corrida, os saltos, o movimento quadrupedal, a escalada e o equilíbrio, (lançamentos, levantamentos, defesa pessoal e natação não são considerados como elementos essenciais para a prática do parkour, pois envolvem combate ou movimentação em meios que não são comuns para os praticantes - nadar, por exemplo). Dessa forma é possível estabelecer uma relação, mesmo que pequena entre o Método Natural e o parkour, como "primos distantes". Nesse ponto, cabe ressaltar que o Método Natural desenvolvido por Hébert frisava aumentar as resistências orgânicas, realçar as aptidões para a execução de exercícios naturais e utilitários (os seus 10 grupos) e, sobretudo, desenvolver a energia, a qualidade de ação, a virilidade, para então subordinar esse conjunto de qualidades físicas bem treinadas a uma moral altruísta e física.

Raymond Belle esquerda|Raymond Belle (1939-1999)|miniaturadaimagem O pai de David Belle, Raymond Belle (1939-1999) nasceu e cresceu no Vietnã. Seu pai morreu e ele foi separado de sua mãe, sendo criado pelos tios do lado materno, os quais abusaram de Raymond em sua infância. Com sete anos de idade foi enviado para um orfanato militar onde colocou-se sob duras provações e treinamentos para tornar-se mais forte.

Durante as noites, enquanto todos dormiam, Raymond saía do orfanato e treinava nas árvores e corria pela mata, desenvolvendo suas habilidades e fortalecendo seu corpo realizando saltos, flexões e equilíbrios. Isso permitiu que Raymond sobrevivesse ao duro período o qual durou sua infância e início da adolescência. Depois da batalha de Dien Bien Phu em 1954, Raymond retornou à França onde permaneceu nas forças armadas até os 19 anos de idade, em seguida juntou-se ao corpo de bombeiros de Paris.

Em sua estadia na França e a reaproximação com seu filho David, Raymond lhe apresentou a palavra parcours', a qual seu filho David, relembra: "Ele me contou como, quando era criança no orfanato militar, acordava todas as noites para ir treinar, sozinho e maliciosamente, no 'percurso de assalto', mas também em outros percursos que ele havia inventado sozinho. Para mim, essa palavra, "parcours", era muito abstrata e não significava nada. Ele explicou que havia diferentes tipos de percursos - ou parcours - lá, como percurso de resistência, percurso de agilidade, percurso de resiliência, e assim por diante.".

Seu filho David, ressalta que existe uma diferença crucial entre o que seu pai fazia e o parkour que é praticando por muitos atualmente: "Para muitos, hoje em dia, parkour é algo divertido, mas para meu pai, era vital - uma questão de vida ou morte [...], [...] Para meu pai, parkour era suor, lágrimas e sangue.".