O pau-brasilFERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Segunda edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p.153 (atual Paubrasilia echinata (Lam.) Gagnon, H.C.Lima & G.P.Lewis, antiga Caesalpinia echinata Lam.), também chamado arabutã, ibirapiranga, ibirapitá, ibirapitanga, orabutã, pau-de-tinta, pau-pernambuco, pau-de-pernambuco e pau-rosado, é uma árvore leguminosa nativa da Mata Atlântica, no Brasil.

Etimologia O nome vernáculo "pau-brasil", segundo alguns estudiosos, deriva do francês brésil, que deriva do toscano verzino, nome de pelo menos um tipo de madeira utilizada na tinturaria medieval na Itália,BUENO, E. Brasil: uma História. Segunda edição revista. São Paulo: Ática, 2003. p.36 a madeira-de-sapão (Biancaea sappan). Verzino, por sua vez, deriva do árabe wars, que designa uma planta tintória do Iêmen. Outra versão aponta que a palavra se origina do português brasa, devido à tonalidade avermelhada ou abrasada da madeira.

"Ibirapitanga", bem como suas diversas variantes (arabutã, ibirapiranga, ibirapitá e orabutã), vêm do tupi antigo ybyrapytanga, composição de ybyrá ("pau") e pytanga ("avermelhado"). Era o nome que os povos tupis da costa davam à árvore que em português se chama pau-brasil.

Quanto ao nome científico, Paubrasilia é o gênero da árvore. Já echinata significa "com espinhos", uma referência ao fato de as vagens do pau-brasil terem acúleos, que são uma especialização da epiderme que se parece com espinhos.

Em alguns idiomas, como o francês e o italiano, a árvore chama-se pernambuco, pernambouc, fernambouc, devido ao fato de o Nordeste (em especial Pernambuco) ter sido o local onde se iniciou a exploração do pau-brasil. Ribemboim, Jacques. Pernambuco de Fernão. Recife: EDUFRPE, 2015. ISBN 978-85-7946-241-2

Características A árvore alcança entre dez e quinze metros de altura e possui tronco reto, com casca cor cinza-escuro, coberta de acúleos, especialmente nos ramos mais jovens.

As flores nascem em racemos eretos próximo ao ápice dos ramos. Possuem quatro pétalas amarelas e uma menor vermelha, muito aromáticas; no centro, encontram-se dez estames e um pistilo com ovário súpero alongado.

Os frutos são vagens cobertas por longos e afiados espinhos, que devem protegê-los de pássaros indesejáveis, pois estes comeriam os frutos. Contém de uma a cinco sementes discoides, de cor marrom. A torção do legume, ao liberar as sementes, ajuda a aumentar a distância da dispersão.

Suas folhas são bipinadas, ou seja, dividem-se duas vezes em forma de penas. A primeira divisão reparte o limbo foliar em 3-20 pares de pinas, com 3-19 folíolos por pina, sendo o número dos folíolos comumente inversamente proporcional ao seu tamanho.

Variação morfológica Embora Paubrasilia seja aceito como monoespecífico, apresenta considerável variação morfológica, particularmente no número de pinas e na forma e tamanho dos folíolos. Lima, H.C. 1992. Aspectos botânicos do pau-brasil. In: Cunha, M.W. da & Lima, H.C. 1992. Viagem a terra do pau-brasil. Agência Brasileira de Cultura/Una Cultural, Rio de Janeiro, p. 23-38. Três grupos morfologicamente distintos são reconhecidos e vulgarmente denominados “folha-de-arruda”, “folha-de-café” e “folha de laranja”. Existem ainda marcantes diferenças na estrutura anatômica do lenho, que sugerem variações intraespecíficas geograficamente delimitadas e correlacionadas com a morfologia das folhas dos três morfotipos. As populações de P. echinata também se mostram fortemente diferenciadas geneticamente ao longo da distribuição na costa brasileira. Atualmente, estudos com amostragem mais densa e análises filogeográficas detalhadas, juntamente com análises morfométricas de caracteres diagnósticos, estão em andamento para avaliar se os morfotipos representam um continuum ou um conjunto de entidades discretas dignas de reconhecimento taxonômico.

Os morfotipos podem ser reconhecidos pelas características gerais abaixo:

P. echinata “folha-de-arruda”: folhas com 5-10 pinas e 12-21 folíolos por pina. Os folíolos terminais um pouco menores que os outros tipos, medindo por volta de 2 x 1 cm. As flores apresentam-se em racemos compactos com lobo inferior do cálice medindo de 6-9 mm de comprimento. Sua pétala vexilar (pétala maior, como um vexilo, que na prefloração cobre as outras) tem por volta de 11-13 x 4-7 mm. P. echinata “folha-de-café”: folhas com 3-5 pinas, 5-8 folíolos por pina e folíolos terminais medindo por volta de 4 x 2 cm ou até mais. As flores flores aparecem em racemos compactos, com lobo inferior do cálice com 9-12 mm de comprimento, pétalas largo-obovadas, pétala vexilar com 14-16 x 5-6 mm. P. echinata “folha-de-laranja”: folhas com 2-3 pinas, 3-5 folíolos por pina e folíolos terminais medindo por volta de 4 x 2 cm ou atémais; flores em racemos laxos, lobo inferior do cálice com 11-14 mm de comprimento, pétalas obovado-espatuladas, pétala vexilar com 17-18 x 8-9 mm.

Ocorrência thumb|220px|Pau-brasil plantado em Florianópolis. Seu habitat natural é a floresta ombrófila densa da Mata Atlântica, a partir do extremo nordeste do Brasil até o Rio de Janeiro,Tropicos.org. Missouri Botanical Garden. 21 Mar 2009 ou seja, os estados do Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia, Espírito Santo e Rio de Janeiro.

Encontra-se na lista do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis de espécies ameaçadas de extinção na categoria "vulnerável" e na da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais na categoria "em perigo".

O município pernambucano de São Lourenço da Mata é considerado a capital nacional do pau-brasil: na Estação Ecológica de Tapacurá, pertencente à Universidade Federal Rural de Pernambuco, foram plantadas 50 mil mudas da espécie. Também em Pernambuco está localizado o único museu destinado ao pau-brasil no país, no município de Glória do Goitá.

Em 2020, foi encontrado o exemplar que é considerado o mais antigo pau-brasil, com uma idade aproximada de 500 anos, e cujo tronco tem 7,13 metros de diâmetro. O espécime supera em 2,83 metros a espessura do pau-brasil até então tido como o mais antigo, cujo tronco tem circunferência de 4,3 metros. A descoberta foi registrada pelo botânico Ricardo Cardim, contatado pelo agricultor Manuel de Jesus, que o encontrou em sua propriedade, em Itamaraju.

Usos e história

miniaturadaimagem|Mapa do Número das Toras de Pau- Brasil Descoberto na Capitania de Ilhéus.|225x225px Afirmam alguns historiadores que o corte do pau-brasil para a obtenção de sua madeira e sua resina (extraída para uso como tintura em manufaturas de tecidos de alto luxo) foi a primeira atividade econômica dos colonos portugueses na recém-descoberta Terra de Santa Cruz, no século XVI e que a abundância desta árvore no meio a imensidão das florestas inexploráveis teria conferido à colônia o nome de Brasil.

Na realidade, no século XV uma árvore asiática semelhante, Biancaea sappan com o mesmo nome Brasil, já era usada para os mesmos fins e tinha alto valor na Europa, porém era escassa. Os navegadores portugueses que aportaram no atual Brasil imediatamente observaram a abundância da árvore pelo litoral e ao longo dos rios de planície.

Nessa altura as Ordenações Manuelinas e Ordenações Filipinas estabeleceram regras e limites para exploração de terras, águas e vegetação.Legislação Ambiental Brasileira; P. 194; senado.leg.br Havia listas de árvores reais, protegidas por lei, o que deu origem à expressão madeira de lei.

A extração de madeira tornou-se alvo de muito lucrativo comércio e contrabando, inclusive com corsários franceses atacando navios portugueses. Foi uma das expedições de corsários liderada por Nicolas Durand de Villegaignon, em 1555, que estabeleceu uma colônia que hoje se chama Rio de Janeiro (a França Antarctica). A planta foi citada em Flora Brasiliensis por Carl Friedrich Philipp von Martius.

Foi então que o Regimento do Pau Brasil, de 1600, estabeleceu o direito de uso sobre as árvores e não sobre as terras. As áreas consideradas reservas florestais da Coroa portuguesa, não podiam ser destinadas à agricultura. Essa legislação garantiu a manutenção e a exploração sustentável das florestas de pau-brasil até 1875, quando entrou no mercado a anilina.Quem acabou com o nosso pau-brasil?, por Armando Alexandre dos Santos, Debates Culturais, 07/12/2015

A resina vermelha era utilizada pela indústria têxtil europeia como uma alternativa aos corantes de origem terrosa e conferia aos tecidos uma cor de qualidade superior. Isto, aliado ao aproveitamento da madeira vermelha na marcenaria, criou uma demanda enorme no mercado , o que forçou uma rápida e devastadora "caça" ao pau-brasil nas matas brasileiras. Em pouco menos de um século, já não havia mais árvores suficientes para suprir a demanda, e a atividade econômica foi deixada de lado, embora espécimens continuassem a ser abatidos ocasionalmente para a utilização da madeira (até os dias de hoje, usada na confecção de arcos para violino e móveis finos).

O fim da caça ao pau-brasil não livrou a espécie do perigo de extinção. As atividades econômicas subsequentes, como o cultivo da cana-de-açúcar e do café, além do crescimento populacional, estiveram aliadas ao desmatamento da faixa litorânea, o que restringiu drasticamente o habitat natural desta espécie. Mas, sob o comando do Imperador Dom Pedro II, vastas áreas de Mata Atlântica, principalmente no estado do Rio de Janeiro, foram recuperadas, e iniciou-se uma certa conscientização preservacionista que freou o desmatamento. Entretanto, já se considerava o pau-brasil como uma árvore praticamente extinta.

No século XX, a sociedade brasileira descobriu o pau-brasil como um símbolo do país em perigo de extinção, e algumas iniciativas foram feitas no sentido de reproduzir a planta a partir de sementes e utilizá-la em projetos de recuperação florestal, com algum sucesso. Atualmente, o pau-brasil tornou-se uma árvore popularmente usada como ornamental. Se seu habitat natural será devastado por completo no futuro, não se sabe, mas a sobrevivência da espécie parece assegurada nos jardins das casas e canteiros urbanos.

Em 1924, Oswald de Andrade fez um manifesto sobre a nova poesia brasileira intitulado "Manifesto da Poesia Pau-Brasil".

Galeria

Árvore nacional do Brasil Pela Lei 6.607, de 7 de dezembro de 1978, o pau-brasil foi declarado árvore nacional do Brasil.

O projeto de lei PL–3 380/1961 visava a declarar o pau-brasil e o ipê-amarelo, respectivamente, árvore e flor nacionais, mas este projeto não foi aprovado, conforme informa o site oficial da Câmara dos Deputados. Pelos projetos de lei PL–2 293/1974 e PL–882/1975, ambos arquivados na Câmara dos Deputados, tentou-se instituir o ipê como flor nacional do Brasil. Possivelmente por confundir o projeto de 1961, que não foi aprovado, com a lei de 1978, diversas pessoas divulgam a informação incorreta de que a lei do pau-brasil teria declarado o ipê-amarelo como flor nacional do Brasil.

Ver também Ciclo do pau-brasil Símbolos do Brasil

Notas Contém texto licenciado em CC-BY 4.0 de Gagnon, E.; Lewis, G.P.; Lima, H.C. Paubrasilia em Flora e Funga do Brasil. Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

Bibliografia LORENZI, Harri, Árvores brasileiras: manual de identificação e cultivo de plantas arbóreas do Brasil, vol. 1. Instituto Plantarum, Nova Odessa, SP, 2002, 4a. edição. ISBN 85-86174-16-X VIANNA, M. C., MARTINS, H. F., CASTELLANOS, A., ET AL. 1988. Arboreto Carioca (Edição Fac-Similada). Banco da Providência, Rio de Janeiro. 125 pgs. O AGRONOMICO 21:109–134, 1969. CESP — CENTRAIS ELÉTRICAS DE SÃO PAULO, Ed. 1988. Guia de Arborização, 3 Edição. Diretoria de Distribuição, São Paulo. 33 pgs. Site oficial da Câmara dos Deputados do Brasil Site oficial da Presidência do Brasil — Lei nº 6 607, de 7 de Dezembro de 1978

Ligações externas

Paubrasilia equinata na Flora do Brasil

Caesalpinia echinata (Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais)