Isaac ben Judah ou Yitzchak ben Yehuda Abravanel (hebraico: יצחק בן יהודה אברבנאל; Lisboa, 23 de setembro de 1437 - Veneza, 1508)Ephraim Taubenhaus, Giants of the Spirit: Twenty Biographies of Outstanding Sages and Rabbis, traduzido do hebreo por Binyamin Hoffman; Sinai Publishing House, Tel Aviv, 1981; p. 57:"Don Yitzhak Abravanel... was born in Lisbon in 5197 (1437 C.E.)" ("Dom Yitzhak Abravanel... nasceu em Lisboa em 5197 (1437 E.C.)")& p. 60: "Don Yitzhak Abravanel passed away in Venice in 5268 (1508 C.E.)" ("Dom Yitzhak Abravanel faleceu em Venezia em 5268 (1508 E.C.)") foi um estadista, filósofo,Logos – Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia, 5 vols. (Lisboa/São Paulo: Editorial Verbo, 1989–1992), I, p. 19. comentador da Bíblia e financista judeu português. Nasceu em Lisboa em 1437 e viveu vários anos na cidade de QueluzCidade de Queluz - As raízes do futuro, Câmara Municipal de Sintra.. Foi amplamente reconhecido como um dos mais notáveis judeus da corte do século XV, ao lado de seu amigo Abraham Senior. Ele morreu em Veneza em 1508 e foi enterrado em Pádua. Seu filho Judá Abravanel também teve notoriedade na filosofia.Feldman, Seymour. Philosophy in a Time of Crisis: Don Isaac Abravanel: Defender of the Faith. New York: RoutledgeCurzon, 2003.Soria Olmedo, Andrés. Los Dialoghi D’Amore de León Hebreo: Aspectos Literarios y Culturales. Granada: Universidad de Granada, 1984.

A Família Abravanel é uma das mais antigas e distintas famílias judaicas sefarditas, cuja ascendência direta tem a sua origem ao bíblico Rei David. Os membros desta família viveram em Córdova (província da Espanha), Calatayud, Castela e Leão e em Sevilha, onde viveu o seu representante mais antigo conhecido de nome Judá Abravanel.

Nome Em várias obras, Isaac Abravanel foi referido apenas pelo seu apelido, que por vezes surgiu como Abravanel, Abarbanel, Avravanel ou Abrabanel. Muitos estudiosos da Torá e do Talmude referem-se a ele simplesmente como "O Abarbanel".

Há um debate sobre se seu sobrenome deve ser pronunciado Abarbanel ou Abravanel. A pronúncia tradicional é Abarbanel. A literatura acadêmica moderna, desde Graetz e Baer, tem mais comumente usado o Abravanel. No entanto, seu próprio filho Judá insistiu em Abarbanel, e Sefer HaTishbi, de Elias Levita, que era um contemporâneo próximo, duas vezes avoca o nome como Abarbinel (אַבַּרְבִּינֵאל).Abarbanel and the Censor, page 1, note 1

A etimologia do nome é incerta. Alguns dizem que vem de "Ab Rabban El",Ioanne Henrico Maio Filius, trad. (1711). Don Isaaci Abrabanielis sive Praeco Salutis [Mašmîaʿ yešûʿā]. que significa "pai dos rabinos de Deus", o que parece favorecer a pronúncia "Abrabanel".

Notas biográficas Versado em literatura rabínica e nos estudos do seu tempo, ele devotou os seus jovens anos ao estudo da filosofia judaica. Com apenas 20 anos de idade ele escreveu sobre a forma original dos elementos naturais, sobre questões religiosas, sobre profecias, etc. As suas capacidades na política também lhe valeram a atenção de terceiros mesmo ainda na juventude. Entrou para o serviço do rei Afonso V de Portugal como tesoureiro e em breve ganhou a confiança do seu mestre.

Não obstante a sua alta posição e grande riqueza que ele herdou do seu pai, o seu amor pelos pobres e oprimidos era notável. Quando Arzila, em Marrocos, foi tomada pelos portugueses e os prisioneiros judeus foram vendidos como escravos, ele contribuiu largamente com os fundos necessários para os libertar e organizou também colectas em seu favor por todo Portugal. Também escreveu ao seu rico e influente amigo Jehiel ben Samuel Pisa, em apelo pelos presos.

Após a morte do rei D. , foi obrigado a deixar o seu cargo, tendo sido acusado pelo rei D.  de conivência com o Duque de Bragança, que tinha sido executado sob acusação de conspiração. Avisado a tempo, Abravanel salvou-se, fugindo em sobressalto para Castela em 1483. A sua grande fortuna foi confiscada por decreto real.

thumb|left|upright|Brasão de Isaac Abravanel

Em Toledo, sua nova residência, ele ocupou-se inicialmente com estudos bíblicos, e no decorrer de 6 meses produziu uma grande quantidade de comentários aos livros de Josué, Juízes e Samuel. Mas pouco depois ele começou a servir a casa de Castela. Juntamente com o seu amigo, o influente Don Abraham Senior, de Segóvia, ele encarregou-se de administrar as receitas e fornecer abastecimentos ao exército real, com contratos que ele executou bem, para satisfação total de Isabel de Castela.

Durante as guerras mouriscas, Abravanel emprestou somas avultadas de dinheiro ao governo. Quando foi decretada a expulsão dos Judeus de Espanha, ele tentou por todos os meios convencer o rei a revogar o édito. Em vão, ele ofereceu-lhe ducados. Também costumam atribuir a ele um texto que ficou conhecido como “A resposta de D. Abravanel ao Decreto de Alhambra”. Porém a origem real deste documento encontra-se numa obra de ficção publicada em 1988, intitulada Alhambra Decree do autor David Raphael. Com os seus companheiros de fé, Abravanel deixou a Espanha para ir viver para Nápoles, onde em breve entraria para os serviços do rei. Por um período curto, ele viveu em paz, mas quando a cidade foi tomada pelos franceses, ele foi roubado de todas as suas possessões e seguiu o seu rei Fernando, em 1495, para Messina; e mais tarde para Corfu; e em 1496 instalou-se em Monopoli, e finalmente em 1503 em Veneza, onde os seus serviços foram empregues na negociação de um tratado comercial entre Portugal e a República de Veneza.

Um dos descendentes de Abravanel é o apresentador brasileiro Senor Abravanel, também conhecido como Silvio Santos.

Filosofia Para Benzion Netanyahu, Dom Isaac Abravanel era adepto a linha de Maimónides, no que toca aos Treze Princípios Judaicos, contendo-se algumas características em comum com os Averroístas, contrariando-se a tendência dominante da sua época em se seguir uma linha mais racional, como era feita pelo pensador Albo. Todavia, podemos afirmar que o seu mestre na realidade era Saadia, um pensador judeu anterior ao período pré-tomista, que demonstrou o seu desprezo a ideia de uma superioridade da Razão em detrimento da Fé. Portanto, a cosmovisão de Abravanel, assim como a de Saadia, acreditava no primado da Fé e que a Revelação seria o guia e o objetivo final da Razão, distanciando-o diametralmente do pensamento de Maimónides.

Essa relação com a Revelação, que ditava a sua fé e tinha como norteador as escrituras sagradas do judaísmo, ou seja, a Torá, a Ketuvim e a Neviim, que era em comum, base da fé cristã e islâmica. Uma vantagem que colocava os judeus a frente dos escolásticos cristãos e dos muçulmanos, por ambos crerem nas escrituras judaicas e na sua sacralidade, que resultou em disputas acirradas entre ambos, para ver quem mais dava credibilidade aos profetas judeus, haja vista, que a fonte de todo o saber advém da crença do Deus único que revela-se a Abraão.

Abravanel, segundo alguns, era caracterizado por ter uma cosmovisão que acredita na "criação a partir do nada", ao ponto de escrever duas obras dedicadas ao tema. Tal visão é encontrada quase que exclusivamente no judaísmo, que do ponto de vista de Boodin, era distinda da crença inicial dos judeus na criação como surgimento a partir da matéria, que em essência é dualista. Visão esta, que foi amplamente adotada pelos primeiros padres da cristandade. Apesar dessa problemática histórica, encontramos pensadores judeus partilharem de uma visão contrária, tendo-se como exemplo, Halevi ao evocar a forma de cosmovisão muito antes de Abravanel, que por sua vez, a desenvolve um passo mais a frente, questionando-se que era possível a qualquer observador atento ao funcionamento do mundo, concluir que as ordens são naturais, concordando que tratava-se de um mundo pré-existente. Essa defesa tão enfatizada nessa visão, deve-se em partes, fundamentalmente a comparação que Abravanel faz com outras interpretações que em tese poria em causa a tese da verdade Revelada.

Compreendendo-se que a cosmovisão de Dom Isaac é assente na criação a partir do nada, inclusive, tendo-a como a sua pedra angular, conseguimos avançar para a sua ideia de universo, que ao contrário do que possamos imaginar, não esta de todo desprovida de elementos do panteísmo. Vejamos, se considerarmos que o universo tem a matéria criada a partir do nada, o elemento espiritual, no seu ponto de vista, é originário diretamente de Deus. Para chegar-se a essa conclusão, ele baseia-se em ideias oriundas de Aristóteles e Ptolomeu, ajustando-as para o seu modo de ver o funcionamento dos corpos celestes, eliminando, por assim dizer, elementos que contradizem a sua base de pensamento.

Na época contemporânea a Abravanel, era comum enxergar o universo como uma espécie de "máquina gerida por seu Maquinista", o Maquinista em questão é Deus. Essa forma de pensar, é debatida por muitos nomes de relevo como, por exemplo, Maimónides que tem uma visão do universo como um organismo uno, mesmo sendo formado por matéria e de forma. Portanto, tal visão é confrontada por Dom Isaac, que interpreta que há a par dela, existe também um mundo espiritual, profundamente marcado pela hierarquização. Nesse campo, identificamos uma correlação com a teoria aristotélica das inteligências separadas, que é interpretada por Maimónides como sendo os anjos descritos no Tanakh. Contudo, existe uma tentativa de prefixar-se a quantidades dos mesmos, que segundo os seguidores de Avicena, seriam de dez, com o décimo definido como o Intelecto Agente, prefigurado como o mundo sublunar. Doravante a essa questão, Abravanel acata opiniões sugeridas por Albo, desenvolvendo-a a partir dos mesmos pontos, utilizando-se principalmente o livro de Daniel, ligando-a à sua concepção de universo e a funcionalidade concebida aos seres espirituais.

Já quando se trata do homem em particular, sua atitude varia entre o desprezo e a admiração, reforçando a sua visão dual, que no caso esta compreendida na carne/espírito. Não fugindo da visão muito difundida na Idade Média, ele também compreende a criação humana como a principal dentre todas de Deus, mas como algo insignificante quando comparado com o Criador. Partindo-se dessa premissa, entendemos como ele encaixa o homem na sua cosmologia, determinando-se que a sua posição encontra-se entre o mundo do espírito de da matéria, ficando encarregado de fazer um elo entre ambos. Em contrapartida, os outros seres não poderiam realizar tal ligação, por serem formados por matéria ou espírito, sendo a criatura mais completa de todas. Nesse ponto vemos o distanciamento da visão de Dom Isaac e a de Maimónides, que influenciado pelas ideias de Aristóteles, vê as esferas e as estrelas como mais perfeitas que o homem, demonstrando mais uma vez o quão baseada estava as ideias de Abravanel no ponto de vista de Saadia, que é antropocêntrica e dominante na Idade Média.

Sua visão sobre a astrologia como ciência e a possibilidade de se influenciar a vida do individuo e de localidades, era oposta a de Maimónides que via-a como um método fraudulento, anticientífico. Contudo, isso não o impediu de acreditar na possibilidade da Providência Divina mudar determinações impostas por corpos celestes. Entretanto, no seu pensamento via uma sobreposição dos destinos de um grupo em detrimento ao do individuo que, segundo a sua visão, era mais poderosa e, portanto, fatalmente decidia o destino de um grupo como um todo. É importante salientar que essa ideia esta assente ao facto destas decisões estarem inscritas nas posições celestes, que são controladas pelos "principados celestes", mensageiros de Deus, que são enviados para decidir o futuro de colectividades.