O conceito de Capitalismo de Estado abrange dois significados distintos. O primeiro refere-se aos países designados como socialistas, como a URSS e Cuba, que se caracterizam por manter a exploração dos trabalhadores via extração da mais-valia, tal como no capitalismo privado, mas onde o Estado se transforma no principal proprietário. O Estado possui o monopólio dos meios de produção, extrai a mais-valia e a redistribui. Além disso, investe no processo de acumulação de capital, entre os burocratas, que passam a usufruir de diversos privilégios, formando uma burguesia de Estado. O segundo significado refere-se a países capitalistas com forte intervenção estatal na economia, onde o Estado se esforça para desenvolver as forças produtivas, opondo-se assim ao liberalismo.
O Brasil é considerado pela doutrina internacional um país com um modelo de Capitalismo de Estado do segundo tipo. O estado brasileiro tem participações em mais de 650 empresas, que estão envolvidas em um terço do PIB nacional.
Origens e primeiros usos do termo
O termo em si estava em uso dentro do movimento socialista do final do século XIX. Em 1896, Wilhelm Liebknecht, disse: "Ninguém tem combatido socialismo de Estado mais do que nós socialistas alemães, ninguém mostrou mais distintamente do que eu, que o socialismo de Estado é realmente o Capitalismo de Estado !".
Tem sido sugerido que o conceito de Capitalismo de Estado pode ser rastreado até a critica de Mikhail Bakunin, sobre o potencial de exploração do Estado sob o socialismo de inspiração marxista durante a Primeira Internacional. Outra referência é a obra de Jan Waclav Machajski, O trabalhador Intelectual (1905) que descreve o socialismo como um movimento de intelectuais, e que resultaria em um novo tipo de sociedade, que ele chamou o Capitalismo de Estado.Michael S. Fox "Ante Ciliga, Trotskii and State Capitalism: Theory, Tactics and Reevaluation during the Purge Era, 1935-1939", Slavic Review, 50, no. 1 (Spring 1991): 127-143. Published in Croatian translation in ?asopis za suvremenu povijest [Journal of Contemporary History], Zagreb, no. 3, 1994, p. 427-450.For Bakunin: Gouldner, A.W. 1982. Marx's last battle: Bakunin and the First International, Theory and Society 11(6), November, pp. 853-84. Gouldner argues that Bakunin formulated an original critique of Marxism as 'the ideology, not of the working class, but of a new class of scientific intelligentsia — who would corrupt socialism, make themselves a new elite, and impose their rule on the majority' (pp. 860-1)For Machajski: Marshall S. ShatzJan Waclaw Machajski: A Radical Critic Of The Russian Intelligentsia And Socialism; TB Bottomore Elites and Society p.54 Para os anarquistas, o socialismo de Estado é equivalente ao Capitalismo de Estado, sendo igualmente opressivo e apenas um mudança dos capitalistas privados para o Estado como único empregador e capitalista.http://www.infoshop.org/faq/secH3.html#sech313
O bolchevique Nikolai Bukharin identificou um novo estágio no desenvolvimento do capitalismo, no qual todos os setores da produção nacional e todas as importantes instituições sociais se tornaram gerenciados pelo Estado. Ele chamou esse novo estágio capitalista de "Capitalismo de Estado".Bukharin, N. 1915 . Imperialism and World Economy. London: Merlin. p. 15 thumb|200px|right|Nikolai Bukharin
Depois da revolução de Outubro, Lênin usou o termo positivamente. Ele justificou a introdução do Capitalismo de Estado controlado politicamente pela ditadura do proletariado, para que as forças produtivas se desenvolvessem e para que o controle central se fortalecesse:
"A realidade diz-nos que o capitalismo de Estado seria um passo em frente. Se, em um pequeno espaço de tempo, pudéssemos alcançar o capitalismo de estado, isso seria uma vitória." (Lenin, 1918)Lenin's Collected Works Vol. 27, p. 293
As formas atuais no século XXI O capitalismo de Estado é distinto da economia mista capitalista, na qual o Estado intervém nos mercados para corrigir falhas de mercado ou estabelecer regras sociais. No sistema Capitalista de Estado, o Estado opera negócios com a finalidade de acumulação de capital.
República Popular da China Muitos analistas afirmam que a China é um dos principais exemplos de capitalismo de Estado no século XXI.Communism Is Dead, But State Capitalism Thrives, by Vahan Janjigian, forbes.com, Mar. 22 2010.Winners And Losers In Chinese Capitalism, by Gady Epstein, forbes.com, Aug. 31 2010.The Economist (2012). "State Capitalism: The Visible Hand". Special Report.
Em seu livro, O Fim do Mercado Livre: Quem ganha a guerra entre Estados e corporações, o cientista político Ian Bremmer descreve a China como o principal motor para a ascensão do capitalismo de Estado e como um desafio para as economias de mercado do mundo desenvolvido, particularmente após a crise financeira de 2008. Bremmer descreve o capitalismo de estado da seguinte forma:
Na sequência, Bremmer, Aligica e TarkoAligica, Paul and Vlad Tarko (2012). “State Capitalism and the Rent-SeekingConjecture”, Constitutional Political Economy 23(4): 357-379 continuar a desenvolver a teoria de que o atual capitalismo de estado em países como a China e a Rússia é um exemplo de uma sociedade de busca de renda (rent-seeking). Eles argumentam que, após a constatação de que os sistemas socialistas não poderiam competir eficazmente com as economias capitalistas, as elites políticas comunistas de outrora estão tentando projetar uma forma limitada de liberalização econômica que aumenta a eficiência e, ao mesmo tempo, lhes permite manter o controle do poder político.
Todos os países considerados comunistas, como a União Soviética, China, Cuba, Vietnã, bem como os países do Leste europeu, foram acusados de serem também regimes de capitalismo de Estado.
O regime soviético foi acusado por comunistas conselhistas e anarquistas de ser um regime de capitalismo de Estado. Nesse regime, o Estado se tornou proprietário de todos os meios de produção, manteve os trabalhadores afastados das decisões políticas e gerenciais, e continuou a submetê-los à escravidão do salário. Na União Soviética, apesar de a propriedade dos meios de produção ser pública, ela era gerida como uma grande corporação privada pelos burocratas, que alguns autores chamam de burguesia de estado.
Uso do termo Capitalismo de Estado O termo tem sido usado por vários socialistas, incluindo anarquistas, marxistas e leninistas. A ideia de Capitalismo de Estado surge com o próprio processo da Revolução Russa. Lênin foi um dos primeiros a utilizar esta expressão, no sentido do primeiro caso, em maio de 1918, em seu panfleto "On left wing infantilism and on petty-bourgeois tendencies" porém, em 1921, ele utilizou esta expressão no sentido do segundo caso, no panfleto "On the tax in kind", ao analisar a praticabilidade de conceder concessões a empresas estrangeiras com o objetivo de atrair investimentos e know-how.
Uso por anarquistas thumb|200px|Murray Bookchin Talvez a primeira crítica da URSS como estado capitalista tenha sido formulado pelos anarquistas russos, como documentado na obra de Paul Avrich sobre o anarquismo russo.Paul Avrich, 1967, The Russian Anarchists, Princeton University Press, chapter 7
Esta afirmação se tornaria padrão em obras anarquistas. A proeminente anarquista Emma Goldman em um artigo de 1935 intitulado "Não há nenhum comunismo na Rússia", disse da URSS: "Tal condição das coisas pode ser chamada de capitalismo de estado, mas seria absurdo considerá-lo em qualquer sentido comunismo.... a Rússia Soviética, que agora deve ser óbvio, é politicamente um despotismo absoluto e economicamente a forma mais crassa do capitalismo de estado"."There Is No Communism in Russia" by Emma Goldman
Murray Bookchin, ao falar sobre o marxismo, disse que "o marxismo, na verdade, torna-se ideologia e é assimilado pela forma mais avançadas do Capitalismo de Estado - nomeadamente a Rússia. Por uma ironia incrível da história, o socialismo marxista acaba por ser em grande parte Capitalismo de Estado, que Marx não previu na dialética do capitalismo. O proletariado, ao invés de se desenvolver em uma classe revolucionária dentro do ventre do capitalismo, acaba por ser um órgão dentro do corpo da sociedade burguesa ... Lênin notou isso e descreveu o "socialismo" como "nada além do monopólio estatal capitalista, feito para beneficiar todo o povo." Esta é uma declaração extraordinária quando se pensa em suas implicações e contradições."Listen, Marxist!" por Murray Bookchin O modelo soviético, apesar de ter abolido a propriedade privada, organizava suas relações de produção e a gestão e organização dos meios de produção por meio de uma forma de Capitalismo de Estado.ABREU. Maira. O Conceito de CAPITALISMO DE ESTADO em Charles Bettelheim
Os autores do An Anarchist FAQ, falando sobre o leninismo dizem que "Ao invés de apresentar um meio eficaz e eficiente de alcançar a revolução, o modelo leninista é elitista, hierárquico e altamente ineficiente para atingir uma sociedade socialista. Na melhor das hipóteses, esse partido desempenha um papel prejudicial na luta de classes, alienando os ativistas e militantes com os seus princípios de organização e táticas de manipulação dentro de estruturas e grupos populares. Na pior das hipóteses, esses partidos podem tomar o poder e criam uma nova forma de sociedade de classes (um Capitalismo de estado), em que a classe trabalhadora é oprimida por novos patrões ,ou seja, pela hierarquia do partido e de seus nomeados"."H5. What is vanguardism and why do anarchists reject it?" at An Anarchist FAQ
Uso pela Esquerda Comunista Russa Os comunistas de esquerda acusavam a URSS de ter se tornado uma sociedade de Estado governada por uma nova classe burocrática.EH Carr; The Interregnum 1923-1924; Londres; 1954; p. 80
"Castoriadis postula quatro características indissociáveis e fundamentais de uma economia socialista: 1 - Abolição da propriedade privada 2 - Planificação 3 - Abolição da Exploração 4 - Direção da produção pelos produtores. Ele conclui que apenas as duas primeiras características, na verdade, "as menos importantes", estariam presentes na sociedade soviética. A falta de democracia operária e de controle operário impediriam a denominação de "Estado Operário"HIRATA, Helena. Capitalismo de Estado, Modo de Produção tecnoburocrático e Burguesia de Estado. p. 50.
Uso por mencheviques e marxistas "ortodoxos" Imediatamente após a Revolução Russa muitos marxistas ocidentais questionam se o socialismo era possível na Rússia. Especificamente, Karl Kautsky:
Após 1929, os mencheviques exilados, como Fyodor Dan, começaram a chamar a URSS de Stalin de um regime totalitário estatal.Liebich, A. 1987. 'Marxism and totalitarianism: Rudolf Hilferding and the Mensheviks', Dissent 34, Spring, P. 223-40 thumb|200px|right|Leon Trotsky
No Reino Unido, o grupo marxista ortodoxo do Partido Socialista da Grã-Bretanha desenvolveu independentemente uma doutrina similar. Embora inicialmente divulgando a ideia de que o capitalismo soviético diferia pouco do capitalismo ocidental, posteriormente passou a argumentar que a burocracia estatal mantinha para si a propriedade produtiva, como a Igreja Católica anteriormente.State capitalism : The wages system under new management por Adam Buick and John Crump; Basingstoke; Macmillan; 1986; ISBN 0-333-36775-8
Uso pelos trotskistas Leon Trotsky citou que o termo Capitalismo de Estado "originalmente surgiu para designar os fenômenos que surgem quando um Estado burguês assume o comando direto de empresas industriais" e, portanto, uma "negação parcial" do capitalismo. No entanto, Trotsky rejeitou esta descrição da URSS, argumentando que ela tinha se tornado um Estado operário degenerado. Após a Segunda Guerra Mundial, a maioria dos trotskistas aceitou a análise que os países do bloco soviético eram deformados estados operários.