thumb|right|289px|<center> IX thumb|right|289px O Livro dos Salmos (do grego Ψαλμός, em transliteração latina música, pois o nome no original hebraico é מזמור, em transliteração latina mizmor ou música) é um dos livros do Tanakh e do Antigo Testamento, que integra a seção do ketuvim e dos livros poéticos. É composto por 150 poemas e canções (151, segundo a Igreja Ortodoxa) escritos por diversos autores hebreus ao longo de séculos e compilados após o exílio babilônico.

É o maior livro de toda a Bíblia e reúne todos os temas centrais do Antigo Testamento, como a Criação, a identidade hebraica, a adoração e o caráter de Javé, a promessa do Messias e o Juízo FinalAcácio, José M. Antigo Testamento III - Livros Poéticos. 3 ed. CETADEB. p.41.Salmos, Edição Pastoral da Bíblia, acessado em 08 de agosto de 2010. Esses textos foram utilizados pelo antigo Israel como um hinário e, hoje em dia, são lidos e reverenciados tanto pelo Judaísmo e Cristianismo como também pelo Islamismo.

Os poemas são organizados de maneira temática, de modo a dividir o livro em cinco partes: o Livro 1, do salmo 3 ao 41, com foco na fidelidade à Deus; o Livro 2, do salmo 42 ao 72, com foco na esperança messiânica; o Livro 3, do salmo 73 ao 89, com foco na esperança de restauração após o exílio; o Livro 4, do salmo 90 ao 106, com foco na soberania de Deus sobre toda a criação; e o Livro 5, do salmo 107 ao 150, com foco na adoração a Deus (os salmos 1 e 2 servem de introdução).

Origens thumb|left|Leitura do livro completo dos Salmos A autoria da maioria dos salmos é atribuída ao rei Davi, que teria escrito pelo menos 74 poemas. Asafe é considerado o autor de 12 salmos. Os filhos de Corá escreveram em torno de nove salmos e o rei Salomão ao menos dois. Hemã, com os filhos de Corá, bem como Etã e Moisés, escreveram no mínimo um cada. Todavia, 51 salmos seriam tidos de autoria desconhecida.

O período em que os salmos foram compostos varia muito, representando um lapso temporal de aproximadamente um milênio, desde a data aproximada de 1440 a.C., quando houve o êxodo dos Israelitas do Egito até o cativeiro babilônico, sendo que muitas vezes esses poemas permitem traçar um paralelo com os acontecimentos históricos, principalmente com a vida de Davi, quando, por exemplo, havia fugido da perseguição promovida pelo rei Saul (Salmos 18, 52, 54) e de seu próprio filho Absalão (Salmo 3) ou quanto ao arrependimento pelo seu pecado com Bate-Seba (Salmo 51).

Poemas de louvor, os salmos foram inicialmente transmitidos através da tradição oral e a fixação por escrito teve lugar, sobretudo através do movimento de recolha das tradições israelitas, iniciado no exílio babilônico pelo profeta Ezequiel (séculos VII-VI a.C.). Como tal, muitos destes textos são muito anteriores, sendo bastante difícil a sua crítica do ponto de vista literário estritos. Ainda assim, tendo em conta a comparação com a literatura poética coeva do Egito, da Assíria e da Babilônia, pode-se afirmar que estes poemas de Israel são um dos expoentes da poesia universal.

Os salmos, em termos de conteúdo, possuem estrutura coerente, o que também pode ser observado em passagens do Antigo Testamento e em obras literárias do Oriente Médio da Antiguidade.Mackenzie, John L. Dicionário Bíblico. São Paulo, Paulinas, 1983, p.829.

Tal como em outras tradições culturais, também a poesia hebraica andava estreitamente associada à música. Assim, embora não seja de se excluir para os salmos a possível recitação em forma de leitura, "todavia, dado o seu gênero literário, com razão são designados em hebraico pelo termo Tehillim, isto é, «cânticos de louvor», e, em grego psalmói, ou seja, «cânticos acompanhados ao som do saltério», ou ainda: oração cantada e acompanhada com instrumentos musicais.

De fato, todos os salmos possuem um certo caráter musical, que determina o modo como devem ser executados. E assim, mesmo quando o salmo é recitado sem canto, ou até individualmente ou em silêncio, a sua recitação terá de conservar este caráter musical

Os salmos acabaram por constituir um hinário litúrgico para uso no templo de Jerusalém, do qual transitaram quer para a sinagoga judaica, quer para as liturgias cristãs.

Na Igreja Católica, os 150 salmos formam o núcleo da oração cotidiana: a chamada Liturgia das Horas, também conhecida por Ofício Divino e cuja organização remonta a Bento de Núrsia. A oração conhecida por rosário, com as suas 150 Ave Marias, formou-se por analogia com os 150 salmos do ofício ritual católico. Outra forma muito popular é organizar listas de Salmos por finalidade, isto é, salmos para serem rezados em determinadas ocasiões como festas, doenças, colheitas ou funerais. Historicamente, a primeira destas listas foi organizada a partir da prática de Arsênio da Capadócia, que rezava um salmo como uma oração com certas finalidades.

Os salmos são também poesia, que é a forma mais apropriada para expressar os sentimentos diante da realidade da vida permeada pelo mistério de Deus, o aliado que se compromete com o homem para com ele construir a história. É Deus participando da luta pela vida e liberdade. Dessa forma, os salmos convidam para que também nós nos voltemos com atenção para a vida e a história. Nelas descobrimos o Deus sempre presente e disposto a se aliar, para caminhar na luta pela construção do mundo novo.

Perspectiva teológica

Os salmos supõem o contexto maior de uma fé que nasce da história e constrói história. Seu ponto de partida é o Deus libertador que ouve o clamor do povo e se torna presente, dando eficácia à sua luta pela liberdade e vida (Ex 3,7-8). Por isso, os salmos são as orações que manifestam a fé que os pobres e oprimidos têm no Deus aliado. Como esse Deus não aprova a situação dos desfavorecidos, o povo tem a ousadia de reivindicar seus direitos, denunciar a injustiça, resistir aos poderosos e até mesmo questionar o próprio Deus. São orações que nos conscientizam e engajam na luta dentro dos conflitos, sem dar espaço para o pieguismo, o individualismo ou a alienação.

O livro dos Salmos é um dos mais citados pelos escritores do Novo Testamento. O próprio Jesus orava os salmos, e sua vida e ação trouxeram significado pleno para o sentido que essas orações já possuíam. Depois dele, os salmos se tornaram a oração do novo povo de Deus, comprometido com Jesus Cristo para a transformação do mundo, em vista da construção do Reino.

Vários salmos são considerados pelos teólogos como proféticos ou messiânicos, pois referem-se à vinda do Cristo e, por isso, existem muitas citações de versos dos salmistas no Novo Testamento com o propósito de provar o cumprimento das profecias na pessoa de Jesus. No catolicismo os salmos são também fonte teológica para algumas devoções, como é o caso da devoção de Maria como Rainha dos Ceús, que considera o Salmo 45 (44) como profético (cc. Lucas 1, 48).

O Salmo 150 costuma ser considerado, embora não necessariamente, também uma "doxologia", ou arremate de louvor do Livro dos Salmos.

Perspectiva ateológica

Sob outro ponto de vista, de cunho ateológico, pode-se considerar os salmos, no que tange ao seu pretendido aspecto profético, como inseridos num conjunto bíblico de asserções proféticas, que expressam mais o desejo de salvação do humano diante da precariedade, incerteza e incompreensibilidade da vida e do mundo do que propriamente predições exatas satisfatoriamente justificadas .

De um ponto de vista ateológico crítico, defende-se que a verificação de uma suposta cadeia de cumprimentos proféticos na Bíblia se deve não a uma verificação objetiva de uma verdade histórica justificada com métodos rigorosos, mas sim ao desejo de busca de um sentido último da vida e do mundo, pelo qual projeta-se na sucessão textual de supostas profecias uma ânsia de sentido pela história de salvação do humano .

Em suma, do ponto de vista ateológico, fé nas profecias (e na doutrina religiosa em geral) é não apenas convicção subjetiva desprovida de provas objetivas, mas também uma modalidade de auto-engano psico-social, pelo qual se controla e arrefece as tensões desequilibrantes decorrentes da angústia diante da incompreensibilidade irremediável e das incertezas e dores da vida e do mundo .

Traduções e variações miniaturadaimagem|200px|Selo israelense de 1968 citando o versículo 6 do Salmo 122 ("Orai pela paz de Jerusalém") escrito em hebraico e inglês O livro dos Salmos chegou até nós em sua versão grega (Septuaginta) e hebraica. A versão grega deste livro, como de toda a Bíblia, foi utilizada pelos cristãos convertidos e por São Jerônimo na confecção de sua edição "Vulgata", tradução latina dos livros inspirados. Na Reforma Protestante é que se buscaram os manuscritos originais hebraicos para fazer novas traduções e foi constatada a diferença que havia entre as duas traduções: as versões, apesar de terem o texto completo, diferem na numeração de capítulos e versículos.

Versículos A versão grega costuma apresentar, na maioria dos salmos, um versículo de introdução, em que são atribuídas autorias e apontados instrumentos que deveriam ser utilizados ao se cantar os textos. Este versículo faz com que a versão hebraica tenha, nesses casos, um versículo a menos, uma vez que essas informações não são consideradas inspiradas por essa versão.

Capítulos Em suma, pode-se dizer que entre os Salmos 10 e 148, a numeração da Bíblia Hebraica está uma unidade à frente da numeração seguida na Septuaginta e na Vulgata, que juntam: os Salmos 9 e 10 no Salmo 9 (da Septuaginta/Vulgata), e, os Salmos 114 e 115 no Salmo 113 (da Septuaginta/Vulgata); e dividem: o Salmo 116 nos Salmos 114 e 115 (da Septuaginta/Vulgata), e, o o Salmo 147 nos Salmos 146 e 148 (da Septuaginta/Vulgata).Bíblia de Jerusalém, Nova Edição Revista e Ampliada, Ed. de 2002, 3ª Impressão (2004), Ed. Paulus, São Paulo, p 858

A tabela abaixo exibe uma comparação: .Mackenzie, John L. Dicionário Bíblico. São Paulo: Paulinas, 1983, p.827 Texto hebraico   Texto grego 1 a 8   1 a 8 9 e 10   9 11 a 113   10 a 112 114 e 115   113 116   114 e 115 117 a 146   116 a 145 147   146 e 147 148 a 150   148 a 150

Aplicação No Judaísmo e no Protestantismo, a numeração usada para os Salmos sempre foi a de tradição original hebraica.

O Catolicismo, considerando oficial a tradução da "Vulgata", por muito tempo usou a numeração grega em suas Bíblias. Porém, estudiosos consideram essa numeração errada, uma vez que certos salmos, que parecem ser um só, estão separados, enquanto outros, de assuntos bem diferentes, estão juntos. Vendo que a Vulgata era falha ao se basear somente num texto (Septuaginta), e no ínterim de novas descobertas das Escrituras (Manuscritos do Mar Morto), a Igreja permitiu a tradução das Escrituras diretamente dos originais (Constituição Dogmática Dei Verbum) e promoveu uma nova tradução e revisão da Bíblia ("Neovulgata"), que, desta vez, trouxe a numeração dos salmos a partir da versão hebraica, mas não resolveu a questão dos versículos introdutórios. A despeito desta nova tradução católica, é possível encontrar Bíblias católicas que ainda se baseiam na Vulgata, por seu tradicionalismo, como é o caso da Bíblia Sagrada (editora Ave Maria).

Salmos proféticos O Salmo 91 e muitos outros são considerados proféticos ou messiânicos pela Teologia cristã, pois apontam para a vinda do Messias, sendo com frequência citados no Novo Testamento da Bíblia com o objetivo de identificar Jesus Cristo como o cumpridor da promessa. No Salmo 2, que fala do reinado do Ungido de Deus, verificam-se algumas citações no livro de Atos e na Epístola aos Hebreus. Já o Salmo 8 que fala da glória divina e da dignidade do Filho do Homem é citado no Evangelho segundo Mateus, bem como em algumas epístolas de Paulo. Por sua vez, o Salmo 16 é uma referência à ressurreição de Cristo em seu verso 10, quando Davi assim profetiza: "Pois não deixarás a minha alma na morte, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção."