Jean-Jacques Rousseau (Genebra, 28 de junho de 1712 – Ermenonville, 2 de julho de 1778) foi escritor, filósofo e músico. Sua mãe morreu poucos dias depois de seu nascimento, e ele cresceu entre a casa do pai relojoeiro e a de parentes, antes de sair de Genebra ainda adolescente. Os livros lhe deram projeção por toda a Europa, mas também o puseram em conflito com autoridades religiosas e civis na França e em Genebra. As mudanças frequentes de residência vieram acompanhadas de uma desconfiança cada vez mais intensa em relação às pessoas à sua volta.
Rousseau procurou primeiro abrir caminho na música. Compôs a ópera Le Devin du village (1752) e, a convite do amigo Denis Diderot, escreveu os verbetes musicais da Enciclopédia. Embora participasse do meio intelectual do Iluminismo, afastou-se do materialismo ateu de Diderot e deu ao sentimento e à consciência moral um lugar que o distinguia de Voltaire. Afirmou a existência de Deus a partir da experiência da natureza e do senso íntimo do bem e do mal, expondo sua crença na Profissão de fé do vigário saboiano, incorporada ao Emílio.
O Discurso sobre as Ciências e as Artes, premiado em 1750 e publicado em 1751, trouxe-lhe fama. No Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens (1755), elaborou uma história hipotética de como as relações sociais poderiam gerar desigualdade e corromper a bondade natural do ser humano. Em Do Contrato Social (1762), examinou as condições de uma comunidade justa, regida por leis nascidas da vontade geral do povo e adequadas à história e aos costumes de cada corpo político. Atribuiu a soberania ao povo e defendeu sua participação direta na legislação, embora preferisse um governo executivo exercido por uma aristocracia eleita, sem caráter hereditário. Leu autores antigos, sobretudo Plutarco, e dialogou com filósofos e juristas de seu tempo. Criticou em especial os sistemas de Thomas Hobbes e John Locke que, a seu ver, assentavam a política no interesse e na dependência econômica.
O romance epistolar Júlia ou A Nova Heloísa (1761) levou a um público amplo o conflito entre o amor e as diferenças de condição social. Convencido de que as pessoas podem se aperfeiçoar, Rousseau apresentou em Emílio, ou Da Educação (1762) um programa que acompanha a criança do berço à idade adulta. Seus adversários lhe cobraram então a decisão de entregar aos Enfants-Trouvés os cinco filhos que, segundo seu próprio relato, teve com Thérèse Levasseur, com quem conviveu por mais de trinta anos e cuja união reconheceu publicamente em 1768. Condenado pelas autoridades francesas e impedido de permanecer em Genebra e em Berna, refugiou-se na Inglaterra em 1766. Lá trabalhou em As Confissões, publicado depois de sua morte, no qual procurou contar sua formação intelectual e afetiva, inclusive episódios de que se envergonhava. Nos últimos anos, voltou-se à observação de seus sentimentos e ao prazer de caminhar pela natureza em Os Devaneios do Caminhante Solitário.
Seu túmulo em Ermenonville atraiu visitantes franceses, prussianos e ingleses logo depois de sua morte. Durante a Revolução Francesa, suas ideias sobre a soberania popular, as leis e os vínculos entre os cidadãos foram retomadas em debates políticos. Seus restos mortais foram levados ao Panteão de Paris em 1794. Sua escrita e suas reflexões sobre política, educação e a passagem da natureza à cultura alcançaram leitores como Immanuel Kant e, mais tarde, estudiosos da antropologia.
Biografia Família e infância miniatura|esquerda|upright=0.8|alt=Página manuscrita do registro de batismo de 1712.|O registro do batismo documenta as origens genevenses de Rousseau; nele, o nome do avô David aparece por engano no lugar do pai, Isaac.
A família de Rousseau era originária de Montlhéry, perto de Étampes, ao sul de Paris.A árvore genealógica de Rousseau é apresentada em . Seu tetravô Didier Rousseau (1530–1580/84) deixou a cidade para escapar à perseguição dos protestantes. Estabeleceu-se em Genebra em 1549 e abriu uma hospedaria. O neto de Didier, Jean Rousseau, e o filho deste, David Rousseau (1641–1738), avô do filósofo, foram relojoeiros, profissão então respeitada e lucrativa.
miniatura|direita|upright=0.8|alt=Gravura de um menino lendo ao lado de um relojoeiro que trabalha junto à janela.|A leitura feita ao pai, relojoeiro, marcou a infância de Rousseau; representação de Maurice Leloir (1889).
Jean-Jacques Rousseau nasceu em 28 de junho de 1712, na casa dos pais, na Grande-Rue de la Boulangerie, na cidade alta de Genebra. Era filho do relojoeiro Isaac Rousseau (1672–1747) e de Suzanne Bernard (1673–1712), filha do relojoeiro Jacques Bernard e sobrinha — não filha, como dizem As Confissões — de um pastor genebrino que a adotou e lhe legou sua fortuna. Isaac e Suzanne casaram-se em 1704. As famílias já se haviam unido em 1699, quando Gabriel Bernard, irmão de Suzanne, se casara com Théodora Rousseau, irmã de Isaac. O primeiro filho do casal, François, nasceu em 15 de março de 1705. Isaac deixou a mulher e o recém-nascido em Genebra para trabalhar como relojoeiro em Constantinopla; voltou seis anos depois, em 1711. Suzanne morreu de febre puerperal em 7 de julho de 1712, nove dias após o nascimento de Jean-Jacques.
miniatura|esquerda|upright=0.8|alt=Gravura de um menino protegendo uma planta diante de um homem com machado.|A estadia com o pastor Lambercier em Bossey marcou a educação infantil de Rousseau; ilustração de 1912.
Jean-Jacques foi criado inicialmente pelo pai e pela tia Suzon na casa onde nasceu. Ainda durante a infância do menino, Isaac vendeu a residência na cidade alta e se mudou para Saint-Gervais, bairro popular da cidade baixa que tinha uma tradição de reivindicações sociais apoiada também em leituras de história e política. A partir dos sete anos, Jean-Jacques lia para o pai livros da biblioteca familiar, entre eles obras de Tácito, Plutarco e Hugo Grócio.
Naquela época, uma pequena elite aristocrática governava Genebra e procurava ampliar seu poder, explorando as divisões entre os artesãos com estatuto de «cidadãos»Em Genebra, «cidadão» designava uma condição jurídica que conferia direitos políticos; muitos moradores não podiam participar das decisões do governo. e os «simples habitantes», que se tornavam maioria. Rousseau reivindicaria com orgulho o título de cidadão e sua ligação com os artesãos.Launay cita, como exemplo, a dedicatória de Rousseau à República de Genebra, na qual ele defende a instrução e o discernimento dos trabalhadores e habitantes da cidade. Ver À la République de Genève, p. 210; . Após uma altercação, Isaac Rousseau refugiou-se em Nyon, no cantão de Vaud, em 11 de outubro de 1722, para escapar à justiça. Não voltou a Genebra, mas manteve contato com os filhos; Jean-Jacques visitava-o em Nyon e compartilhava com ele o gosto pelos livros. Isaac confiou os filhos ao cunhado Gabriel Bernard, funcionário das fortificações que também morava em Saint-Gervais.Gabriel Bernard era irmão de Suzanne e marido de Théodora, irmã de Isaac.
Gabriel Bernard enviou Jean-Jacques e seu primo Abraham Bernard para morar com o pastor Lambercier em Bossey, ao pé do Salève, ao sul de Genebra. Rousseau passou ali dois anos (1722–1724). Em As Confissões, ele associa o despertar de sua sexualidade a uma surra que recebeu da irmã do pastor, episódio depois interpretado por estudiosos à luz do sadomasoquismo. O período, de que guardava boas lembranças, terminou quando foi acusado de quebrar um pente e mandado de volta ao tio; permaneceu convencido de que fora acusado injustamente.
O tio primeiro o pôs como aprendiz de um escrivão. Diante do desinteresse do menino, enviou-o ao gravador Abel Ducommun, com quem assinou um contrato de aprendizagem de cinco anos em 26 de abril de 1725. Rousseau descreveu o mestre como tirânico e a disciplina como severa. Passou a cometer pequenos furtos com colegas, justificando-os como uma forma de «compensação», e a gravar medalhas para o grupo; sobretudo, lia sempre que o mestre se ausentava. Em 14 de março de 1728, depois de três anos de aprendizagem, voltou tarde de um passeio e encontrou fechados os portões de Genebra. Receando outra surra, decidiu fugir, após se despedir do primo Abraham. Ainda não tinha dezesseis anos.
Madame de Warens e a conversão ao catolicismo miniatura|direita|upright=0.8|alt=Jovem com uma trouxa no ombro conversa com uma mulher diante de uma casa.|O encontro com Madame de Warens em Annecy iniciou uma relação decisiva para a formação de Rousseau; pintura de Charles de Steuben (1830).
Após alguns dias de caminhada, Rousseau procurou o padre Benoît de Pontverre, de Confignon, porque precisava de alimento. O padre o encaminhou à baronesa Françoise-Louise de Warens, natural de Vevey, que tinha 28 anos, era divorciada, havia se convertido ao catolicismo e acolhia candidatos à conversão. Rousseau afeiçoou-se a ela, que se tornaria sua protetora. A baronesa o enviou a Turim, ao hospício dos catecúmenosCatecúmenos eram pessoas que se preparavam para receber o batismo e entrar na Igreja Católica. O hospício também lhes oferecia abrigo durante essa preparação. de Spirito Santo, onde chegou em 12 de abril de 1728. Embora afirmasse nas Confissões ter resistido à conversão, parece ter se adaptado rapidamente e foi batizado em 23 de abril. Passou alguns meses em Turim, vivendo de trabalhos ocasionais como criado e secretário, além da ajuda de aristocratas e religiosos. Quando trabalhava para a condessa de Vercellis, roubou uma fita pertencente à sobrinha dela e culpou a jovem cozinheira Marion, que perdeu o emprego.Les Confessions, II, p. 80.
Sem perspectiva de melhorar sua condição em Turim, Rousseau deixou os protetores e voltou a Annecy em junho de 1729 para reencontrar Madame de Warens. Tímido e sensível, encontrou nela a afeição que procurava: ela o chamava de «meu pequeno»; ele a chamava de «Maman» («Mamãe») e passou a ajudá-la em tarefas variadas. Nas Confissões, afirmou que então não sentia desejo sexual por ela, embora praticasse a masturbação.Les Confessions, III, p. 106. Como se interessava por música, Madame de Warens incentivou-o a estudar com o mestre de capela Le Maître em outubro de 1729. Numa viagem a Lyon, Rousseau abandonou-o, assustado, durante uma crise de epilepsia. Sem encontrar Madame de Warens, passou cerca de um ano percorrendo a Suíça e começou a ensinar música em Neuchâtel em novembro de 1730. Em abril de 1731, em Boudry, tornou-se intérprete de um falso arquimandrita, logo desmascarado.
miniatura|esquerda|upright=0.8|alt=Um homem e uma mulher caminham juntos pelo campo.|Madame de Larnage participou da descoberta da vida amorosa por Rousseau durante sua viagem a Montpellier; litografia de Paul Gavarni.