é a denominação atribuída às espécies de primatas esprepsirrinos que pertencem à superfamília Lemuroidea ou infraordem Lemuriformes, a depender do critério de classificação. Todas as espécies conhecidas (tanto as viventes quanto as extintas) são endêmicas da ilha de Madagascar (África), no que apenas duas também ocorrem em Comores — provavelmente introduzidas por seres humanos. Apesar de apresentarem uma limitada distribuição geográfica, os lêmures configuram-se como um grupo morfologicamente diversificado, ocupando uma grande variedade de nichos ecológicos. Expressam hábito arborícola, sendo que as espécies, geralmente, são diurnas ou crepusculares. Desse modo, correspondem a um clado de expressiva diversidade dentro do grupo dos primatas, havendo cinco famílias extantes: Cheirogaleidae, Lemuridae, Lepilemuridae, Indriidae e Daubentoniidae, que denotam um total de 15 gêneros e cerca de 100 espécies (por volta de 15% das espécies atuais de primatas); além de três famílias levadas à extinção pela ação antrópica: Archaeolemuridae, Palaeopropithecidae e Megaladapidae.

Filogenia e taxonomia

Lêmures são primatas estrepsirrinos extremamente diversificados em termos ecológicos e fenotípicos que pertencem à superfamília Lemuroidea (ou infraordem Lemuriformes, a depender da classificação). Todas as espécies conhecidas, tanto as fósseis quanto as extantes, são endêmicas de Madagascar e Comores (África) (nessa última, provavelmente levadas por humanos). Não há consenso nos estudos filogenéticos sobre as relações de parentesco entre as diferentes linhagens (famílias) de lêmures entre si, sendo as hipóteses ainda muito controversas. Não obstante, tem-se bem estabelecido que esses organismos configuram um grupo monofilético, irmão do clado formado pelos lorisídeos e galagonídeos (superfamília Lorisoidea ou infraordem Loriformes, a depender da classificação). Ademais, a posição basal dos Daubentoniidae (aie-aie como o único representante vivo) é, frequentemente, suportada. Desse modo, os Lemuroidea e Lorisoidea são agrupados em um clado de grau hierárquico superior, a infraordem Lemuriformes. Dentre as diversas características compartilhadas pelos Lemuriformes, pode-se destacar a projeção dos dentes caninos e incisivos, que são justapostos, formando um pente dental; além de garras, em vez de unhas, no segundo dedo (membros inferiores). Essas estão associadas ao hábito de catação apresentado por esses organismos. Ademais, características gerais compartilhadas também incluem a presença de uma barra pós-orbital e uma membrana externa da narina que é conectada ao lábio superior.

miniaturadaimagem|Crânio de Megaladapsis madagascariensis (Megaladapidae).|230x230px

De expressiva biodiversidade no grupo dos primatas (correspondendo a mais de 15% das espécies viventes, restritas a uma área menor que 0,4% das superfícies terrestres), os lêmures atuais estão classificados em cinco famílias: Cheirogaleidae, Lemuridae, Lepilemuridae, Indriidae e Daubentoniidae, sendo que essas se ramificam em 15 gêneros e cerca de 100 espécies. O tamanho dessas é extremamente variável, desde os lêmures-rato, com apenas 23–29 cm (60 g) (menor primata vivo), até os indris, com 64–72 cm (10 kg). À época da colonização de Madagascar pelos seres humanos (c. 2000 AP), a região apresentava uma diversidade faunística superior à atual, que começou a declinar a partir de então. Pelo menos 17 espécies de lêmures (de 9 gêneros) foram extintas em decorrência da ação antrópica — e as famílias Archaeolemuridae, Palaeopropithecidae e Megaladapidae desapareceram. Como muitas dessas espécies eram maiores que as viventes e algumas compunham a megafauna da região, receberam a alcunha de lêmures-gigantes. Os lêmures-preguiça (Palaeopropithecidae), por exemplo, poderiam apresentar uma massa corpórea de cerca de 160 kg; e os lêmures-coala (Megaladapidae) chegavam até 88 kg.

Por meio de evidências genéticas e morfológicas, estima-se que a grande diversidade atualmente verificada de lêmures deriva de um evento de colonização de Madagascar por um primata ancestral há cerca de 55-60 milhões de anos (monofiletismo). Como esse evento parece ser ulterior à separação da ilha de outras massas continentais por milhões de anos, especula-se então que esse ancestral pode ter se estabelecido por meio de dispersão oceânica através do canal de Moçambique ou, até mesmo, por outro mecanismo biogeográfico. A partir disso, deve ter ocorrido processos de diversificação das linhagens, condicionadas, provavelmente, por um período de acentuadas mudanças climáticas e surgimento de florestas e pela colonização da ilha por outros mamíferos competidores, culminando com a atual ocupação ampla de nichos ecológicos.

Distribuição e hábitats esquerda|miniaturadaimagem|310x310px|Imagem de satélite da ilha de Madagascar (NASA - Setembro de 2003). Notar a perda de densidade de vegetação no eixo Leste-Oeste, indicando gradiente de umidade. Lêmures são, naturalmente, endêmicos de Madagascar, a leste da costa de Moçambique (África). Considerando essa localidade, apresentam grande dispersão e ocupam diversos nichos ecológicos, desde a leste, caracterizado por possuir alta umidade até oeste, caracterizado por ser mais árido; além do sul, que pode ser muito mais seco que a região oeste.

Possuem hábito arborícola, entretanto, algumas espécies podem passar algum tempo no solo. O maior número de lêmures é encontrado em regiões com árvores altas e locais beneficiados durante estações chuvosas, pois há maior disponibilidade de alimentos. Por possuir alta habilidade de adaptação às diferentes regiões onde vivem, durante o restante do ano, diversos lêmures deixam estas regiões e buscam outras, onde podem obter mais recursos.

Diversas características ambientais exercem influência na capacidade dos lêmures habitarem determinado local. Cada espécie responde de forma diferente a um mesmo ambiente, principalmente pelas diferenças geradas entre cada uma ao longo de sua história evolutiva. A distribuição e abundância do gênero de árvores Canarium possui grande relação com a distribuição de lêmures como o aie-aie (Daubentonia madagascariensis) (Daubentoniidae). De forma análoga, a presença de arbustos frutíferos, secreções de insetos e árvores produtoras de goma são de grande importância para lêmures onívoros.

Dentre as diversas espécies de lêmures existentes, cada uma possui particularidades no que diz respeito ao ambiente. A estrutura geral do hábitat, diversidade vegetal, aspectos físicos, geológicos e químicos, tipos e tamanho dos alimentos disponíveis geram nichos diferentes, que podem ser melhor explorados por determinadas espécies.

Um comportamento visto em diversos lêmures refere-se ao fato de que em área com média e baixa riqueza de espécies de árvores, eles selecionam partes da floresta que possuem maior diversidade de árvores, buscando alimento nestas áreas e retornando às áreas com menos riqueza, nas quais decidiram habitar. O aspecto favorável deste comportamento refere-se ao fato de que as sazonalidades nas regiões são protegidas, havendo alternância no local em que habitam conforme a disponibilidade de recurso. Entretanto, regiões nas quais há uma grande quantidade de diferentes espécies de lêmures e riqueza de recursos oriundos das árvores pode se tornar pobre nestes recursos devido a grande exploração destas diversas espécies, isso se deve ao fato de que muitos lêmures evitam o custo energético de viajar para outras localidades quando há abundância de recursos no local em que estão, entretanto, com as mudanças geradas nestes microhábitats, os animais se veem obrigados a migrarem.

Morfologia e anatomia miniaturadaimagem|270x270px|Representação de um esqueleto de indri (Indri indri) (Indriidae). Notar a proporção semelhante entre os membros torácicos e pélvicos, sendo estes pouco maiores que aqueles. A cauda é reduzida nesse gênero. Os lêmures, em comparação com os antropóides, são animais pequenos, com um cérebro proporcionalmente diminuto em relação a seu tamanho corporal. Em animais quadrúpedes (que é o caso dos lêmures), que correm e escalam, a proporção de tamanho entre os membros torácicos e pélvicos é semelhante, sendo os membros pélvicos pouco maiores que os torácicos. Possuem focinhos longos, com olhos em posição frontal e próximos um ao outro. A posição dos olhos nestes animais promoveu a melhor locomoção em ambientes tridimensionais, ou seja, a locomoção pelas árvores, e facilitam a precisão para coletar e capturar alimentos.esquerda|miniaturadaimagem|240x240px|Garra de catação no segundo dedo do pé em Varecia variegata (Lemuridae)miniaturadaimagem|Pente dental da mandíbula de Lemur catta (Lemuridae).|borda|esquerda|240x240px Possuem coxins palmares e plantares com muitos sulcos e estrias, como na maioria dos primatas. Os prossímios, exceto o aie-aie, possuem unhas nos dedos das mãos e na maioria dos dedos dos pés. O aie-aie possui garras em seus dedos, exceto no hálux, onde tem uma unha. Os demais prossímios de Madagascar possuem uma garra no segundo dedo do pé, que é usada para arranhar e, sobretudo, para a catação (para esse hábito, há ainda a presença de um pente dental). Esta conformação também ocorre em prossímios que não habitam Madagascar, sendo que a única exceção é o gênero Tarsius, que possui esta garra no segundo e terceiro dedo do pé. A maior parte dos primatas inferiores possui 5 dedos nos pés, sendo que o hálux encontra-se mais abduzido em relação aos demais, uma das adaptações dos primatas para agarrar-se em troncos de árvores.

Além disso, os dedos dos prossímios podem ser altamente especializados, como no caso do aie-aie. Este animal possui dedos alongados, principalmente o D3 e o D4, que ele utiliza para coletar alimento em troncos de árvores. Com o D3, ele bate levemente nas cascas e, assim, com suas longas e altamente móveis orelhas, este animal consegue detectar e localizar o alimento. Seus longos dedos com garras nas pontas agem como anzóis para retirar larvas de insetos e outros itens alimentícios escondidos dentro de aberturas nas cascas de árvores.

Nos primatas inferiores, o que inclui os lêmures, a área ao redor do nariz e dos lábios é chamada de rinário, uma área com pele úmida e sem pelos, com exceção do gênero Tarsius. Nesse, há uma área de tecido glandular ao redor do focinho, entre o nariz e o lábio inferior; contudo, não há a presença de lábios verdadeiros. O rinário é mais modificado em Galagonidae e no gênero Microcebus, sendo perdido na maioria dos primatas superiores..

A coloração e tamanho da pelagem são principalmente influenciados pelo ambiente. Colorações mais escuras costumam ser encontradas em primatas que vivem em áreas de florestas, enquanto o tamanho da pelagem costuma variar de acordo com o clima, sendo que, em climas mais frios, os pelos costumam ser mais longos e espessos. A ilha de Madagascar possui uma grande variação climática, o que resulta em padrões de pelagem diferentes. Lêmures que vivem em áreas ao leste, que são mais frias e com florestas, apresentam coloração escura na testa, nas margens da face e ao redor dos olhos, possuindo também uma pelagem mais longa nas orelhas. O comprimento dos pelos nas orelhas e nas margens da face também está relacionado com o tamanho do grupo, sendo que espécies que vivem em grupos maiores possuem pelos mais longos.

Reprodução miniaturadaimagem|250x250px|Lemur catta.