thumb|400px|direita|Prisão de Jesus, um dos eventos de Marcos 14.1597. Por Cavaliere d'Arpino, atualmente no Museumslandschaft Hessen Kassel em Hessel, Alemanha. Marcos 14 é o décimo quarto capítulo do Evangelho segundo Marcos, no Novo Testamento da Bíblia. Ele contém a unção de Jesus, a Última Ceia, Jesus profetizando que seria traído e de que Pedro o negaria por três vezes. Inicia-se então o relato da Paixão em Marcos, com os episódios da agonia no Getsêmani, a traição de Judas e a prisão de Jesus, seguidos do julgamento no Sinédrio, quando Pedro efetivamente nega conhecer Jesus.

Unção de Jesus

Marcos inicia este capítulo afirmando que faltavam apenas dois dias para a Páscoa judaica. Segundo ele, Jesus estava em Betânia na casa de Simão, o Leproso, que até então não havia sido citado. A relação entre os dois não é explorada, mas é claro que são amigos, pois a visita parece ser um encontro social. Marcos também afirma que os sumo sacerdotes procuravam prender Jesus "traiçoeiramente", mas que estavam determinados a não fazê-lo durante o festival da Páscoa, pois tinham medo de uma revolta popular. Mas seria exatamente neste dia que acabariam por prendê-lo.

Uma mulher de nome desconhecido, que tinha em mãos um jarro de um perfume "preciosíssimo", se aproxima, quebra o jarro e derrama o perfume na cabeça de Jesus. Alguns dos presentes, também não identificados, ficam furiosos com este aparente desperdício — o perfume valia 300 denários, que poderiam ser doados aos pobres — e ralham com a mulher. Jesus, porém, repreende os críticos: .

Este episódio marca o início da seção final de Marcos, que provavelmente terminava em (vide Mateus 16) no episódio no qual as duas Marias foram até o túmulo de Jesus para ungir seu corpo e descobrem que ele ressuscitou dos mortos.

Jesus novamente profetiza sua morte e esta é a última unção que receberá, vivo, morto ou ressuscitado. Marcos afirma em que seu livro é a "As Boas Novas [euangelión] de Jesus, o ungido [christós]"Miller 13. A mulher compreende a importância de Jesus melhor do que os que o acompanhavam na ocasião e, na narrativa de Marcos, seu ato é o sinal para o leitor de que, como Jesus está sendo ungido "para a sepultura", o complô contra sua vida terá sucessoBrown 145.

Em seguida, Marcos conta que Judas deixa os discípulos e vai até os sacerdotes para entregá-lo. Estes ficam tão agradecidos que pagam Judas pelo serviço, mas Marcos não informa a quantia, mas, em Mateus 26 (), aparece a quantia de trinta moedas de prata. Depois disso, Marcos diz que Judas passou a esperar pelo melhor momento para trair Jesus.

De acordo com João 12 (), os pés de Jesus foram ungidos por uma Maria no sábado anterior à Entrada triunfal de Jesus em Jerusalém e que foi Judas quem se irritou com a mulher que usou o precioso perfume, acusando-a de estar roubando do dinheiro destinado aos pobres. A Igreja Católica mantém que o incidente de fato ocorreu no sábado, como relata João, mas na casa de Simão, o Leproso. Apesar de Marcos não relatar os motivos de Judas, o fato de ele ter tomado a decisão logo depois da unção pode ser um sinal de uma relação de causa e efeito.

De acordo com Lucas 22 (), Satã se apossou de Judas e o obrigou a trair Jesus, um relato parecido com o de João. Lucas não relata uma unção em Betânia, mas afirma, em Lucas 7 (), que uma "pecadora" unge os pés de Jesus durante um jantar com um fariseu.

Última Ceia

No dia seguinte — tradicionalmente a Quinta-Feira Santa — os discípulos de Jesus perguntam se ele irá participar da ceia da Páscoa, uma celebração do dia que Deus poupou as moradias dos israelitas quando eles ainda eram escravos no Egito e levou os primogênitos de todos os egípcios, uma das dez pragas narradas em Êxodo 12 (). Esta festa é celebrada juntamente com a Festival dos Pães Ázimos.

Marcos afirma que era o primeiro dia do festival, no qual se sacrificavam os cordeiros pascais, o décimo-quarto dia do mês hebraico de Nisan, o que nos permite datar a morte de Jesus, no dia seguinte, o décimo-quinto e dia da Páscoa judaica (Pessach). Esta contagem dos dias estaria correta de acordo com a noção moderna de que o dia começa à meia-noite, mas o dia judaico começava no pôr-do-sol e, portanto, o jantar de Páscoa, deste ponto de vista, ocorria no dia seguinte ao sacrifício. Ou Marcos está utilizando uma forma de contar o tempo diferente da judaicaKilgallen 264 ou está novamente empregando a técnica narrativa que utilizou em , pela qual dois eventos temporalmente distintos são agrupadosBrown et al. 625. Todos os evangelhos sinóticos concordam com Marcos na cronologia. João 19 (), porém, afirma que a morte de Jesus ocorreu durante o sacrifício do cordeiro pascal, o que dataria sua morte no 14 de Nisan e, portanto, a Última Ceia não seria a ceia pascal.

O relato continua afirmando que dois discípulos não identificados foram até "a cidade", que, pelo contexto, pode ser Jerusalém ou Betânia. De acordo com a tradição, a Última Ceia foi realizada no Cenáculo no Monte Sião, no subúrbio de Jerusalém, uma área que abrigava uma grande comunidade de essênios, o que levou alguns acadêmicos a especular sobre a ligação entre Jesus e elesKilgallen 265. Jesus prevê que eles serão recebidos por um e que ele os levará à casa de um outro. Eles deverão dizer ao proprietário que "mestre pergunta" qual é o aposento que ele e seus discípulos cearão. Tudo ocorre como Jesus previu e eles . Jesus novamente demonstra seu controle sobre a situação ao prever o desenrolar dos acontecimentos. O dono da casa, por sua vez, parece conhecê-lo, pois "o mestre" faz sentido para ele, o que é uma indicação de que se tratava de um discípulo ou fiel.

Jesus e os doze apóstolos chegam já de noite segundo Marcos. Como o novo dia judaico começa no pôr-do-sol, já é Páscoa e trata-se da ceia pascal. No relato de Marcos, Jesus subitamente afirma que um deles o trairá, o que provoca uma grande comoção, cada um tentando dizer antes do outro que não era ele. "É um dos doze", diz ele, . Marcos não diz o nome do traidor. Em Mateus, Jesus confirma que é Judas depois que ele tenta negar. Em João, Jesus dá a Judas o pão, o sinal de que ele era o traidor, e pede que ele saia para traí-lo.

Depois, Jesus toma o pão e o divide, agradece e entrega os pedaços aos apóstolos dizendo: . Em seguida, toma o cálice de vinho, agradece e o passa por todos dizendo: .

Os discípulos em seguida cantam antes partir de volta para o Monte das Oliveiras, uma forma de agradecimento comum nas festividades da PáscoaKilgallen 268.

Em seguida, Marcos volta a relatar os eventos da ceia e afirma que Jesus previu que seria abandonado pelos apóstolos. "A todos vós serei pedra de tropeço", disse ele, "pois está escrito: ferirei o pastor e as ovelhas ficarão dispersas" (). Mas, logo depois, prometeu ir ter com eles na Galileia.

Pedro, indignado, afirma que jamais deixará Jesus, mesmo que os outros o façam, mas Jesus afirma que naquela mesma noite Pedro negará conhecer Jesus por três vezes antes do galo cantar de manhã duas vezes. Pedro se recusa a acreditar e diz que seguirá Jesus mesmo que isso signifique sua própria morte e os apóstolos fazem o mesmo.

Análise Marcos traz relata apenas a versão direta, sem explicações, da instituição da Eucaristia, prensada entre dois relatos de traição. Esta simplicidade pode ser um sinal de que o público esperado de Marcos já conhecia a história da Última Ceia com mais detalhes do que Marcos relataMiller 47. O relato de Mateus é quase idêntico, ao contrário de Lucas e João, que apresentam narrativas mais extensas.

O relato de João (em João 13 e 14) é o mais longo e concorda com Marcos nas profecias de traição e negação. Porém, além de não descrever um ritual eucarístico, João afirma que Jesus lavou os pés dos discípulos e traz muito mais detalhes sobre o que foi dito na ceia. Mas a principal diferença é o longo "Discurso de Adeus", que abrange os capítulos 15, 16 e 17 de João. thumb|400px|direita|Jesus rezando no Horto, um dos eventos em Marcos 14.1878. Por Vasily Perov..</small> Paulo também descreve a Última Ceia em I Coríntios 11 (), afirmando que Jesus partiu o pão e dividiu o vinho na noite de sua traição. Este é um dos poucos detalhes da vida de Jesus, com exceção de sua crucificação e ressurreição, que Paulo nos oferece em suas epístolas.

Jardim de Getsêmani

Depois da ceia, vão todos para o Getsêmani (), provavelmente um bosque (ou "horto") de oliveiras localizado no limite do vale do Cédron, na região leste de Jerusalém, onde Jesus pede ao grupo que espere por ele enquanto ele realiza suas orações. De acordo com João e Lucas, Jesus e os discípulos frequentemente se encontravam ali. Marcos não relata se Judas estava ou não com o grupo neste ponto, mas, de acordo com João, Judas havia se separado deles a pedido de Jesus. Jesus leva consigo Pedro, Tiago e João e pede-lhes que fiquem alertas, pois . Em sua oração, Jesus pede a Deus que o poupe do que está por vir:

Ele menciona o cálice que bebeu em Marcos 10 (). Depois de prever sua morte por três vezes — Marcos 8 (), Marcos 9 () e Marcos 10 () — Jesus agora afirma querer viver, mas, logo em seguida, pede a Deus que faça o que desejar, submetendo-se à vontade divina. Jesus revela total confiança em Deus, primeiro ao afirmar que Deus pode alterar seus planos mesmo neste ponto se desejar e, depois, ao afirmar que o que quer que seja que Deus decida é a decisão corretaKilgallen 270.

Quando ele volta aos companheiros, encontra-os dormindo e pergunta como é possível que eles não consigam permanecer acordados sequer por uma hora, pedindo-lhes em seguida que rezem para evitar a "tentação". Ele retorna às suas orações e pede a Deus o mesmo, somente para voltar e encontrá-los novamente dormindo. Os três acordam e, sem dizer uma palavra, vêem Jesus partindo novamente. Quando retorna, Jesus pede que se levantem .

Judas chega com uma multidão de pessoas enviada pelos sumo sacerdotes, escribas e anciãos, mas Marcos não revela quem exatamente estava ali, ao passo que, de acordo com João, estavam ali soldados e "homens do Sinédrio". Judas se aproxima e dá um beijo em Jesus, um ato que, segundo Marcos, era o sinal pré-acordado entre o traidor e os que vieram prender Jesus. Jesus é capturado e um dos discípulos, cujo nome Marcos não revela, puxa sua espada e ataca um dos homens do sumo sacerdote, cortando-lhe fora uma orelha. Mateus e Lucas também não revelam o nome dele, mas João afirma que foi Pedro e conta ainda que o homem era um criado do sumo sacerdote Caifás chamado Malco. Segundo Lucas, Jesus cura o homem. Todos os evangelhos, com exceção de Marcos, afirmam que Jesus pede aos seus discípulos que não resistam à sua prisão.

Apesar de todos os discípulos terem jurado jamais deixá-lo, . Marcos relata apenas que um jovem discípulo, vestindo nada mais do que um lençol, foi agarrado pela multidão, mas conseguiu se desvencilhar e fugiu nu. Este misterioso incidente aparece em apenas em Marcos e diversas teorias já surgiram sobre quem seria este discípulo. É possível que Marcos esteja falando de si próprio ou que seja o homem mencionado no controverso Evangelho Secreto de Marcos ou ainda o homem de roupas brancas encontrado no túmulo vazio de JesusMiller 48. Alguns defendem que trata-se nada mais do que uma metáfora para os discípulos, que estariam agora nus no mundo depois de abandonarem Jesus.

Judas não aparece mais no relato de Marcos. Segundo Mateus 27, ele se enforcou depois de tentar devolver o dinheiro aos sacerdotes. De acordo com Atos 1, Judas usou este dinheiro para comprar um campo (conhecido até hoje como Campo de Sangue), onde "caiu" e morreu.

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