Feminismo islâmico é uma vertente do feminismo preocupada com o papel das mulheres no islamismo. Essa ramificação luta pela plena igualdade entre todos os muçulmanos, independentemente do sexo, na vida pública e privada. As feministas islâmicas defendem os direitos das mulheres, a igualdade de gênero e a justiça social fundamentadas em uma estrutura islâmica. Apesar de suas raízes no islã, os pioneiros do movimento também têm utilizado discursos feministas seculares, ocidentais ou de outras fontes não-muçulmanas e reconheceram o papel do feminismo islâmico como parte de um movimento feminista global e integrado.
Os defensores do movimento procuram destacar o que consideram os ensinamentos profundamente enraizados de igualdade na religião muçulmana e incentivar um questionamento da interpretação patriarcal do ensino islâmico através do Alcorão (livro sagrado), dos hadith (ditos de Maomé) e da sharia (lei islâmica), em direção à criação de uma sociedade mais igualitária e justa. O islamismo nunca questionou a possibilidades das mulheres darem assistência aos homens na guerra e nem negou a elas o direito de irem para o combate em caso de emergência.(Maulana Muhammad Ali, Introduction to the Study of the Holy Qur-an, op.cit., p. 132.). O Islã tem uma longa tradição de participação de mulheres na fé, sendo que uma das primeiros teólogas da religião foi Aixa, uma das esposas de Maomé.Fatima Mernissi, The Forgotten Queens of Islam, Minneapolis, Minnesota: University of Minnesota Press, 1993; pp. 66-69.
Países de maioria muçulmana produziram várias chefes de Estado, primeiras-ministras e secretárias de Estado, como Lala Shovkat do Azerbaijão, Benazir Bhutto do Paquistão, Mame Madior Boye de Senegal, Tansu Çiller da Turquia, Kaqusha Jashari de Kosovo e Megawati Sukarnoputri da Indonésia. Bangladesh foi o segundo país do mundo a ter dois mandatos seguidos de mulheres (Khaleda Zia e Sheikh Hasina), que governam o país como primeiras-ministras desde 1991, o que pode fazer de Bangladesh um exemplo único na história das repúblicas do mundo. Contudo, as mulheres, em geral, nesses países,a maior parte considerados os piores para se ser mulher, continuam a ser cidadãs de classe inferior, vítimas de abusos. A feminista muçulmana Fatima Sadiqi nota que o facto de haver mulheres na política raramente significa avanços nos direitos femininos.
Definição miniatura|250px|esquerda|Aixa e Ali na Batalha do Camelo (Iluminura de 1571)
As feministas islâmicas interpretam os textos religiosos numa perspectiva feminista. Podem ser vistas como um ramo de intérpretes que fundamentam os seus argumentos no Islão e nos seus ensinamentos e procuram a plena igualdade entre mulheres e homens na esfera pessoal e pública, e podem incluir não-muçulmanos no discurso e no debate.
O termo parece ter sido usado pela primeira vez em 1990; no entanto, parece óbvio que o feminismo islâmico e/ou em territórios islâmicos existiu muito antes de lhe ser dado nome.
A expressão "feminismo muçulmano", segundo Valentine Moghadam, foi cunhada por feministas iranianas expatriadas no início dos anos 90 para descrever um novo discurso de mulheres crentes na República Islâmica do Irão, que publicaram suas concepções sobre os papéis das mulheres na sociedade numa revista, a Zanan (Mulheres), que iniciou um debate em torno de várias questões, tais como: O Islão é compatível com o feminismo? É possível falar de feminismo dentro de um discurso muçulmano? O feminismo muçulmano é uma alternativa ao fundamentalismo, ou é uma ameaça aos discursos e movimentos seculares? No Irão, Egipto, Marrocos e Iémen, as feministas muçulmanas têm atacado a lei da família muçulmana. Fatima Mernissi, uma das figuras de proa do movimento, afirma que a imagem da mulher muçulmana "silenciosa, passiva e obediente" nada tem a ver com a mensagem do Islão; na sua opinião, os homens muçulmanos conservadores manipularam os textos do Alcorão para preservar o sistema patriarcal e impedir a libertação sexual das mulheres, impôr-lhes o véu e restringi~las.
Margot Badran, do Centro Príncipe Alwaleed Bin Talal de Entendimento Muçulmano-Cristão, argumenta que o Islão e o feminismo não são mutuamente exclusivos e que o "feminismo islâmico, que deriva sua compreensão e mandato do Alcorão" , busca direitos e justiça para as mulheres e para os homens, na totalidade de sua existência. "
História Durante os primeiros dias do Islão no século VII , mudanças nos direitos das mulheres afectaram o casamento, o divórcio e a herança. Vários historiadores e estudiosos defendem uma melhoria geral do estatuto das mulheres nas sociedades árabes, incluindo a proibição do infanticídio feminino, embora vários outros acreditem que o infanticídio era praticado tanto antes como depois do Islão. Outros estudiosos apresentam argumentos contrários; Leila Ahmed considera que encarar a proibição de infanticídio como prova de melhoria geral da posição feminina é ao mesmo tempo impreciso e simplista. Ela comenta que não existia uma, mas sim várias (pré-islâmicas) situações da mulher conforme as diferentes tribos.
William Montgomery Watt afirma que Maomé, no contexto histórico da sua época, pode ser visto como uma figura que testemunhou em nome dos direitos das mulheres e melhorou consideravelmente as coisas. Watt escreve: "Na época em que o Islão começou, as condições das mulheres eram terríveis - não tinham direito à propriedade, eram supostamente propriedade do homem, e se o homem morresse, tudo ia para os seus filhos." Maomé, ao "instituir os direitos de propriedade, herança, educação e divórcio, deu às mulheres certas garantias básicas" .
Entre os críticos feministas da noção de que o Islão melhorou significativamente o estatuto das mulheres está Leila Ahmed, que afirma que os registos islâmicos mostram que pelo menos algumas mulheres na Arábia pré-islâmica herdaram riqueza, geriram negócios, escolheram os seus próprios maridos e trabalharam em profissões respeitadas, como Khadija. Ahmed também tem a certeza de que só, porque a Arábia pré-islâmica era matrilinear, não significa que as mulheres fossem necessariamente libertadas e empoderadas dentro da sua sociedade. Fátima Mernissi argumenta de forma semelhante que os costumes da Arábia pré-islâmica eram mais permissivos da sexualidade feminina e independência social, e não menos. Segundo ela, observando a evidência histórica, o Islão baniu todas as práticas nas quais a autodeterminação sexual das mulheres era afirmada.
Embora ao período anterior á idade moderna faltasse um movimento feminista formal, no entanto, algumas figuras importantes defendiam a melhoria dos direitos e da autonomia das mulheres. Fátima Alfiri, nascida cerca do ano 800, fundou em 859 a mais antiga, e ainda em funcionamento, instituição de ensino superior do mundo, a Universidade al Quaraouiyine em Fez, Marrocos. A turca Razia Sultana (1205-1240) reinou no Sultanato de Deli de 1236 a 1240. Usava roupas masculinas e abandonou o véu. Apaixonou-se por um escravo abissínio, o que acabou por provocar a sua deposição por conflitos com a nobreza e com os religiosos. Enquanto governou, segundo os historiadores, foi muito competente e óptima administradora.
Século 19 O movimento moderno do feminismo islâmico começou no século XIX. A poetisa iraniana Táhirih (1817-1852) foi a primeira mulher moderna a empreender a exegese do Alcorão. Nascida e criada numa família muçulmana tradicional, tornou-se um membro proeminente do movimento religioso Babismo, durante a qual denunciou abertamente a poliginia, o uso do véu e outras restrições impostas às mulheres. Numa declaração final antes da sua execução por heresia em Agosto de 1852, afirmou: "Podem matar-me assim que quiserem, mas não podeis deter a emancipação das mulheres" .
O jurista egípcio Qasim Amin, autor do livro pioneiro de 1899 Tahrir al-Mar'a (Libertação da Mulher)", é muitas vezes descrito como o pai do movimento feminista egípcio. Na sua obra, Amin criticou algumas das práticas prevalecentes em sua sociedade na época, como a poliginia, o véu e a purdah, ou seja, a segregação sexual no Islã. Ele condenou-as considerando-as pouco islâmicas e contraditórias com o verdadeiro espírito do Islão. O seu trabalho teve uma enorme influência nos movimentos políticos femininos em todo o mundo islâmico e árabe, e é lido e citado ainda hoje.
Contudo, e apesar do efeito de Qasim Amin nos movimentos feministas islâmicos modernos, Leila Ahmed considera as suas obras tanto androcêntricas como colonialistas . Amin apresentou muitas concepções masculinas erradas sobre as mulheres, tais como a sua dita incapacidade de experimentar o amor; que as mulheres falam desnecessariamente dos seus maridos sem ser na sua presença; e que o casamento muçulmano se baseia na ignorância e na sensualidade, de que as mulheres são consideradas a principal fonte.
Um dos pensadores masculinos mais influentes sobre as reformas no que diz respeito às mulheres, foi o egípcio Muhammad Abduh, (1849-1905). M. Abduh não defendia o retorno às fases iniciais do Islão.Era contra a poliginia, para ele um costume arcaico, que apenas tivera justificação numa determinada altura histórica.
Séculos 20 e 21 Aisha Abd al-Rahman, (1913-1998) escrevendo sob o pseudônimo de Bint al-Shati ("Filha da margem do rio"), foi a segunda mulher moderna a empreender a exegese do Alcorão, e embora não se considerasse uma feminista, os seus trabalhos refletem temas feministas. Começou a produzir os seus populares livros em 1959, no mesmo ano em que Naguib Mahfouz publicou a sua versão alegórica e feminista da vida de Maomé. Escreveu biografias das primeiras mulheres no Islão, incluindo a mãe, esposas e filhas de Maomé, bem como críticas literárias.
Fatima Mernissi argumenta que grande parte da supressão dos direitos das mulheres nas sociedades islâmicas é o resultado de motivações políticas e da sua consequente interpretação manipuladora dos hadith, o que vai contra a comunidade islâmica igualitária de homens e mulheres vislumbrada por Maomé.
Algumas correntes do feminismo islâmico moderno optaram por expurgar os hadith da ideologia em favor de um movimento centrado sómente nos princípios do Alcorão. Riffat Hassan, paquistanesa-americana, defende um movimento desse tipo, articulando uma teologia em que os direitos universais da humanidade, enunciados no Alcorão, têm prioridade sobre as leis e regulamentos contextuais; para muitos muçulmanos, comenta R. Hassan, o Alcorão é uma Magna Carta dos direitos humanos. As desigualdades sofridas pelas mulheres em muitas sociedades islâmicas teriam bases culturais.
Associação Revolucionária das Mulheres do Afeganistão A Associação Revolucionária das Mulheres do Afeganistão (RAWA - Revolutionary Association of the Women of Afghanistan) é uma organização feminina, fundada em 1977, em Cabul, que mais tarde se transferiu para o vizinho Paquistão. Promove os direitos das mulheres e a democracia secular. A organização tem como objetivo envolver as mulheres do Afeganistão em atividades políticas e sociais com o objetivo de adquirir seus direitos humanos e continuar a luta contra o governo do Afeganistão baseado em princípios democráticos e laicos - não fundamentalistas - nos quais as mulheres podem participar plenamente.