A Comunidade Valenciana, ou País Valenciano, é uma comunidade autónoma espanhola e mediterrânica, situada na costa oriental da Península Ibérica.
Geograficamente, estende-se do Rio Sénia até Pilar de la Horadada, para lá da foz do Rio Segura, com uma fronteira terrestre de 834 km de extensão e uma costa com 644 km de comprimento e que se corresponde em grande parte com os limites do histórico Reino de Valência. As ilhas da Nova Tabarca, Columbretes e outras ilhas menores adjacentes são também de administração valenciana. Possui um exclave, Rincón de Ademuz, rodeado por municípios aragoneses e manchegos. Limita a oeste com Castela-Mancha e Aragão, a sul com Múrcia e a norte com a Catalunha.
A capital administrativa é Valência (797 658 hab.). Juntamente com Alicante (333 408 hab.) e Castelló de la Plana (172 624 hab.) conforma também capital provincial e juntamente com Elche (222 422 hab.) e Torrevieja (105 205 hab.) as cidades mais populosas. As áreas metropolitanas de Valência (1 559 084 hab.) e de Alicante-Elche (757 085 hab.) configuram os maiores núcleos de população da Comunidade. Com 23 255 km² e 5 004 844 habitantes, é a oitava maior comunidade de Espanha. Instituto Nacional de Estadística (2015)
É um território altamente industrializado e com fortes setores turístico e agrícola, o que a afigura como a quarta comunidade autónoma em termos de importância para a economia nacional, gerando 9,6% do PIB espanhol. (principais resultados) Estrutura percentual do PIB a preço de mercado, segundo dados de 2009
As suas origens remontam ao século XIII, com a colonização feudal de catalães e aragoneses pelos reinos de taifas islâmicos de Valência, Alpont, Dénia e parte de Múrcia. Uma vez finalizada a conquista, o rei promulga os Foros de Valência em 1261 e estabelece o Reino de Valência, entidade política, jurídica e administrativa com direito próprio fundada em 1239 e vigente até 1707. A independência foral do reino extingue-se em 1707 com os Decretos do Novo Plano promulgados pelo rei Filipe V de Espanha. As primeiras tentativas para recuperar um governo autónomo nos finais do e inícios do fracassaram graças às diferentes ditaduras então instituídas. Na década de 60 do , a pressão de diversos setores ideológicos para a criação de um governo próprio desemboca na criação do Conselho do País Valenciano em 1978 e mais tarde, em 1982, acaba por se constituir como uma comunidade autónoma espanhola. Segundo o Estatuto de Autonomia, reformado em 2006 e ao amparo do Artigo 2.º da Constituição Espanhola, os seus habitantes, o povo valenciano, compõem uma nacionalidade histórica.
Recebeu diversas denominações ao longo dos tempos. Em finais do século XIX era conhecida como Região Valenciana; a partir de 1960 surge o uso de País Valenciano, e com o Estatuto de Autonomia de 1982 é popularizado o termo Comunidade Valenciana. Igualmente, o uso de Valência é aceite, podendo no entanto criar confusão com a cidade ou província homónimas.
Nas primeiras legislaturas autonómicas sucederam-se três governos socialistas presididos por Joan Lerma, enquanto que após as eleições de 1995, e devido ao Pacto del Pollo ("Pacto do Frango") com a Unió Valenciana, o governo passa para as mãos do Partido Popular, que atinge em todas as eleições subsequentes a maioria absoluta, e tendo à cabeça como presidentes Eduardo Zaplana, José Luis Olivas, Francisco Camps e Alberto Fabra, este depois da demissão do seu antecessor pela sua implicação no caso Gürtel. Desde 2015, o presidente é o socialista Ximo Puig, no cargo graças ao acordo assinado entre Compromís e Podemos (Acord del Botànic).
Etimologia A denominação Comunidade Valenciana, bem como do resto de nomes que recebeu ao longo da sua história devem-se ao topónimo da sua capital, Valência. Este deriva do latim Valentia Edetanorum, cujo significado se traduz em "Valor (ou Força) na terra dos Edetanos". Atribuído com a fundação da colónia, segue a tradição já verificada em Itália, no século II a.C., da atribuição de topónimos alegóricos de virtude militar. Os árabes denominaram-na مدينة التراب (Madīna at-Turab, "Cidade da Areia") devido à sua localização na margem do Rio Túria, enquanto que reservaram o termo بلنسية (Balansīa) para a Taifa de Valência. Porém, durante o reinado de Abd al-Aziz ibn Amir a cidade já tinha reivindicado para si o nome de Balansīa, que passaria a ser Valência, València em valenciano, após a conquista por Jaime I de Aragão.
Do mesmo modo, as denominações da Comunidade Valenciana foram várias ao longo dos tempos, apesar de atualmente Comunitat Valenciana (em valenciano) ser a única estabelecida como tal no seu Estatuto de Autonomia:O Estatuto faz também referência no seu preâmbulo às denominações País Valenciano e Reino de Valência nos seguintes termos:O uso do termo Levante para denominar toda a Comunidade Valenciana tem um uso extenso fora da Comunidade e do arco do mediterrâneo. No entanto, um relatório de 1996 do Conselho Valenciano da Cultura, órgão consultivo em matérias culturais da Generalidade Valenciana, alega a inconveniência do seu uso. por Manuel Bas Carbonell, Francesc Pérez i Moragón, Consell Valencià de Cultura, 1996. (em castelhano)
História
Pré-história e Antiguidade Os primeiros vestígios de presença humana em terras valencianas remontam a perto do século XL a.C. (finais do Paleolítico Inferior), os mais antigos dos quais encontrados no jazigo arqueológico de Bolomor (Tavernes de la Valldigna, Valência). No Paleolítico Médio (100 000–35 000 a.C.), o número de sítios arqueológicos aumenta por toda a região, como os das Grutas do Salto (Alcoi), datado de entre 60 000–30 000 a.C. e de onde se recuperaram vestígios do Homem de Neandertal. O Paleolítico Superior e o Mesolítico estão bem representados na região, podendo citar-se como exemplo as as grutas de Parpalló e Malladetes em Gandia para o primeiro período e a gruta da Cozinha (no maciço de Caroig, a sudoeste da província de Valência) para o segundo. O Neolítico chegou às terras da actual Comunidade Valenciana em 5 000 a. C. com o aparecimento da agricultura e da pecuária, o que supôs uma transformação na ocupação e a exploração do território. Em 2 500 a. C. surge a metalurgia, que mostra influências e contatos do sudeste peninsular. O tamanho e a localização dos povoados, agora nas ladeiras das montanhas, refletem uma progressiva complexidade social. O povoado de Cabeço Redondo (cujos habitantes acumularam o chamado tesouro de Vilhena, que representa o maior conjunto de ourivesaria da pré-história na Península Ibérica), data de 1000 a.C..
Na época antiga, a região estava habitada pelos Iberos, que se dividiam por sua vez em diversos grupos: na zona sul os contestanos, no centro os edetanos, e no norte os ilercavões. Graças às relações comerciais marítimas com Fenícios, Gregos, Tartessos e Cartagineses, tornam a região valenciana numa das partes de maior importância da Civilização Ibera cujo esplendor se dá cerca do século V a.C., como assim se reflete na sua produção artística, da qual o exemplo mais importante é a Dama de Elche. Um dos factos mais conhecidos e estudados desta época é o cerco a Arse (hoje Sagunto) por parte do cartaginês Aníbal, que desencadeia a Segunda Guerra Púnica, decidindo assim o destino do Mediterrâneo. Depois da vitória romana na guerra (202 a. C.), todo o litoral valenciano acabou submetido à autoridade de Roma. Durante os sete séculos de domínio romano, os Iberos foram-se integrando paulatinamente na nova organização política, económica e social e cultural, adotando como língua o latim. No entanto, ainda se encontram importantes manifestações artísticas próprias, como a cerâmica pintada com motivos figurativos ou narrativos, até ao século I d.C..
Também os gregos chegaram à Península Ibérica e estabeleceram várias colónias; entre as mais importantes da Comunidade encontra-se Hēmeroskópeion (possivelmente nas imediações da atual Dénia).
Idade Média
Época visigoda e bizantina miniaturadaimagem|O Império Bizantino no reinado de Justiniano Após a queda do Império Romano, entre os séculos VI e VIII, grande parte do território esteve sob o controlo do Reino Visigodo de Toledo, enquanto que o território compreendido entre Dénia e Cartágena foi controlado primeiro pelo Império Bizantino (integrado na Província de Espânia até à sua expulsão da Península em 620), depois pelo Reino de Tudemir (provavelmente a partir de 713), com centro em Oriola. No entanto, existem poucas provas de tais presenças.
Ocupação muçulmana
miniaturadaimagem|Reinos Taifas na Península em 1037 Apesar dos estudos insuficientes sobre esta época, considerada uma das mais obscuras fases da história valenciana, é geralmente reconhecida a importância da sua influência cultural e linguística na cultura valenciana atual, convertendo Xarq al-Andalus num dos locais mais cultos da Europa.
As forças do Califado Omíada entraram na Península em 711 e derrotaram os visigodos rapidamente na Batalha de Guadalete. O pacto de Abdalazize ibne Amir, filho do chefe das forças omíadas, com Teodomiro em 713 reconhece a autoridade deste sobre a zona sob a condição de aceitar a soberania dos Omíadas e o pagamento de tributos. Desde então, e até 779, dá-se uma da mais importantes fases da região, agora um território cristão autónomo inserido no domínio de Alandalus. É naquele ano que a cidade de Valência se revolta e acaba destruída por Abderramão I. A partir daí o fluxo de novos colonizadores árabes e berberes, juntamente com a cada vez maior conversão de católicos ao islão permite ao Emirado de Córdova um maior controlo do território. Ainda assim, até ao a maioria da população valenciana manteve-se cristã.
Em 1065, Fernando I de Castela atacou a cidade de Valência, retirando-se sem a ter conseguido conquistar. A Taifa de Valência foi incorporada seguidamente pela de Toledo, até que, com ajuda castelhana, recuperou a independência em 1076. Em 1085, após a conquista de Toledo pelos cristãos e a morte do rei da Taifa de Valência, foi elevado ao trono desta Alcadir, antigo rei da Taifa de Toledo, com a ajuda militar de .
No meio desta situação atribulada, Rodrigo Díaz de Vivar (El Cid Campeador), um lutador mercenário castelhano desterrado pelo rei Alfonso VI de Castela, realizou tributos às taifas de Albarracim e Alpont, e dedicou-se à proteção de Alcadir (aliado dos cristãos) dos ataques da Taifa de Saragoça e de revoltas populares. No entanto, depois de uma revolta pró-almorávida em Valência, Alcadir foi assassinado, o que levou El Cid a conquistar a cidade em junho de 1094. Depois de sua morte em 1099, os almorávidas tomaram controlo de toda a Comunidade em 1102, apesar da resistência imposta pela população local cristã estabelecidos com a ajuda da Coroa de Aragão e do exército d'El Cid. Em meados do , foram deslocados pelos almóadas.
Do ponto de vista económico, do País Valenciano foram, até ao século XI, rurais, sem centros urbanos importantes. Foi a partir do califado e, sobretudo, dos primeiros reinos de taifas, que apareceram os sistemas de rega da região, como a Horta de Valência, a Vega Baixa del Segura ou as hortas de Elche e Alicante. A procura por produtos de luxo pela classe dominante nesses reinos impulsionou a atividade artesanal e o comércio, sendo Játiva o local onde se estabeleceu a primeira fábrica de papel em todo o Ocidente.
Conquista cristã
miniaturadaimagem|191x191px|Fases da conquista cristã em território valenciano