Laxdæla saga é uma saga de islandeses anônima, composta provavelmente na Islândia por volta de meados do século XIII. A narrativa acompanha várias gerações de famílias ligadas à região de Breiðafjörður, no oeste islandês, desde o período do povoamento da ilha até o início do século XI. Sua parte central concentra-se no relacionamento entre Guðrún Ósvífrsdóttir e os parentes e companheiros de criação Kjartan Ólafsson e Bolli Þorleiksson, cujo triângulo amoroso desencadeia uma sucessão de conflitos e vinganças.
A saga possui uma tradição manuscrita extensa. O mais antigo manuscrito em pergaminho que preserva o texto completo é o Möðruvallabók (AM 132 fol.), produzido por volta de meados do século XIV, embora fragmentos da obra remontem à segunda metade do século XIII.
Composição e autoria
A autoria de Laxdæla saga é desconhecida. A presença de tradições orais e de personagens históricos ou semihistóricos é combinada a elementos literários característicos do século XIII. A introdução da edição crítica publicada na coleção Íslenzk fornrit, bem como estudos posteriores, situa geralmente a composição em torno de meados daquele século. Também foram observadas semelhanças com as sagas de cavalaria traduzidas de modelos continentais na mesma época, sobretudo na atenção dedicada à aparência, às roupas, às armas e às relações amorosas.
A importância dada às personagens femininas, particularmente Guðrún, Auðr e Melkorka, levou alguns estudiosos a levantar a possibilidade de que a obra tenha sido escrita por uma mulher. A hipótese, contudo, permanece especulativa, pois nenhuma evidência permite identificar o autor ou determinar seu gênero.
Tradição manuscrita
Nenhum manuscrito autógrafo de Laxdæla saga sobreviveu. O Möðruvallabók (AM 132 fol.), escrito em meados do século XIV, é uma das mais importantes coletâneas medievais das sagas de islandeses e contém onze sagas, entre elas Laxdæla saga. Atualmente, ele é o único manuscrito medieval em pergaminho que conserva a saga inteira.
Outro pergaminho que continha o texto completo, o Vatnshyrna, foi destruído no incêndio de Copenhague de 1728, mas uma cópia de seu texto de Laxdæla saga havia sido produzida anteriormente. Além dos manuscritos completos ou de suas cópias, sobrevivem vários fragmentos em pergaminho. O mais antigo deles, identificado como D2 (AM 162 D fol.), consiste em uma folha datada da segunda metade do século XIII.
A transmissão da saga apresenta diferentes tradições textuais. A família à qual pertence o Möðruvallabók inclui ao final o Bolla þáttr Bollasonar, narrativa sobre Bolli Bollason que costuma ser considerada uma continuação ou acréscimo à saga, e não parte de sua forma original. Outros testemunhos preservam uma versão sem essa continuação e apresentam diferenças em alguns episódios.
Enredo
A narrativa começa na Noruega do final do século IX, com a família de Ketill Flatnose em meio à ascensão do rei Haroldo I da Noruega. Vários de seus descendentes deixam a Noruega e se estabelecem no Atlântico Norte. Entre eles está Auðr, a Sábia, que, depois de passar pelas Órcades e pelas Ilhas Feroe, estabelece-se na região de Breiðafjörður e distribui terras entre parentes e seguidores. A saga acompanha então seus descendentes ao longo de sucessivas gerações.
Entre os personagens da geração seguinte está Höskuldr Dala-Kollsson. Durante uma viagem à Noruega, ele adquire como escrava uma mulher chamada Melkorka, inicialmente apresentada como muda. Mais tarde, ela revela ser filha de um rei irlandês. O filho dos dois, Ólafr, conhecido como Ólafr, o Pavão, torna-se um dos principais chefes da região. É entre os descendentes e parentes dessa família que se desenvolve a parte central da narrativa.
Guðrún Ósvífrsdóttir é apresentada ainda jovem como uma mulher de grande inteligência e posição social. Em um episódio central, ela relata quatro sonhos que são interpretados como prenúncios de seus quatro casamentos. Os sonhos antecipam acontecimentos posteriores e desempenham papel importante na caracterização de Guðrún e na estrutura da narrativa.
Guðrún e Kjartan Ólafsson aproximam-se, mas Kjartan parte para a Noruega com Bolli Þorleiksson. Lá, os dois se envolvem nos acontecimentos ligados à política religiosa do rei Olavo Tryggvason e à adoção do cristianismo pelos islandeses. Bolli retorna à Islândia antes de Kjartan e acaba casando-se com Guðrún. Quando Kjartan regressa, casa-se com Hrefna, e a relação entre os antigos companheiros se deteriora gradualmente.
Uma série de disputas, provocações e humilhações aumenta a hostilidade entre as famílias. Guðrún incita seus irmãos a atacar Kjartan e pressiona Bolli a acompanhá-los. Durante o confronto, Kjartan abandona as armas diante de Bolli, que acaba por matá-lo e imediatamente se arrepende. O assassinato desencadeia nova vingança, na qual Bolli também é morto.
Guðrún casa-se posteriormente pela quarta vez, com Þorkell Eyjólfsson. Depois da morte dele, dedica-se cada vez mais à religião. Já idosa, quando seu filho lhe pergunta qual homem amara mais, sua resposta associa seu maior amor àquele que ela havia tratado pior, encerrando de maneira deliberadamente ambígua o principal conflito emocional da saga.
Características literárias
Embora tenha a forma de uma narrativa genealógica que acompanha diversas gerações, Laxdæla saga dirige progressivamente sua atenção para Guðrún e para as consequências de suas relações familiares e amorosas. Seus quatro sonhos, apresentados antes do núcleo trágico da história, anunciam seus futuros casamentos e permitem que a personagem contemple de maneira indireta o próprio destino. Ármann Jakobsson observa que a sequência dos sonhos não funciona apenas como antecipação dos acontecimentos, mas também como um dos principais meios pelos quais a saga explora a vida interior de Guðrún.
O texto combina temas recorrentes das sagas de islandeses — parentesco, prestígio, disputas, compensação e vingança — com uma ênfase incomum nas relações amorosas e nas emoções de seus personagens. A crítica também identificou em suas descrições sinais de contato com a literatura cortesã e as sagas de cavalaria que circulavam na Islândia do século XIII.
Edições
A primeira edição impressa de Laxdæla saga foi publicada em Copenhague em 1826, acompanhada de uma tradução latina. No final do século XIX, Kristian Kålund realizou um estudo sistemático de seus manuscritos e publicou uma edição crítica em 1889–1891.
Em 1934, Einar Ól. Sveinsson publicou Laxdœla saga como o quinto volume da coleção Íslenzk fornrit. A edição, acompanhada de extensa introdução e aparato crítico, tornou-se uma das principais referências modernas para o estudo da obra. Entre as traduções modernas em inglês está a de Keneva Kunz, publicada pela Penguin Classics em 2008 juntamente com Bolla þáttr Bollasonar.
Ligações externas Texto de Laxdæla saga em islandês moderno Tradução inglesa de Muriel A. C. Press no Project Gutenberg
Categoria:Literatura da Idade Média Categoria:Sagas islandesas