Maria Perpétua, também referida em versões antigas como Maria Perpethua e por vezes identificada como Maria Perpétua Calafate de Souza, é uma figura associada à tradição oral de Ilhabela, no litoral norte do estado de São Paulo, no Brasil, ligada à origem tradicional do nome da Praia da Feiticeira. A sua história é geralmente narrada como lenda local, com elementos de feitiçaria, riqueza, envenenamentos, tesouros escondidos, traição e violência.

Tradição local e Praia da Feiticeira

A associação de Maria Perpétua à Praia da Feiticeira aparece em estudos sobre o patrimônio histórico e agrícola de Ilhabela. Segundo uma monografia da Universidade de São Paulo dedicada aos antigos engenhos da ilha, o Engenho São Mathias, também conhecido como Fazenda Velha, localizava-se no século XIX e até meados do século XX no lugar denominado Fazenda. A mesma fonte afirma que a denominação mais difundida, Feiticeira, remete a Maria Perpétua, descrita como acusada de práticas de bruxaria no século XIX e processada por bigamia.

A narrativa também é preservada em contexto escolar e folclórico no município. Em 2025, a Prefeitura de Ilhabela divulgou atividade escolar sobre “causos e lendas” locais na qual foi contada uma versão da história de Maria Perpétua Calafate de Souza. Nessa versão, ela teria chegado à Ilha de São Sebastião por volta de 1810, casado com o capitão Antonio José Lisboa de Souza e vivido numa fazenda no sul da vila, identificada com a Fazenda São Mathias ou Fazenda da Feiticeira.

A mesma narrativa municipal inclui elementos lendários, como o enriquecimento por meio de magias, poções, envenenamentos, ouro enterrado, morte de escravos e desaparecimento nas matas, constituindo uma tradição oral ou folclórica local.

Versões recolhidas em 2005

Em fevereiro de 2005, o jornal local Latitude 23 Graus publicou uma matéria de Maria Cláudia França Nogueira intitulada “Sangue, traição, feitiçaria e varíola”, dedicada à história de Maria Perpétua, conhecida como Feiticeira, a qual teria dado nome a uma das praias de Ilhabela, considerada uma das narrativas mais intrigantes de Ilhabela.

A matéria baseou-se no relato de um jovem local cuja identidade não foi revelada. Segundo Nogueira, o jovem teria recriado por escrito uma narrativa ouvida de seu avô, descendente da personagem, o qual a teria escutado por 1976 de Benedita dos Santos Junqueira. Benedita teria nascido no bairro do Barreiro, no norte da ilha, em 23 de março de 1880, filha de João Rodrigues dos Santos e Rosalina Maria dos Santos, e sido casada com Paulo Junqueira Filho, com quem teve seis filhos. O texto então publicado foi uma versão recebida pela autora e preservada pela sua relevância para a memória local.

Segundo essa versão, a mãe do avô de Benedita chamava-se Teresa e teria sido escrava. Teresa teria sido comprada aos catorze anos por Antonio José Lisboa de Souza, então proprietário da chamada fazenda do Ribeirão, área identificada no relato com o atual bairro do Bexiga, o qual era casado com a portuguesa Maria Perpétua. Maria Perpétua teria mantido uma relação amorosa extraconjugal com Olavo Borges, descrito como comerciante de escravos e proprietário de terras na ilha. Ao descobrir a traição, Antonio José Lisboa de Souza teria matado Maria Perpétua a facadas. O relato afirma ainda que, após a chegada das autoridades, Antonio José foi levado para a cadeia de São Vicente, onde teria cumprido pena por homicídio.

Segundo essa tradição, Teresa passou a cuidar da casa grande e de José, filho do patrão. A casa e o engenho são situados no relato em frente ao poço da Figueira, na estrada velha, identificada na matéria com a atual Vereador Manoel Pombo, na qual existiria um galpão onde escravos eram castigados.

O mesmo relato associa o abandono posterior da propriedade a uma sequência de acontecimentos: Antonio José teria empobrecido e morrido deixando dívidas; o filho José, ainda jovem, teria abandonado a fazenda e ido morar em São Sebastião; e a propriedade teria sido ocupada por famílias vindas de Santos, atingidas por varíola, então também conhecida como bexigas. O local teria sido então transformado numa espécie de acampamento para tratamento dos doentes, com os mortos sendo sepultados ali mesmo.

Na mesma edição do Latitude 23 Graus, a folclorista Dedé França, apresentou outra versão da lenda da Praia da Feiticeira. Nela, a proprietária da Fazenda São Matias teria acumulado grande riqueza explorando uma taverna frequentada por piratas e marinheiros de navios negreiros e mercantes que aportavam no local em busca de provisões e informações. Já envelhecida e temendo ser saqueada, teria enterrado o tesouro com ajuda de seus escravos e depois os matado para impedir que revelassem o segredo. Conhecida como a Feiticeira, teria enlouquecido e desaparecido.

Elementos lendários e objetos atribuídos à personagem

A matéria de 2005 também registra informações atribuídas ao informante anônimo, segundo o qual ele estaria formando um pequeno museu com objetos relacionados à personagem. Entre esses objetos estariam um retrato pintado de Maria Perpétua e uma carta que lhe seria atribuída, endereçada ao coronel Julião de Moura Negrão, na qual pediria que fosse feito o inventário dos bens de seu marido. A carta seria datada de 1808.

O mesmo informante atribuiu a Maria Perpétua a posse de uma taberna frequentada por piratas, e descreveu Olavo Borges, seu suposto amante, como pirata detentor de grandes riquezas. Segundo Nogueira, esse ponto aproximaria o relato familiar da lenda da Feiticeira, cuja origem poderia estar relacionada à necessidade de explicar ou justificar o desaparecimento da personagem.

Segundo a matéria, o informante declarou ainda ter queimado um livro que seria o principal indício das práticas de feitiçaria atribuídas a Maria Perpétua. O livro conteria anotações de mandingas, simpatias e feitiços. Não obstante, o Arquivo Ilhabela possui em seu acervo um “Grimório da Feiticeira de Ilhabela”, datado de 1792 e atribuído a Maria Perpétua Calafate de Souza, um livro de feitiços e anotações escrito em latim, com figuras astrológicas, listas de anjos e demônios, instruções para lançar feitiços, combinar poções e invocar seres sobrenaturais.

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