Laudato si' (em português: 'Louvado sejas'; subtítulo: "sobre o cuidado da casa comum") é uma encíclica do Papa Francisco, na qual o pontífice critica o consumismo e o desenvolvimento irresponsável e faz um apelo à mudança e à unificação global para combater a degradação ambiental e as alterações climáticas. A encíclica foi publicada oficialmente em 18 de junho de 2015 e é uma resposta às expectativas das comunidades religiosas, ambientais e científicas internacionais, bem como de lideranças políticas, econômicas e dos meios de comunicação social, acerca da crise representada pelas mudanças climáticas. Francisco deixou claro que espera que a encíclica influencie a política energética e econômica, e que estimule um movimento global por mudanças, para deter a "deterioração global do ambiente". O Papa dirigiu-se "a cada pessoa que habita neste planeta", apelando às pessoas comuns para que pressionem os políticos nesse sentido.

Trata-se da segunda encíclica publicada pelo Papa Francisco, após a publicação de Lumen fidei, em 2013. Mas, dado que esta última é, na sua maior parte, um trabalho de Bento XVI, Laudato Si' é vista como a primeira encíclica inteiramente da responsabilidade de Francisco. As afirmações da encíclica sobre as alterações climáticas estão de acordo com consenso científico sobre as alterações climáticas.

Conteúdo O título da encíclica corresponde às primeiras palavras do documento (incipit), Laudato si', mi’ Signore, que são uma citação do Cântico das Criaturas, de Francisco de Assis. O Cântico é uma oração em forma de poema, permeada por uma visão da natureza como reflexo da imagem do seu Criador, daí derivando um sentido de fraternidade entre o Homem e toda a criação divina - em oposição ao distanciamento e do desprezo pelo mundo terreno, típicos de outras tendências religiosas do Medievo. O poema foi escrito no (c. 1224), no dialeto úmbrico falado por Francisco de Assis - e não em latim -, mantendo-se, na encíclica, a citação na língua original.

No Cântico, Francisco de Assis compara a Terra, "nossa casa comum", a uma irmã, com quem partilhamos a existência, e a uma boa mãe, que nos acolhe nos seus braçosLaudato si': a íntegra e um "guia" para a leitura da Encíclica, acesso em 10 de outubro de 2015..

A encíclica tem 184 páginas, ao longo das quais o papa Francisco "condena a incessante exploração e destruição do ambiente, responsabilizando a apatia, a procura de lucro de forma irresponsável, a crença excessiva na tecnologia e a falta de visão política." O papa afirma que "as alterações climáticas são um problema global com implicações graves: ambientais, sociais, económicas, políticas e de distribuição de riqueza. Representam um dos principais desafios que a humanidade enfrenta nos nossos dias" e lança o alerta para "a destruição sem precedentes dos ecossistemas, que terá graves consequências para todos nós" se não forem realizados esforços de mitigação de forma imediata.

A encíclica destaca o papel dos combustíveis fósseis na origem das alterações climáticas e afirma que os países desenvolvidos têm a obrigação moral de ajudar os países em desenvolvimento no combate à crise das alterações climáticas. A encíclica tem 172 notas de rodapé, muitas das quais alusivas aos antecessores imediatos de Francisco, os papas João Paulo II e Bento XVI. Também faz referência a Bartolomeu I, patriarca de Constantinopla da Igreja Ortodoxa e aliado do papa, e cita Tomás de Aquino, Teilhard de Chardin, Romano Guardini e Ali al-Khawas (:en:Ali al-Khawas), místico islâmico do século IX. A encíclica aborda vários tópicos, incluindo planeamento urbano, economia agrícola e biodiversidade. No entanto, também reafirma a posição pró-vida da Igreja, afirmando que "uma vez que tudo está relacionado, a preocupação com a proteção da natureza é incompatível com a justificação do aborto.

Uma importante chave de leitura da Encíclica é a questão: "Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a crescer?" (160). Trata-se de uma pergunta que não toca apenas o meio ambiente de maneira isolada, porque não se pode compreende a questão de modo fragmentado, e isso conduz a um questionamento sobre o sentido da existência e sobre os valores que estão na base da vida social, razão pela qual questão essenciais são abordadas, tais como: "Para que viemos a esta vida?", "Para que trabalhamos e lutamos?", "Que necessidade tem de nós esta terra?". O documento faz uma exortação favorável a uma conversão ecológica, que permita assumir o cuidado da "casa comum".

A Encíclica tem seis capítulos: O Capítulo 1: faz uma análise da situação a partir do conhecimento científico disponível; O Capítulo 2: faz uma ligação entre o conhecimento científico sobre a questão e lições encontradas na Bíblia e a tradição judaico-cristã; O Capítulo 3: identifica a tecnocracia e num excessivo fechamento autorreferencial do ser humano como a raiz dos problemas; O Capítulo 4: propõe uma "ecologia integral", que inclua claramente as dimensões humanas e sociais, indissoluvelmente ligadas com a questão ambiental; O Capítulo 5: propõe que um diálogo, em todos os níveis da vida social, econômica e política, para estruturar processos de decisão transparentes; O Capítulo 6: recorda que nenhum projeto pode ser eficaz se não for animado por uma consciência formada e responsável, e, sugere ideias para crescer nesta direção em nível educativo, espiritual, eclesial, político e teológico.

No final do texto, são apresentadas duas orações, uma oferecida à partilha com todos os que acreditam num "Deus Criador Omnipotente" (246), e outra proposta aos que professam a fé em Jesus Cristo, ritmada pelo refrão "Laudato Si", com o qual a Encíclica se abre e se conclui.

Capítulo 1 – O que está a acontecer à nossa casa

O Capítulo 1 apresenta o conhecimento científico atual sobre as questões ambientais, trata-se de "ouvir o grito da criação" para transformar em sofrimento pessoal aquilo que acontece ao mundo e, assim, reconhecer a contribuição que cada um lhe pode dar (19). Algumas ideias chave são:

Mudanças Climáticas: o impacto mais pesado dessas alterações recai sobre os mais pobres (26);

Água: privar os pobres do acesso à água significa negar-lhes o direito à vida radicado na sua dignidade inalienável (30);

Preservação da Biodiversidade: os nossos filhos não poderão ver as espécies extintas (33); quando a intervenção humana se coloca a serviço da finança e do consumismo, faz com que esta terra onde vivemos se torne realmente menos rica e bela, cada vez mais limitada e cinzenta (34);

Existência uma verdadeira “dívida ecológica”(51), sobretudo do Norte em relação ao Sul do mundo, as responsabilidades dos países desenvolvidos são maiores (52);

Fraqueza das reações diante dos dramas de tantas pessoas, falta disponibilidade para mudar estilos de vida, produção e consumo (59), é urgente criar um sistema normativo que inclua limites invioláveis e assegure a proteção dos ecossistemas (53).

Capítulo 2 – O Evangelho da criação

o meio ambiente é um bem coletivo, patrimônio de toda a humanidade e responsabilidade de todos (95);

na Bíblia, o Deus que liberta e salva é o mesmo que criou o universo, n’Ele se conjugam o carinho e a força (73);

a narração da criação é central para refletir sobre a relação entre o ser humano e as outras criaturas e sobre como o pecado rompe o equilíbrio de toda a criação no seu conjunto, essas narrações sugerem que a existência humana se baseia sobre três relações fundamentais intimamente ligadas: com Deus, com o próximo e com a terra, essas três relações vitais romperam-se não só exteriormente, mas também dentro de nós. Esta ruptura é o pecado (66);

os cristãos, algumas vezes interpretam de forma incorreta as Escrituras, e, portanto, devem rejeitar a ideia de que em consequência do fato de terem sido criados à imagem de Deus, podem exercer um domínio absoluto sobre as outras criaturas (67);

os seres humanos têm a responsabilidade de "cultivar e guardar" (cf. ) (67);

não pode ser autêntico um sentimento de união íntima com os outros seres da natureza, se ao mesmo tempo não houver no coração ternura, compaixão e preocupação pelos seres humanos (91);

é necessária uma consciência de uma comunhão universal, forjada pelo fato de que fomos criados pelo mesmo Pai, e, portanto, estamos unidos por laços invisíveis e formamos uma espécie de família universal, que nos impele a ter um respeito sagrado, amoroso e humilde (89);

Jesus, ressuscitado e glorioso está presente em toda a criação com o seu domínio universal (100).

Capítulo 3 – A raiz humana da crise ecológica

as lógicas de domínio tecnocrático destroem a natureza e exploram as pessoas e as populações mais vulneráveis, esse paradigma tende a exercer o seu domínio também sobre a economia e a política (109);

o mercado, por si mesmo não garante o desenvolvimento humano integral nem a inclusão social (109);

em uma época de um excesso de antropocentrismo (116), o ser humano não reconhece mais sua correta posição em relação ao mundo e assume uma posição autorreferencial, centrada exclusivamente em si mesmo e no próprio poder, razão pela qual surge a uma "lógica do descartável", que justifica todo tipo de descarte, ambiental ou humano que seja, que trata o outro e a natureza como um simples objeto e conduz a uma miríade de formas de dominação, é essa a lógica que leva a explorar as crianças, a abandonar os idosos, a reduzir os outros à escravidão, a superestimar a capacidade do mercado de se autorregular, a praticar o tráfico de seres humanos, o comércio de peles de animais em risco de extinção e de "diamantes ensanguentados", é a mesma lógica de muitas máfias, dos traficantes de órgãos, do tráfico de drogas e do descarte de crianças porque não correspondem ao desejo de seus pais (123);

a encíclica aborda duas questões cruciais: o trabalho, afirmando que: "Em qualquer abordagem de ecologia integral [...] é indispensável incluir o valor do trabalho" (124), e que "renunciar a investir nas pessoas para se obter maior receita imediata é um péssimo negócio para a sociedade" (128); os limites do progresso científico, com clara referência aos Organismos Geneticamente Modificados (132-136).

Capítulo 4 - Uma ecologia integral

a ecologia integral é um novo paradigma de justiça, trata-se de uma ecologia que integra o lugar específico que o ser humano ocupa neste mundo e as suas relações com a realidade que o circunda (15), desse modo, evita-se que se entenda a natureza como algo separado da humanidade ou como uma mera moldura da vida humana (139);

a perspectiva integral conduz também a uma ecologia das instituições, pois se tudo está relacionado, também o estado de saúde das instituições de uma sociedade tem consequências no ambiente e na qualidade de vida humana: "toda a lesão da solidariedade e da amizade cívica provoca danos ambientais" (142);

há uma ligação entre questões ambientais e questões sociais e humanas que nunca pode ser rompida, pois a análise dos problemas ambientais é inseparável da análise dos contextos humanos, familiares, laborais, urbanos, e da relação de cada pessoa consigo mesma (141), portanto, não há duas crises separadas, uma ambiental e outra social, mas uma única e complexa crise sócio-ambiental (139);