O Primeiro Concílio de Éfeso foi um concílio de bispos cristãos convocado em Éfeso (perto do atual Selçuk na Turquia), na Ásia Menor, realizado em 431 pelo imperador romano Teodósio II. Este terceiro Concílio Ecumênico, um esforço para alcançar consenso na Igreja através de uma assembleia representando toda a cristandade,Richard Kieckhefer (1989). "Papacy". Dictionary of the Middle Ages. ISBN 0-684-18275-0. debateu sobre os ensinamentos cristológicos e mariológicos de Nestório, patriarca de Constantinopla. Cerca de 250 bispos estiveram presentes nele. O concílio foi conduzido em uma atmosfera de confronto aquecido e recriminações. Confirmou o Credo Niceno originalSchaff, Philip; Wace, Henry, eds. (1890), The Seven Ecumenical Councils(archive.org, tertullian.org), Nicene and Post-Nicene Fathers: Second Series, 14, The Seven Ecumenical Councils, Grand Rapids, Michigan, U.S.A.: Eerdmans Pub Co., ISBN 0-8028-8129-7 e condenou o nestorianismo (ensinamentos de Nestório, Patriarca de Constantinopla) como heresia, assim como o arianismo, sabelianismo e pré-milenarismo (quiliasmo). Tal concílio ocorreu entre os meses de junho e julho de 431 e teve como local sede a Igreja de Maria em Éfeso na Anatólia. Este terceiro Concílio Ecumênico é reconhecido pelos católicos, ortodoxos, os "velhos" católicos, Anglicanos e Luteranos, além de outros grupos cristãos.

História Nestório, patriarca de Constantinopla, defendia que Cristo não seria uma pessoa única, mas que Nele haveria uma natureza humana e outra divina, distintas uma da outra e, por consequência; argumentava que Maria deveria ser chamada de Cristótoco (portadora de Cristo), e não Teótoco (portadora de Deus).Carl E. Braaten and Robert W. Jenson (2004), Mary, Mother of God. Assim procurou restringir o papel de Maria, como mãe, apenas da natureza humana de Cristo e não da natureza divina de Cristo, indo em contrário aos ensinamentos tradicionais dos outros líderes da igreja. Os adversários de Nestório, liderados por São Cirilo, Patriarca de Alexandria, consideravam isto inaceitável, pois entendiam que Nestório estava destruindo a união perfeita e inseparável da natureza divina e humana em Jesus Cristo, isto é, acusava Nestório de heresia. São Cirilo apelou ao papa Celestino I para forçar Nestório a abandonar os seus ensinamentos sob risco de ser excomungado. O papa concordou e concedeu a Cirilo autoridade para depor Nestório e excomungá-lo caso esse mantivesse os seus ensinamentos heréticos. Porém, antes da intimação chegar, Nestório implorou ao imperador romano do Oriente, Teodósio II, para que convocasse um Concílio ecumênico, acreditando que os bispos iriam defender os seus pontos de vista e, assim, condenariam Cirilo.

O concílio foi aberto em junho de 431 com aproximadamente 250 bispos presentes. Os procedimentos foram conduzidos em uma atmosfera acalorada de confrontos e recriminações e criaram graves tensões entre Cirilo e o imperador Teodósio II. Assim que foi aberto, o concílio denunciou os ensinamentos de Nestório. A maioria dos bispos entendia que Jesus era apenas uma pessoa e não duas pessoas distintas como pregava Nestório. Para o concílio ecumênico, Jesus seria Deus completo e homem completo, declarando ainda que a Virgem Maria deveria ser chamada de Teótoco (portadora de Deus), porque ela concebeu e deu à luz a Deus como homem, tal como o apóstolo João mencionou em seu evangelho ao afirmar que 'O verbo se fez carne'. Como Nestório não abandonou seu posicionamento, o mesmo foi taxado efetivamente de herege e Cirilo, com o apoio do bispo de Roma, subjugou os ensinamentos de Nestório e o removeu de seu patriarcado em Constantinopla. Tal ação causou o Cisma Nestoriano, pelo qual as igrejas que apoiavam Nestório, especialmente as do Império Persa dos Sassânidas, foram cortadas do resto da cristandade e ficaram conhecidas como Cristianismo Nestoriano, ou a Igreja do Oriente, cujos representantes atuais são os Igreja Assíria do Oriente, a Igreja Antiga do Oriente, a Igreja Síria Caldeia e a Igreja Católica Caldeia. Após o concílio Nestório se retirou para um monastério, mais tarde se retratou de sua posição nestoriana.

Contexto político O teólogo e historiador ortodoxo, J. A. McGuckin, cita a "rivalidade inata" entre Alexandria e Constantinopla como um fator importante na controvérsia entre Cirilo de Alexandria e Nestório.McGuckin, p. 12 No entanto, ele enfatiza que, tanto quanto a competição política contribuiu para um "clima geral de dissidência", a controvérsia não pode ser reduzida apenas ao nível de "choques de personalidade" ou "antagonismos políticos". De acordo com McGuckin, Cirilo considerava o "elevado argumento intelectual sobre a cristologia" como sendo, em última instância, a mesma coisa que a "validade e segurança da vida cristã simples".McGuckin, pp. 19-21 Mesmo dentro de Constantinopla, alguns apoiavam o posicionamento romano-alexandrino e outros apoiavam as facções nestorianas. Por exemplo, Pulquéria apoiou os papas romano-alexandrinos, enquanto o imperador e sua esposa apoiaram Nestório.Gabra, Gawdat (2009). The A to Z of the Coptic Church. Scarecrow Press. p. 97.

Contexto teológico A contenção sobre os ensinamentos de Nestório, que ele desenvolveu durante seus estudos na Escola de Antioquia, em grande parte girava em torno de sua rejeição ao título há muito usado Teótoco (portadora de Deus) para a Virgem Maria. Pouco depois de sua chegada a Constantinopla, Nestório se envolveu nas disputas de duas facções teológicas, que diferiam em sua cristologia.

McGuckin atribui a importância de Nestório no fato de ser o representante da tradição antioquena, o caracteriza como um "expoente consistente, se não muito claro, da antiga tradição dogmática antioquena". Nestório ficou muito surpreso com o fato de ser tão censurável aos cristãos em Constantinopla o que ele sempre ensinara em Antioquia, sem qualquer controvérsia. Nestório enfatizou a natureza dual de Cristo, acreditando ter encontrado um meio termo entre aqueles que enfatizavam que Cristo-Deus havia nascido como homem, insistindo em chamar a Virgem Maria Teótoco (em grego: Θεοτόκος, "portadora de Deus"), e aqueles que rejeitavam esse título porque Deus, como um ser eterno, não poderia ter nascido. Nestório então sugeriu o título Cristótoco (Χριστοτόκος, "portadora de Cristo"), mas esta proposta não ganhou aceitação de nenhum dos lados.

Nestório tentou responder a uma questão considerada sem solução: "Como pode Jesus Cristo, sendo parte homem, não ser parcialmente pecador também, visto que o homem é, por definição, um pecador desde a Queda?" Para resolver isso, ele ensinou que Maria, a mãe de Jesus, deu à luz o Cristo encarnado, e não o Logos divino que existiu antes de Maria e, de fato, antes do próprio tempo. O Logos ocupava a parte da alma humana (a parte do homem que estava manchada pela queda). "Mas a ausência de uma alma humana não tornaria Jesus menos humano?" Nestório rejeitou essa proposição, respondendo que, como a alma humana se baseava no arquétipo do Logos, Jesus era "mais" humano por ter o Logos e não "menos". Consequentemente, Nestório argumentou que a Virgem Maria deveria ser chamada de Cristótoco (palavra grega que significa "Portadora do Nascimento de Cristo"), e não Teótoco (também do grego, "Portadora do Nascimento de Deus").

Nestório acreditava que nenhuma união entre o humano e o divino era possível. Se tal união do humano e divino ocorreu, Cristo não poderia verdadeiramente ser substancial com Deus e substancial com o homem porque ele cresceria, amadureceria, sofreria e morreria; algo que para Nestório Deus não pode fazer e, ao mesmo tempo, também possuir o poder de Deus, pois tal poder é o que o separa do ser igual aos humanos.

De acordo com o historiador McGuckin, vários relatos de meados do século XX tenderam a "romantizar" Nestório; em oposição a esse ponto de vista, ele afirma que Nestório não era menos dogmático e intransigente que Cirilo, e que ele estava plenamente preparado para usar seus poderes políticos e canônicos como Cirilo ou qualquer um dos outros hierarcas do período.McGuckin, p. 21

Os oponentes de Nestório acusaram-no de separar a divindade e a humanidade de Cristo em duas pessoas que existiam em um corpo, negando assim a realidade da Encarnação. Eusébio, um leigo que mais tarde se tornou o bispo da vizinha Dorileia, foi o primeiro a acusar Nestório de heresia, mas seu oponente mais vigoroso foi o patriarca Cirilo de Alexandria. Cirilo argumentou que o nestorianismo dividiu Jesus ao meio, negando, assim, que Ele fosse humano e divino.

Cirilo apelou ao papa Celestino I, acusando Nestório de heresia. O papa concordou e deu a Cirilo sua autoridade para dar um aviso a Nestório para que se retratasse de suas opiniões dentro de dez dias ou seria excomungado. Antes de atuar na comissão do Papa, Cirilo convocou um sínodo de bispos egípcios que também condenaram Nestório. Cirilo então enviou quatro bispos sufragâneos para entregar tanto a comissão do papa quanto a carta sinodal dos bispos egípcios. Cirilo enviou uma carta a Nestório, conhecida como "A Terceira Epístola de São Cirilo a Nestório". Esta epístola baseou-se fortemente nas Constituições Patrísticas estabelecidas e continha o artigo mais famoso da Ortodoxia Alexandrina: "As Doze Anátemas de São Cirilo". Nesses anátemas, Cirilo excomungou qualquer um que seguisse os ensinamentos de Nestório. Por exemplo, "Qualquer um que ouse negar a Virgem Sagrada o título Teótoco é Anátema!" Nestório, no entanto, ainda não se arrependeria. McGuckin ressalta que outros representantes da tradição antioquena, como João de Antioquia, Teodoreto e André de Samósata, foram capazes de reconhecer "o argumento a favor da integridade de Cristo" e admitir a "natureza imprudente da imobilidade de Nestório".McGuckin, pp. 22-23 Preocupados com o potencial para um resultado negativo em um Concílio Ecumênico, eles pediram a Nestório que cedesse e aceitasse o uso do título Teótoco ao se referir à Virgem Maria.Kelly, Joseph (2009). The ecumenical councils of the Catholic Church: a history. Liturgical Press.

Por exemplo, João de Antioquia escreveu a Nestório insistindo para que ele se submetesse ao julgamento do papa Celestino I e cessasse de gerar controvérsia sobre uma palavra que ele não gostava (Teótoco), a qual poderia ser interpretada como tendo um significado ortodoxo, especialmente à luz do fato de muitos santos, visto que doutores da igreja sancionaram a palavra usando eles mesmos esse termo. João escreveu a Nestório: "Não perca a cabeça. Dez dias! Não vai levar vinte e quatro horas para dar a resposta necessária... Peça conselhos a homens em quem você pode confiar. Peça-lhes que lhe contem os fatos, não apenas o que eles acham que vai agradá-lo... Você tem todo o Oriente contra você, assim como o Egito". Apesar desse conselho de seus colegas, Nestório persistiu em manter a sua posição.

Convocação Em 19 de novembro, Nestório, antecipando o ultimato que estava prestes a ser entregue, convenceu o Imperador Teodósio II a convocar um concílio geral através do qual Nestório esperava condenar Cirilo de heresia e assim reivindicar seus próprios ensinamentos. Teodósio emitiu um decreto pedindo que os bispos metropolitanos se reunissem na cidade de Éfeso, que era um lugar especial para a veneração de Maria, onde a fórmula de Teótoco era popular. Cada bispo deveria trazer apenas seus eminentes sufragâneos. A data estabelecida pelo imperador para a abertura do concílio foi Pentecostes (7 de junho) de 431.McGuckin, pp. 53-54