thumb|292px|Localização de Olivença na Província de Badajoz, Espanha
thumb|292px|Olivença e Talega no Alto Alentejo, Portugal
thumb|292px|Castelo de Olivença, desenhado por Duarte d'Armas em 1509
thumb|292px|Castelo de Olivença: vista da torre de menagem
thumb|292px|Ruínas da Ponte da Ajuda sobre o rio Guadiana, antiga ligação entre Elvas e Olivença
thumb|292px|Porta manuelina nos Paços do Concelho de Olivença
Olivença é uma cidade sede do município homónimo da zona raiana, cuja demarcação é objeto de litígio entre Portugal e Espanha. Reivindicado de jure por Portugal, o município integra atualmente a província de Badajoz da comunidade autónoma espanhola da Estremadura. É a capital da comarca espanhola de Llanos de Olivenza (), também conhecida como Comarca de Olivença. Tem de área e em tinha habitantes ().
Apesar do desentendimento entre Portugal e Espanha sobre a Questão de Olivença, o tema não tem provocado atrito nas relações entre os dois países ibéricos. Olivença e os municípios raianos espanhóis de La Codosera, Alburquerque e Badajoz e portugueses de Arronches, Campo Maior, Estremoz, Portalegre e Elvas chegaram a um acordo em 2008 com vista à criação de uma eurorregião.
O Tratado de Alcanizes, de 1297, estabelecia Olivença como parte de Portugal. Em 1801, através do Tratado de Badajoz, denunciado em 1808 por Portugal após uma invasão da França Napoleónica apoiada pela Espanha ter quebrado o Tratado de Badajoz, o território foi anexado a Espanha.
O artigo 105 da Ata Final do Congresso de Viena (1815) reconheceu as reivindicações de Portugal sobre Olivença e obrigou a Espanha a devolver a vila e respetivo território, para restabelecer as fronteiras ao Estado anteriores ao Tratado de Badajoz de 1801. Embora a Espanha tenha assinado o tratado em 1817, a posição diplomática de Madrid argumentava que a redação do texto implicava uma disposição para negociar ou procurar a devolução, mas não constituía uma rendição automática ou uma renúncia implícita à sua soberania sobre o território.
Localização O município de Olivença tem 430 km², está situado na margem esquerda do rio Guadiana e tem uma forma aproximadamente triangular, com dois dos seus vértices no Guadiana. A cidade de Olivença dista 23 km de Elvas, 24 km de Badajoz, 236 km de Lisboa e 424 km de Madrid. A ligação a Elvas e ao restante território português é feita por uma ponte sobre o Guadiana construída em 2000 ao lado das ruínas da Ponte da Ajuda.
O município de Olivença inclui hoje duas vilas e quatro aldeias: S. Francisco e S. Rafael (vilas); e Vila Real, São Domingos de Gusmão, São Bento da Contenda e São Jorge da Lor (aldeias). Nossa Senhora da Assunção da Talega ou Táliga, outra povoação do antigo território de Olivença, é um município separado desde 1850. Pelo contrário, a aldeia de Vila Real, hoje parte de Olivença, era freguesia do concelho de Juromenha, atualmente integrado no município do Alandroal.
Em 1801 o concelho de Olivença era constituído pelas seguintes freguesias: Santa Maria do Castelo Santa Maria Madalena São Jorge da Lor São Domingos de Gusmão Nossa Senhora da Assunção da Talega ou Táliga, atualmente município
Clima As condições climáticas de Olivença correspondem perfeitamente ao clima mediterrânico, próprio do Alentejo e da Estremadura espanhola. Em grandes linhas, caracteriza-se por Verões quentes e secos e Invernos suaves, onde se concentra a maioria das precipitações.
Como consequência da sua latitude, Olivença tem grandes valores de insolação, com médias anuais superiores às horas de sol, apresentando, também em termos de média anual, uma temperatura de 16,55°C e uma precipitação de 518 mm.
Hidrografia Para além do rio Guadiana, cujo caudal depende diretamente das chuvas caídas na sua bacia hidrográfica, o município de Olivença é cruzado por vários pequenos rios e ribeiras, todos afluentes do Guadiana. Entre estes destacam-se: Rio de Olivença: Nasce junto à vila de Barcarrota e estabelece os limites este e norte de Olivença com os municípios de Barcarrota, Valverde de Leganés e Badajoz, antes de desaguar no Guadiana. Neste rio, que é bastante caudaloso no Inverno, foi construída a barragem de Piedra Aguda, com intuitos principalmente agrícolas. Rio de Táliga (também chamado Ribeira de Alconchel): Nasce perto de Táliga e passa por Alconchel. Já no seu curso final, demarca parte do limite sul de Olivença, confinando com o município de Alconchel.
Para além destes dois rios, o município de Olivença é cruzado por outros pequenos cursos de água ou arroios, afluentes do Guadiana, de norte para sul: Charca, Figueira (Higuera), Valongo e São Bento (San Benito).
História À época da Reconquista cristã da Península Ibérica, o território da margem esquerda do rio Guadiana foi dominado quando da conquista definitiva de Badajoz pelas forças de de Leão, na primavera de 1230. Como compensação pelos serviços prestados nessa conquista, o soberano leonês fez a doação dos domínios de Burguillos e de Alconchel aos cavaleiros da Ordem do Templo, para que os povoassem e defendessem. Em algum momento entre esta doação e o ano de 1256, a Ordem estabeleceu a Comenda de Olivença, à época uma pequena povoação que se afirmava em torno de uma fonte (actual Fuente de La Corna), voltada para a agricultura e a pastorícia. Nesse local, os templários ergueram um castelo e uma igreja, sob a invocação de Santa Maria, organizando a exploração económica da comunidade.
Ao mesmo tempo em que a Ordem do Templo e a Ordem de Santiago se expandiam para o Sul, sob o reinado de de Castela, registava-se uma expansão portuguesa na margem esquerda do rio Guadiana, de tal modo que sob o reinado de foram por aquele soberano tomadas duas medidas:
a Convenção de Badajoz (1267), que afirmou o curso dos rios Caia e Guadiana como raia entre os domínios de Castela e de Portugal a remoção da Ordem do Templo dos domínios raianos de Olivença, com a integração dos mesmos ao concelho e bispado de Badajoz.
Sob o reinado de D. Dinis , entretanto, o equilíbrio de forças assim obtido alterou-se a favor de Portugal: em Castela, o falecimento prematuro de , a regência de Maria de Molina e a menoridade de , acarretaram grave crise política que conduziu à sublevação da nobreza no reino. Como agravante deste quadro de guerra civil, os muçulmanos aproveitaram para fazer uma contraofensiva. O soberano português, aproveitando-se desta conjuntura, através de uma combinação de pressão militar e diplomática, agiu para recuperar os domínios portugueses perdidos na margem esquerda do rio Guadiana (Noudar e Mourão) com a assinatura da em 1295.
O Tratado de Alcanizes de 1297
As fronteiras entre ambos os reinos foram objeto de regularização pelo Tratado de Alcanizes, em 1297. A troco dos direitos portugueses sobre Aiamonte, Esparregal, Ferreira de Alcântara e Valência de Alcântara, nos termos raianos de Aroche e de AracenaOlivença - Terra Portuguesa - Como a Obtivemos e Como a Perdemos, por António Manuel Pereira, Edição Rotary Club do Porto, 1960, a Coroa de Castela cedia:
Terras de Ribacoa Campo Maior Olivença Ouguela Juromenha São Félix dos Galegos (que passou para a posse de Castela em 1327)
Com a assinatura do Tratado de Alcanizes, os domínios de Olivença tiveram a sua posição estratégica revalorizada frente a Badajoz, o que se traduziu na multiplicação das disputas territoriais envolvendo a circunscrição de Badajoz e num progressivo incremento das fortificações de Olivença.
As defesas de Olivença
Para uma melhor compreensão da questão é necessário identificar num mapa da Península a posição estratégica das cidades portuguesa de Elvas (a Oeste) e castelhana de Badajoz (a leste). Para apoiar a importância estratégica da primeira e neutralizar a da segunda, os monarcas portugueses reforçaram, a partir de então, duas posições fortificadas:
o Castelo de Campo Maior, a leste do rio Caia, ao norte de Badajoz o Castelo de Olivença, a leste do rio Guadiana, ao sul de Badajoz.
Nesse sentido, a história de Olivença pode ser acompanhada através da evolução histórica de suas defesas, tanto nos períodos de paz, quanto nos de guerra.
Desse modo, já em 1306 o rei D. Dinis determinou a ampliação das primitivas defesas dos Templários, dotando a povoação com uma cerca de planta quadrangular, amparada por catorze torres. O seu filho e sucessor, , complementou essas obras, erigindo em seu interior a alcáçova, concluída em 1335. No último terço do , no contexto das chamadas guerras fernandinas, Olivença foi dotada de uma nova cerca envolvente, de planta aproximadamente oval, rasgada por cinco portas. A memória dessa cerca, posteriormente demolida integralmente, sobrevive em nossos dias no traçado urbanístico de suas ruas.
Aproximadamente um século mais tarde, em 1488, o rei fez erguer, no recinto da alcáçova, a torre de menagem mais elevada do reino de Portugal, dotando o conjunto de um fosso inundável, visando dificultar os trabalhos de sapa em caso de assédio. Os trinta e cinco metros de altura desta torre eram acedidos por dezassete rampas que permitiam o acesso de peças de artilharia. Do seu alto descortinava-se a cidade de Badajoz. Esta estrutura monumental, erguida em tempos de paz, despertou a natural desconfiança e o receio dos Reis Católicos, incapazes de impedi-la.
Uma nova etapa de obras defensivas teve lugar sob o reinado de D. Manuel , quando a antiga cerca fernandina foi demolida por Afonso Mendes de Oliveira com o aproveitamento de seu material para a construção de uma nova muralha, da qual Duarte de Armas nos legou iconografia (Livro das Fortalezas, ). Data do reinado deste soberano outra monumental obra de arquitetura militar, essencial à defesa de Olivença: a chamada Ponte da Ajuda. Esta ponte fortificada destinava-se a assegurar a operação das forças portuguesas na margem esquerda do rio Guadiana, em apoio a Olivença. Com trezentos e oitenta metros de comprimento por cinco metros e meio de largura, apoiava-se em dezanove arcos, defendida por uma sólida torre em seu centro, torre esta dividida internamente em três pavimentos. Todo o reino contribuiu para a construção desta obra, com excepção dos habitantes de Olivença.
A importância de que esta praça se revestia para a Coroa Portuguesa, aumentou quando foi elevada a sede episcopal da Diocese de Ceuta. Residência de Frei Henrique de Coimbra, religioso que celebrou a primeira missa no Brasil, nessa época ergueram-se importantes edificações como a Igreja de Santa Maria Madalena (réplica do Convento de Jesus de Setúbal), o Convento de São Francisco, a Santa Casa da Misericórdia e outras.
thumb|upright|left|Interior manuelino da Igreja de Santa Maria Madalena
Por ocasião da invasão de , na contenda pela coroa que usurpou a D. António, Prior do Crato, Olivença foi tomada a 19 de junho de 1580. Se a paz propiciada pela dinastia filipina favoreceu a arquitetura religiosa em Olivença, um novo ciclo de arquitetura militar se abre com a Guerra da Restauração da Independência. A cerca manuelina foi demolida para com as suas pedras se erguer uma nova muralha, com traçado abaluartado, que contava com nove baluartes. A praça resistiu a quatro assaltos pelas tropas espanholas sob o comando do duque de San Germán, vindo a cair no quinto, em 1657. Permaneceu na posse da Espanha até ser devolvida a Portugal pelo Tratado de Lisboa de 1668, que encerrou o conflito.
O curto período de paz que se seguiu a este diploma foi aproveitado para reforçar as muralhas da praça-forte e reconstruir a Ponte da Ajuda, cujos arcos centrais se fizeram explodir mas tarde, em 1709, no decorrer da Guerra da Sucessão Espanhola. A militarização do espaço urbano de Olivença continuou durante a primeira metade do com a ereção de obras significativas como os quartéis de cavalaria e de infantaria, o chamado Quartel de Assento (a "Padaria do Rei") o Polvorim de Santa Bárbara, o Hospital Militar de São João de Deus, as Portas do Calvário, os revelins e demais obras exteriores da praça-forte.