Beda (; ; —), conhecido também como Venerável Beda (), foi um monge inglês que viveu nos mosteiros de São Pedro, em Monkwearmouth, e São Paulo, na moderna Jarrow, no nordeste da Inglaterra, uma região que, na época, era parte do Reino da Nortúmbria. Ele é conhecido principalmente por sua obra-prima, a História Eclesiástica do Povo Inglês, um trabalho que lhe rendeu o título de "Pai da História Inglesa".
Em 1899, Beda foi proclamado Doutor da Igreja pelo papa Leão XIII, um dos mais importantes títulos teológicos da Igreja Católica. Além disso, Beda era um habilidoso linguista e tradutor e suas obras ajudaram a tornar acessíveis os textos dos primeiros Padres da Igreja, escritos em latim ou em grego, para os anglo-saxões, contribuindo assim com o desenvolvimento do cristianismo inglês. O mosteiro de Beda dispunha de uma grande biblioteca que incluía, entre outras, obras de Eusébio e Orósio.
Biografia
Quase tudo o que se sabe sobre a vida de Beda está contido no último capítulo de sua História Eclesiástica, completada por volta de 731. Ele indicou que estava com cinquenta e nove anos de idade na época, o que implica que teria nascido por volta de 672 ou 673. Uma outra fonte, menor, é uma carta de seu discípulo, Cuteberto (Cuthbert), que trata da morte de Beda. Beda, na "Historia", afirma ter nascido "nas terras de seu mosteiro", uma referência aos mosteiros gêmeos de São Pedro e São Paulo em Monkwearmouth e Jarrow, na moderna região de Sunderland. Existe também uma antiga tradição que conta que Beda nasceu em Monkton, a pouco menos de cinco quilômetros do mosteiro de Jarrow. Ele nada conta sobre suas origens, mas suas conexões com diversos homens de origem nobre sugere que sua própria família era rica. O primeiro abade de Beda foi Bento Biscop (Benedict) e os nomes "Biscop" e "Beda" - este um nome incomum na época - aparecem numa lista de reis de Lindsey datada de cerca de 800, o que reforça a tese de que ele seria de origem nobre. A "Liber Vitae" da Catedral de Durham inclui uma lista de padres, com dois deles com este nome, e presume-se que um deles seja o próprio Beda. Alguns manuscritos da "Vida de Cuteberto", uma das obras de Beda, menciona que o padre de Cuteberto chamava-se também Beda, possivelmente o outro da "Liber Vitae". Estas duas ocorrências, juntamente com um "Bieda" mencionado na "Crônica Anglo-Saxônica" na entrada do ano 501, são as únicas ocorrências do nome nas fontes antigas. É provável que ele seja derivado do inglês antigo "bēd" ("oração"); se Beda recebeu-o ao nascer, é provável que sua família tenha planejado desde cedo a sua entrada no clero.
Com sete anos de idade, Beda foi enviado para o mosteiro de Monkwearmouth pela família para ser educado por Bento Biscop e, posteriormente, por Ceolfrido (Ceolfrith). Porém, ele não diz se já se esperava na época que ele se tornasse um monge. É de se notar que era bastante comum na Irlanda na época que jovens garotos, principalmente os de origem nobre, fossem educados fora de casa; a prática provavelmente era comum entre os povos germânicos da Inglaterra. O mosteiro irmão de Monkwearmouth em Jarrow foi fundado por Ceolfrido em 682 e Beda provavelmente mudou-se para lá com ele no mesmo ano. A pedra dedicatória da igreja do mosteiro ainda existe e traz a data de 23 de abril de 685. Como se supõe que Beda fosse encarregado de ajudar nas diversas tarefas menores do dia-a-dia, é possível que ele também tenha ajudado a construir a igreja original. Em 686, irrompeu uma epidemia de peste em Jarrow. A "Vida de Ceolfrido", escrita por volta de 710, relata que apenas dois monges sobreviventes ainda conseguiam cantar nos ofícios completos; um era Ceolfrido e o outro, um jovem rapaz que, de acordo com o autor desconhecido da obra, era aprendiz dele. Os dois sozinhos conseguiram realizar todos os serviços da liturgia diária até que outros pudessem ser treinados para ajudá-los. O jovem é quase certamente Beda, que teria na época por volta de quatorze anos.
Quando Beda tinha por volta de dezessete anos, Adomnán, o abade de Iona, visitou Monkwearmouth e Jarrow. Beda provavelmente se encontrou com ele durante a visita e é possível que ele tenha despertado o interesse do jovem pela controvérsia sobre data da Páscoa. Por volta de 692, Beda, que tinha dezenove anos, foi ordenado diácono por seu bispo, João de Beverley. A idade canônica para a ordenação de um diácono na época era vinte e cinco anos, mas especula-se que Beda não precisou esperar justamente por ser considerado um talento excepcional. Contudo é possível também que o requisito da idade mínima fosse frequentemente desconsiderado. Apesar da possibilidade de que houvesse ordens de status inferior ao de diácono, não há registros de que Beda tenha exercido qualquer uma delas. No trigésimo ano da vida de Beda (por volta de 702), foi ordenado padre pelo bispo João.
Um ano antes, Beda escreveu suas primeiras obras, "De Arte Metrica" e "De Schematibus et Tropis", livros didáticos para serem utilizados em sala de aula. Ele nunca mais parou de escrever e completou mais de sessenta livros, a maioria dos quais sobreviveu. Porém, nem todas as suas obras podem ser datadas com facilidade e é possível que ele tenha voltado a trabalhar em alguns textos em diversas ocasiões durante um longo período de tempo. A última obra conhecida é uma carta a Egberto de Iorque (Ecgbert), um ex-estudante, escrita em 734. Um manuscrito greco-latino do dos Atos dos Apóstolos, que acredita-se ter sido escrito por Beda, sobreviveu, está preservado na Biblioteca Bodleiana da Universidade de Oxford e é conhecido como Codex Laudianus. É possível também que Beda tenha trabalhado diretamente na confecção de uma das bíblias em latim copiadas em Jarrow, uma das quais está hoje preservada na Biblioteca Laurentina, em Florença. Além de escritor, Beda também ensinava, gostava de música - conta-se que era muito bom cantor - e recitava muito bem poesias no vernáculo. Contudo, é possível que ele sofresse de alguma forma de dificuldade de fala, mas esta tese depende da interpretação de uma frase na introdução de sua obra em verso sobre a vida de São Cuteberto. Traduções do trecho diferem entre si e não há certeza se ele quis dizer que foi curado de um problema na fala ou se estava meramente afirmando ter sido inspirado pelas obras do santo.
Em 708, alguns monges da Abadia de Hexham acusaram Beda de heresia em sua obra "De Temporibus". A visão teológica padrão para a história do mundo na época era conhecida como "seis épocas do mundo"; em seu texto, Beda tentou calcular a idade do mundo em vez de aceitar a autoridade de Isidoro de Sevilha, e acabou concluindo que Cristo havia nascido anos depois da criação do mundo, em vez dos mais de anos aceitos pelos teólogos na época. A acusação foi formalizada perante o novo bispo de Hexham, (Wilfrid), que estava numa festa quando alguns monges bêbados fizeram a acusação. Vilfrido não respondeu de imediato, mas um monge presente relatou o episódio por carta a Beda. Ele respondeu, poucos dias depois, apresentando sua defesa e pedindo que a carta fosse lida para Vilfrido. Segundo o próprio Beda, ele e Vilfrido se comunicaram novamente entre 706 e 709, quando trataram de Etelrita (Æthelthryth), a abadessa de Ely. Beda quis saber de Vilfrido, que esteve presente à exumação do corpo dela em 695, sobre as condições exatas do corpo e pediu mais detalhes sobre sua vida, uma vez que Vilfrido havia sido o principal conselheiro dela.
Em 733, Beda viajou para Iorque para visitar Egberto, que ocupava a função de bispo. A sé de Iorque seria elevada a metropolitana em 735 e é provável que os dois tenham discutido as propostas para elevá-la durante a visita. Beda queria visitar Egberto novamente em 734, mas estava muito doente para viajar. Ele também visitou o mosteiro de Lindisfarena e, em algum momento, o mosteiro desconhecido de um monge chamado Victedo (Wicthed), segundo uma carta que Beda escreveu para ele. Por conta de sua extensiva correspondência com diversas pessoas em todas as ilhas Britânicas, assume-se que Beda as tenha conhecido pessoalmente e que, portanto, teria também viajado para outros lugares, embora nada mais se saiba sobre quando ou para onde. É quase certo, porém, que ele não esteve em Roma, pois certamente teria mencionado a viagem no capítulo autobiográfico da "História Eclesiástica". Notelmo (Nothhelm), um correspondente de Beda que ajudou-o a encontrar documentos em Roma, visitou-o, mas não se sabe quando.
Beda faleceu numa quinta-feira, 26 de maio de 735 ("Dia da Ascensão"), e foi enterrado em Jarrow. Cuteberto, um discípulo, escreveu uma carta para Cutvino (Cuthwin; sobre quem nada mais se sabe) descrevendo os últimos dias de Beda e sua morte. Segundo o relato, Beda ficou doente - "ataques frequentes de falta de ar, mas quase sempre sem dor" - antes da Páscoa. Na quinta-feira, dias antes, morreu, com a respiração muito ruim e com os pés inchados. Ele continuou ditando para um secretário durante a doença e, mesmo tendo passado a noite em claro rezando, voltou a fazê-lo no dia seguinte. Às três horas da tarde, pediu que seu baú lhe fosse levado e distribuiu entre os padres do mosteiro "uns poucos tesouros" que possuía: "alguma pimenta, guardanapos e um pouco de incenso". Na mesma noite, ditou sua última frase para o escriba, um garoto chamado Vilberto (Wilberht) e morreu logo depois.
A carta de Cuteberto também preservou um curto poema, com apenas cinco linhas no vernáculo, que Beda compôs em seu leito de morte e que é conhecido como "Canto de Morte de Beda" (veja mais abaixo). Trata-se do mais copiado poema em inglês antigo e aparece em 45 manuscritos, mas sua atribuição a Beda não é totalmente certa - nem todos o nomeiam como tal e os que o fazem são mais antigos que os que não. Os restos mortais de Beda foram transferidos para a Catedral de Durham no . Apesar de o túmulo ter sido saqueado em 1541, é provável que suas relíquias tenham sobrevivido e sido re-enterradas na Capela Galileia na mesma catedral.
Uma curiosidade a mais em suas obras é que, numa delas, o "Comentário sobre as Sete Epístolas Católicas", ele escreve de uma forma que deixa a impressão de que ele seria casado. A seção em questão é a única da obra escrita em primeira pessoa. Segundo ele, as "orações são atrapalhadas pelos deveres conjugais, pois toda vez que realizo o que devo à minha esposa não consigo rezar". Em outra passagem, desta vez no "Comentário sobre Lucas", ele cita novamente uma esposa na primeira pessoa: "Eu possuía antigamente uma esposa na libidinosa paixão do desejo e hoje a possuo na honrosa santificação e verdadeiro amor de Cristo". A historiadora Benedicta Ward defende que, nestas passagens, Beda nada mais fez do que lançar mão de recursos retóricos para sublinhar seus pontos de vista.
Obras thumb|300px|Manuscrito da "História Eclesiástica do Povo Inglês" em Estrasburgo, na França
Beda escreveu obras científicas, históricas e teológicas, um reflexo da abrangência de seus interesses, que iam da métrica aos comentários exegéticos. Ele conhecia a literatura patrística e também Plínio, Virgílio, Lucrécio, Ovídio, Horácio e outros escritores antigos.
Os comentários bíblicos de Beda empregaram um método alegórico de interpretação e suas obras históricas incluem relatos sobre milagres, o que, para historiadores modernos, conflita com sua abordagem crítica às demais fontes em sua história. Estudos modernos demonstraram o papel fundamental que estes conceitos alegóricos tiveram na formação da visão de mundo dos primeiros acadêmicos medievais.