Tartaruga-marinha (Chelonioidea) é a superfamília da ordem das tartarugas que inclui as espécies que habitam mares tropicais e subtropicais em todo o mundo. O grupo é constituído por seis gêneros e sete espécies, todas elas ameaçadas de extinção.

A sobrevivência das tartarugas-marinhas continua em risco devido a muitos anos de caça intensiva pela sua carapaça, carne (utilizada para sopa) e gordura. Atualmente a caça está controlada, mas estes animais continuam ameaçados pelas redes de pesca que matam cerca de 40 000 exemplares por ano. Outra das maiores ameaças é o desenvolvimento costeiro nas áreas de nidificação, que impede as fêmeas de pôr os ovos e impossibilita a sua reprodução.

A maioria das espécies são migratórias e vagueiam pelos oceanos, orientando-se com a ajuda do campo magnético terrestre.

Anatomia e morfologia esquerda|miniaturadaimagem|311x311px|Figura 1: Terminologia anatômica esquerda|miniaturadaimagem|313x313px|Figura 2: À esquerda, localização dos escudos da carapaça das tartarugas-marinhas. À direita, vista dorsal dos ossos da carapaça. As tartarugas-marinhas diferem de outros répteis por apresentarem um casco rígido que as protege de predadores, das variações climáticas e pressões ambientais.

O casco é uma estrutura formada pela fusão de ossos da coluna vertebral, costelas e cintura pélvica. A porção dorsal do casco é denominada carapaça e a porção ventral, plastrão. A carapaça é feita de ossos cobertos por escudos queratinosos nas quatro espécies da família Cheloniidae ou gordura e pele na tartaruga-de-couro (família Dermochelyidae). As margens desses escudos não estão alinhadas com as estruturas dos ossos. Na tartaruga-de-couro, a gordura se localiza por cima das costelas e das vértebras, e está revestida dorsalmente por uma pele serosa que contém pequenas ossificações (placas ósseas dérmicas). O plastrão, por sua vez, é composto por quatro pares de ossos e um osso não pareado.

As tartarugas-marinhas medem, quando adultas, de 55cm a 2,1m de comprimento curvilíneo de carapaça (CCC) e pesam de 35 a 900kg, dependendo da espécie. Apresentam dimorfismo sexual quando adultas: machos possuem cauda mais longa e uma grande garra curva direcionada para dentro nas nadadeiras anteriores, que o ajudam a segurar a fêmea no momento da cópula.

A identificação das diferentes espécies de tartarugas-marinhas é feita por meio de características externas, como o número de escamas na cabeça, o formato do crânio, o número de unhas nas patas e no número e arranjo de escudos (ou placas) na carapaça. alt=|miniaturadaimagem|269x269px|Figura 3: Localização das escamas na cabeça das tartarugas-marinhas As principais características-chave são os escudos inframarginais, que ficam no plastrão, e os escudos laterais e vertebrais, que ficam na carapaça e estão indicados na figura 2. O plastrão também apresenta padrões distintos, que são usados mais frequentemente como marcos para estruturas internas do que para a identificação de espécies. Além disso, as tartarugas-marinhas apresentam escamas queratinosas na cabeça dorsal chamadas de pós-oculares (logo acima do focinho) e escamas chamadas de laterais logo ao lado dos olhos, que são também utilizadas na identificação de espécies. As escamas pré-frontais ocorrem em pares e o número destes varia de acordo com a espécie (ver figura 3). Vários caracteres internos ósseos e mandibulares também podem ser usados para tal. A maioria das espécies tem 2 garras em seus membros. A garra I é geralmente maior do que garra II e torna-se fortemente curva em machos adultos. O número de garras nos membros posteriores e inferiores é o mesmo.

Fisiologia

Osmorregulação As tartarugas mantêm um ambiente interno hipotônico em relação ao água do mar. Para manter a hipotonicidade, elas devem excretar íons salinos. Assim como outros répteis marinhos, elas possuem uma glândula especializada para eliminar o excesso de sais, já que seus fígados não são capazes de produzir uma urina com concentração de sais maior que a do mar. Todas as espécies de tartarugas-marinhas possuem uma glândula lacrimal na cavidade orbital capaz de produzir lágrimas com concentrações de sal maiores do que a do mar.

Tartarugas de couro têm um problema maior, já que se alimentam de medusas e outros plânctons gelatinosos que possuem a mesma concentração da água do mar. Por isso, provavelmente a glândula lacrimal dessas tartarugas evoluiu de forma a culminar numa glândula muito maior, que expele lágrimas com quase o dobro de concentração de sais em comparação às glândulas das outras espécies.

Filhotes necessitam de beber água do mar logo após entrarem no oceano para repor a quantidade de água perdida ao saírem dos ovos. Para restabelecer balanço hídrico e iônico, as glândulas começam a funcionar rapidamente. A sobrevivência e desempenho fisiológico dependem da hidratação imediata e eficiente após emergirem do ninho.

Termorregulação As tartarugas da família Cheloniidae tem grande variação de temperatura ao longo do tempo, enquanto a tartaruga de couro (Dermochelyidae) é endotérmica, por conseguir manter sua temperatura 8ºC acima da temperatura ambiente.

Tartarugas-marinhas verdes do pacífico relativamente mais frio são conhecidas por saírem para ilhas remotas para se aquecerem no sol. Esse comportamento só foi observado em poucos locais, incluindo Galápagos, Hawaii, Ilha Europa e partes da Austrália.Green, Derek (March 1997). "Basking in Galapagos Green Turtles" (PDF). Proceedings of the 17th Annual Sea Turtle Symposium.

Fisiologia do mergulho Tartarugas-marinhas são répteis que têm pulmões, portanto respiram ar atmosférico. Para respirarem, elas devem subir a superfície regularmente, no entanto, elas passam a maior parte do tempo embaixo d’água, fazendo-se necessário que segurem a respiração por longos períodos de tempo. A duração do mergulho depende principalmente da quantidade de atividade realizada. Uma tartaruga que está forrageando gasta normalmente entre 5 a 40 minutos embaixo d’água, enquanto uma tartaruga que está dormindo pode permanecer no fundo do mar entre 4 a 7 horas. A respiração permanece aeróbica durante a maioria do tempo em um mergulho voluntário. Quando uma tartaruga é involuntariamente submergida (quando fica presa em uma rede de pesca por exemplo) a duração do mergulho é reduzida significativamente, aumentando a susceptibilidade a afogamento.

Quando a tartaruga atinge a superfície, seus pulmões podem ser rapidamente preenchidos pelo ar com uma única expiração explosiva e uma rápida inalação. Por possuírem grandes pulmões, a troca gasosa é extremamente rápida, permitindo maior entrada de oxigênio e impedindo que outros gases se acumulem ao longo dos mergulhos.

Fluorescência Tartarugas-marinhas são os primeiros répteis fluorescentes encontrados na natureza. Gruber e Sparks (2015) observaram a primeira fluorescência em um tetrápode marinho.

De acordo com eles, a fluorescência está sendo observada em um número cada vez maior de criaturas marinhas (cnidários, ctenóforos, anélidos, artrópodes e cordados), além de ser um fenômeno bem comum em peixes cartilaginosos e ósseos.

Os dois biólogos marinhos acidentalmente observaram, nas Ilhas Salomão, uma tartaruga de pente com fluorescência. Seu objetivo aquela noite era observar a biofluorescência emitida por pequenos tubarões e corais. São vários os papéis da biofluorescência em organismos marinhos, entre eles os de atrair presas, se comunicar, se camuflar ou se defender. Eles acreditam que no caso desta tartaruga, a fluorescência pode ser usada para se camuflar entre os recifes de coral durante a noite.

Espécies alt=|esquerda|miniaturadaimagem|155x155px|Chelonia mydas miniaturadaimagem|156x156px|Lepidochelys olivacea miniaturadaimagem|156x156px|Caretta caretta miniaturadaimagem|151x151px|Natator depressus Há um total de quatro famílias de tartarugas-marinhas (Toxochelyidae,Protostegidae, Cheloniidae e Dermochelyidae) e somente as últimas possuem espécies viventes. As principais características utilizadas para diferenciação das espécies estão relacionadas à presença de placas no casco e suas diferenças, mudanças no formato de cabeça e nadadeiras.

As tartarugas-marinhas possuem sete espécies viventes divididas em dois gêneros, Dermochelydae e Chelonidae. As principais características utilizadas para diferenciação entre as espécies são características morfológicas como diferenças no tegumento ou formações ósseas.

-Chelonia mydas sp (Cheloniidae): Conhecida como tartaruga verde, podem chegar a 1.5 metros de comprimento e pesam em média 160kg. Possuem uma cor esverdeada característica da espécie e têm hábito onívoro enquanto filhote, tornando-se basicamente herbívoras quando adultas, principalmente algas verdes, as quais elas forrageiam nos costões rochosos (são encontradas no Brasil).

-Caretta caretta sp (Cheloniidae): Conhecidas como cabeçuda ou mestiça chegam a medir 1.5 metros de comprimento e pesam em média 140kg. Essa espécie é totalmente carnívora, alimentando-se de caranguejos, moluscos, mexilhões e outros invertebrados triturados com ajuda dos músculos poderosos de sua mandíbula (encontrada no Brasil). alt=|esquerda|miniaturadaimagem|155x155px|Eretmochelys imbricata -Eretmochelys imbricata sp (Cheloniidae): São conhecidas como tartaruga de pente ou legítimas, chegando a 1,2 metros de comprimento e pesando em média 85kg. Seu nome vem devido a característica das placas do casco, que se imbricam como telhas. Sua alimentação é muito dependente de corais, onde utilizam seu bico estreito para predar esponjas, anêmonas, lulas e camarões (encontrada no Brasil).

-Lepidochelys olivacea sp (Cheloniidae): Chamadas de tartarugas oliva, tem em média 72 cm de comprimento e pesam cerca de 40kg. Tem uma dieta alimentar muito variada mas principalmente carnívora, sendo suas principais presas salpas, peixes, moluscos, crustáceos, briozoários, tunicados, águas-vivas, ovos de peixe e eventualmente algas. É a única espécie que participa de um evento chamado arribada, quando centenas de tartarugas desovam ao mesmo tempo em uma praia (são encontradas no Brasil). alt=|esquerda|miniaturadaimagem|155x155px|Lepidochelys kempii miniaturadaimagem|165x165px|Dermochelys coriacea -Lepidochelys kempii sp (Cheloniidae): As tartarugas-de-kemp medem por volta de 70 cm de comprimento e pesam de 35 a 50 kg. Alimentam-se principalmente de caranguejos que captura nas águas pouco profundas mas também se alimentam de moluscos, outros crustáceos, peixes, alforrecas, algas ou ouriços-do-mar (não encontrados no Brasil).

-Natator depressus sp (Cheloniidae): São tartarugas endêmicas da região da Austrália e por isso são chamadas de tartaruga australiana. Podem chegar a 1 metro de comprimento e pesam em média 70kg. Possuem alimentação variada, desde pequenos invertebrados, algas e pequenos vertebrados.

-Dermochelys coriacea sp (Dermochelydae): As tartarugas-de-couro ou tartarugas-gigantes são as que apresentam maior tamanho dentre as tartarugas-marinhas, podendo chegar a 1,80 metros de comprimento e podendo pesar 400kg. As suas nadadeiras dianteiras podem alcançar os 2 metros de comprimento e não possuem placas na carapaça quando adultas, o que faz referência a seu nome popular. A sua dieta é composta principalmente por zooplâncton gelatinoso como celenterados, pirossomos e salpas (encontradas no Brasil).

Biogeografia As tartarugas-marinhas distribuem-se amplamente entre as bacias oceânicas, com registros desde o Ártico até à Tasmânia (Meylan & Donnely, 1999). No entanto, a maior parte das ocorrências reprodutivas está concentrada em regiões tropicais e subtropicais (Márquez, 1990). alt=|esquerda|miniaturadaimagem|385x385px|Distribuição mundial de Cheloniidae

Distribuição geográfica das tartarugas-marinhas que ocorrem no Brasil Caretta caretta (Linnaeus, 1758)