Arcangelo Corelli (Fusignano, — Roma, ) foi um professor, maestro, violinista e compositor italiano.

Pouco se sabe sobre a sua vida. Recebeu formação em Bolonha e Roma, e nesta cidade desenvolveu a maior parte de sua carreira, sendo patrocinado por grandes mecenas aristocratas e eclesiásticos. Embora sua produção integral resuma-se a somente seis coleções de obras publicadas — cinco delas de sonatas para trio ou solo e uma de concertos grossos, com doze peças em cada —, seu reduzido número e os poucos gêneros a que se dedicou estão em proporção radicalmente inversa à vasta fama que elas lhe trouxeram, cristalizando modelos de larga influência em toda a Europa. Das seis coleções, a sexta e última, dos concertos grossos, é a que ganhou o mais duradouro favor da crítica, embora a quinta também seja altamente apreciada.

Sua escrita foi admirada pelo equilíbrio, pelo refinamento, pelas suntuosas e originais harmonias, pela riqueza das texturas, pelo majestoso efeito dos conjuntos e pela sua polifonia clara e melódica — qualidades associadas aos ideais clássicos, ainda que sua produção se inserisse no contexto barroco e fizesse uso de recursos característicos dessa escola, como a exploração de contrastes dinâmicos e afetivos, mas sempre contidos por um sentido acentuado de moderação. É considerado o primeiro compositor a aplicar de forma plena e com finalidade expressiva e estruturante o sistema tonal, consolidado após pelo menos dois séculos de experimentações. Atuou regularmente como regente e violinista solista em produções de óperas, oratórios e outras obras, participando também do processo de consolidação da orquestra como formação instrumental padrão. Como violinista, foi reconhecido entre os mais destacados de sua geração, tendo contribuído para a valorização do violino como instrumento solista, para o desenvolvimento de técnicas de execução e para a formação de discípulos que perpetuaram sua escola.

Foi a personalidade dominante na vida musical romana até seus últimos anos e muito estimado internacionalmente, foi disputado pelas cortes e admitido na mais prestigiada sociedade artística e intelectual de seu tempo, a Academia da Arcádia, sendo chamado de "o novo Orfeu", "o príncipe dos músicos" e outros adjetivos similares, gerando grande folclore. Sua obra já foi objeto de volumosa bibliografia crítica, a discografia cresce sem cessar e suas sonatas ainda são usadas largamente nas academias de música como material didático. Sua posição na história da música ocidental está hoje firmemente estabelecida como um dos principais mestres da passagem do para o XVIII e como um dos primeiros e maiores classicistas.

Biografia Origens e primeiros anos

Arcangelo Corelli nasceu em 17 de fevereiro de 1653 na vila de Fusignano, então parte dos Estados Pontifícios, como o quinto filho de Arcangelo Corelli e Santa Raffini. Seu pai faleceu pouco mais de um mês antes de seu nascimento. Biografias antigas construíram para sua família genealogias ilustres que remontavam ao romano Coriolano ou aos poderosos patrícios venezianos Correr, mas elas carecem de fundamento. Não obstante, foram documentados em Fusignano desde 1506, onde ingressaram no patriciado rural, vindo a adquirir riqueza e considerável extensão de terras. Sua família foi turbulenta e orgulhosa, e por muito tempo disputou com a família Calcagnini para ser investida do feudo de Fusignano, que a outra detinha, sem consegui-lo.Buscaroli, Piero. "Corelli, Arcangelo". In: Dizionario Biografico degli Italiani, Volume 29. Treccani, 1983

Diz a tradição que sua vocação musical revelou-se muito cedo, ao ouvir um padre violinista, mas a ideia de que seguisse a música como profissão não estava nos planos da família. Os Corelli já haviam produzido diversos juristas, matemáticos e mesmo poetas, mas nenhum músico."Arcangelo Corelli". In: Encyclopedie Larousse Online Esta arte era cultivada pelas elites de sua época mais como um passatempo e um prazer diletante e sinalizava uma educação e um gosto refinados, mas os profissionais pertenciam às classes baixas e não gozavam de grande prestígio social. Desta maneira, sua mãe viúva permitiu que recebesse os rudimentos da arte, com professores cujo nome a história não registrou, desde que não abandonasse a educação formal que se esperava de um patrício, que começou a receber em Lugo e logo em Faenza.

Período bolonhês Com treze anos estava em Bolonha, onde sua vocação se definiu e decidiu dedicar-se integralmente à música. Não se sabe o que havia aprendido em Lugo e Faenza, mas segundo o testemunho do douto padre Martini, até esta época seu conhecimento de música era medíocre. Em Bolonha entrou em contato com afamados professores, entre eles Giovanni Benvenuti e Leonardo Brugnoli, e talvez também Giovanni Battista Bassani, e começou a se manifestar sua preferência pelo violino. Seu progresso nos estudos do instrumento foi tão rápido que apenas quatro anos depois, em 1670, foi admitido na prestigiada Academia Filarmônica, uma das mais seletivas da Itália, embora seu nascimento patrício possa ter tido alguma influência no processo. É ignorado até que ponto a escolha dos professores foi intencional ou meramente produto das circunstâncias, mas a julgar por uma observação que deixou em 1679, eles lhe pareceram os melhores mestres disponíveis na cidade, não havendo outros que pudessem oferecer instrução mais apurada, mesmo que limitada a certos aspectos da arte. De qualquer forma, eles se alinhavam a uma nova corrente que dava uma ênfase maior ao brilhantismo na execução, em detrimento das tradições da antiga escola contrapontística, em que os instrumentos tinham um peso mais ou menos similar nos conjuntos. De fato, em sua maturidade Corelli seria um dos grandes agentes da rápida ascensão do violino como instrumento solista e apto para exibir a virtuosidade dos intérpretes. O estilo que consolidou nesta primeira fase mostra especial influência de Brugnoli, cuja execução foi descrita pelo Martini como original e maravilhosa, sendo excelente também na improvisação.

Ao período bolonhês só podem ser atribuídas com alguma segurança uma sonata para tromba (trompete), dois violinos e baixo contínuo, e uma sonata para violino e baixo, que só foram publicadas anos mais tarde. Ciente de que sua formação era precária no contraponto e na composição, decidiu buscar aperfeiçoamento em Roma, onde colocou-se sob a orientação de Matteo Simonelli, mas a data de sua mudança é incerta. Pode ter chegado lá já em 1671, mas só é documentado a partir de 1675. Nada se sabe do que fez neste intervalo. Uma viagem a Paris, onde teria entrado em contato com o célebre Lully e despertado sua inveja hoje é tida como parte do folclore que se formou ao seu redor após ganhar fama. Biografias mais antigas também referem viagens a Munique, Heidelberg, Ansbach, Düsseldorf e Hannover, e da mesma forma têm sido descartadas como improváveis, mas pode ter passado algum breve período em sua Fusignano nativa.

Roma: maturidade e consagração thumb|250px|Frontispício da edição de sua Opera Quinta. Biblioteca Nacional da França

Simonelli era um classicista e exímio contrapontista, e exerceu importante influência no seu amadurecimento como compositor e no desenvolvimento do estilo de composição que o tornaria famoso, que se afastou do simples virtuosismo que herdara de Bolonha e passou a mostrar um notável equilíbrio entre brilho instrumental e uma distribuição de papéis mais equitativa entre as vozes da orquestra, que se revelaria magistralmente nos seus doze concertos grossos, sua obra-prima.

Seu primeiro registro seguro em Roma, de 31 de março de 1675, o mostra entre os violinistas na execução de um grupo de oratórios na Igreja de São João dos Florentinos, incluindo a obra San Giovanni Battista, de Alessandro Stradella. Em 25 de agosto constou na lista de pagamento pela execução de obras na Festa de São Luís realizada na Igreja de São Luís dos Franceses, em presença da nobreza e do corpo diplomático. Entre 1676 e 1678 é documentado como segundo violino na mesma Igreja. Em 6 de janeiro de 1678 foi o primeiro violino e regente da orquestra que apresentou a ópera Dov'è amore è pietà, de Bernardo Pasquini, na inauguração do Teatro Capranica. Esta apresentação significou sua consagração no mundo musical romano. Tornou-se primeiro violino da orquestra de São Luís e em 1679 entrou no serviço da ex-rainha Cristina da Suécia, que se radicara em Roma e ali mantinha uma corte brilhante.

Em 1680 completou e apresentou publicamente sua primeira coleção organizada de obras, impressa em 1681: Sonate à tre, doi Violini, e Violone, o Arcileuto, col Basso per l'Organo (Sonatas a três; dois violinos e violoncelo ou arquialaúde, com órgão como baixo), que dedicou a Cristina. Na autoria, fez reverência aos seus estudos iniciais, assinando como Arcangelo Corelli de Fusignano, o Bolonhês. No entanto, este apelido logo foi abandonado. Nesta coleção seu estilo já dava sinais de maturidade. Os anos seguintes veriam aparecer uma série relativamente pequena mas regular de obras onde ele era polido à perfeição. Em 1685 veio à luz sua Opera Seconda, composta de doze sonatas de câmara, em 1689, a coleção de doze sonatas de igreja, em 1694 outra série de doze sonatas de câmara, em 1700 suas doze sonatas para violino e baixo, culminando em 1714 com sua Opera Sesta, a série de doze concertos grossos, publicada já postumamente.

Ao longo deste período seu prestígio só cresceu e se firmou, tornando-se conhecido internacionalmente como maestro, compositor e virtuoso do violino, tendo suas obras reimpressas e admiradas em muitas cidades da Europa. Entre agosto de 1682 até 1709 esteve sempre à testa da orquestra de São Luís. Em 1684 deixou a corte de Cristina, que não era regular no pagamento de seu salário, e passou para o serviço do cardeal Benedetto Pamphili, que em 1687 o tornou seu mestre de música e seria um amigo e grande mecenas. No mesmo ano foi listado entre os membros da prestigiada Congregação dos Virtuosos de Santa Cecília no Panteão. Nesta época começou a tomar alunos, entre eles Matteo Fornari, que lhe seria também um fiel secretário e auxiliar pelo resto da vida. Em 1687 organizou um grande concerto em homenagem ao rei Jaime II de Inglaterra por ocasião da embaixada que ele enviara ao papa Inocêncio XI, conduzindo uma orquestra de 150 músicos. Graças à intervenção de Pamphili, que em 1690 foi transferido para Bolonha, Corelli tornou-se diretor de música da corte do cardeal Pietro Ottoboni, sobrinho do papa Alexandre VIII. Era personagem de grande influência na Igreja e se dedicava a um intenso mecenato, outra eminência a quem deveria amizade e grandes benefícios, e em cujo palácio veio a morar. Sua amizade se estenderia à família de Corelli, acolhendo seus irmãos Ippolito, Domenico e Giacinto em sua corte. Ali o compositor teria total liberdade de ação, sem as pressões que outros músicos sofriam de seus patrões poderosos. thumb|esquerda|Detalhe da partitura autógrafa de uma sonata a três

À parte da opulência dessas cortes, sua vida pessoal era modesta e discreta, somente dando-se ao luxo de adquirir uma coleção de pinturas. Sua fase romana transcorreu em uma sequência de sucessos artísticos e pessoais, sendo disputado por outras cortes e considerado o mais insigne violinista de seu tempo, e muitos lhe atribuíam o título de melhor compositor. Coroando sua carreira, em 1706 foi admitido na Academia da Arcádia, a glória máxima para um artista, onde adotou o nome simbólico Arcomelo Erimanteo. Pamphili havia retornado de Bolonha em 1704 ou 1705, requisitando o músico para diversas apresentações, e por esta altura passou a reger também a orquestra da Academia das Artes do Desenho.