miniatura|right|300px|Políptico da Sé de Évora (1495 - 1510, 552 cm x 530 cm), de mestre flamengo desconhecido, composto por treze painéis, que decorou o altar-mor da Sé Catedral de Évora, e que está actualmente no Museu de Évora O Políptico da Sé de Évora é um políptico de treze pinturas a óleo sobre madeira de carvalho criado no período de 1495 a 1510, tratando-se provavelmente de obra colectiva com direção e participação proeminente de artistas flamengos de que se desconhece a identidade, Políptico que decorou o altar-mor da Sé Catedral de Évora e que está actualmente no Museu de Évora.

O Políptico da Sé de Évora versou a vida da Virgem Maria sendo composto pelos seguintes treze painéis: Virgem da Glória, que era o painel central, Encontro na Porta Dourada, Nascimento da Virgem, Apresentação da Virgem no Templo, Casamento da Virgem, Anunciação, Presépio, Adoração dos Magos, Circuncisão, Apresentação do Menino no Templo, Fuga para o Egipto, O Menino entre os Doutores e Morte da Virgem.

Para D. Markl e F. Pereira, o Políptico do Sé de Évora é um dos principais exemplos da arte flamenga em Portugal. Tendo sido executado na passagem do Século XV para o Século XVI é expressão do que designam por Renascimento nórdico que iria influenciar fortemente os mestres luso-flamengos posteriores em especial os que pintaram em Évora.Markl, Dagoberto e Pereira, Fernando A. Batista, (1986), História da Arte em Portugal, vol. 6 - O Renascimento, Publicações Alfa, Lisboa.

História thumb|300 px|right|Reconstituição pelo Museu de Évora do Político da Sé de Évora, conforme se vê na imagem anterior. É uma disposição em S dos painéis laterais, iniciando-se a narrativa na primeira pintura do lado esquerdo da fila de baixo. A datação e a autoria do Políptico do Sé de Évora tem sido objecto de controvérsia, havendo propostas díspares formuladas por vários historiadores. Existe, no entanto, documentação sobre a restauração decidida pelo bispo D. Afonso levada a cabo entre 1523 e 1536, pelo que a obra havia sido criada anteriormente.Markl, Dagoberto e Pereira, Fernando A. Batista, (1986), História da Arte em Portugal, vol. 6 - O Renascimento, Publicações Alfa, Lisboa.

Assim, por exemplo, Carl Justi (1888) atribuiu o Políptico a Gerard David (1460-1523) considerando-a a mais opulenta obra do notável autor flamengo. Para Eberhard von Bodenhausen (1905), que considerou a obra inspirada na mais pura pintura brugense, filiou-a, pela técnica e analogia, ao ciclo do notável desenhador e miniaturista Hugo van der Goes.

Já Max J. Friedländer, sem afastar a possibilidade de uma atribuição a van der Goes de alguns painéis, pelo menos no desenho, duvida da sua execução na Flandres, considerando que o Políptico foi pintado em oficinas portuguesas de Évora ou de Lisboa com a participação de mestres flamengos não posteriormente a 1500.

Para Luís Reis Santos o painel central do Políptico terá sido executado em 1490, quando do casamento do infante D. Afonso filho de D. João II, e os painéis laterais criados dez anos mais tarde por mestres flamengos a trabalhar em Portugal.

Para Dagoberto Markl e Fernando A. Batista Pereira, ainda que não atribuindo a autoria a van der Goes consideram haver grandes afinidades entre o Políptico sobre a Vida da Virgem e as obras deste mestre flamengo, por exemplo no que se refere aos fundos, as veduti. Consideram também haver influência de Gerard David, seguindo BodenHausen e Reinaldo dos Santos, segundo os quais o mestre de Évora é um eclético do círculo de Hugo van der Goes e de Gerard David.

Os quadros pertenceram à colecção do bispo Frei Manuel do Cenáculo tendo sido posteriormente colocados na Biblioteca Pública de Évora antes de serem transferidos para o Museu de Évora.

Descrição Apresenta-se a seguir a descrição dos treze painéis do Políptico do Sé de Évora, iniciando-se com o painel central e depois os restantes doze painéis seguindo uma lógica narrativa.

Virgem da Glória Trata-se do painel central do Políptico do Sé de Évora tendo de altura 277 cm e 155 cm de largura e corresponde à representação da Virgem em Maestà.

Estando a própria Sé de Évora consagrada à Virgem Maria, este painel central parece expressar uma intenção votiva pela figura dominante da Virgem com o Menino, quase em tamanho natural. Não há neste painel central a descrição de um acontecimento para além da entronização da Virgem, glorificada pela música e pelo canto dos anjos que a envolvem e que têm inscritos nas fímbrias dos mantos hinos em seu louvor.

Do lado esquerdo, em primeiro plano, um anjo toca um dulcimer e atrás dele outro anjo toca flauta de bisel e outro toca uma viola de arco. No lado oposto, em primeiro plano, um anjo toca alaúde, depois atrás dele outros dois anjos tocam triângulo e harpa, e mais atrás um outro toca um orgão portátil cujo fole é accionado por um putto angélico. Em primeiro plano está um vaso de lírios, com representações de histórias do Antigo Testamento, designadamente de Adão e Eva, de Caim a matar Abel, de Sansão a combater o leão, de Elias no deserto e de David e Golias. A definição volumétrica dos dois anjos em primeiro plano e a perspectivação do fundo prolonga ilusoriamente o espaço muito para além do altar em que a pintura e o retábulo estavam colocados.Nota sobre Virgem da Glória na Matriznet em

Encontro na Porta Dourada thumb|300px|Encontro na Porta Dourada (imagem à esquerda) e Nascimento da Virgem Maria (imagem à direita) Trata-se de um dos treze painéis do Políptico do Sé de Évora tendo de altura 187,5 cm e 98 cm de largura e representa o episódio pseudocanónico do encontro dos pais da Virgem Maria na Porta Dourada.

O Encontro na Porta Dourada inicia o ciclo narrativo da vida da Virgem tendo o autor englobado na mesma pintura os três momentos ligados à concepção miraculosa de Maria, ou seja, a Anunciação a São Joaquim (pai), a Anunciação a Santa Ana (mãe) e o encontro dos dois na Porta Dourada. O encontro do casal, em primeiro plano, domina a pintura, através da dimensão das personagens, desenrolando-se a cena à entrada da cidade. Em planos afastados, estão as duas cenas anteriores ao encontro. Num dos grupos, o anjo pairando no céu faz o anúncio a Joaquim que está sentado no chão rodeado pelas suas ovelhas e, no grupo mais recuado, Ana que está sentada à porta de sua casa ouve o anjo que de pé lhe faz o anúncio.Nota sobre o Encontro na Porta Dourada na Matriznet em

A história sobre a concepção de Maria não é relatada no Novo Testamento, mas antes no Protoevangelho de Tiago e em outros relatos apócrifos, sendo a sua representação na arte tolerada pela igreja (por exemplo em gravura de Durer sobre o tema). Não tendo o casal Joaquim e Ana gerado descendência após vários anos de casamento, um sacerdote do templo de Jerusalém recusa as oferendas que Joaquim levara para a Consagração (Kidushin) do casamento; e para evitar a zombaria dos vizinhos, Joaquim retirou-se sozinho com o seu rebanho para as montanhas. Um dia, um anjo vai ter com ele e diz-lhe que a sua esposa vai dar à luz uma menina, relatando a previsão do destino dela e ordena-lhe que vá ter com a sua esposa à Porta Dourada. O mesmo anjo faz um anúncio semelhante a Ana e o casal encontra-se na Porta Dourada, simbolizando o encontro a concepção de Maria.

Nascimento da Virgem Trata-se de um dos treze painéis do Políptico do Sé de Évora tendo de altura 167 cm e 88 cm de largura e representa a história tradicional católica do Nascimento da Virgem.

Num quarto do qual nos são dados bastantes pormenores que caracterizam o ambiente doméstico, no lado esquerdo, numa cama alta com lençóis brancos e uma colcha vermelha coberta por um dossel também vermelho, encontra-se a parturiente, Santa Ana, com um toucado de pano branco na cabeça e vestida com uma camisa azul, a quem uma mulher ricamente vestida e com um elaborado toucado lhe oferece comida de uma taça. Num plano mais próximo estão duas outras mulheres, uma das quais segura a recém-nascida Virgem Maria estando a outra sentada no chão com os braços estendidos em direcção à criança. Ambas estão ricamente vestidas e com toucados na cabeça. No meio delas, uma mesa sobre a qual se encontra um jarro e uma bacia de estanho.

Por detrás do leito de Santa Ana, sobre uma prateleira coberta por um pano branco, estão um prato, um jarro, um vaso e um candelabro sem vela. Ao fundo, por uma abertura vê-se noutra divisão Joaquim sentado junto a uma janela, em frente de uma lareira.Nota sobre o Nascimento da Virgem na Matriznet em

Túlio Espanca considera que o prato visível neste painel é de origem portuguesa, mas Markl e Pereira referem que o mesmo tipo de prato aparece na iluminura da Adoração dos Magos do Livro de Horas do duque Filipe, o Bom, obra esta também do final do século XV.

Apresentação da Virgem no Templo miniatura|right|300px|Apresentação da Virgem Maria no Templo (imagem à esquerda) e Casamento da Virgem (imagem à direita), Mestre desconhecido do Políptico da Sé de Évora, proveniente da Sé de Évora e actualmente no Museu de Évora. Trata-se de um dos treze painéis do Políptico do Sé de Évora tendo de altura 190 cm e 110 cm de largura e representa o episódio apócrifo da Apresentação da Virgem no Templo, cumprindo a promessa de Santa Ana de dedicar a sua filha ao serviço de Deus.

Em primeiro plano, estão os pais de Maria, Santa Ana e São Joaquim, ao fundo de uma escadaria, onde a meio, sozinha e de perfil, sobe a Virgem com um vestido azul bastante comprido e cabelos soltos que lhe caem pelas costas dirigindo-se para o cimo, onde, à entrada do templo, o sumo-sacerdote Zacarias se inclina para a receber. Por uma janela, no lado direito, várias damas ricamente vestidas assistem à cena. Do lado esquerdo, por detrás de Santa Ana, abre-se uma paisagem na qual se vê uma torre encimada por um globo azul.Nota sobre a Apresentação da Virgem no Templo na Matriznet em

Casamento da Virgem Trata-se de um dos treze painéis do Políptico do Sé de Évora, tendo de altura 192,5 cm e 111,5 cm de largura e representa o episódio tradicional católico do Casamento da Virgem.

Em primeiro plano, o casal de noivos que apertam as mãos em torno da estola do sacerdote que está no meio virando o rosto para Maria. José é um homem de cabelos e barbas brancos que se apoia numa bengala e Maria é uma jovem de com expressão calma e modesta que traja um vestido e manto azuis, caindo o cabelo solto pelas costas e usando na cabeça uma enorme coroa. Maria com a mão esquerda ampara a barriga que pela volumetria indica uma gravidez avançada o que parece corresponder ao narrado em .

Para além do casal e do celebrante está do lado esquerdo um grupo de três homens, um deles segurando um enorme círio, e do outro lado estão três damas ricamente vestidas e adornadas com toucados. A cena passa-se no terreiro em frente a um templo vendo-se três estátuas sobre colunas que poderão indicar a entrada do templo. No canto superior direito vê-se o desdobrar da arquitectura de uma cidade.Nota sobre o Casamento da Virgem na Matriznet em

Anunciação Trata-se de um dos treze painéis do Políptico do Sé de Évora, tendo de altura 190 cm e 98 cm de largura e representa o episódio bíblico da Anunciação narrado em .

A Anunciação tem lugar nos aposentos da Virgem Maria onde ela estava a rezar. Interrompida nas suas orações pela aparição do Arcanjo Gabriel, a Virgem levanta uma mão em sinal de surpresa, mantendo com a outra o livro de orações aberto, vendo-se uma iluminura, e voltando o rosto para o arcanjo que se encontra num plano mais elevado do lado direito. Tem vestida uma túnica azul e manto da mesma cor com orla debruado com uma inscrição e cujo drapeado se estende no chão de mosaicos. O anjo veste túnica branca e capa de brocado, segurando na mão esquerda o ceptro que o identifica como arauto de Deus e da sua mão direita eleva-se uma inscrição em letras góticas douradas - "AVE GRACIA PLENA DOMINUS TECUM" - que terminam no halo em volta da pomba do Espírito Santo.