Rattus norvegicus (Berkenhout, 1769), ratazana (ou ainda guabiru ou gabiru em algumas regiões do Brasil), é uma espécie de roedor originária do leste da Ásia (norte da China e Mongólia), mas actualmente naturalizada em quase todas as regiões povoadas do planeta, sendo a mais comum e conhecida de todas as espécie de ratos. Sendo uma das mais corpulentas espécies murinas, tem pelagem cinzento-acastanhada a acastanhada, até 25 cm de comprimento corporal e uma cauda com sensivelmente o mesmo comprimento do corpo. O macho pesa até 350 gramas, e uma ratazana fêmea, até 250 g, é considerada a espécie de mamífero com mais sucesso do planeta, após os humanos. Ocorrendo em pequenos grupos, compostos por um macho e várias fêmeas, constrói abrigos em galerias subterrâneas escavadas no solo ou no interior de condutas, cavidades e outros espaços confinados em paredes e outras estruturas construídas. A criação selectiva da espécie produziu o rato de laboratório, um organismo modelo na investigação biológica, bem como diversas raças de ratazanas de estimação.

Descrição R. norvegicus é a mais corpulenta das espécies que integram o género Rattus, o mais diverso dos grupos taxonómicos de verdadeiros murídeos. Em média os espécimes pesam o dobro de um rato-preto,Rattus rattus, a outra espécie de ratazana comum em habitações humanas.

Com pelagem áspera de coloração acastanhada a cinzenta, mais clara ou mesmo esbranquiçada na zona ventral, os animais adultos apresentam comprimento corporal entre 20 a 25 cm, a que acresce uma cauda com 18 a 25 cm de comprimento, pouco mais curta ou sensivelmente igual ao corpo. As orelhas são pequenas, a pele áspera e os pés apresentam curtas membranas interdigitais.

Os machos adultos pesam em média 350 g e as fêmeas cerca de 250 g, mas têm sido reportados indivíduos excepcionalmente grandes, com pesos de até 900-1000 g. Estes espécimes anormalmente pesados apenas ocorrem em situações excepcionais de disponibilidade de alimento e em ambiente doméstico. Descrições de ratazanas que atingem o tamanho de gatos são claramente exageradas ou resultam de confusão com outras espécies de roedores, nomeadamente com a nutria ou o rato-almiscarado. Na realidade, é comum que as ratazanas adultas que vivem sujeitas à competição intra-específica pesem menos, por vezes consideravelmente, de 300 g.Leslie, P. H., Perry, J. S., Watson, J. S., & ELTON, C. (February 1946). The Determination of the Median Body‐Weight at which Female Rats reach Maturity. In Proceedings of the Zoological Society of London (Vol. 115, No. 3‐4, pp. 473–488). Blackwell Publishing Ltd.

R. norvegicus é dotado de uma excelente capacidade auditiva, são sensíveis aos ultrassons e possuem um sistema olfactivo muito desenvolvido, com um olfacto sensível a uma vasta gama de cheiros. O ritmo cardíaco médio é de 300 a 400 batidas por minuto, com um ritmo respiratório de cerca de 100 ciclos por minuto. A acuidade visual das ratazanas é pobre, cerca de 20/600 para os exemplares pigmentados, enquanto nos espécimes albinos, desprovidos de melanina nos olhos, é de 20/1200 com grande dispersão da luz no campo de visão. Estes animais são dicrómatos, apenas capazes de perceber as cores da mesma maneira que os humanos com daltonismo, e a sua saturação da cor pode ser bastante baixa. No entanto, a sua percepção do azul está enriquecida com receptores de radiação ultravioleta, o que lhes permite ver numa banda em que a maioria das espécies de mamíferos é cega.

A espécie tem um ciclo estral de cinco dias, com uma gestação de apenas vinte e quatro, da qual nascem geralmente oito crias. Ocorre, então, um novo ciclo cerca de dezoito horas depois do parto e outros filhotes nascem ao final do desmame da primeira ninhada, que se dá aos vinte e um dias. Os recém-nascidos abrem os olhos aos quinze ou dezasseis dias e sua maturidade sexual é atingida aos três meses de idade.

A variedade Wistar deste rato, conhecido como rato-branco-de-laboratório, é muito usado em investigação científica e em testes laboratoriais. Foram-lhe seleccionadas características recessivas, como o albinismo.

Nomenclatura e etimologia Apesar de comprovadamente ter origem nas planícies do leste da Ásia, devido à acção humana a espécie Rattus norvegicus alastrou pelo mundo inteiro, transformando-se numa espécie invasora. Apesar de não se conhecer com precisão a data de chegada à Europa, as primeiras referências indubitáveis à espécie na literatura científica europeia datam do século XVIII. As primeiras descrições conhecidas na Grã-Bretanha referem a espécie como rato Hanover, aparentemente uma alusão pouco abonatória à então reinante Casa de Hanover.Donaldson, Henry Herbert. (1915) The Rat. pp. 13. O binome Rattus norvegicus, que pode ser traduzido como rato-da-noruega, parece ter origem na crença de que a espécie teria chegado à Inglaterra por volta de 1728 num navio carregado de madeira proveniente da Noruega. Esta informação, hoje considerada errónea pois naquela data a espécie não tinha ainda atingido a Noruega, foi incluída pelo naturalista John Berkenhout na sua obra Outlines of the Natural History of Great Britain (Esboços da História Natural da Grã-Bretanha), publicada em 1769. A descrição contida naquela obra, considerada taxonomicamente válida, popularizou o termo impróprio e o binome atribuído por Berkenhout persiste.Nas primeiras décadas do século XIX os académicos britânicos estavam cientes de que a espécie não era nativa da Noruega, levantando as hipóteses (hoje também consideradas incorrectas) que poderia ter vindo da Irlanda, de Gibraltar ou do outro lado do Canal da Mancha com os navios de Guilherme, o Conquistador.Friends' Intelligencer. (1858) Volume 14. William W. Moore, publisher. pp. 398. No início da década de 1850 já se tinha desenvolvido um entendimento mais claro sobre as origens asiáticas da espécie.Chambers, William and Robert Chambers. (1850) Chambers's Edinburgh Journal. pp. 132. O novelista britânico Charles Dickens reconheceu em 1888 a impropriedade do nome ao escrever no seu semanário All the Year Round:Dickens, Charles. (1888) All the Year Round. New Series. Volume XLII, Number 1018. pp. 517.

thumb|253px|Exemplar adulto de R. norvegicus.

Pelos finais do século XIX, os académicos começaram a compreender a origem e corrigiram a etimologia do nome da espécie, como foi o caso do investigador norte-americano Alfred Henry Miles na sua obra Natural History:Miles, Alfred Henry. (1895) Natural History. Dodd, Mead & Company. pp. 227

Embora as origens e história da expansão desta espécie ainda não sejam conhecidas com precisão, por volta de meados do século XX, estava estabelecida entre os naturalistas a convicção de que a ratazana não se originara na Noruega, mas que a espécie viera da Ásia Central e (provavelmente) da China.Cornish, Charles John. (1908) The Standard Library of Natural History. The University Society, Inc. Volume 1, Chapter 9. pp. 159 Apesar disso, o nome comum de "rato-da-noruega" atribuído a esta espécie ainda se mantém em uso. Biologia e etologia As ratazanas desta espécie têm comportamento noturno e são boas nadadoras, tanto na superfície como debaixo de água, e têm sido observadas escalando postes de metal redondos e afilados com vários metros de altura para alcançar dispositivos alimentadores de pássaros de jardim. Escavam com facilidade, construindo com frequência sistemas de tocas extensos e complexos. Um estudo de 2007 descobriu que estes animais possuem metacognição, uma habilidade mental antes só encontrada em humanos e em alguns outros primatas, mas uma análise mais aprofundada sugeriu que o comportamento identificado pode ter sido devido ao seguimento de princípios de simples condicionamento operante. thumb|253px|Crânio de R. norvegicus. thumb|Sistema digestivo de Rattus norvegicus.

Distribuição e habitat A distribuição natural de espécie R. norvegicus antes da sua expansão e naturalização por sinantropia não é bem conhecida, mas seguramente a expansão partiu das planícies do leste da Ásia, mais precisamente da Mongólia e do norte da China, iniciando-se em força a partir da Idade Média europeia. A determinação do período histórico a partir do qual estas ratazanas se tornaram comensais em torno das populações humanas permanece sem resposta incontroversa, mas como espécie, R. norvegicus expandiu a sua área de distribuição e estabeleceu-se ao longo das rotas de migração humana, estando naturalizada em quase todas as regiões onde se estabeleceram populações humanas.

No que respeita à parte central e ocidental da Eurásia, a espécie pode ter já estado presente na Europa Central antes de 1553, conclusão que se pode retirar de uma ilustração e descrição publicada pelo naturalista suíço Conrad Gesner na sua obra intitulada Historiae animalium, publicada entre 1551 e 1558.Freye, H.A., and Thenius, E. (1968) Die Nagetiere. Grzimeks Tierleben. (B. Grzimek, ed.) Volume 11. Kindler, Zurich. pp. 204–211. Apesar da descrição de Gesner se poder aplicar igualmente à espécie Rattus rattus, o rato-negro, a sua menção de uma larga proporção de espécimes com albinismo, situação não incomum entre as populações selvagens de R. norvegicus, aumenta a credibilidade desta conclusão.Suckow et al. (2006) The Laboratory Rat, 2nd ed. Academic Press. pp. 74. ISBN 0-12-074903-3. Fontes confiáveis datadas do século XVIII permitem afirmar com certeza que R. norvegicus já estava presente na Irlanda em 1722, na Inglaterra em 1730, na França em 1735, na Alemanha em 1750 e na Espanha em 1800, tornando-se muito difundido durante a Revolução Industrial. A espécie não atingiu a América do Norte até 1750–1755.Nowak, Robert M. (1999) Walker's Mammals of the World. JHU Press. pp. 1521. ISBN 0-8018-5789-9.

À medida que a espécie se foi expandindo a partir do leste asiático, as populações de R. norvegicus tenderam a substituir as populações de R. rattus em torno das habitações humanas. A nova espécie, para além de ser mais corpulenta e mais agressiva, foi favorecida pela progressiva mudança dos edifícios, que tenderam a evoluir de estruturas em madeira com telhados de colmo para estruturas em alvenaria de pedra ou tijolo com telhados, beneficiando as ratazanas capazes de escavar tocas e de viver em buracos face àquelas, como R. rattus, melhor adaptadas à vida sobre as árvores. Para além disso, R. norvegicus é capaz de aproveitar uma maior variedade e alimentos e é mais resistente a situações climáticas extremas.Teisha Rowland. "Ancient Origins of Pet Rats" , Santa Barbara Independent, 4 December 2009.

Quando a espécie se instala na ausência de populações humanas, a espécie R. norvegicus prefere ambiente úmidos, com muita disponibilidade de águas, tais como as margens dos rios e a periferia de zonas húmidas. Contudo, dado que a vasta maioria destes ratos vive actualmente em sinantropia, as suas populações preferem ambientes construídos pelos humanos onde exista água e o alimento esteja próximo, em especial as redes de esgotos domésticos, as margens de cursos de água ricas em resíduos, as lixeiras e escombreiras e ambientes similares, desde que exista água nas proximidades.

Um aforismo muitas vezes repetido diz que «existem tantos ratos nas cidades quanto pessoas», mas na realidade o número de ratos nos ambientes urbanos varia grandemente, dependendo das características da cidade, da higiene urbana e do nível de vida da sua população humana e do clima, entre outros factores. Os espécimes de R. norvegicus residentes nas cidades tendem a não vaguear extensivamente, muitas vezes permanecendo num raio de 20 m em torno do seu ninho se uma fonte de alimento adequado está disponível, mas podem explorar áreas maiores quando a disponibilidade de alimentos seja menor.