Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira (Belém, 19 de fevereiro de 1954 – São Paulo, 4 de dezembro de 2011) foi um treinador, médico e ex-futebolista brasileiro que atuava como meio-campista. No futebol, atuou principalmente no meio-campo e é considerado um dos grandes craques do futebol brasileiro da década de 1980. É um dos maiores ídolos da história do Corinthians — ao lado de Luisinho, Cláudio, Rivellino, Marcelinho Carioca, Neto, Baltazar e Cássio — e do Botafogo de Ribeirão Preto, ao lado de Zé Mario e do seu irmão Raí.
Defendeu a Seleção Brasileira entre 1979 e 1986, sendo capitão da Amarelinha na Copa do Mundo de 1982.
Notabilizou-se também por seu ativismo político, particularmente na década de 80, quando liderou um movimento pela democratização do futebol e participou do movimento pelas Diretas Já. Sócrates também atuou como treinador, colunista e comentarista esportivo. Também era músico e, eventualmente, ator e produtor teatral. Em 2014, o jornalista e escritor Tom Cardoso lançou a biografia "Sócrates - A História e as Histórias do Jogador Mais Original do Futebol Brasileiro" (Editora Objetiva).
Ele foi a única unanimidade em uma pesquisa realizada em 2006, pela revista Placar, para escolher o "time de todos os tempos" do Corinthians. Foi eleito em 1983 o melhor jogador sul-americano do ano e incluído por Pelé, em 2004, na FIFA 100, uma lista dos 125 melhores jogadores vivos da história. Era também considerado pela mídia especializada (CNN, World Soccer e Placar) como um dos grandes jogadores de seu tempo, reconhecido por seu estilo elegante. Uma característica do jogador que marcou sua passagem no futebol foi a sua habilidade no uso do calcanhar. Além disso, marcava gols de falta, de cabeça e de fora da área com frequência. Notabilizou-se por dar assistências primorosas para seus companheiros marcarem muitos gols.
Em fevereiro de 2015, em seu tradicional quadro "The Joy of Six", o jornal britânico The Guardian elegeu Sócrates como um dos seis esportistas mais inteligentes da história (ele é o único futebolista da lista). Para entrar nesta lista, o jornal levou em conta currículos que extrapolaram campos e quadras, tendo uma atuação preponderante em suas áreas e fora delas.
Biografia Primeiros anos Sócrates recebeu esse nome porque seu pai, que era apaixonado por literatura, estava lendo A República, de Platão, na época do nascimento do filho. A família, originária de Messejana, Ceará, vivia em Igarapé-Açu, Pará, quando seu pai Raimundo, funcionário público federal, foi transferido, mudando-se para Ribeirão Preto. No munícipio do interior paulista, Sócrates ingressou no colégio dos Irmãos Maristas, onde começou a prática esportiva e se apaixonou pelo futebol. Durante a infância torcia pelo Santos.
Aos dez anos assistiu a uma cena que influenciaria sua visão de mundo: viu o pai queimando seus amados livros logo após o Golpe Militar de 1964. Quando Sócrates completou doze anos, sua numerosa família já estava completa com seus cinco irmãos: Sóstenes, Sófocles, Raimundo Filho, Raimar e Raí, então com um ano de idade.
Aos dezesseis começou a jogar no time juvenil do Botafogo Futebol Clube. Aos dezessete ingressou na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, continuando a jogar pelo Botafogo. No final de 1973 decidiu profissionalizar-se como jogador, sem abandonar o curso de medicina, que concluiu em 1977.
Vida pessoal Sócrates foi casado quatro vezes, a última com a jornalista e empresária Kátia Bagnarelli Vieira de Oliveira. Seu filho, Gustavo Vieira de Oliveira, atua como executivo de futebol, tendo passagens pelo São Paulo e pelo Santos. Teve outros cinco filhos, todos homens: Rodrigo, Eduardo, Marcelo, Sócrates Júnior e Fidel.
Seu rendimento no futebol teria, segundo Flávio Gikovate, o psicólogo do Corinthians durante a Democracia Corinthiana, ligação inversamente proporcional ao seu estado afetivo, jogando melhor quando estava triste e ou com problemas pessoais, e rendendo menos quando estava mais feliz e animado.
Carreira futebolística Como jogador Foi considerado um fenômeno desde o início no Botafogo de Ribeirão Preto, pois quase não treinava em função de frequentar o curso de medicina na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP). O Botafogo contratou o treinador Jorge Vieira no ano de 1977, que chegou ao clube dando o recado: "jogador que não treina, não joga". Sócrates achou que não jogaria mais futebol; porém, Jorge Vieira, reconhecendo o talento do meia, deu tratamento diferenciado ao jogador. Naquele ano Sócrates foi, ao lado de Zé Mário, o principal jogador da histórica equipe botafoguense que conquistou a Taça Cidade de São Paulo (à época equivalente ao primeiro turno do Campeonato Paulista) em 1977, disputando o título com o São Paulo, no Morumbi. O meia ainda foi o artilheiro do campeonato, fazendo com que a imprensa clamasse por sua convocação à Seleção Brasileira, o que não viria a acontecer enquanto jogador do Botafogo. Ainda pelo clube paulista, Sócrates também se destacou no Campeonato Brasileiro, marcando um célebre gol de calcanhar contra o Santos na Vila Belmiro. Em 1978 deixou o Botafogo e transferiu-se para o Corinthians.
Como havia se formado em medicina no ano anterior (1977), Sócrates passou a se dedicar mais ao futebol. O meio-campista se firmaria no Corinthians em 1978, refazendo a dupla com Geraldão, seu ex-companheiro de Botafogo; no entanto, seus grandes companheiros de ataque nesse time seriam Palhinha e Casagrande. Na Seleção Brasileira estrearia em 1979, em um amistoso contra o Paraguai.
Foi uma das estrelas de times famosos em nível nacional e mundial: a Seleção Brasileira da Copa do Mundo FIFA de 1982 e do Corinthians da década de 1980, celebrado pelo movimento da Democracia Corinthiana. Na Copa de 1982 marcou dois gols contra as respeitadas equipes da URSS e da Itália, mas isso não bastou para o Brasil sagrar-se campeão. Também teve excelente atuação na Copa América de 1983, onde a Seleção Brasileira foi vice-campeã. Aos 30 anos, fez uma rápida passagem pela Fiorentina, da Itália, entre 1984 e 1985. Antes o meio-campista havia sido sondado pela Roma, que contava com o volante Paulo Roberto Falcão.
Na Copa do Mundo FIFA de 1986, vinculado ao Flamengo, esteve novamente em ação, mas já fora da forma ideal. Ficaria ainda marcado por ter desperdiçado um pênalti nas quartas de final contra a França, no empate de 1–1 que desclassificou o Brasil. Antes de encerrar a carreira, em 1989, ainda atuaria no Santos e novamente no Botafogo de Ribeirão Preto.
Em 1988, Sócrates participou de um amistoso entre uma equipe de grandes ídolos do Corinthians em todos os tempos — que contou, inclusive, com a presença de Rivellino — e do "pai" do Timão do Parque São Jorge, o clube inglês Corinthian-Casuals, que voltou ao Brasil após quase um século da primeira vez que esteve no país. Os brasileiros venceram por 1–0, com gol do próprio Sócrates. A pedido dos ingleses, Sócrates jogou cerca de 15 minutos na equipe do Corinthian-Casuals.
Em novembro de 2004, aos 50 anos e atendendo ao convite de um amigo, participou de uma partida com a camisa do Garfoth Town, equipe da décima divisão da Inglaterra.
Tanto o jogo com o time inglês Corinthian-Casuals como o com Garfoth Town, foram somente jogos festivos, porque oficialmente sua carreira se encerrou em 1989, no Botafogo de Ribeirão Preto.
Como treinador Logo após encerrar a carreira de jogador, tornou-se técnico do Botafogo de Ribeirão Preto. Em 1996, foi também técnico da equipe equatoriana LDU, mas demitiu-se alegando falta de profissionalismo dos jogadores.Se busca un tecnico 9 de abril de1996.
Em 1999, atendendo a um convite de um antigo companheiro de Seleção, Leandro, foi técnico da equipe carioca Cabofriense.
No dia 10 de junho de 2011, Sócrates recebeu um convite para treinar a Seleção Cubana.
Política e jornalismo miniatura|250px|Sócrates (à direita) participando do movimento político Diretas Já em 1984, em São Paulo - SP
Fora do futebol, Sócrates sempre manteve uma ativa participação política, tanto em assuntos relacionados ao bem-estar dos jogadores quanto aos temas correntes do país. Na década de 1980, participou da campanha Diretas Já (1983–1984) e foi um dos principais idealizadores do movimento Democracia Corinthiana (1982–1984), que reivindicava para os jogadores mais liberdade e mais influência nas decisões administrativas do clube. Por suas atividades e opiniões políticas, chegou a ser "fichado" pela ditadura militar juntamente com seu colega de equipe e grande amigo Casagrande.
Durante sua segunda internação, em 2011, Sócrates declarou que gostaria de trabalhar com o presidente venezuelano Hugo Chávez em projetos sociais ligados ao esporte.
Foi articulista da revista CartaCapital e do jornal Agora São Paulo, além de comentarista esportivo do programa Cartão Verde da TV Cultura.
Muito ligado ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nutriu uma amizade de décadas com o petista e foi filiado ao Partido dos Trabalhadores.
Música e teatro Em 1980 Sócrates gravou um LP de música sertaneja chamado Casa de Caboclo, pela gravadora RCA, com tiragem de 50 000 exemplares que rapidamente saiu de catálogo. Em 1982, participou das gravações do LP Aquarela, do cantor Toquinho.Placar, 3 de junho de 1983..
Em 1983, Sócrates foi produtor de teatro na peça teatral Perfume de Camélia, com a atriz Maria Isabel de Lisandra. A peça foi exibida no Teatro Ruth Escobar.Placar Magazine 23 set. 1983.
Televisão Em 1979, juntamente com seu amigo e companheiro de Seleção Brasileira, Zico, teve participação especial na telenovela brasileira Feijão Maravilha, da TV Globo, onde contracenou com os atores Ivon Curi, Grande Otelo e Olney Cazarré.Foto de Sócrates com José Lewgoy, Zico, Ivon Cury e Grande Otelo, na telenovela Feijão Maravilha Em 1998, Sócrates foi escalado pela TV Record como comentarista da Copa do Mundo realizada na França.
Literatura Em 2002 lançou, em conjunto com o jornalista Ricardo Gozzi, pela Boitempo Editorial, o livro Democracia Corinthiana: A utopia em jogo, no qual conta a sua experiência durante o período da Democracia Corinthiana.
Cinema No dia 8 de dezembro de 2011, foi lançado oficialmente o documentário Ser Campeão é Detalhe sobre a Democracia Corinthiana, com depoimentos de personagens da época, inclusive de Sócrates, a quem o filme foi dedicado e que ganhou uma homenagem durante o lançamento.
Medicina Em 1992 inaugurou, em Ribeirão Preto, com um investimento de 300 mil dólares, a Medicine Sócrates Center, uma clínica médica destinada a atender profissionais de diversas modalidades esportivas e também pacientes comuns.Placar Magazine nov. 1994.
Alcoolismo e morte Em agosto de 2011, Sócrates foi internado na UTI do Hospital Albert Einstein devido a uma hemorragia digestiva alta causada por hipertensão portal. Após essa primeira internação, admitiu que tinha problemas de alcoolismo. Na época em que jogava, Sócrates nunca escondia seu apreço por prazeres como a cerveja e o cigarro.
Após uma segunda internação em setembro, em dezembro de 2011 Sócrates foi internado mais uma vez devido a uma suposta intoxicação alimentar, que acabou por se transformar em um grave quadro de choque séptico em razão de sua condição de saúde já debilitada. Sócrates faleceu às 4h30 da madrugada do dia 4 de dezembro de 2011; teve uma falência de múltiplos órgãos em decorrência do choque séptico.
No dia de sua morte, o Corinthians sagrou-se pentacampeão brasileiro de futebol. Minutos antes do início da partida, jogadores e comissão técnica do Corinthians prestaram uma homenagem a Sócrates repetindo o gesto utilizado por ele nas comemorações de seus gols.
Sócrates foi sepultado no dia 4 de dezembro de 2011, no cemitério Bom Pastor, na cidade de Ribeirão Preto que, logo após o falecimento, decretou luto oficial.
Repercussão da morte