O condor-da-califórnia ou condor-californiano (Gymnogyps californianus) é uma ave da família Cathartidae. É nativo da América do Norte, sendo atualmente encontrado somente na região do Grand Canyon e das montanhas do oeste da Califórnia, nos Estados Unidos, e ao norte da Baixa Califórnia, no México. Apesar de outros membros fósseis serem conhecidos, é a única espécie sobrevivente do gênero Gymnogyps.
A maior parte de sua plumagem é uniformemente negra, exceção feita apenas às manchas brancas situadas na parte inferior das asas. A cabeça, desprovida de penas, normalmente possui uma tonalidade amarelada, podendo tornar-se avermelhada ou arroxeada, dependendo do humor da ave. Possui a maior envergadura dentre todas as aves da América do Norte, chegando a 3 metros, e está entre as mais pesadas do continente, variando de 8.2 -14.1 kg. É detritívora, alimentando-se de grandes quantidades de carniça. Apresenta uma das maiores expectativa de vida entre as aves, podendo ultrapassar os 50 anos.
O número de condores-da-califórnia foi drasticamente reduzido durante o século XIX, devido à caça, saturnismo e destruição de habitat. Encontra-se na lista vermelha da IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais) e seu status atual é "criticamente em perigo". A espécie já foi considerada extinta em estado selvagemCAVINATO, Maria Lúcia. Espécies Ameaçadas - Guia Pratico. São Paulo: Nobel, 1999. ISBN 8521310420 entre 1987 e 1992.
Taxonomia O condor-da-califórnia foi descrito pelo naturalista inglês George Shaw em 1797, como Vultur californianus. Originalmente, pertencia ao mesmo gênero do condor-dos-andes (V. gryphus). No entanto, devido a pequenas diferenças no tamanho da envergadura, nas marcas pelo corpo, e pela tendência de matar animais para comer, o condor-dos-andes passou a consistir em um gênero monoespecífico. O nome Gymnogyps é derivado do grego gymnos (nu) e gyps (abutre),LIDDELL, Henry George & SCOTT, Robert. Abridged Greek-English Lexicon. United Kingdom: Oxford University Press, 1880. ISBN 0199102074 enquanto que californianus advém do local onde a ave é encontrada (Califórnia). left|thumb|Condor-da-califórnia no Zoológico de San Diego. O exato posicionamento taxonômico do condor-da-califórnia e das outras seis espécies da família Cathartidae permanece incerto. Apesar das similaridades na aparência e no nicho ecológico, os abutres do Novo e do Velho Mundo evoluíram de diferentes ancestrais, em diferentes partes do mundo. Algumas autoridades sugerem que os abutres do Novo Mundo estão mais relacionados às cegonhas.SIBLEY, Charles G. & MONROE, Burt L. Distribution and Taxonomy of the Birds of the World. New Haven: Yale University Press, 1990. ISBN 0300049692 A maioria inclui os abutres do Velho Mundo entre os Falconiformes ou mesmo em sua própria ordem: Cathartiformes.ERICSON, Per G. P. et al. Diversification of Neoaves: integration of molecular sequence data and fossils. Biology Letters, 1-5, 2006 O South American Classification Committee (comitê oficial da American Ornithologists' Union com a missão de criar um padrão de classificação das espécies de aves da América do Sul) retirou os abutres do Novo Mundo da ordem Ciconiiformes e os categorizou em incertae sedis, ressaltando que uma moção para Falconiformes,Accipitriformes ou Cathartiformes é possível.
História evolutiva Durante o Pleistoceno, o gênero Gymnogyps apresentava vasta distribuição através das Américas. Entre as espécies fósseis, Gymnogyps kofordi (Pleistoceno Inferior), encontrado na Flórida, e Gymnogyps howardae (Pleistoceno Superior), encontrado no Peru, foram descritos. Um condor achado em depósitos do Pleistoceno Superior em Cuba foi inicialmente descrito como Antillovultur varonai, mas foi posteriormente reconhecido como membro do gênero Gymnogyps.
A expansão do condor neste período pode ser explicada pelo deslocamento de grandes manadas de ungulados, bem como de outros grandes mamíferos, pelas Américas. Estes animais proporcionavam uma abundância de carniça aos condores. Entretanto, com a extinção desses animais pré-históricos, houve uma redução dos grupos destas aves. Além disso, os condores eram mortos pelos índios americanos para fins cerimoniais desde o Pleistoceno, o que pode ter causado a extinção dessas aves em partes significativas de suas áreas de abrangência.
Fósseis do condor-californiano, datados de 9 500 a 16 000 anos, foram descobertos em Nova Iorque, Flórida, Texas, Novo México e Arizona, bem como na Califórnia e em outros estados da região oeste dos Estados Unidos. Os fósseis do oeste de Nova Iorque datam de 9 000 a.C. e foram encontrados em associação com mastodontes (Mammut americanum), renas (Rangifer sp.) e veados (Cervus elaphus).
Atualmente, o condor-da-califórnia é a única espécie sobrevivente do gênero e não possui subespécies. Apesar de sua distribuição ter sido drásticamente reduzida no Holoceno, a espécie sempre apresentou uma população pequena e inerente. Porém, existiu uma paleoespécie: Gymnogyps californianus amplus, maior e com um bico mais comprido que a espécie atual.FISHER, Harvey L. The skulls of the Cathartid vultures. Condor 46(6): 272–296, 1944 Pressões seletivas, causadas por mudanças climáticas ocorridas durante a última era glacial, forçaram a redução de tamanho e converteram a paleoespécie no atual Gymnogyps californianus californianus.HOWARD, Hildegarde. A preliminary survey of trends in avian evolution from Pleistocene to recent time. Condor 49(1): 10–13, 1947
Pesquisadores descobriram, no Brasil, o fóssil de uma pequena espécie de ave do Pleistoceno, batizada de Wingegyps cartellei, a qual acredita-se ter alguma relação com o condor-da-califórnia. Medindo apenas meio metro de comprimento e com uma envergadura de 1,30m, esta nova espécie de condor foi encontrada em cavernas da Bahia e Minas Gerais e seus restos — um crânio e dois úmeros — datam de aproximadamente 12 200 anos.
Descrição right|thumb|Condor-da-califórnia adulto, exibindo plumagem uniformemente negra e parte inferior das asas branca. O condor-da-califórnia adulto é uniformemente negro, com exceção, especialmente nos machos, de faixas brancas presentes no lado inferior das asas. Possui pernas e pés acinzentados, bico marfim, íris castanho-avermelhada e um colar de penas negras circundando a base do pescoço. A maioria dos juvenis é sarapintada de castanho-escuro, com coloração negra na cabeça e as penas da parte inferior das asas salpicadas de cinza, ao invés de branco.
Como uma adaptação para a higiene, a cabeça e o pescoço apresentam poucas penas, expondo a pele aos efeitos esterilizantes da desidratação e da radiação ultravioleta do sol em grandes altitudes. A pele da cabeça e do pescoço possui capacidade notável de se corar em resposta ao estado emocional, uma capacidade provavelmente utilizada como meio de comunicação entre indivíduos. A coloração varia do amarelado ao vermelho-alaranjado.
Contrariando a regra comum entre as aves de rapina, a fêmea é menor que o macho. Pode atingir entre 1,1 e 1,34 metros de comprimento e possuir 3 metros de envergadura, a maior dentre as aves da América do Norte. Seu peso varia entre 8.2-14.1 kg . No continente norte-americano, só perde para o cisne-trombeteiro (Cygnus buccinator) e o exótico cisne-branco (Cygnus olor), em comprimento e peso. Segundo o Guinness, um macho teria chegado a 14,1 kg, o que converteria o condor-da-califórnia na mais pesada ave de rapina do planeta, e estaria preservado na Academia de Ciências da Califórnia,Guinness World Records 2006. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006. ISBN 0553589067 em Los Angeles.
O dedo médio do pé do condor-da-califórnia é grande e alongado, e as garras são retas e não afiadas, sendo mais adaptadas para caminhar que agarrar. Esta característica está mais relacionada às cegonhas, já que outras aves rapina utilizam seus pés como arma ou como órgão preênsil.
Distribuição e habitat left|thumb|Condor-da-califórnia sobrevoando um penhasco no Arizona. Durante o Século XIX, o condor-da-califórnia perambulava na costa oeste e sudeste da América do Norte, desde o sul da Colúmbia Britânica até a Sierra de San Pedro Mártir, ao norte da Baixa Califórnia. Nessa época, a ave também foi encontrada em Alberta, Montana, Idaho, Utah e Arizona. Contudo, devido ao declínio populacional, o último exemplar livre na natureza foi levado ao cativeiro por um programa de reprodução em 1987.
Condores em cativeiro foram soltos no sul da Califórnia, em Baixa Califórnia e no Grand Canyon. Há dois santuários dedicados à espécie: o Sisquoc Condor Sanctuary, em San Rafael Wilderness,GANON, Dennis R. Hiking the Santa Barbara Backcountry. Pasadena: The Ward Ritchie Press, 1974. ISBN 0378-03542-8 e Sespe Condor Sanctuary, em Los Padres National Forest. Estas áreas foram escolhidas por serem o principal sítio de nidificação do condor-da-califórnia.
O condor-da-califórnia vive em terras rochosas de vegetação rasteira, florestas de coníferas e savanas de carvalho. É frequentemente encontrado próximo a penhascos escarpados e árvores frondosas, utilizando estes locais para nidificação.
Ecologia e comportamento right|thumb|Adulto em voo, apresentando a etiqueta de identificação nas asas. A ausência de um esterno para ancorar os músculos necessários para o voo restringe seu alcance a grandes altitudes. Realiza movimentos graciosos ao voar. A ave bate suas asas na partida, porém, ao atingir uma elevação moderada, desloca-se basicamente planando, por vezes durante milhas sem uma única batida de asas. O condor-da-califórnia pode voar até 90 km/h, a uma altura de 4600 m.
Possui grande expectativa de vida, podendo atingir 50 anos. Caso chegue à idade adulta, o condor-da-califórnia apresentará poucas ameaças naturais. Como não possui cordas vocais, sua vocalização é limitada a grunhidos e sibilos. Condores banham-se frequentemente e podem passar várias horas arrumando suas penas. Após se alimentar, limpam a cabeça e o pescoço, esfregando-os na grama, em rochas ou em ramos de árvores. Como os demais abutres do Novo Mundo, possuem o hábito de defecar e urinar sobre as patas, para se refrescar e reduzir a temperatura corporal.
O condor-da-califórnia possui uma bem desenvolvida estrutura social com outros grupos de condores, com competições para determinar a hierarquia do grupo através de linguagem corporal e uso de uma variedade de grunhidos e sibilos. Esta hierarquia social pode ser observada especialmente durante a alimentação, com as aves dominantes comendo antes das mais jovens.
Alimentação Indivíduos solitários podem viajar até 250 km à procura de alimento. Como os demais membros da família Cathartidae, sua dieta consiste basicamente de carniça. Prefere principalmente as carcaças de grandes mamíferos terrestres e até mesmo de peixes. Aves e répteis raramente fazem parte de seu cardápio.
Como não possuem senso olfativo, reconhecem cadáveres pela localização de outros carniceiros, tais como urubus e águias. Normalmente conseguem afugentar outros carniceiros menores, com exceção de ursos e da águia-real (Aquila chrysaetos). Mesmo pesando quase o dobro desta última, o condor-da-califórnia geralmente espera a águia-real terminar de comer e ir embora, antes de se aproximar da carcaça, talvez temendo suas perigosas garras. Em algumas ocasiões, quando muito famintos, os condores-californianos adultos desafiam as águias-reais e as afastam das carcaças.
A competição intra-específica pode levar indivíduos da espécie a lutar e afastar uns aos outros. Há uma hierarquia de dominância baseada em tamanho, sexo e idade. Os condores macho, maiores, dominam as fêmeas independentemente de idade. Além disso, dentro de cada grupo de sexo, as aves mais velhas dominam as mais jovens.
Na vida selvagem, são comedores intermitentes, frequentemente permanecendo de alguns dias até duas semanas sem comer. Após o jejum, conseguem comer até 1,5 kg de carne de uma só vez, podendo chegar ao ponto de não conseguirem levantar voo.