Antinatalismo é a posição filosófica que atribui um valor negativo ao nascimento. Antinatalistas argumentam que as pessoas devem se abster de procriar por ser um ato moralmente ruim (alguns também reconhecem a procriação de outros seres sencientes como moralmente ruim). Em escritos acadêmicos e literários, vários fundamentos éticos foram apresentados para o antinatalismo.K. Akerma, Antinatalismus – Ein Handbuch, epubli, 2017.K. Coates, Anti-Natalism: Rejectionist Philosophy from Buddhism to Benatar, First Edition Design Publisher, 2014.K. Lochmanová, M. Kutáš, F. Svoboda, T. de Giraud, M. Poledníková, K. Akerma, J. Koumar, J. Cabrera, V. Vohánka, History of Antinatalism: How Philosophy Has Challenged the Question of Procreation, publicado independentemente, 2020.M. Starzyński, Antynatalizm. O niemoralności płodzenia dzieci, Kraków: Towarzystwo Naukowe im. Stanisława Andreskiego, 2020.M. Morioka, What Is Antinatalism? Definition, History, and Categories, The Review of Life Studies, 2021, volume 12, pp. 1–39. Algumas das primeiras formulações da ideia de que seria melhor não ter nascido vêm da Grécia Antiga.W. Tatarkiewicz, O szczęściu (On Happiness), Warszawa: Państwowe Wydawnictwo Naukowe, 1979, páginas 420–421. O termo "antinatalismo" está em oposição ao termo "natalismo", e provavelmente foi usado pela primeira vez como o nome dessa posição pelo filósofo belga Théophile de Giraud em seu livro L'art de guillotiner les procréateurs: Manifeste anti-nataliste.K. Akerma, Antinatalismus – Ein Handbuch, epubli, 2017, página 301. Argumentos

Na religião O ensinamento de Buda, entre as outras Quatro Nobres Verdades e o começo de Mahāvagga, é interpretado por Hari Singh Gour da seguinte maneira:Os marcionistas acreditavam que o mundo visível é uma criação maligna de um demiurgo bruto, cruel, ciumento e raivoso, Yahweh. De acordo com este ensinamento, as pessoas devem se opor a ele, abandonar o seu mundo, não criar pessoas e confiar no bom Deus da misericórdia, estrangeiro e distante.H. Jonas, The Gnostic Religion: The Message of the Alien God and the Beginnings of Christianity, Boston: Beacon Press, 1958, páginas 144–145.Clement of Alexandria, Stromateis, Books 1–3 (The Fathers of the Church, volume 85), Washington D.C.: CUA Press, 2010, páginas 263–271P. Karavites, Evil, Freedom, and the Road to Perfection in Clement of Alexandria, Leiden: Brill, 1999, página 94.

Os Encratitas observaram que o nascimento leva à morte. Para dominar a morte, as pessoas devem desistir da procriação: "não produzir forragem fresca para a morte".P. Brown, The Body and Society: Men, Women, and Sexual Renunciation in Early Christianity, New York: Columbia University Press, 1988, página 96.G. Quispel, Gnostica, Judaica, Catholica: Collected Essays of Gilles Quispel, Leiden: Brill, 2008, p. 228.Clement of Alexandria, Stromateis, op. cit., páginas. 295–296.

Os Maniqueus,H. Jonas, The Gnostic..., op. cit., páginas 228 e 231.Gardner and S.N.C. Lieu, Manichaean Texts from the Roman Empire, New York: Cambridge University Press, 2004, páginas 7 e 22.S.G. Kochuthara, The Concept of Sexual Pleasure in the Catholic Moral Tradition, Rome: Gregorian Biblical BookShop, 2007, página 165. os BogomilosD. Obolensky, The Bogomils: A Study in Balkan Neo-Manichaeism, New York: Cambridge University Press, 2004, página 114.F. Curta, Southeastern Europe in the Middle Ages, 500–1250, New York: Cambridge University Press, 2006, página 236.J. Lacarrière, The Gnostics, London: Owen, 1977, página 116. e os CátarosM.J. Fromer, Ethical issues in Sexuality and Reproduction, St. Louis: Mosby, 1983, página 110.S. Runciman, The Medieval Manichee: A Study of the Christian Dualist Heresy, New York: Cambridge University Press, 1947, páginas 151–152.D. Elliott, Spiritual Marriage: Sexual Abstinence in Medieval Wedlock, Princeton: Princeton University Press, 1995, páginas 133–134. acreditavam que a procriação condena a alma ao aprisionamento na matéria má. Eles viram a procriação como um instrumento de um Deus mau, um demiurgo, ou de Satanás, que aprisiona o elemento divino na matéria e, assim, faz com que o elemento divino sofra.

Teodiceia e antropodiceia Julio Cabrera considera a questão de ser um criador em relação à teodiceia e argumenta que assim como é impossível defender a ideia de um bom Deus como criador, também é impossível defender a ideia de um bom homem como criador. Na paternidade, o pai humano imita o pai divino, no sentido de que a educação pode ser entendida como uma forma de busca de "salvação", o "caminho correto" para um filho. Porém, um ser humano poderia decidir por não sofrer de maneira alguma do que sofrer e posteriormente ser oferecido a possibilidade de salvação do sofrimento. Na opinião de Cabrera, o mal não é associado com a ausência de ser, mas com o sofrimento e morte daqueles que estão vivos. Portanto, pelo contrário, o mal é apenas e obviamente associado com o ser. J. Cabrera, Projeto de Ética Negativa, São Paulo: Edicões Mandacaru, 1989 (segunda edição: A Ética e Suas Negações, Não nascer, suicídio e pequenos assassinatos, Rio De Janeiro: Rocco, 2011).

Karim Akerma, devido ao problema moral do homem como criador, introduz a antropodiceia, um conceito similar a teodiceia. Ele é da opinião de que quanto menos fé existe no Deus Criador Todo-Poderoso, mais urgente se torna a questão da antropodiceia. Akerma acha que, para aqueles que querem levar vidas éticas, a causação de sofrimento requer uma justificativa. O homem não pode mais recorrer a uma uma entidade imaginária que estabelece princípios morais e se isentar de responsabilidade pelo sofrimento que ocorre. Para Akerma, o antinatalismo é uma consequência do colapso dos esforços de teodiceia e do fracasso das tentativas de estabelecer uma anthropodizee. Segundo ele, não há metafísica nem teoria moral que possam justificar a produção de novas pessoas e, portanto, a antropodiceia é indefensável, assim como a teodiceia.

Peter Wessel Zapffe Peter Wessel Zapffe via os humanos como um paradoxo biológico. De acordo com ele, a consciência tornou-se excessivamente evoluída nos seres humanos, tornando-nos incapazes de funcionar normalmente como os outros animais: a cognição nos dá mais do que podemos carregar. Nossa fragilidade e insignificância no cosmos são visíveis para nós. Queremos viver, porém por causa de como evoluímos, somos a única espécie cujos membros estão conscientes de que estão destinados a morrer. Somos capazes de analisar o passado e o futuro, tanto a nossa situação como a de outros, bem como imaginar o sofrimento de bilhões de pessoas (além de outros seres vivos), e sentir compaixão para com seu sofrimento. Nós ansiamos por justiça e significado em um mundo que carece de ambos. Isso garante que a vida dos indivíduos conscientes seja trágica. Temos desejos: necessidades espirituais que a realidade é incapaz de satisfazer, e nossa espécie ainda existe apenas porque limitamos a nossa consciência do que essa realidade realmente implica. A existência humana equivale a uma rede emaranhada de mecanismos de defesa, que podem ser observados individualmente e socialmente, em nossos padrões de comportamento diários. De acordo com Zapffe, a humanidade deve cessar esse auto-engano, e a consequência natural seria a sua extinção ao abster-se da procriação.P.W. Zapffe, The Last Messiah, Philosophy Now, 2004, número 45, páginas 35–39.P.W. Zapffe, Om det tragiske, Oslo: Pax Forlag, 1996.P.W. Zapffe, H. Tønnessen, Jeg velger sannheten: En dialog mellom Peter Wessel Zapffe og Herman Tønnessen, Oslo: Universitets forlaget, 1983.

Ética negativa Julio Cabrera propõe um conceito de "ética negativa" em oposição ao que ele vê como éticas "afirmativas", que afirmam o ser. Ele descreve a procriação como um ato manipulador e prejudicial, que envia de forma unilateral e não-consensual um ser humano para uma situação dolorosa, perigosa e moralmente inabilitante.

Cabrera considera a procriação uma manipulação ontológica e total: o próprio ser de alguém é fabricado e usado, e portanto, em contraste com casos intra-mundanos em que se é colocado em uma situação danosa, no caso da procriação não há qualquer possibilidade de defesa contra esse ato. Segundo Cabrera, a manipulação na procriação é visível principalmente no caráter não-consensual e unilateral do ato, de maneira que procriar é per se e inevitavelmente assimétrico, seja produto de premeditação, seja produto de descuido; está sempre atrelado a interesses (ou desinteresses) de outros humanos, não do humano criado. Ele enfatiza que, embora não seja possível evitar a manipulação durante a procriação, é perfeitamente possível evitar a procriação em si, e que, então, nenhuma regra moral é violada.

Cabrera acredita que a situação na qual alguém é colocado através da procriação, a vida humana, é "estruturalmente negativa", na medida em que seus componentes constitutivos são inerentemente adversos. Os mais proeminentes desses componentes são, segundo ele, os seguintes:

A) No nascimento, o ser humano ganha um ser decrescente (ou "minguante") no sentido de um ser que começa a acabar desde seu mero surgimento, seguindo uma direção única e irreversível de desgaste e declínio e cujo total acabamento pode consumar-se a qualquer momento. B) O ser humano é afetado, desde o início do seu surgimento, por três tipos de atrito: dor física (em forma de doenças, acidentes e catástrofes naturais às quais está desde sempre exposto); desânimo (na forma do "faltar a vontade" (a "gana") de continuar agindo, desde o leve taedium vitae até formas graves de depressão); e, por último, a exposição à ação agressiva de outros seres humanos (de fofocas e calúnias a várias formas de discriminação, perseguição e injustiça), agressões que também podemos infligir aos outros, também submetidos, como nós, aos três tipos de atrito. C) O ser humano está equipado com mecanismos de criação de valores positivos (éticos, estéticos, religiosos, lúdicos, bem como valores contidos em realizações humanas de todo tipo) que funcionam como defesa contra A e B, mecanismos que o humano deve manter constantemente ativos. Todos os valores positivos que aparecem dentro da vida humana são reativos e paliativos; eles não surgem a partir da própria estrutura da vida, sendo introduzidos pela luta permanente, ansiosa, e esforçada contra o ser decrescente e seus três tipos de atrito ganhos no nascimento, com tal esforço sendo finalmente derrotado por algum dos três atritos ou a deterioração progressiva do próprio ser.

Cabrera denomina o conjunto dessas características A–C de "terminalidade do ser". Ele acredita que um grande número de humanos em todo o mundo não consegue suportar essa luta íngreme contra a estrutura terminal do seu ser, o que leva a consequências destrutivas para eles e outros: suicídios, doenças mentais de maior ou menor gravidade ou comportamento agressivo. Ele aceita que a vida pode – pelo próprio mérito e esforço dos humanos – ser tolerável e mesmo muito agradável (embora não para todos, devido ao fenômeno de inabilitação moral), mas também considera problemático trazer alguém à existência para que tentar tornar sua vida agradável ao lutar contra a situação difícil e opressiva que lhe damos ao gerá-lo. Parece mais razoável, segundo Cabrera, simplesmente não colocá-lo nessa situação, já que os resultados de sua luta são sempre incertos.

De acordo com Cabrera, na ética, e também nas éticas afirmativas, há um conceito abrangente que ele chama de "Articulação Ética Fundamental", em suma "AEF": a consideração dos interesses dos outros, não manipular e não prejudicar. A procriação é para ele uma violação óbvia da AEF – alguém é manipulado e colocado numa situação prejudicial como resultado dessa ação. Em sua opinião, os valores incluídos na AEF já são amplamente aceitos pelas éticas afirmativas e, se abordados radicalmente, devem levar à recusa da procriação.