Maria Francisca Amélia Luísa Vitória Teresa Isabel Miguela Gabriela Rafaela Gonzaga de Orléans e Bragança (Eu, 8 de setembro de 1914 — Lisboa, 15 de janeiro de 1968) foi uma princesa da Casa de Orléans e Bragança e, por casamento, Duquesa de Bragança. Era filha de Pedro de Alcântara de Orléans e Bragança e de Elisabeth Dobrzensky de Dobrzenicz, integrando a antiga família imperial brasileira. Ao longo da sua vida, acompanhou o marido durante o período de exílio e, mais tarde, após o regresso da família a Portugal, manteve uma presença discreta na vida pública. Foi mãe de Duarte Pio de Bragança, atual chefe da Casa de Bragança, bem como de Miguel Rafael de Bragança e Henrique de Bragança.
Em 1942, casou-se com Duarte Nuno de Bragança, pretendente ao trono de Portugal e chefe da Casa de Bragança. Este casamento foi entendido, no contexto monárquico, como um passo relevante na aproximação entre diferentes ramos da dinastia brigantina, historicamente divididos desde o século XIX.
Faleceu em 1968, em Lisboa, sendo sepultada no Panteão das Duquesas de Bragança, em Vila Viçosa.
Biografia Primeiros anos
Nasceu no Castelo d'Eu, França, sendo filha de Pedro de Alcântara de Orléans e Bragança, príncipe do Grão-Pará (até 1889), neta de Isabel de Bragança e Gastão de Orléans, e bisneta de Pedro II, último imperador do Brasil. Sua mãe foi a condessa Elisabeth Dobrzensky de Dobrzenicz.
Passou seus primeiros anos na França, alternando estadias entre o Castelo d'Eu e Paris, onde estudou no Colégio de Notre Dame de Sion. Durante as férias a família visitava parentes na Alemanha, Áustria, Boêmia, Bélgica, Itália e Polônia. Na juventude manifestou-se um problema de saúde que enfraqueceu suas pernas, cuja natureza é incerta. Buscando remédio, a família a encaminhou para temporadas de banhos de mar.
Em 1920 o governo brasileiro revogou o banimento da família imperial que havia sido decretado em 1889. Considerando a possibilidade de se radicarem no Brasil, seus pais fizeram uma breve visita ao país, seguida de outra mais longa em 1925, quando tomaram posse do Palácio do Grão-Pará em Petrópolis, e iniciaram reformas para torná-lo habitável. A mudança definitiva ocorreu em 1935.
D. Maria Francisca continuou seus estudos no Colégio de Notre Dame de Sion de Petrópolis e na Escola de Enfermagem da Cruz Vermelha Brasileira no Rio de Janeiro. Em 1936 participou de uma viagem com familiares pelo interior do Brasil a fim de conhecer a vida dos indígenas.
Casamento
No fim da década de 1930 os monarquistas portugueses se preocupavam que o pretendente ao trono D. Duarte Nuno de Bragança, neto de D. Miguel I, ainda não havia casado. Várias princesas europeias foram cogitadas, mas nenhuma decisão foi tomada, até que surgiu a ideia de uni-lo com uma representante da Casa Imperial Brasileira. A primeira possibilidade a ser aventada foi D. Pia Maria, filha de D. Luís de Orléans e Bragança. João de Azevedo Coutinho, auxiliar de D. Duarte Nuno, providenciou em 1939 que se iniciassem os contatos, mas o projeto acabou sendo adiado.
A perspectiva do casamento tornou-se então objeto do interesse do governo português. Ainda em 1939 Oliveira Salazar foi consultado e opinou que preferia que D. Duarte casasse com uma filha de D. Pedro de Alcântara de Orléans e Bragança, e recomendou que D. Duarte, por motivos políticos, não viajasse ao Brasil. O plano então entrou em recesso, mas em 1941 Salazar autorizou o reinício das negociações com a família brasileira através de Azevedo Coutinho. Os contatos progrediram, e em 1942 foi programada a viagem de D. Duarte para o Brasil, que apesar da resistência de Salazar foi autorizada, desde que a questão fosse tratada com toda a discrição. Salazar colaborou na organização da viagem determinando que o embaixador português na Espanha, Pedro Teotónio Pereira, acompanhasse D. Duarte e conseguisse que a embaixada dos Estados Unidos pagasse as passagens num avião da Panair. Finalmente a comitiva partiu de Lisboa no dia 29 de maio, e depois de duas escalas, chegou ao Rio de Janeiro no dia 1º de junho.
No Brasil os rumores sobre o casamento receberam ampla divulgação na imprensa, sendo assinalado que ele representaria a reunião de dois ramos da mesma família, separados há mais de um século, após uma cisão separatista entre absolutistas e liberais e uma sangrenta guerra civil, mas a esta altura ainda não havia nenhuma definição quanto à identidade da futura noiva. Preocupado com as repercussões políticas do evento, Salazar enfatizou ao embaixador no Brasil, Martinho Nobre de Melo, que evitasse a todo custo que a participação do governo português aparecesse como feita em caráter oficial, instruindo-o a divulgar a versão de que era apenas uma visita de D. Duarte aos seus parentes brasileiros, e recomendou que tivesse a maior prudência nos contatos com ele e o impedisse de participar de qualquer ato oficial da embaixada.
A decisão de escolher D. Maria Francisca entre suas irmãs e primas só foi tomada no Brasil, após D. Duarte conhecê-las pessoalmente. Em 4 de julho D. Duarte pediu sua mão em Petrópolis. Em seguida a noiva viajou a Nova Iorque em companhia da futura cunhada D. Filipa, a fim de visitar parentes exilados, e segundo as memórias do barão de Saavedra, o real motivo foi para que D. Maria Francisca tivesse tempo de se habituar à ideia de sua futura condição, uma vez que ela não esperava ser eleita. Entretanto, o Brasil entrava na II Guerra Mundial. Diante de um novo panorama político, a presença de D. Duarte no Brasil passou a ser vista como indesejável pelo governo português. João do Amaral sugeriu a Salazar que o regresso de D. Duarte fosse apressado e que o casamento fosse adiado, mas Salazar encareceu a necessidade de que tudo fosse resolvido com a máxima rapidez. O noivado foi então divulgado publicamente em 10 de setembro, sendo noticiado em jornais do Brasil e Portugal. O jornal brasileiro A Noite, por exemplo, em matéria de capa, disse:
thumb|Documento assinado por Getúlio Vargas e Gustavo Capanema reconhecendo o casamento de Maria Francisca na Catedral de Petrópolis.
"Repercute gratamente nas esferas sociais do país, a notícia do ajuste matrimonial de uma das princesas brasileiras, D. Maria Francisca de Orléans e Bragança, ajuste que se mantém na linha dinástica luso-brasileira, e concorre auspiciando a continuidade de uma família a que nos prendem liames históricos e sentimentais do melhor teor espiritual. [...] A alta hierarquia social dos noivos e a tradição afetiva que os vincula à família brasileira justificam o interesse suscitado pelo acontecimento, cuja repercussão se estenderá a todo o Brasil"."Enlace D. Maria Francisca de Orléans e Bragança - D. Duarte Nino, duque de Bragança". A Noite, 10/09/1942
Em 23 de setembro o barão de Saavedra deu um banquete em homenagem ao noivo, que completava 35 anos de idade, e no mesmo dia D. Maria Francisca deu de Nova Iorque uma entrevista ao jornal Diário Popular. Ela retornou ao Brasil em 6 de outubro. Tanto sua partida como seu regresso receberam cobertura da imprensa e foram acompanhados por numerosas figuras eminentes da sociedade carioca e da colônia portuguesa."As princesas viajaram para os Estados Unidos". Gazeta de Notícias, 09/07/1942"Regressaram as princesas de Bragança". Gazeta de Notícias, 07/10/1942"Dos Estados Unidos regressaram as Princesas de Bragança". Jornal do Brasil, 07/10/1942
A escolha dos padrinhos também foi submetida ao escrutínio do governo português. Foi sugerido que o padrinho do noivo fosse o cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Gonçalves Cerejeira, mas a ideia foi vetada sumariamente por Salazar, que ordenou que fossem escolhidos para o noivo e para a noiva, pelo "alto significado político", os condes de Paris e de Barcelona, pretendentes, respectivamente, aos tronos da França e da Espanha, que aceitaram o convite mas devido à situação de guerra internacional não viajaram ao Brasil, delegando a função a representantes.
O casamento civil foi realizado na embaixada de Portugal no Rio de Janeiro em 13 de outubro de 1942, sendo presidido pelo embaixador e oficiado pelo cônsul geral, e acompanhado por altas figuras da sociedade brasileira e da colônia portuguesa. O casamento religioso ocorreu em 15 de outubro, na Catedral de Petrópolis, com suntuosas decorações e grande solenidade, seguido de um banquete."O casamento do Príncipe D. Duarte Nuno com a Princesa D. Maria Francisca". Jornal do Brasil, 15/10/1942"O casamento dos príncipes da Casa de Bragança". O Jornal, 16/10/1942 Muitos curiosos afluíram para Petrópolis na esperança de ver os noivos, lotando os hotéis, e um serviço especial de trens foi organizado para atender à grande demanda."O casamento dos príncipes de Bragança". O Jornal, 15/10/1942 O presidente do Brasil, Getúlio Vargas, o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Osvaldo Aranha, e os embaixadores de Portugal e da Inglaterra foram representados na cerimônia pelas respectivas esposas. Estiveram presentes ainda o ministro da Aeronáutica Salgado Filho, o almirante Castro e Silva, o brigadeiro Armando Trompowski, embaixadores ou ministros do Canadá, Portugal, Dinamarca, Estados Unidos, França, Peru, Polônia e Suécia, os prefeitos de Petrópolis e do Rio, representantes da realeza e membros da nobreza europeia, membros do corpo diplomático nacional e outras autoridades, o núncio apostólico e membros do alto clero, assim como uma extensa lista de personalidades da sociedade brasileira. O papa Pio XII transmitiu sua benção apostólica por telegrama."O casamento de dom Duarte Nuno e dona Maria Francisca". Gazeta de Notícias, 15/10/1942 A Gazeta de Notícias do Rio disse que o casamento foi o assunto social do mês no Brasil,"Partiram os príncipes". Gazeta de Notícias, 25/10/1932 e a imprensa portuguesa repercutiu o evento em ampla escala. Missas em ação de graças foram celebradas em muitas paróquias portuguesas. No dia 20 Getúlio Vargas reconheceu oficialmente a validade do casamento em território brasileiro.
Vida na Suíça Após a cerimônia colocou-se o problema da residência do casal, pois desde a queda da monarquia Portugal havia banido os Bragança do seu território. Salazar rejeitava com veemência a hipótese de uma fixação no Brasil. A Espanha também não pareceu uma boa alternativa para o embaixador Pedro Teotónio Pereira, e foi igualmente rejeitada. No retorno à Europa o casal passou por Madri, onde recebeu cumprimentos de centenas de pessoas e foi homenageado com um jantar no Hotel Ritz promovido pela embaixada portuguesa, passaram por Sevilha, onde visitaram os infantes D. Carlos e D. Luísa, e por fim rumaram para Larache, no Marrocos, onde permaneceram até 7 de novembro, saindo de lá um dia antes do ataque norte-americano à região.
A viagem era observada de perto pelo governo português, que também facilitou sua chegada a Berna, na Suíça, onde fixaram residência, e acompanhou o nascimento dos filhos. O primeiro, Duarte Pio, nascido em 15 de maio de 1945, foi apadrinhado pelo papa Pio XII, e na cerimônia estiveram presentes o príncipe reinante de Liechtenstein, o conde de Barcelona e ministros de Portugal, Brasil, Reino Unido e Espanha, entre outros. O segundo, Miguel Xavier, nascido em 3 de dezembro de 1946, teve como padrinho o grão-duque herdeiro de Luxemburgo. O terceiro, Henrique Nuno, nasceu em 6 de novembro de 1949.
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