Nascido em Cartago, na província romana da África Proconsular, Tertuliano (; – ) foi um prolífico autor das primeiras fases do cristianismo, o primeiro a produzir obra literária (corpus) em latim. Foi também um notável apologista cristão e polemista contra a heresia.
Organizou e avançou a nova teologia da Igreja antiga. Entre os autores cuja obra sobreviveu é talvez mais famoso como o mais antigo a utilizar o termo "Trindade" () e por nos dar a mais antiga exposição formal ainda existente sobre a teologia trinitária. Também formulou a primeira defesa da liberdade religiosa. É um dos Padres latinos.
Algumas das ideias de Tertuliano não eram aceitáveis para os ortodoxos. No fim da sua vida, Tertuliano tornou-se montanista.
Vida esquerda|thumb|upright|Tertuliano Pouquíssima informação confiável existe sobre a vida de Tertuliano. A maior parte do que sabemos sobre ele vem de seus próprios escritos.
De acordo com a tradição, ele foi criado em Cartago e acreditava ser o filho dum centurião romano, um advogado treinado e um padre ordenado. Estas assertivas se baseiam principalmente em Eusébio de Cesareia na sua História Eclesiástica (livro II, cap 2) e em São Jerônimo, em De Viris Illustribus (cap. 53 ).Veja a introdução do livro ; na edição revisada de 1985, ele refutou algumas de suas posições. Jerônimo alegou que o pai de Tertuliano tinha a posição de centurio proconsularis no exército romano em África. Porém, não está claro se esta posição sequer existiu nas forças militares romanas.
Adicionalmente, acredita-se que Tertuliano foi um advogado por causa do uso que ele faz de analogias legais e de uma identificação dele com o jurista Tertulianus, que foi citado no "Digesta seu Pandectae". Embora Tertuliano utilize conhecimentos da lei romana em seus escritos, seu conhecimento legal não é — de forma demonstrável — superior ao que se esperaria de um romano com educação suficiente.. Dos escritos de Tertulianus, um advogado com o mesmo cognome, existem apenas fragmentos e eles não demonstram uma autoria cristã. E Tertulianus só foi confundido com Tertuliano muito depois, por historiadores cristãos.. Finalmente, também é questionável se ele era ou não um padre. Em suas obras sobreviventes, ele jamais se descreve como ordenado pela Igreja e parece se colocar como leigo em trechos de "Exortação à Castidade" (7.3) e "Sobre a Monogamia" (12.2).
A África era famosa por ser terra de oradores. Esta influência pode ser percebida no estilo de Tertuliano, permeado de arcaísmos e provincialismos, suas imagens brilhantes e o seu temperamento apaixonado. Ele era um estudioso de grande erudição, tendo escrito pelo menos dois livros em grego. Neles, ele se refere a si mesmo, mas nenhum sobreviveu até hoje. Sua principal área de estudo era a jurisprudência e sua forma de raciocinar revela algumas marcas de um treinamento jurídico mais formal.
Conversão Sua conversão ao cristianismo aconteceu por volta de 197–198 (de acordo com Adolf Harnack, Bonwetsch e outros), mas seus antecedentes imediatos são desconhecidos, exceto o que pode ser conjecturado a partir de seus escritos. O evento deve ter sido repentino e decisivo, transformando de uma vez sua própria personalidade. Ele escreveu que não podia imaginar uma vida verdadeiramente cristã sem um ato consciente e radical de conversão:
Dois livros endereçados à sua esposa confirmam que ele foi casado com cristã.
No meio de sua vida (por volta de 207 d.C.), ele foi atraído pela "Nova profecia" do Montanismo e parece ter deixado o ramo principal da Igreja. No tempo de Santo Agostinho, um grupo de "tertulianistas" ainda tinham uma basílica em Cartago que, nesta mesma época, passou para a Igreja. Não sabemos se esta é apenas uma outra denominação para os montanistas e se significa que Tertuliano rompeu também com os montanistas e fundou seu próprio grupo. Tertuliano tinha um temperamento violento e enérgico, quase fanático, lutador empedernido e muitos dos seus escritos são polémicos. Este temperamento, impressionado com o exemplo dos mártires, que o levou à conversão, permite compreender a sua passagem ao montanismo.
Jerônimo diz que Tertuliano morreu com idade bastante avançada, mas não há outra fonte confiável que ateste sua sobrevivência além do ano estimado de . A despeito de seu cisma com a ortodoxia da Igreja, ele continuou a escrever contra as heresias, especialmente o Gnosticismo. Assim, através de suas obras doutrinárias que publicou, Tertuliano se tornou professor de Cipriano de Cartago e o predecessor de Santo Agostinho que, por sua vez, se tornou o principal fundador da teologia latina.
Obras thumb|Opera omnia, 1598
Divisão temática: Podemos dividir o conjunto das suas obras em três grandes grupos:
Escritos apologéticos (de defesa da fé contra os opositores): Aos pagãos, Apologeticum (a sua obra mais conhecida), O testemunho da alma, Contra Escápula, Contra os judeus. Escritos polémicos: A prescrição dos hereges, Contra Marcião, Contra Hermógenes, Contra os valentinianos, O baptismo, Scorpiace, A carne de Cristo, A ressurreição da carne, Contra Práxeas, A alma. Escritos disciplinares, morais e ascéticos: Aos mártires, Os espectáculos, O vestido das mulheres, A oração, A paciência, A penitência, À esposa, A exortação da castidade, A monogamia, O véu das virgens, A coroa, A fuga na perseguição, A idolatria, O jejum, A pudicícia, O manto.
Divisão das obras em relação à heresia Montanista Outra forma de dividir as obras de Tertuliano é relacioná-las com a sua adesão ao Montanismo.
Obras Católicas (Fase Ortodoxa — Até aprox. 207 d.C.) Nesta fase, Tertuliano escreve suas principais apologias de defesa do Cristianismo e tratados dogmáticos que lançaram as bases da teologia latina (como o uso pioneiro do termo "Trindade").
Apologeticum (Apologético): Sua obra-prima de defesa jurídica dos cristãos contra as perseguições romanas. De Praescriptione Haereticorum (A Prescrição dos Hereges): Argumenta que as Escrituras pertencem unicamente à Igreja legítima. Ad Nationes (Aos Pagãos): Crítica direta à idolatria e aos costumes da sociedade romana. De Testimonio Animae (Do Testemunho da Alma): Defesa de que a alma humana é naturalmente voltada a Deus. Ad Martyras (Exortação aos Mártires): Carta de encorajamento aos cristãos presos que aguardavam o martírio. De Spectaculis (Dos Espetáculos): Condenação da presença de cristãos nos jogos e teatros pagãos. De Baptismo (Do Batismo): O mais antigo tratado específico sobre este sacramento. De Oratione (Da Oração): Contém o primeiro comentário teológico sobrevivente sobre a oração do Pai Nosso . De Paenitentia (Da Penitência): Aborda o perdão dos pecados pós-batismais sob a ótica da disciplina eclesiástica da época. De Patientia (Da Paciência): Reflexão pessoal e teológica sobre a virtude da paciência. De Cultu Feminarum (Do Vestuário das Mulheres): Conselhos de modéstia e simplicidade para as mulheres cristãs. Ad Uxorem (À Sua Esposa): Conselhos sobre o casamento cristão e orientações contra o matrimônio com pagãos. Adversus Hermogenem (Contra Hermógenes): Refutação teológica contra a ideia pagã da eternidade da matéria.
Obras de Transição (Semi-Montanistas — Aprox. 207 a 212 d.C.) Textos onde o rigorismo de Tertuliano se acentua e ele passa a demonstrar simpatia pelas profecias de Montano.
Adversus Marcionem (Contra Marcião): Extensa refutação em cinco livros contra o herético Marcião; os últimos livros já trazem marcas claras do montanismo. De Anima (Da Alma): Investigação sobre a natureza, origem e o destino da alma humana. De Carne Christi (Da Carne de Cristo): Defesa da real encarnação de Jesus contra o docetismo. De Resurrectione Mortuorum (Da Ressurreição dos Mortos): Tratado focado na defesa da ressurreição física. Adversus Valentinianos (Contra os Valentinianos): Crítica satírica e teológica ao gnosticismo de Valentim. De Pallio (Do Manto): Um opúsculo irônico justificando sua decisão de usar o manto de filósofo em vez da toga romana. Scorpiace (Antídoto contra a Picada do Escorpião): Uma exortação ao martírio contra as visões gnósticas que o desvalorizavam.
Obras Montanistas (Fase Rigorista — Aprox. 213 a 220 d.C.) Aqui, Tertuliano rompe formalmente com a Igreja e ataca os líderes católicos locais (chamando-os pejorativamente de psychici, ou "carnais") enquanto defende os montanistas (autodenominados pneumatici, ou "espirituais").
Adversus Praxean (Contra Práxeas): Extremamente irônico contra Práxeas (quem "expulsou o Paráclito e crucificou o Pai"), mas fundamental para a história da teologia por formular detalhadamente a doutrina trinitária. De Pudicitia (Da Modéstia / Da Pureza): Ataque violento a um édito episcopal que concedia o perdão a pecados graves de adultério e fornicação. De Monogamia (Da Monogamia): Condenação absoluta do segundo casamento (recasamento), mesmo após a viuvez. De Exhortatione Castitatis (Exortação à Castidade): Semelhante ao anterior, desencorajando firmemente as segundas núpcias. De Fuga in Persecutione (Da Fuga na Perseguição): Afirma que fugir da perseguição ou subornar autoridades para escapar é pecado contra o Espírito Santo. De Jejuniis Adversus Psychicos (Do Jejum contra os Carnais): Defesa das práticas estritas de jejum instituídas pela Nova Profecia montanista. De Corona (Da Coroa do Soldado): Defesa de um soldado cristão que se recusou a usar a coroa de louros militar por considerá-la um ato idolátrico. De Virginibus Velandis (Do Véu das Virgens): Exigência rigorosa de que todas as mulheres jovens e solteiras usassem o véu completo nas assembleias. Ad Scapulam (A Escápula): Carta aberta de tom profético e ameaçador direcionada ao governador romano da África, alertando sobre o julgamento divino.
Teologia Apesar de ser considerado por muitos o fundador da teologia ocidental, a verdade é que tal designação é exagerada, porque Tertuliano não tem propriamente um sistema teológico. De facto, para isso faltou-lhe o equilíbrio necessário para organizar os vários artigos da fé, assim como a preocupação pela coerência, pois não era do seu interesse conciliar a fé com a razão humana.
A fé e a filosofia Para Tertuliano, a questão das relações entre a fé e a filosofia nem sequer se colocavam, pois entre ambas nada existia de comum. A filosofia era vista como adversária da fé, e os filósofos antigos como patriarcas dos hereges. Para ele, de facto, fé e razão opõem-se, e podemos encontrar na filosofia a origem de todos os desvios da fé. No entanto, é forçado a reconhecer que algumas vezes os filósofos pensaram como os cristãos, e denuncia algumas influências de correntes filosóficas antigas, nomeadamente do Estoicismo.
É bem conhecida a frase "credo quia absurdum". Apesar de ela não se encontrar nos escritos de Tertuliano, mas apenas algumas semelhantes, ela condensa bem o seu pensamento acerca da razão. Note-se que o seu significado é não apenas "creio embora seja absurdo", mas sim "creio porque é absurdo". A verdadeira fé tem de se opor à razão.
O historiador David C. Lindberg argumenta que a posição de Tertuliano é melhor entendida como a criação de uma filosofia alternativa do que como a rejeição de todo e qualquer pensamento filosófico e racional. Embora ele criticasse os filósofos clássicos, seu próprio estilo de argumentação ainda tomava emprestadas categorias de pensamento racional da filosofia clássica, sendo a "razão" que ele combatia entendida como a filosofia pagã.
A teologia e o direito Tertuliano era jurista, advogado, e isso se refletiu em sua teologia e em seus escritos de duas maneiras: quanto ao método de argumentação: Nascia na Igreja a procura de uma argumentação precisa e cerrada, sem falhas, à imagem daquela usada nos tribunais. Foi Tertuliano que usou contra os hereges o argumento da prescriptio, que mostrava que apenas a Igreja unida a Roma provinha das origens, enquanto todos os outros teriam surgido depois e seriam, por isso, falsificadores;
quanto à linguagem: