Realismo animista
O realismo animista é um conceito crítico-literário proposto para descrever determinadas manifestações das literaturas africanas fundamentadas em cosmologias animistas e em concepções de mundo nas quais as dimensões visível e invisível coexistem como partes constitutivas da realidade. O termo foi introduzido pelo escritor angolano Pepetela em 1989, no romance Lueji, como uma alternativa às categorias de realismo mágico, realismo fantástico e realismo maravilhoso frequentemente utilizadas para interpretar narrativas africanas.PARADISO, Silvio Ruiz. Religiosidade na literatura africana: a estética do realismo animista. Estação Literária. Londrina, Volume 13, p. 268-281, jan. 2015.
Diferentemente do realismo mágico, que pressupõe a coexistência ou tensão entre elementos considerados ordinários e extraordinários, o realismo animista parte de sistemas culturais nos quais ancestrais, espíritos, forças da natureza e entidades invisíveis integram a própria experiência do real. Nessa perspectiva, o sobrenatural não constitui uma ruptura da realidade, mas uma de suas dimensões legítimas.GARUBA, H. Explorations in Animist Materialism: Notes on Reading/Writing African Literature, Culture and Society. In: Public Culture 15, n. 2, 2003, pp. 261-285.
O conceito foi posteriormente desenvolvido por estudiosos como Henry Garuba GARUBA, H. Explorations in Animist Materialism: Notes on Reading/Writing African Literature, Culture and Society. In: Public Culture 15, n. 2, 2003, pp. 261-285. e Henrique Abranches ABRANCHES, Henrique. Da mitologia tradicional ao universalismo literário. Luanda: União dos Escritores Angolanos. Entrevista. , que defendem a necessidade de categorias críticas formuladas a partir das epistemologias africanas e não apenas de modelos teóricos europeus ou latino-americanos.
Origem do conceito
A primeira utilização conhecida da expressão realismo animista ocorreu no romance Lueji (1989)PEPETELA. Lueji, o nascimento de um império.Porto, Portugal: União dos Escritores Angolanos, 1989. , de Pepetela. Ao refletir sobre as especificidades das literaturas africanas, o autor argumentou que conceitos como realismo mágico ou realismo maravilhoso não contemplavam adequadamente narrativas produzidas em contextos culturais nos quais o mundo espiritual faz parte da realidade cotidiana.
PEPETELA. Lueji, o nascimento de um império.Porto, Portugal: União dos Escritores Angolanos, 1989. p.451
A proposta de Pepetela surge em um contexto de valorização das matrizes culturais africanas após os processos de independência política ocorridos ao longo do século XX. Nesse sentido, o conceito procura nomear formas narrativas que emergem de cosmologias africanas e de suas formas próprias de compreender a vida, a morte, a ancestralidade e o tempo.Paradiso, Silvio Ruiz. “Metamorfoses decoloniais”: o inconsciente animista e transmutações como cosmovisão nas Literaturas Africanas . Bakhtiniana. Revista De Estudos Do Discurso, 19(1), 2023.
Fundamentação teórica
O crítico literário nigeriano Henry Garuba é considerado um dos principais responsáveis pela sistematização teórica do conceito. Segundo o autor, o realismo animista caracteriza uma lógica cultural na qual os limites entre matéria e espírito, natureza e cultura, passado e presente, permanecem permeáveis. Garuba inicia a discussão crítica no texto “Ben Okri: Animist Realism and the Famished Genre” (1993) OKRI, Ben. The Famished Road. London: Vintage, 1993.
Para Garuba:
Nessa perspectiva, o realismo animista não representa apenas uma estética literária, mas uma forma específica de percepção do mundo, associada a diversas tradições culturais africanas.PARADISO, Sílvio Ruiz. O realismo animista e as literaturas africanas: gênese e percursos. Revista Interletras, v. 11 n. 2, 2020.
Diferenças em relação ao realismo mágico
Embora frequentemente aproximados pela crítica literária, o realismo animista e o realismo mágico possuem pressupostos distintos.
No realismo mágico, os acontecimentos extraordinários costumam ser apresentados em um universo narrativo predominantemente realista, produzindo um efeito de estranhamento ou de suspensão das fronteiras entre realidade e fantasia.
Já no realismo animista, os elementos espirituais, ancestrais ou sobrenaturais não são percebidos como excepcionais pelos personagens ou pela comunidade retratada. Eles fazem parte da própria estrutura da realidade e de sistemas culturais específicos. Por essa razão, diversos estudiosos consideram o realismo animista uma categoria mais adequada para interpretar determinadas produções literárias africanas. Paradiso, Silvio Ruiz. “Metamorfoses decoloniais”: o inconsciente animista e transmutações como cosmovisão nas Literaturas Africanas . Bakhtiniana. Revista De Estudos Do Discurso, 19(1), 2023.
Ressignificação do termo animismo
O conceito também possui relevância epistemológica e pós-colonial por promover uma ressignificação do termo animismo.
Desde a publicação de Primitive Culture (1871), do antropólogo britânico Edward Burnett Tylor, o animismo foi frequentemente associado, nas teorias evolucionistas e nos discursos coloniais, a estágios considerados "primitivos" do desenvolvimento humano.TYLOR, Edward Burnett. Primitive culture: researches into the development of mythology, philosophy, religion, art, and custom. J. Murray, 1871.
Os teóricos do realismo animista propõem uma revisão crítica dessa herança conceitual, valorizando o animismo como expressão legítima de sistemas filosóficos, religiosos e culturais africanos. Dessa forma, o termo deixa de ser entendido como sinal de atraso cultural para tornar-se uma categoria de análise estética e epistemológica. Dentre eles, o próprio Henry Garuba, Philippe Descola (2015)DESCOLA, Philippe. Além de natureza e cultura. Tessituras: Revista de Antropologia e Arqueologia, Pelotas, v. 3, n. 1, p.7-40, 2015. ,Graham Harvey GRAHAM, Harvey. Animism: Respecting the Living World. New York: Columbia University Press, 2006 , Eduardo Viveiros de Castro VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A inconstância da alma selvagem e outros ensaios de antropologia. 5. ed. São Paulo: Cosac Naify, 2013. e, mais fortemente, nas pesquisas da zimbabuense Caroline Rooney (1957), professora de literatura pós colonial na Universidade de Kent, que propõe, em African Literature, Animism and Politics(2000) ROONEY, Caroline. African Literature, Animism and Politics. London: Routledge, 2006.
Recepção crítica
O conceito vem sendo estudado por pesquisadores africanos, europeus e latino-americanos. No contexto africano destacam-se os trabalhos de Henry Garuba, Henrique Abranches e Mark Mathuray, que em alguns estudos utiliza a expressão sacred realism para discutir fenômenos semelhantes em literaturas africanas de língua inglesa.
No Brasil, o tema tem sido abordado por pesquisadores como Sueli Saraiva (UNILAB), Jane Tutikian (UFRGS), Flávio Garcia (UERJ) e Silvio Ruiz Paradiso (UFGD), cujos trabalhos discutem a aplicação do conceito às literaturas africanas de língua portuguesa e às produções afro-diaspóricas.PARADISO, Sílvio Ruiz. Religião e religiosidade nas literaturas africanas: um olhar em Achebe e Mia Couto. Mogi-Guaçu: Becalete, 2019.
Autores associados
Embora não constitua uma escola literária formal, o conceito tem sido utilizado para analisar obras de autores como:
Pepetela Mia Couto Paulina Chiziane Boaventura Cardoso José Eduardo Agualusa Ungulani Ba Ka Khosa Ben Okri Chinua Achebe Wole Soyinka Amós Tutuola
Características do realismo animista
Segundo o pesquisador Silvio Ruiz Paradiso Paradiso, Silvio Ruiz. “Metamorfoses decoloniais”: o inconsciente animista e transmutações como cosmovisão nas Literaturas Africanas . Bakhtiniana. Revista De Estudos Do Discurso, 19(1), 2023. , o realismo animista apresenta um conjunto de características recorrentes que o distinguem de outras formas de narrativa do insólito. A primeira delas é a presença de um pensamento animista fundamentado no imaginário das religiões tradicionais africanas, no qual o mundo visível e o invisível coexistem como dimensões complementares da realidade.
Outra característica frequente é a presença de seres não humanos ou de processos de devir animal. Divindades, espíritos, ancestrais, fantasmas, híbridos, metamorfos e animais dotados de consciência ou linguagem humana são elementos recorrentes que remetem aos mitos, lendas e tradições orais africanas.
Paradiso também identifica a ocorrência do que denomina "ancestralirismo", conceito formado pela junção dos termos ancestralidade e lirismo. O termo refere-se à manifestação da memória ancestral coletiva por meio de uma estética da oralidade, frequentemente associada à presença de anciãos, griots, sábios e outros guardiões da memória, cujos discursos desempenham papel central na construção narrativa.
Outra característica é a interseccionalidade entre tempos e espaços. Nessas narrativas, passado, presente e futuro podem coexistir, assim como diferentes planos de existência, como os mundos dos vivos, dos mortos e dos não nascidos. Essa estrutura expressa uma concepção cíclica e relacional do tempo, vinculada às cosmologias africanas.
Por fim, destaca-se a recorrência de processos de transmutação, metamorfose ou psicomorfose. Além de evidenciarem o imaginário animista, tais transformações frequentemente simbolizam questões identitárias relacionadas à experiência colonial, às dinâmicas culturais híbridas e aos processos de construção nacional presentes em diversas literaturas africanas.
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