miniaturadaimagem|A partida da Expedição Langsdorff, no Rio Tietê, de Aimé-Adrien Taunay

Partida de Porto Feliz é uma pintura de Oscar Pereira da Silva, produzida entre 1920 e 1921. A obra é do gênero pintura histórica e está localizada no Museu Paulista. Sua realização se deu devido a uma encomenda realizada por Afonso d'Escragnolle Taunay e como mote principal retrata uma embarcação de monções, baseando-se em uma anterior ilustração existente, que retratava a mesma cena. Esta é a obra A partida da Expedição Langsdorff, no Rio Tietê, elaborada por Aimé-Adrien Taunay em 1826.

Ficha técnica A obra foi produzida com a técnica de tinta a óleo sobre tela. Ela foi produzida nos anos de 1920 e 1921. Há duas informações distintas acerca de suas dimensões. Existem fontes relatando as medidas de 86 centímetros de altura e 130 centímetros de largura,http://www.scielo.br/pdf/anaismp/v26/1982-0267-anaismp-26-e34.pdf e outras afirmando o tamanho da tela ser 110 centímetros de altura por 130 centímetros de largura. Faz parte de Coleção Fundo Museu Paulista.

O contexto da realização da obra A realização desta obra se encaixa em um contexto em que Afonso d'Escragnolle Taunay, representando a diretoria do Museu Paulista, encomenda a alguns artistas a missão de reapresentar, em pinturas, cenas históricas do Brasil e do Estado de São Paulo. Nessa situação, ele pede ao artista Oscar Pereira da Silva que fizessem algumas pinturas que recriavam anteriores ilustrações. Foram selecionados desenhos elaborados nas primeiras décadas do século XIX, de autoria de Hercule Florence, Aimé-Adrien Taunay e Jean-Baptiste Debret. Estes artistas foram escolhidos pois retratariam o passado de modo fiel, dentro de um contexto da ilustração científica. A intenção destas recriações era possibilitar uma maior difusão da história da região, a qual, até o momento não era tão amplamente conhecida e disseminada. Dentre os temas que Afonso Taunay buscou ressaltar encontram-se especialmente as monções e as bandeiras.

Para as monções, foi montada, em 1929, a "Sala das Monções", no Museu Paulista. O quadro de Oscar Pereira da Silva não se mostrava como o principal desta especial sala. Tal posição principal foi ocupada pela enorme obra "Partida das Missões", de Almeida Júnior - artista que teve mais duas outras pinturas suas nestas sala - São Paulo a Caminho de Damasco e Retrato de Prudente José de Morais e Barros. A sala foi remontada em 1944, agora sem as obras deste último artista citado, e contando com 20 pinturas à óleo. De autoria de Oscar Pereira da Silva, foram destinadas a esta sala, além de "Partida de Porto Feliz", um retrato de Hercule Florence, "Carga de Canoas" e "9º Encontro de Monções no Sertão". Ambas estas duas últimas são feitas à óleo e possuem dimensões semelhantes às de "Partida de Porto Feliz", com lados variando entre aproximadamente um metro de altura e valores próximos a um metro e meio de comprimento. O retrato fora colocado no alto, em destaque, e como uma legenda que intitulava Florence como o patriarca da iconografia paulista.

A proposta para a Sala das Monções encaixava-se dentro do "Programa decorativo" de Afonso Taunay para o Museu Paulista. Este projeto tinha o propósito de reformular do acervo, de modo a prepará-lo para o centenário da independência, em 1922. Para esta data, buscava-se que o conteúdo apresentado pelo museu reforçasse o nacionalismo e exaltasse os "herois" paulistas e a história do Estado de São Paulo, colocando-o como ponto chave para o sucesso do processo do desvínculo com Portugal. Taunay encarou este desafio logo após estabelecer-se como diretor do museu, em 1917, contudo a Sala das Monções não ficou pronta a tempo da comemoração de 1922, finalizando-se apenas 7 anos depois.

À semelhança destas iniciativas encabeçadas por Afonso Taunay, o Museu Paulista prepara-se para celebrar o bicentenário da independência do Brasil, com o projeto "Museu do Ipiranga 2022". Este tem como objetivo a restauração e modernização completas do Museu do Ipiranga. Diferentemente do foco de Afonso Taunay na ocasião em que encomendou "Partida de Porto Feliz" - incrementar o acervo - os propósitos da atualidade voltam-se mais para uma reformulação arquitetônica, reformulando espaços internos e suas conexões com o Parque da Independência. Contudo, à semelhança do que ocorreu no século XX, também há uma preocupação em ampliar e renovar o acervo.

Descrição detalhada da obra e comparação com a ilustração de Aimé-Adrien Taunay O quadro, em descrição detalhada, desenvolve-se da seguinte maneira. No primeiro plano há uma embarcação que se assemelha ao tipo "canoa". A evidência do uso da canoa se dá pelo título de outra obra com teor semelhante. Trata-se da "Bênção das canoas", pintura de Aurélio Zimmermann também encomendada por Afonso Taunay, e que retrata o momento de saída de uma expedição fluvial. Esse barco em evidência, assim como os demais que se posicionam mais ao fundo, pode ser também do tipo "batelão". O website da cidade de Porto Feliz afirma que esse era o tipo de embarcação utilizada nas monções. Um batelão seria uma grande canoa, um "canoão" - e vale notar que por vezes o quadro de Zimmmermann é nomeado de "Bênção dos canoões". Fundamentalmente, trata-se da piroga indígena - um objeto fabricado a partir de de um só tronco, de Peroba ou Ximbúva, madeiras muito resistentes, e que chegava a 12 metros de comprimento. A descrição da disposição da tripulação típica deste barco está de acordo com o que é retratado no quadro "Partida de Porto Feliz". Diz-se que a tripulação de um batelão era composta pelo piloto, contra-piloto, proeiro e 5 ou 6 remeiros, sendo que estes últimos localizavam-se na proa, e o piloto na popa. Também de acordo com a pintura é a descrição de que a maior das canoas serviria de guarda e guia, levando na popa uma bandeira.

A se julgar pela escala a canoa retratada deve possuir algo em torno de 10 metros de comprimento. Nesse barco encontra-se um carregamento de pedras e sete pessoas, cinco na proa e dois na popa, todos remando. Dentre estes humanos representados, todos são homens negros vestindo roupas claras - em geral bermudas que chegam até os joelhos e camisas de manga longa. Quatro deles usam chapéus. Sendo negros, na data em que ocorreu a partida da Expedição Langsdorff retratada na cena, ou seja, em 1826, é provável que fossem escravos. Afinal, apesar de neste momento o Brasil já se encontrar em situação de independência, a escravidão infelizmente ainda não havia sido abolida - isso irá ocorrer apenas em 1888.

Já a representação da canoa, da carga e das pessoas é semelhante em ambas obras, mas há diferenças importantes a serem notadas. Em primeiro lugar, apesar de Aimé-Adrien Taunay utilizar apenas uma cor para sua ilustração (trata-se de tinta ferrogálica), ele faz questão de distinguir, com clareza, a cor da pele daqueles que se encontram na proa dos que estão na popa. No desenho fica evidente que os cinco que remam, à frente, são negros, e que os dois que se colocam em posição de garantir a direção correta do barco, na popa, são brancos. Um deles segura também um remo, contudo o outro, embora isto não esteja totalmente evidente, provavelmente porta uma arma grande, que poderia ser uma espingarda. Há inclusive algo como uma fumaça desenhada na direção da saída desta "arma", de modo que pode-se conjecturar que ela haveria sido recentemente disparada. Na pintura realizada no século XX, os dois homens no fundo do barco são também negros, e portam, aparentemente, os mesmos objetos que na ilustração. Não foi retratada "fumaça", de modo a não sinalizar o uso da "arma" presente - o que de certa maneira deixa a cena com um tom mais pacífico. É interessante conjecturar sobre o que teria motivado Oscar Pereira da Silva a substituir estes personagens da popa, e o uso dos objetos que portavam. miniaturadaimagem|Bandeira do Império do Brasil (usada, logo, entre 1822 e 1889) A canoa navega pelo Rio Tietê, elemento que, na pintura, ocupa cerca de um terço da área do quadro, e também, iniciando-se na base do quadro, praticamente chega a um terço da altura do mesmo. Comparando com a ilustração que lhe deu origem, percebe-se que esta havia destinado uma abrangência menor ao elemento do rio. Ambas pintura e ilustração demonstram a movimentação que a passagem do barco gera na água, contudo as formas das ondulações geradas são diferentes.

Nas duas obras também é retratada uma bandeira grande, colocada na popa do barco. Na ilustração trata-se de uma bandeira branca, sem inscrições ou símbolos - que poderia remeter a uma bandeira russa - e que não recebe muito vento. Já na pintura revela-se uma bandeira do Brasil, flamulando de maneira mais intensa. Evidentemente, devido ao momento que estava sendo retratado na cena, faria sentido representar a bandeira do Império do Brasil, que foi usada, logicamente, de dezembro de 1822 a 1889. Contudo, o brasão no interior do losango amarelo ouro não é desenhado. Além disso, a proporção deste losango, em relação ao retângulo verde, não é a mesma da bandeira Imperial. Em realidade, a quantidade de "borda" verde deixada na bandeira da pintura faz com que ela se pareça mais com a bandeira brasileira atual (contudo, sem o círculo azul). Não há como provar se isso se deu devido a uma dificuldade técnica ou a alguma mensagem de cunho político que se desejaria passar. Também não se sabe se, na realidade, as canoas de fato partiram com bandeiras brancas, de modo que o símbolo da nação brasileira teria sido incrementado na pintura do século XX, por motivos de busca de valorização nacional. Carlos Lima Junior acredita nessa possibilidade: "Essa modificação nas cores da bandeira estava certamente atrelada aos anseios de Afonso Taunay: a obra deveria representar uma monção realizada no rio Tietê e, portanto, não ficaria bem aos olhos do público, do ponto de vista didático, uma bandeira da Rússia na ponta da canoa". As bandeiras retratadas nos barcos ao fundo seguem as mesmas características do barco em primeiro plano, tanto na ilustração como na pintura.

Em dimensões semelhantes e posicionamento praticamente espelhado ao rio, é retratado o céu. Na ilustração não há presença de nuvens ou evidências sobre qual horário do dia se travava a cena. Já na pintura, o céu é azul claro, mas conta com uma presença marcante de nuvens, que trazem tons de roxo e dramaticidade à cena. Pelo formato das nuvens, pode-se cogitar que se trataria de cumulus e stratus.