Intercâmbio eletrônico de dados — em inglês, electronic data interchange (EDI) — é a troca automatizada de documentos comerciais estruturados entre sistemas computacionais de organizações distintas ou entre sistemas de uma mesma organização, por meio de formatos eletrônicos padronizados. Em vez de depender de documentos em papel, fax, correio eletrônico ou redigitação manual, o EDI permite que informações como pedidos de compra, faturas, avisos de embarque, cotações e outros documentos de negócio sejam transmitidas diretamente de uma aplicação para outra.
O EDI é usado principalmente em relações empresa para empresa (B2B), nas quais parceiros comerciais precisam trocar documentos de maneira recorrente, previsível e compatível com seus sistemas de gestão. Para que a troca seja automatizada, os participantes devem concordar previamente sobre a estrutura, a sintaxe, os códigos, os identificadores e os protocolos de comunicação usados nas mensagens.
Entre os padrões associados ao EDI estão o ANSI X12, amplamente usado na América do Norte, e o UN/EDIFACT, mantido no âmbito das Nações Unidas e padronizado pela família ISO 9735. Outros padrões e perfis, como EANCOM, GS1 XML e UBL, também são usados em contextos específicos de comércio, logística, compras públicas, faturamento eletrônico e cadeias de suprimentos.
Conceito
O EDI é baseado na ideia de que documentos comerciais podem ser representados por mensagens estruturadas e processáveis por máquina. Essas mensagens usam campos, segmentos, códigos e regras de formatação definidos por um padrão comum, o que permite que sistemas de diferentes organizações interpretem os dados sem intervenção humana em cada transação.
Em uma operação típica, uma empresa gera um documento em seu sistema interno, como um sistema de planejamento de recursos empresariais (ERP). Esse documento é convertido para um formato EDI acordado entre os parceiros, transmitido por um canal de comunicação e depois interpretado pelo sistema receptor. O destinatário pode, então, processar automaticamente a informação, por exemplo registrando um pedido, emitindo uma fatura ou atualizando dados de estoque.
O EDI não designa apenas um protocolo de rede específico. O termo abrange o conjunto de práticas, padrões de mensagem, regras de sintaxe, modelos de documento e mecanismos de transporte que permitem a troca estruturada de dados comerciais. A transmissão pode ocorrer diretamente entre parceiros comerciais ou por meio de redes e prestadores de serviço especializados.
Funcionamento
Uma solução de EDI normalmente envolve três camadas principais: o documento de negócio, o padrão de mensagem e o meio de transporte. O documento de negócio corresponde ao conteúdo operacional que será trocado, como pedido de compra, fatura, aviso de remessa ou confirmação de recebimento. O padrão de mensagem define como esse conteúdo será representado. O meio de transporte define como a mensagem será enviada e recebida.
A padronização é necessária porque os sistemas internos de empresas diferentes podem usar bancos de dados, campos, nomes, códigos e formatos incompatíveis. O EDI cria uma camada comum de intercâmbio, permitindo que cada participante converta seus dados internos para uma mensagem padronizada e, depois, converta a mensagem recebida para o formato usado por seu próprio sistema.
O processo pode incluir validação da estrutura da mensagem, tradução entre formatos, autenticação dos parceiros, criptografia, confirmação de recebimento e tratamento de erros. Em alguns ambientes, as mensagens são transmitidas em lote; em outros, podem ser enviadas quase em tempo real, dependendo do protocolo e da arquitetura adotados.
Padrões
ANSI X12
O ANSI X12 é um conjunto de padrões de EDI desenvolvido e mantido pelo Accredited Standards Committee X12. O X12 define conjuntos de transações que estabelecem o conteúdo de dados trocado para finalidades comerciais específicas, como pedidos, faturas, pagamentos, logística e saúde. O padrão é particularmente difundido nos Estados Unidos e no Canadá, embora também seja usado por organizações de outros países.
Cada conjunto de transações X12 descreve a estrutura dos segmentos e elementos de dados de uma mensagem. Essa estrutura permite que parceiros comerciais estabeleçam implementações compatíveis para processos como compras, faturamento, transporte, seguros e serviços de saúde.
UN/EDIFACT
O UN/EDIFACT é um padrão internacional de EDI voltado ao intercâmbio eletrônico de dados para administração, comércio e transporte. Suas regras de sintaxe integram a família de normas ISO 9735, mantida no escopo do comitê ISO/TC 154.
O EDIFACT foi desenvolvido para facilitar a troca internacional de documentos comerciais e administrativos entre organizações, setores e países. Segundo a ISO/TC 154, o padrão tem adoção em áreas como varejo, transporte marítimo e alfândegas.
EANCOM e GS1 EDI
O EANCOM é um subconjunto do UN/EDIFACT mantido pela GS1 para aplicações comerciais e logísticas. A GS1 descreve o EANCOM como um perfil compatível com UN/EDIFACT e voltado para documentos de negócio usados em cadeias de suprimentos. Além do EANCOM, a GS1 mantém padrões EDI baseados em XML, como GS1 XML e perfis relacionados ao UN/CEFACT XML.
UBL
A Universal Business Language (UBL) é uma biblioteca aberta de documentos comerciais eletrônicos em XML, mantida pela OASIS. Ela foi concebida para apoiar processos comerciais e logísticos, como compras, pedidos, transporte, logística e gestão de cadeias de suprimentos. A versão 2.1 da UBL foi publicada como a norma ISO/IEC 19845:2015.
Embora UBL não seja idêntico aos padrões tradicionais de EDI, ele se insere no campo mais amplo da padronização de documentos eletrônicos de negócio e pode ser usado em arquiteturas de intercâmbio eletrônico de dados.
Protocolos de comunicação
As mensagens EDI podem ser transmitidas por diferentes meios, incluindo conexões diretas entre parceiros, redes de valor agregado, protocolos sobre a Internet e serviços intermediários. A escolha do protocolo depende de requisitos de segurança, confiabilidade, custo, legado tecnológico e acordos entre os participantes.
Um protocolo amplamente usado em integrações EDI pela Internet é o AS2 (Applicability Statement 2), definido na RFC 4130. O AS2 descreve como trocar dados de negócio estruturados de forma segura usando HTTP, com suporte a formatos como ANSI X12, UN/EDIFACT, XML e outros dados estruturados. O documento prevê recursos como assinatura digital, criptografia e recibos autenticados de recebimento.
O grupo EDIINT da IETF desenvolveu especificações para intercâmbio seguro e confiável de dados de negócio pela Internet, incluindo AS1, AS2 e AS3.
Aplicações
O EDI é usado em setores que dependem de troca frequente de documentos padronizados entre organizações. Entre suas aplicações comuns estão:
envio e recebimento de pedidos de compra; emissão e processamento de faturas; avisos de embarque e documentos de transporte; confirmações de pedido; troca de dados logísticos e de estoque; mensagens associadas a pagamentos, seguros e saúde.
Na cadeia de suprimentos, o EDI pode integrar fornecedores, distribuidores, varejistas, operadores logísticos, transportadoras e clientes corporativos. O objetivo é reduzir atrasos e inconsistências decorrentes de processos manuais, aumentando a previsibilidade da comunicação entre os participantes.
Benefícios e limitações
Entre os benefícios normalmente associados ao EDI estão a redução de digitação manual, diminuição de erros de transcrição, maior velocidade no processamento de documentos e melhor integração entre parceiros comerciais. A GS1 Canada também aponta benefícios como melhoria da precisão dos dados, redução de custos de impressão e postagem, diminuição do ciclo de pedidos e redução de custos de processamento manual.
Esses benefícios, porém, dependem da qualidade da implementação e da coordenação entre parceiros. A adoção de EDI pode exigir acordos técnicos, mapeamento de dados, integração com sistemas internos, manutenção de padrões, testes de conformidade e governança sobre alterações nos documentos trocados. Em ambientes com muitos parceiros comerciais, a diversidade de versões, perfis e exigências específicas pode aumentar a complexidade da manutenção.
Outra limitação é que o uso de padrões antigos ou muito customizados pode dificultar a interoperabilidade. Por isso, implementações de EDI frequentemente combinam padrões consolidados, como X12 ou EDIFACT, com perfis setoriais, guias de implementação e regras específicas entre parceiros.
Ver também
ANSI X12 EDIFACT XML Empresa para empresa Comércio eletrônico Cadeia de suprimentos Sistema de planejamento de recursos empresariais
Bibliografia
Categoria:Engenharia de software Categoria:Redes de computadores Categoria:Comércio eletrónico Categoria:Cadeia de suprimentos