Segundo a historiografia húngara, a história da Hungria estende-se desde a travessia dos Cárpatos pelas tribos magiares até o tempo presente, com um capítulo prévio que procura explicar as origens tribais nas planícies da Eurásia.

Origens do Estado húngaro

Conforme o ponto de vista mais consensual, no século IX os magiares (conhecidos como húngaros na maioria das línguas ocidentais) eram um povo nômade com origem nas planícies euro-asiáticas, em local difícil de precisar. Formavam uma confederação de sete tribos magiares e três tribos cabares aliadas; o nome "Hungria"/"húngaros" provavelmente procede do termo turco onogur, que significa "dez flechas", indicando força militar unificada no simbolismo nômade. Em 896, fixaram-se temporariamente na bacia do alto rio Tisza e, por volta de 911, em torno do lago Balaton. Mais tarde, viriam a ocupar parcialmente o que é hoje o leste da Áustria e o sul da Eslováquia. Após sua derrota na batalha de Lechfeld em 955, fixaram-se definitivamente na bacia dos Cárpatos.

Segundo relatos posteriores redigidos por ordem dos Árpáds, foi o chefe tribal magiar de nome Árpád quem liderava as tribos húngaras na conquista da bacia dos Cárpatos, no século IX. Governante tribal do que é hoje o oeste da Hungria, mas também o suserano nominal das sete tribos magiares, o príncipe Géza, da casa de Árpád, empreendeu um plano de integração da Hungria à Europa cristã (ocidental), adotando um modelo ocidental de Estado. Indicou como seu sucessor o seu filho Vajk (mais tarde conhecido como Estêvão).

Reino da Hungria

Idade Média (1000-1526)

A Hungria foi estabelecida como um reino cristão sob o reinado de Estêvão I, coroado rei em dezembro de 1000 d.C. (ou janeiro de 1001). Estevão era o filho do príncipe Géza e descendia, portanto, de Árpád. Em 1006, Estevão já havia firmado o seu controle do reino, eliminando os rivais que haviam tentado apoiar as tradições pagãs ou buscar uma aliança com o Império Bizantino. Deu início, então, a extensas reformas para converter a Hungria num estado feudal europeu, inclusive com conversões forçadas ao Cristianismo.

O resultado foi um reino forte que suportou os ataques de reis e imperadores germânicos, a passagem de exércitos cruzados e tentativas de invasão por tribos nômades. Estevão submeteu Estados eslavos menores, ao sul, inclusive a recém-formada Croácia e outros territórios no que é hoje o centro e o leste da Eslováquia. Alguns nômades foram assimilados à população húngara, bem como colonos alemães, convidados a instalar-se na Transilvânia e no norte do reino, especialmente após 1242.

A invasão mongol de 1241 e 1242 foi um golpe severo para a Hungria. Os mongóis invadiram o país em dois grupos: O exército principal, liderado por Batu Cã, atacou o país pelo norte, devastando cidades como Miskolc, enquanto que uma outra divisão do exército atacou a Transilvânia, liderada por Subotai e Guiuque. Os dois exércitos se encontraram em Muhi, infligindo uma severa derrota aos húngaros. Em seguida à destruição do exército húngaro na batalha de Muhi e a fuga do Rei Bela IV, o país foi devastado e um terço da população pereceu. Somente cidades e mosteiros fortificados lograram repelir o assalto. Após o refluxo dos mongóis, o rei Bela ordenou a construção de castelos de fronteira (végvár), os quais se revelaram particularmente importantes durante o avanço do Império Otomano, do em diante. O custo de erigir aquela linha de defesa terminou por fortalecer os senhores feudais em detrimento do governo central, este já enfraquecido pela promulgação da Aranybulla ("bula de ouro", versão local da Magna Carta, 1222). Colonos estrangeiros foram convidados a repovoar as áreas do reino atingidas pela invasão mongol.

Uma segunda investida mongol ocorreria em 1285, liderada por Nogai Cã e Tula Buga. Após atacarem a Transilvânia com sucesso, os invasores foram detidos próximos à Peste.

miniaturadaimagem|Luís I da Hungria, Crônica Iluminada, Século XIV Os descendentes de Árpád governaram o país até 1301. Os reis posteriores foram, em sua grande maioria, estrangeiros. Sob alguns destes, o Reino da Hungria alcançou a sua maior extensão territorial, embora a influência dos grandes senhores feudais fosse, no máximo, controlada, mas não suprimida. Tornaram-se mais freqüentes os confrontos com os turcos otomanos, que cresciam em poder militar.

O segundo rei húngaro da linhagem angevina (originalmente francesa), Luís I o Grande (Nagy Lajos em húngaro, reg. 1342-1382), incluiu no seu reino territórios do mar Negro ao mar Adriático e ocupou temporariamente as Duas Sicílias. Com a morte de Casimiro III o Grande, em 1370, tornou-se também rei da Polônia, devido à aliança entre este e o rei Carlos I da Hungria, pai de Luís.

Subiu ao trono em seguida Sigismundo, da casa de Luxemburgo, que se tornou Sacro Imperador em 1433. Seu reinado foi marcado por perdas territoriais no sul (para a Sérvia, por exemplo); pela derrota de 1396 em Nicópolis na cruzada contra os otomanos; as disputas com senhores feudais, a rebelião hussita na Boêmia (que também estava sob seu governo) e uma grande rebelião camponesa na Transilvânia.

O último rei forte foi Matias Corvino. Filho do senhor feudal João Hunyadi, que chefiou as tropas húngaras no cerco de Nándorfehérvár (Belgrado), Matias herdou a visão de seu pai no sentido de constituir um império suficientemente poderoso na Europa Central de maneira a fazer frente aos otomanos. Com isso, expandiu as fronteiras da Hungria para o sul e o noroeste e promoveu importantes reformas internas.

Após a morte de Matias, porém, o fraco rei Vladislau II da linhagem polaco-lituana dos Jagelões não conseguiu evitar que o poder efetivo passasse às mãos da nobreza, apesar de governar, em tese, todas as áreas conquistadas por Matias, com exceção da Áustria. Em 1514, teve início a rebelião camponesa de György Dózsa, na Grande Planície (Alföld) e na Transilvânia, esmagada impiedosamente pela nobreza. Com o progressivo enfraquecimento do poder central, a Hungria viu-se incapaz de resistir às investidas do Império Otomano – em 1521, Nándorfehérvár caiu e, em 1526, o exército húngaro foi aniquilado na batalha de Mohács.

Início dos tempos modernos (1526-1728) Com base em acordos preexistentes, a Casa de Habsburgo recebeu em 1526 a coroa da Hungria, que manteria até o término da Primeira Guerra Mundial, em 1918.

Em 1526, após 150 anos de conflito no sul, os turcos finalmente lograram conquistar a Hungria, com exceção do norte e da Transilvânia, transformada porém em satélite do Império Otomano. A expansão turca para o norte continuou até 1556. Com a queda de Buda para os otomanos, a Hungria viu-se dividida em três partes. As atuais Eslováquia, Transdanúbia ocidental, Burgenland, Croácia ocidental e parte do nordeste húngaro tornaram-se parte do Império Habsburgo com o nome de Reino da Hungria. A Transilvânia, por sua vez, passou a ser um Estado independente, mas vassalo dos turcos. A parte central da Hungria (o que é hoje a República da Hungria), inclusive a capital, Buda, foi transformada numa província do Império Otomano. Devido ao constante estado de guerra, uma área considerável da Hungria otomana foi devastada e despovoada. Como a Contra-Reforma dos Habsburgos não podia atingir as partes otomana e transilvana da Hungria, grande parte da população destas tornou-se calvinista. Em 1686, as forças cristãs, chefiadas pela Áustria, retomaram Buda e, nos anos seguintes, o resto da Hungria, exceto a região em torno de Temesvár (Timişoara em romeno). O tratado de Karlowitz oficializou em 1699 a reconquista austríaca. Em 1718, não restavam mais tropas otomanas no Reino da Hungria.

Pressburg (Pozsony em húngaro; hoje Bratislava, na Eslováquia) tornou-se a capital do que restou do Reino da Hungria durante a ocupação otomana e também nos anos seguintes à reconquista (1536-1784); foi também o local da coroação dos reis húngaros (1563-1830) e a sede da Dieta da Hungria (1536-1848). Nagyszombat (Trnava em eslovaco) passou a ser o centro religioso em 1541.

No período de 1604 e 1711, ocorreu uma série de rebeliões contra os Habsburgos (i.e., antiaustríacas) e anticatólicas (exigindo direitos iguais para todas as denominações cristãs) no território do Reino da Hungria (mais precisamente, no que viria a ser a Eslováquia), organizadas a partir da Transilvânia. A última delas foi chefiada por Francisco II Rákóczi (II. Ferenc Rákóczi em húngaro), quem o povo escolheu como o futuro rei da Hungria. Quando a revolta foi esmagada pelos austríacos em 1711, Rákóczi estava na Polônia. Refugiou-se na França e na Turquia, vindo a falecer em 1735, em Rodosto (hoje Tekirdağ). Com o objetivo de tornar impossível a continuação da resistência armada, os austríacos demoliram alguns castelos, inclusive os végvár.

Século XVIII (1718-1780) O período foi caracterizado pela reconstrução da Hungria. Os Habsburgos providenciaram a recolonização das áreas devastadas com imigrantes das atuais Áustria e Alemanha, das regiões norte e leste do país (atuais Eslováquia e Romênia) e da Sérvia.

Iluminismo (1780-1848) Sob a influência das ideias da Revolução Francesa e em reação às tentativas de germanização de José II (reg. 1780-1790), um movimento nacionalista surgiu entre os magiares e, também, entre as outras nacionalidades não magiares do Reino da Hungria.

O imperador viu-se forçado a convocar a Dieta nos anos 1820, após um longo período em que esta não se reuniu (especialmente durante as guerras napoleônicas), o que levou a uma fase de reformas. O progresso foi lento, porém, pois a nobreza insistia em manter seus privilégios, como a imunidade fiscal, prerrogativas eleitorais exclusivas etc. Assim sendo, os resultados da reforma foram, em sua maioria, de caráter nacional, como a adoção do húngaro como língua oficial do país, em lugar do latim. As outras nacionalidades do reino protestaram contra estas medidas.

As primeiras contagens populacionais no Reino da Hungria (inclusive a Croácia e a Transilvânia) realizaram-se no final do século XVIII. Segundo estimativas, uma parcela entre 29% e 42% da população constituía-se de magiares. A primeira pesquisa detalhada em 1836-40 registrou uma proporção de 36-37% de magiares (ou 48% excluindo-se a Croácia). O censo de 1850-51 registrou uma proporção de 45,5% no território do Reino da Hungria e as seguintes percentagens para as demais nacionalidades (este resultado foi criticado como tendencioso em favor das nacionalidades magiar e alemã):

eslovacos, 18,6% alemães, 11,8% romenos, 10,1% sérvios e croatas, 5,6% ucranianos e rutenos, 4,8% outros, 3,7%

A recusa dos imperadores Habsburgos e do chanceler Metternich em implementar as reformas pedidas pelos magiares causou uma revolução nacional.

Revolução de 1848 (1848-1849)

miniaturadaimagem|Primeiro governo húngaro - governo de Lajos Kossuth e tendo como primeiro-ministro Lajos Batthyány. A revolução teve início em 15 de março de 1848, com manifestações em massa contra o governador imperial nas cidades de Peste e Buda, seguidas de revoltas por todo o reino que permitiram aos chefes húngaros do movimento declarar a autonomia da Hungria dentro do Império Habsburgo, sob o comando do governador Lajos Kossuth e do primeiro-ministro Lajos Batthyány. Seguiu-se uma guerra civil na qual os magiares viram-se forçados a combater o exército austríaco e também as outras nacionalidades, sérvios, croatas, eslovacos, romenos e alemães da Transilvânia, que não estavam dispostas a aceitar a ascendência magiar.