A revisão histórica da Inquisição é um processo historiográfico que começou a surgir na década de 1970, com a abertura de arquivos anteriormente fechados, o desenvolvimento de novas metodologias históricas e, na Espanha, a morte do ditador Francisco Franco em 1975. Novas obras do revisionismo histórico pretendem mudar o conhecimento corrente da história das Inquisições romana e espanhola, entre outras.

Os escritores associados a esse projeto compartilham a visão de Edward Peters, um historiador de destaque no campo, que afirma: "A Inquisição foi uma imagem montada a partir de um corpo de lendas e mitos que, entre os séculos XVI e XX, estabeleceram a percepção do caráter dos tribunais inquisitoriais e influenciaram todos os esforços subsequentes para recuperar sua realidade histórica". Peters anota que todos os estados europeus baseavam a sua legitimidade em motivos religiosos, e praticamente todos os estados europeus perseguiram minorias religiosas.

Resumo Inquisições eram investigações eclesiásticas conduzidas diretamente pela Igreja Católica ou por autoridades seculares com o apoio da Igreja. Essas investigações foram realizadas em momentos variados em diferentes regiões, sob a autoridade do bispo local e seus designados ou sob o patrocínio de legados designados pelo papa. O objetivo de cada inquisição era específico às circunstâncias excepcionais da região em que era realizada. As investigações geralmente envolviam um processo legal, cujo objetivo era obter uma confissão e punição ou reconciliação com a Igreja daqueles acusados de heresia, apostasia ou feitiçaria ou de participar de atividades contrárias à lei canônica da Igreja. Os objetivos das inquisições eram garantir o arrependimento e castigo dos acusados e manter a autoridade da Igreja. Inquisições foram conduzidas com a colaboração de autoridades seculares. Se uma investigação resultasse em uma pessoa condenada por heresia e a falta de vontade de se arrepender, a punição era administrada pelas autoridades seculares.

"Até recentemente, a literatura inspirada pelos protestantes sobre a Inquisição tendia a ser hostil à Igreja Católica em si, enquanto a literatura católica tendia a ser estritamente apologética e justificativa"- diz o Reverendo Brian Van Hove. Para os estudiosos protestantes do século XIX, como William H. Prescott e John Lothrop Motley, a Inquisição Espanhola representou "o símbolo da intolerância religiosa e do poder eclesiástico". Prescott comparou-a a "um olho que nunca dormia" à procura de desvios.Kagan, Richard L., "A Kinder, Gentler Inquisition", The New York Times (book review), 19 April 1998

Henry Charles Lea escreveu A História da Inquisição da Idade Média (1888) e A História da Inquisição da Espanha (1906). Uma história da Inquisição da Espanha foi considerada ao mesmo tempo inovadora e polêmica. Seus estudos foram criticados por alegado viés anticatólicoDewey, R. S. "The Last Historian of the Inquisition," The American Catholic Quarterly Review, Vol. XIII, N°. 51, July 1888. e antiespanhol. Lea descreveu a Inquisição como "um mecanismo de imenso poder, constantemente aplicado para a promoção do obscurantismo, a repressão do pensamento, a exclusão de ideias estrangeiras e a obstrução do progresso", um absolutismo teocrático no seu pior, que enfraqueceu a Espanha a ponto de minar seu império no exterior e, finalmente, contribuir para sua derrota durante a Guerra Hispano-Americana de 1898. Tanto Juan Antonio Llorente, em sua História Crítica da Inquisição Espanhola (1817), como Lea, tiveram acesso a documentos originais; Llorente porque fez parte da própria Inquisição, de que disse conhecer a sua criação o suficiente para a considerar "viciosa na sua origem, constituição, e leis apesar dos escritos apologéticos em seu favor" .

Embora a Inquisição Espanhola tenha sido criada essencialmente com o objectivo de lidar com o alegado problema da judaização entre a grande população espanhola de conversos (judeus convertidos ao cristianismo),durante muito tempo esteve associada principalmente à perseguição de protestantes, que só aconteceu porém a partir de fins do século XVI. Historiadores do século XIX,como José Amador de los Ríos, contribuíram para mudar esta percepção.

Estudos mais recentes As duas fontes mais significativas e amplamente citadas dessa análise revisada da historiografia dos procedimentos inquisitoriais são Inquisition (1988), de Edward Peters, e The Spanish Inquisition: An Historical Revision (1997), de Henry Kamen. Esses trabalhos se concentram na identificação e correção do que eles argumentam serem conceitos errôneos populares modernos sobre as inquisições e interpretações históricas erradas das suas atividades. O livro de Kamen de 1997 é atualizado e revisado a partir de uma edição publicada pela primeira vez em 1965. Kamen considera que a Inquisição na Espanha foi motivada mais por considerações políticas do que religiosas, que os monarcas rotineiramente protegiam aqueles próximos à coroa e que em Aragão grandes áreas desafiavam ou dificultavam as suas operações. Eric Rust, da Baylor University, descreve o trabalho de Kamen como "uma revisão histórica no seu melhor".

Helen Rawlings credita a Kamen o lançamento de um movimento para revisitar o registro histórico. Rawlings identifica quatro fases distintas, pois com o tempo a Inquisição na Espanha se adaptou às novas condições. De 1480 a 1525, houve uma intensa perseguição de conversos suspeitos de continuar praticando o judaísmo, punidos com grande rigor. De 1525 a 1630, houve uma crescente preocupação com a possível influência protestante (de impacto negligenciável na Espanha) sobre os "cristãos-velhos". Um período menos ativo, de 1630 a 1725, olhou periodicamente para os "cristãos-novos" portugueses que operavam nos setores comerciais espanhóis; e de 1725 a 1824, tradicionalistas e liberais discutiram o futuro da instituição.Helen Rawlings. "New Perspectives on the History of the Spanish Inquisition." Historically Speaking 7.1 (2005): 35-37. The Johns Hopkins University Press.10.1353/hsp.2005.0092 As Inquisições na França

O "Grande Programa" Durante o século XI, uma nova onda de religiosidade varreu a Europa, alegando que a perspectiva de salvação no mundo aumentaria muito se o mundo fosse reformado. Além disso, o próprio papado passou por reformas no final do século XI e, de acordo com Peters, a Igreja começou a conceber seu "grande programa de santificação do mundo". Esse "grande programa" era uma combinação do desejo da Igreja de reformar sua vida institucional, libertar-se do controle secular e construir uma sociedade cristã. Havia também uma opinião crescente de que aqueles que se rebelavam contra as crenças da igreja (hereges) ou aqueles que se comportavam de uma maneira "não-cristã" não eram simplesmente almas desencaminhadas num "mundo cheio de tentações, mas subversores do novo curso do mundo".

Até o final do século XII, a investigação da heresia era considerada de responsabilidade das igrejas locais e esperava-se que as autoridades seculares locais processasem os hereges. No entanto, em 1179, o "grande programa de santificação do mundo" da Igreja assistiu à criação do III Concílio de Latrão, que incluía vários cânones condenando hereges. Em 1184, o papa Lúcio III emitiu a bula Ad abolendam, que tem sido considerado como "a carta fundadora da inquisição", que determinava que os detentores de cargos públicos, condes, barões, reitores, nas cidades e outros lugares, deveriam assumir a responsabilidade de punir os hereges que lhe fossem entregues pela Igreja; e qualquer autoridade que falhasse nesse dever seria excomungado, afastado do cargo e despojado de todos os direitos legais. As cidades que abrigassem hereges sofreriam boicotes comerciais, e as terras dos hereges conhecidos declaradas perdidas.

Finalmente, em 1199, o papa Inocêncio III na bula Vergentis in Senium equiparou heresia a traição e, em 1208, apelou a uma "cruzada" contra os albigenses, convocando um exército para reduzir pela força o Catarismo.

A Cruzada Albigense Segundo Peters, a violência da "Cruzada Albigense" a seguir não estava alinhada com as reformas e os planos de Inocêncio, que enfatizavam a confissão, a reforma do clero e dos leigos e os ensinamentos pastorais para se opor à heresia. Peters afirma que a violência ocorreu devido à "cruzada" estar sob o controle de multidões, pequenos governantes e bispos locais que não apoiavam as ideias de Inocêncio. Exércitos do norte da França varreram o sul e essencialmente erradicaram os albigenses. A paixão incontrolável e prejudicial das multidões locais e caçadores de heresia, a violência dos tribunais seculares e o derramamento de sangue da cruzada albigense provocaram um desejo dentro do papado de implementar maior controle sobre a acusação de heresia. Esse desejo levou ao desenvolvimento de procedimentos legais organizados para lidar com hereges.

Os reformadores protestantes do século XVI frequentemente apontavam os movimentos cátaros e valdenses como parte de uma igreja reformada clandestina que havia sido vítima de perseguição por séculos, embora os cátaros tivessem uma percepção dualista de Deus inquestionavelmente não reformada.

Códigos e tortura esquerda|miniaturadaimagem|Na tortura do strappado, as mãos da vítima são atadas atrás das costas e o corpo é suspenso pelos pulsos, resultando em ombros deslocados. Pesos podem ser adicionados nos pés.|alt=Geralmente, os tribunais inquisitoriais funcionavam como os tribunais seculares da época, embora suas sentenças e penitências, segundo Edward Peters, fossem menos cruéis. Vários procedimentos e proteções restringiram a tortura do acusado, embora muita tortura pudesse ser infligida, e a pena capital era executada pelas autoridades seculares devido à proibição clerical de derramar sangue. Tortura era usada para extrair confissões, e não como uma forma de punição usada pelos tribunais seculares. Qualquer confissão feita após ou durante a tortura tinha que ser repetida livremente no dia seguinte sem tortura ou era considerada inválida. Ainda segundo Peters: "Tecnicamente, portanto, a tortura era estritamente um meio de obter a única prova completa disponível (e absolutamente necessária num crime capital) quando uma grande quantidade de provas parciais existiam e nenhuma outra forma de prova completa estava disponível. ... [As tarefas dos inquisidores] não eram apenas - ou mesmo primariamente - condenar o herege obstinado, mas ... preservar a unidade da Igreja. (...) os inquisidores eram simultaneamente juristas e pastores."

A bula Ad extirpanda foi promulgada pelo papa Inocencio IV a 15 de Maio de 1252. No documento, dado que desde os tempos de Inocencio III a heresia era considerada um crime de lesa majestad, autorizava-se a Inquisição a usar a tortura como meio de confissão.https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/j.0028-4289.2006.00142.x

Após a supressão da heresia albigense no sul da França, no século XIII, os julgamentos inquisitoriais diminuíram diante das necessidades locais mais prementes, e os julgamentos remanescentes foram deixados para as autoridades seculares. Os tribunais inquisitórios conduzidos sob episcopacias locais trabalharam em estreita colaboração com as autoridades seculares locais e lidaram com as circunstâncias locais. O controle regional do processo inquisitorial e as preocupações regionais tornaram-se dominantes. De meados ao final do século XIV, as inquisições encomendadas pelos papas haviam sido dissolvidas em muitas partes da Europa.

As Inquisições na Espanha

O anti-semitismo e os "conversos"