thumb|direita|Moisés e a sarça ardente.1613-4. Por Domenico Fetti, atualmente no Museu de História da Arte em Viena, Áustria. O Livro do Êxodo (do , éxodos, "saída" ou "partida"; , Shəmōṯ, "nomes", a segunda palavra do começo do texto: "Ora estes são os nomes dos filhos de Israel, que entraram no Egito") é um dos livros do Tanakh e do Antigo Testamento, que integra a seção da Torá e do PentateucoDozeman, p. 1.. Narra a libertação do povo hebreu da escravidão no Egito por meio de Moisés e o recebimento das instruções iniciais de Deus no monte Sinai.

Tradicionalmente atribuído ao próprio Moisés, os estudiosos modernos entendem que o livro foi, inicialmente, produzido no cativeiro da Babilônia (século VI a.C.) tendo como base tradições escritas e orais mais antigas com revisões finais no período pós-exílio (século V a.C.).Johnstone, p. 72.Finkelstein, I., Silberman, NA., The Bible Unearthed: Archaeology's New Vision of Ancient Israel and the Origin of Its Sacred Texts, p.68 Alguns estudiosos defendem que este é o mais importante livro do Antigo Testamento, pois ele define as principais características da identidade de Israel: a memória de um passado marcado por dificuldades e pela fuga, uma aliança com Deus, que escolheu Israel, e o estabelecimento de uma vida comunitária e as leis necessárias para mantê-la.Meyers, p. xv.

Estrutura Não há consenso unânime entre os estudiosos sobre a estrutura do Êxodo. Uma forte possibilidade é que a obra seja um díptico (ou seja, uma obra em duas partes), com a divisão entre as partes 1 e 2 na travessia do Mar Vermelho ou no começo da teofania ("aparição de Deus") no capítulo 19.Meyers, p. 17. Segundo esta tese, a primeira parte conta como Javé resgatou seu povo do Egito e o levou pelo deserto até o monte Sinai (capítulos 1 a 19) e a segunda, a aliança entre Javé e o povo (capítulos 20–40).Stuart, p. 19.

Sumário thumb|direita|Descoberta de Moisés.1904. Por Lawrence Alma-Tadema, em coleção particular. Os filhos de Jacó e suas famílias se juntam ao irmão deles, José, no Egito. Uma vez lá, os israelitas começam a se multiplicar. Muitas gerações depois, o faraó, temendo uma traição por parte dos israelitas, ordena que todos os recém-nascidos fossem atirados no Nilo. Uma levita (identificada em outra parte como sendo Joquebede) salva seu bebê lançando-o num cesto de vime pelo Nilo. A filha do faraó (chamada Bitias em ) encontra a criança, a chama de Moisés e a cria como se fosse dela. Mas Moisés sabe de sua origem e, um dia, já adulto, assassina um capataz egípcio que está surrando um escravo hebreu e foge para Midiã. Lá ele se casa com Zípora, a filha do sacerdote midianita Jetro, e se encontra com Deus numa sarça ardente. Moisés pergunta o nome de Deus, que responde: "Eu Sou o Que Sou". Deus pede a Moisés que retorne ao Egito e leve os hebreus até Canaã, a terra prometida a Abraão.

Moisés retorna ao Egito e não consegue convencer o faraó a libertar os israelitas. Deus então inflige aos egípcios dez terríveis pragas (as "Pragas do Egito"), incluindo um rio de sangue, uma infestação de rãs e a morte dos primogênitos. Moisés lidera os israelitas depois de uma perseguição do faraó, que renega seu consentimento obtido à força, através do Mar Vermelho. O deserto se mostra difícil e os israelitas reclamam, lembrando da vida no Egito, mas Deus lhes fornece, milagrosamente, água e o maná. Os israelitas chegam então na montanha de Deus, onde Moisés recebe a visita de Jetro, seu sogro, por sugestão do qual ele nomeia juízes para governar Israel. Deus então pergunta se os israelitas concordam em ser seu povo e, depois de aceitar, o povo se reúne no sopé da montanha. Com trovoadas e relâmpagos, fogo e nuvens de fumaça, ao som de trombetas e rugidos na montanha, Deus aparece no pico e o povo ouve a "voz de Deus", que ordena que Moisés suba ao topo. Deus então lhe dita os Dez Mandamentos com todo o povo ouvindo. Moisés escala a montanha e aparece diante de Deus, que lhe dita o "Código da Aliança" (um detalhado código de direito civil e ritual) e lhe promete Canaã se ele for obedecido. Moisés desce a montanha e escreve as palavras de Deus e o povo concorda em obedecê-las. Deus chama Moisés de volta para a montanha e ele lá permanece por 40 dias e 40 noites. No final deste período, Moisés desce com as "Tábuas da Lei", o decálogo gravado em dois tabletes de pedra escrito pelo "dedo de Deus" (; ).

Deus deu instruções a Moisés sobre como deveria ser construído o "tabernáculo", uma tenda na qual Deus habitaria permanentemente entre seu povo escolhido, além de instruções sobre as vestes sacerdotais, o altar e os vasos sagrados, o procedimento para a ordenação dos sacerdotes e os sacrifícios diários que deveriam ser oferecidos. Aarão é nomeado sumo-sacerdote hereditário.

Enquanto Moisés está com Deus, Aarão fabrica um bezerro de ouro, que o povo passa a venerar. Deus informa Moisés da apostasia do povo e ameaça matá-los todos, mas cede aos apelos de misericórdia de Moisés, que desce a montanha, despedaça os tabletes e ordena que os levitas massacrem os infiéis. Deus ordena que Moisés suba a montanha novamente e refaça dois novos tabletes. Em seguida ele desce, desta vez com a face "transformada", o que o obriga a cobrir o rosto com véu daí em diante. Ele reúne o povo e repete os mandamentos recebidos de Deus, incluindo a guarda do sabá e a construção do tabernáculo. A partir daí, Deus passa a habitar entre o povo no tabernáculo e viaja o tempo inteiro com eles.

Seções segundo as porções semanais da Torá no judaísmo

As subdivisões são as seguintes: Shemot, sobre Êxodo 1–5: aflição no Egito, Moisés é encontrado, o faraó; Va'eira, sobre Êxodo 6–9: pragas 1 a 7; Bo, sobre Êxodo 10–13: últimas pragas, primeira Páscoa; Beshalach, sobre Êxodo 13–17: travessia do mar Vermelho, água, maná, Amaleque; Yitro, sobre Êxodo 18–20: conselho de Jetro, os Dez Mandamentos; Mishpatim, sobre Êxodo 21–24: o Código da Aliança; Terumah, sobre Êxodo 25–27: instruções de Deus sobre o Tabernáculo e sua decoração; Tetsavé, sobre Êxodo 27–30: instruções de Deus sobre os primeiros sacerdotes; Ki Tissa, sobre Êxodo 30–34: censo, óleo de unção, bezerro de ouro, tabletes de pedra, Moisés radiante; Vayakhel, sobre Êxodo 35–38: israelitas recebem presentes, constroem e decoram o Tabernáculo; Pekudei, sobre Êxodo 38–40: o Tabernáculo está pronto e recebe Deus. thumb|centro|upright=2|Travessia do mar VermelhoAfresco na Catedral de Toulouse, França.

Composição thumb|direita|P.Oxy 1075 (séc. III-IV), com Êxodo 40.

Autoria A tradição judaica e cristã defende Moisés como autor do Êxodo (e de todo o Pentateuco), mas, já no final do século XIX, a crescente percepção acadêmica de discrepâncias, inconsistências, repetições e outras características do Pentauco levou os estudiosos a abandonarem essa ideia.Meyers, p. 16. Em datas aproximadas, o processo que resultou no Êxodo e no Pentateuco provavelmente começou por volta de 600 a.C., quando tradições escritas e orais mais antigas foram colecionadas em livros similares aos conhecidos atualmente e a forma final foi estabelecida por volta de 400 a.C. É claro que a estrutura principal da narrativa já era conhecida muito antes do século VII, nas alusões ao Êxodo e à viagem pelo deserto contida nas profecias de Amós e Oseias um século antes .

Gênero e fontes A história do Êxodo é o mito fundador de Israel, recontando como os israelitas foram libertados da escravidão por Yah e entraram numa aliança com Ele através da aliança de Moisés. O livro não deve ser tratado como uma narrativa histórica no sentido moderno,Fretheim, p. 7. pois isto exigiria uma avaliação crítica das fontes e não aceitaria que Deus fosse a causa dos eventos;Dozeman, p. 9. no Êxodo, tudo é obra de Deus, que frequentemente aparece pessoalmente, e o cenário histórico é vagamente mencionado.Houston, p. 68. O objetivo do livro não é o relato do que realmente aconteceu e sim o reflexo da experiência histórica da comunidade exilada na Babilônia e, depois, em Jerusalém, que enfrentava o cativeiro no estrangeiro e precisava chegar a um bom termo em sua compreensão de Deus.Fretheim, p. 8.

Embora os elementos míticos não sejam tão proeminentes no Êxodo como são no Gênesis, lendas antigas influenciaram o conteúdo do livro. Como exemplo, a história da salvação do bebê Moisés no Nilo é baseada numa lenda mais antiga sobre Sargão da Acádia. A história da travessia do mar Vermelho é reminiscente do mito fundador mesopotâmico. De forma similar, o Código da Aliança (o código legal em até ) tem similaridades, tanto no conteúdo e estrutura, com o Código de Hamurabi. Estas influências servem para reforçar a conclusão de que o Livro do Êxodo se originou na comunidade judaica babilônica no século VI a.C., mas nem todas as fontes são mesopotâmicas: a história da fuga de Moisés para Midiã depois do assassinato do capataz pode ter sido baseada na "História de Sinué" egípcia.Kugler,Hartin, p. 74.

Hipótese documental A maioria dos estudiosos bíblicos modernos acredita que a Torá (os cinco primeiros livros do Antigo Testamento) chegou à sua forma presente no período pós-exílio (depois de 520 a.C.), quando tradições mais antigas, orais e escritas, "detalhes geográficos e demográficos contemporâneos, mas, ainda mais importante, as realidades políticas da época" foram levados em consideração.Finkelstein, I., Silberman, NA., The Bible Unearthed: Archaeology's New Vision of Ancient Israel and the Origin of Its Sacred Texts, p.68-69 Os cinco livros são geralmente descritos na hipótese documental como se baseando em quatro "fontes" (entendidas como escolas literárias e não indivíduos): a javista e a eloista (frequentemente entendidas como uma única fonte), a fonte sacerdotal e a deuteronomista. Ainda há discussões sobre a origem das fontes não sacerdotais, porém a tese majoritária é a de que são posteriores ao exílio; Gênesis: composto principalmente de material sacerdotal e não sacerdotal; Êxodo: uma antologia baseada em fontes de quase todos os períodos da história de Israel; Levítico: inteiramente sacerdotal e do período do exílio ou posterior;* Números: uma edição sacerdotal de um original não sacerdotal; Deuteronômio: originalmente um conjunto de leis religiosas. Foi ampliado no início do século VI para servir de introdução para a história deuteromística (os livros de Josué e Reis) e, posteriormente, foi separado desta história, ampliado e editado novamente e anexado à Torá.

Temas Salvação Estudiosos bíblicos descrevem a história do Êxodo como uma "história de salvação", ou seja, uma história das ações salvíficas de Deus que dão identidade a Israel — a promessa de uma linhagem e de terras aos ancestrais (Abraão), a fuga do Egito, as andanças pelo deserto, a revelação de Deus no monte Sinai e a esperança de um futuro na Terra Prometida.

Teofania Teofania é uma manifestação (aparição) de um deus. No caso da Bíblia, a aparição de Yah, o Deus de Israel, acompanhado por tempestades, tremores de terra, fumaça, trovões e relâmpagos.Dozeman, p. 4. Na narrativa do Êxodo, a teofania começa no "terceiro dia" a partir da chegada do povo ao monte Sinai, no capítulo 19.Dozeman, p. 427.

Na segunda metade do Êxodo, a teofania se torna permanente através do Tabernáculo e Deus passa a habitar entre seu povo. A importância disto é tanta que a maior parte dos capítulos do livro (25 a 31 e 35 a 40) é gasta descrevendo os planos para o Tabernáculo e revela a importância que ele teve na percepção do judaísmo do Segundo Templo: o Tabernáculo é o local onde Deus está fisicamente presente e onde, através dos sacerdotes, os israelitas podem literalmente estar junto d'Ele.Dempster, p. 107.

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