Caio Mário (; ; Arpino, – Roma, ) foi um político da gente Mária da República Romana. É conhecido como o "terceiro fundador de Roma" por suas vitórias militares (os outros dois foram o próprio Rômulo e Marco Fúrio Camilo, que expulsou os gauleses da Itália séculos antes). Caio Mário, o Jovem, cônsul em , era seu filho.

Foi eleito cônsul por sete vezes, um feito sem precedentes na história de Roma, servindo com Lúcio Cássio Longino, Caio Flávio Fímbria, Lúcio Aurélio Orestes, Quinto Lutácio Cátulo, Mânio Aquílio, Lúcio Valério Flaco e Lúcio Cornélio Cina. Destacou-se ainda por suas reformas militares, especialmente por autorizar o recrutamento de cidadãos romanos sem terras para o exército e por reorganizar a estrutura das legiões em divisões menores, chamadas coortes, dando origem às legiões que perdurariam pelo resto da história romana.

O historiador Plutarco dedicou-lhe um dos volumes em Vidas Paralelas, comparando-o a Pirro, rei do Epiro.

Primeiros anos Mário nasceu em Arpino, ao sul do Lácio, por volta de em uma família de classe média. A cidade havia sido conquistada pela República no final do e, na época, seus cidadãos receberam a cidadania romana, mas sem direito de voto. Somente em é que a cidadania plena lhes foi concedida.

Apesar de Plutarco afirmar que o pai de Mário era um trabalhador que cuidava de uma granja com suas próprias mãos, esta informação é seguramente falsa, pois era comum exagerar a pobreza dos homens novos (como eram chamados os cidadãos romanos sem ascendência nas principais famílias romanas). O fato de Mário ter ligações com a nobreza em Roma (os Cecílios Metelos) e suas relações matrimoniais com a nobreza local de Arpino são indicações de que ele deve ter pertencido a uma família de certa importância de ordem equestre. Os problemas que teve que enfrentar em sua carreira são indicativos das dificuldades que encontravam os homens novos em suas carreiras políticas na capital da República.

Existe uma lenda sobre a infância de Mário que conta que, ainda um adolescente, ele encontrou um ninho de águia com sete filhotes no interior. Como as águias eram considerados os animais sagrados de Júpiter, o deus supremo dos romanos, o fato foi analisado mais tarde como um presságio de sua eleição para o consulado por sete vezes. Assim que assumiu o consulado pela primeira vez, Mário decretou que a águia fosse o símbolo do Senado e do Povo de Roma, criando a águia romana, que manteve seu status por muitos séculos.

O início de seu serviço militar se deu na Guerras Celtiberas e provavelmente já estava lá por muitos anos quando chegou Cipião Emiliano. Adaptou-se rapidamente à disciplina estrita imposta pelo novo comandante e, novamente segundo Plutarco, causou uma boa impressão ao general, ganhando várias condecorações. Teria sido Emiliano que convenceu Mário a tentar a carreira política, mesmo sendo um homem novo. Nesta etapa, Mário apresentou sua candidatura a tribuno militar e, segundo Salústio, apesar de ser um desconhecido dos eleitores em Roma, as tribos o elegeram por conta de seus méritos militares.

A família de Mário era cliente dos Cecílios Metelos, a mais poderosa família romana na época, e o jovem contou com o apoio de Quinto Cecílio Metelo Numídico para conseguir ser eleito tribuno da plebe em . Ao ser eleito, Mário conseguiu sua admissão ao Senado romano, o que lhe abriu a possibilidade de iniciar seu cursus honorum para, em algum momento, almejar o consulado.

Durante seu mandato como tribuno, Mário começou a revelar as características contraditórias que marcariam sua carreira política. De fato, ao mesmo tempo que se indispunha com a nobreza e com seu próprio propretor por causa de uma proposta, a Lex Tabellaria, que dificultava a pressão coercitiva da oligarquia nas votações, indispunha-se também com o povo ao se opor à populista Lex Frumentaria, que ampliava a porção de trigo devida à plebe (e com esta porção, a inerente corrupção e compra de votos). Não se sabe se, nestes casos, Mário atuava pelos interesses dos equestres ou numa agenda própria.

Seja como for, sua carreira política sofreu uma paralisação transitória, pois ele se apresentou como candidato e perdeu as eleições para edil curul e edil plebeu. Estas derrotas foram, pelo menos em parte, devidas à inimizade da família Metelo. Era de se supor que a sua origem modesta não lhe daria acesso às magistraturas mais altas, mas, em , foi nomeado pretor, em circunstâncias aparentemente tão duvidosas que provocaram o estabelecimento de um julgamento de ambitu, por acusações de suborno. Mário ganhou por pouco e conseguiu o posto de pretor em Roma (como pretor urbano, pretor peregrino ou como presidente da corte).

Depois de seu mandato de um ano na capital, em Mário foi enviado para governar a Hispânia Ulterior como propretor. Ao que parece, participou de algum enfrentamento militar de pouca importância e, quando voltou, não apenas não recebeu um triunfo como também não aproveitou a oportunidade de ganhar fama ou riqueza. Como na época era habitual que o posto de governador da Hispânia fosse ocupado por mandatos de dois anos, é provável que ele tenha sido substituído em .

Em , Mário casou-se com Júlia Maior, tia de Júlio César, cuja origem patrícia e a influência de sua família favoreciam à sua aspiração ao consulado. Porém, era uma família que não detinha tanto poder até então — havia conseguido produzir um único cônsul em todo o — o que, em que pese ser um avanço, este casamento de forma alguma lhe assegurava um progresso político significativo por si só. Por outro lado, este matrimônio revela que Mário já havia adquirido uma certa influência política em Roma.

Guerra contra Jugurta

Quando parecia que a carreira política de Mário estava encerrada, seria uma nova crise militar para Roma, neste caso na Numídia, que permitiria que Mário se apresentasse novamente perante a opinião pública como um habilidoso comandante militar.

Contexto histórico thumb|esquerda|upright|Mário nas ruínas de Cartago.1791-4. Por Pierre Joseph Célestin François, nos Museus Reais de Belas-Artes da Bélgica O Reino da Numídia havia saído fortalecido da Segunda Guerra Púnica. O príncipe númida Massinissa desertou para o lado romano durante a invasão romana na África cartaginesa comandada por Cipião Africano e, como recompensa, ganhou um extenso reino que os romanos criaram para utilizar como contraponto ao poder cartaginês. A partir daí, a Numídia seria uma boa fonte de tropas e provisões para Roma, tanto na África como fora dela, como foi o caso da Guerra Numantina, quando Jugurta dirigiu um contingente de cavaleiros e elefantes númidas.

Apesar disto, as habituais lutas dinásticas internas entre os próprios númidas colocaram em confronto o próprio Jugurta (sobrinho e filho adotivo do rei Micipsa) e seus irmãos adotivos Aderbal e Hiempsal. Depois que este foi assassinado, Aderbal fugiu para Cirta, onde estavam assentados diversos comerciantes romanos e itálicos, que o ajudaram a defender a cidade. Porém, quando Jugurta conseguiu a rendição de Cirta, todos eles foram executados. Os romanos, ultrajados, ordenaram que Jugurta seguisse imediatamente até Roma, mas ele preferiu subornar senadores influentes até conseguir, inclusive, a morte de um outro parente que estava refugiado em Roma. Depois, em , o general romano na Numídia, Aulo Postúmio Albino, sofreu uma importante derrota na Batalha de Sutul (uma fortaleza númida), quando Jugurta realizou um ataque surpresa com a ajuda de vários contingentes romanos corrompidos por seus subornos.

Cecílio Metelo assume o comando Roma reagiu em enviando Quinto Cecílio Metelo para assumir o comando da guerra. Apesar de ser evidente que, depois que Mário assumiu o cargo de tribuno da plebe, ter havido um rompimento entre os dois, o relacionamento já havia melhorado nesta época, pois Metelo o levou como legado em sua campanha contra Jugurta.

Não sabemos em quais circunstâncias o clã dos Metelo se reconciliou com Mário, nem se se tratou de um perdão sincero ou uma obrigação dadas as circunstâncias; seja como for, Mário, depois de um ano como propretor na Hispânia Ulterior, foi incorporado como legado ao exército africano de Metelo em sua campanha. Com ele, Metelo buscava provavelmente a grande experiência de Mário como militar e este, por sua vez, pretendia fortalecer sua carreira política para chegar ao consulado.

Muitos dos métodos que Cipião Emiliano havia utilizado na Numância foram colocados em prática para colocar em forma as legiões da África. Foram expulsos os comerciantes e os soldados foram foram proibidos de comprarem alimentos diferentes dos fornecidos pelo exército e de manter seus próprios escravos ou animais de carga. Somente quando Metelo considerou que o exército estava pronto, Metelo avançou contra Jugurta. Ele conseguiu diversas vitórias, incluindo uma vitória depois da confusa Batalha de Mutul, perto do rio Mutul. Apesar disto, a luta foi lenta, atrapalhada pela necessidade de cercos complicados, que resultaram num aumento crescente descontentamento em Roma diante da aparente incapacidade de Metelo de vingar as derrotas passadas de forma fulminante.

Consulado thumb|upright=1.4|Mapa da campanha de Mário no norte da África contra Jugurta

Em , Mário pediu permissão a Metelo para deixar seu posto de legado para ir a Roma apresentar sua candidatura ao consulado. Metelo não permitiu e lhe ofereceu como alternativa apoiar a candidatura de seu filho que tinha apenas vinte anos, o que implicitamente supunha que tal apoio só viria vinte anos depois. A partir de então, Mário começou sua campanha para obter o consulado de qualquer forma. Salústio afirma que esta decisão foi apressada, em parte, por uma adivinha que lhe disse que havia previsto coisas grandes e maravilhosas e que, por isso, ele poderia perseguir qualquer desejo que tivesse, confiando aos deuses o êxito, e que poderia provar a sorte quantas vezes quisesse, posto que todas as suas campanhas prosperariam. Diante da situação (Mário precisava da permissão de Metelo para deixar o posto), Mário passou o verão congraçando-se com as tropas, o que aumentou imensamente sua popularidade, comendo junto com eles e demonstrando que não tinha medo de compartilhar com eles as agruras da vida militar.Plutarco, Vida de Mario, 7 Buscou ainda a aprovação dos comerciantes itálicos, sugerindo que, se estivesse no comando, conseguiria uma vitória rápida e fácil na Numídia contra Jugurta. Os dois grupos escreveram para seus aliados em Roma, falando muito bem de Mário e criticando as táticas de Metelo, que baseava sua estratégia num lento desgaste das forças de Jugurta. Depois disto, Metelo decidiu ceder e deixou Mário partir, pois mantê-lo como subordinado em nada o ajudava.

Mário voltou a Roma e se apresentou como candidato ao consulado no que se mostrou ser uma campanha rápida e muito exitosa, que acabou com sua eleição em . Não é de se estranhar sua eleição tendo em vista que, na época, os romanos haviam presenciado vários desastres militares provocados pela incompetência de certos membros da aristocracia, assim como várias acusações de corrupção subsequentes. Mário se mostrava uma alternativa diferente: um virtuoso homem novo que, com muito trabalho, havia chegado aonde estava.

O senado, por sua vez, decidiu que entre as várias províncias consulares a serem divididas entre os cônsules daquele ano não estaria a Numídia, onde se travava a guerra contra Jugurta, e prorrogou Metelo no comando como procônsul. Mário se defendeu utilizando uma tecnicalidade para levar a decisão para a Assembleia dos Cidadãos, onde contava com muito mais apoio. Uma movimentação idêntica já havia sido utilizada em , quando um tribuno havia apresentado uma lei para autorizar a Assembleia a eleger um comandante (aparentemente existia ainda um precedente da época da Segunda Guerra Púnica).