Alceu de Deus Collares (Bagé, 7 de setembro de 1927 — Porto Alegre, 24 de dezembro de 2024) foi um advogado, servidor público e político brasileiro. Foi Governador do Rio Grande do Sul de 1991 a 1995 e Prefeito de Porto Alegre de 1986 a 1989, sendo o primeiro negro a ocupar ambos os cargos.
Collares nasceu na campanha gaúcha, sendo oriundo de uma família muito pobre. Filho de pais analfabetos, foi alfabetizado na infância, mas deixou de frequentar a escola para vender frutas e assim ajudar no sustento da família. Em 1941, tornou-se carteiro do Correios e Telégrafos. Em 1956, após concluir o ensino secundário, foi aprovado no vestibular da Faculdade de Direito da UFRGS e se mudou para Porto Alegre, a capital estadual. Lá, trabalhou como telegrafista e professor, graduando-se em Direito em 1961. Nesta época, interessou-se mais ativamente pela política e passou a acompanhar os discursos de Leonel Brizola, o governador gaúcho que futuramente foi seu aliado e colega de partido.
Em 1963, Collares foi eleito para seu primeiro cargo público eletivo, o de vereador de Porto Alegre. Com o golpe de Estado em 1964 e a imposição do bipartidarismo, filiou-se ao Movimento Democrático Brasileiro. Reeleito vereador em 1968, elegeu-se deputado federal em 1970, em sua segunda tentativa, com a segunda maior votação a nível estadual. Na Câmara dos Deputados, defendeu medidas mais duras contra a ditadura militar e defendeu uma maior distribuição de renda. Em 1974 e 1978, reelegeu-se deputado federal com as maiores votações. Em 1980, com o restabelecimento do sistema multipartidário, filiou-se ao Partido Democrático Trabalhista (PDT), agremiação que ajudou a fundar.
Em 1986, Collares foi eleito prefeito de Porto Alegre no primeiro pleito realizado diretamente desde a ditadura. Em 1990, elegeu-se governador com 61% dos votos, derrotando Nelson Marchezan. No cargo, que exerceu até 1995, criou os Conselhos Regionais de Desenvolvimento (Coredes), empreendeu uma reforma administrativa e uma "revolução na educação", que incluiu o "calendário rotativo" e a construção de dezenas de Cieps. Sendo alvo de uma oposição implacável, desistiu de sua candidatura ao Senado em 1994, mas retornou ao Congresso em 1999. Daquele ano até 2007, exerceu o cargo de deputado federal. Em 2006, candidatou-se pela última vez a um cargo público, de governador, mas não obteve sucesso. Desde então, manteve-se ativo politicamente até morrer. De 2008 a 2016, integrou o conselho de administração da Usina Hidrelétrica de Itaipu.
Origens e juventude thumb|upright|esquerda|Collares em 1946
Alceu Collares nasceu em 7 de setembro de 1927 em um rancho de torrão de Povo Novo, na zona rural de Bagé. Era filho de João de Deus Collares, um quitandeiro que morreu analfabeto, e de Severina Trassante Collares, uma cozinheira de estância e dona de casa, também analfabeta, que possuía origens indígenas. Além de Alceu, o casal teve as filhas Maria e Manuela. Oriundo de uma família muito pobre, vendia frutas da quitanda de seu pai durante a infância para ajudar no sustento da casa. Posteriormente, recordou: "Foi uma infância como todas as infâncias do mundo da periferia, da pobreza, da miséria, da falta até de comida".
Na juventude, Collares jogava futebol, uma atividade que começou a praticar aos oito-nove anos de idade e que "entrou na minha vida como uma salvação para quem não tinha nenhuma outra forma de brinquedo ou diversão". Aos treze anos, disse ao pai que não queria mais continuar trabalhando como quitandeiro e pediu que lhe arranjasse outro emprego. Foi então que, em 1941, passou a trabalhar no Correios e Telégrafos de Bagé, entregando telegramas, um cargo oferecido por um amigo de seu pai. Como entregador, recebia 250 réis por mês.
Collares foi alfabetizado na escola, mas deixou de frequentá-la aos onze anos de idade, quando seu pai o pôs de auxiliar na quitanda. Adquiriu, porém, o hábito da leitura, que nutriria por vários anos. Voltou a estudar quando tinha mais de vinte anos, completando primeiramente o "Artigo 91", uma prova que substituía o ginásio. Matriculou-se em seguida no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, dos padres católicos, onde concluiu o curso clássico, correspondente ao ensino médio.
Ingresso na política thumb|Santinho de Collares em sua campanha a vereador de Porto Alegre, em 1963
Em 1956, Collares se mudou junto com a esposa e os dois filhos para Porto Alegre, capital do estado, pois havia sido aprovado no vestibular de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Na nova cidade, manteve o cargo de telegrafista, para o qual foi designado ainda em Bagé em 1946. Como recebia pouco, também trabalhou como professor de português na Associação Cristã de Moços (ACM), lecionando para alunos de cursos de preparação para concursos.
Em Porto Alegre, Collares interessou-se mais ativamente pela política, inicialmente assistindo aos discursos de Leonel Brizola na Praça da Alfândega. Em 1959, filiou-se ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e atuou como sindicalista, sendo escolhido presidente regional da União Brasileira dos Servidores Postais e Telegráficos (UBSPT). No terceiro ano da faculdade, junto com cinco colegas, dois dos quais advogados, alugou um conjunto comercial na Rua Borges de Medeiros para exercer advocacia. Graduou-se pela Faculdade de Direito da UFRGS em 1960. Em 1961, apoiou a Campanha da Legalidade promovida por Brizola para garantir a posse de João Goulart.
No início da carreira política, Collares compreendeu a importância da oratória e buscou aperfeiçoá-la. Treinou a expressão verbal com colegas de trabalho, realizou curso de oratória em São Paulo e manteve-se atualizado em relação aos grandes oradores. Eventualmente, a boa oratória se tornou uma de suas caraterísticas, sendo determinante para suas apresentações públicas e sua carreira política.
Collares concorreu pela primeira vez a um cargo público eletivo em 1963, buscando uma vaga na Câmara Municipal de Porto Alegre. A candidatura foi apoiada por seus colegas dos Correios e Telégrafos. Tinha poucos recursos para despender na campanha, mas sua atuação como líder sindical garantiu-lhe a vitória, com 3.147 votos. No mesmo pleito, o correligionário Sereno Chaise foi eleito prefeito. Décadas mais tarde, referiu: "O PTB era muito grande, tinha grandes nomes como candidatos, e era muito difícil colocar um nome ainda sem expressão. E eu não tinha nome, nem era um ilustre desconhecido, era só desconhecido".
Empossado vereador em janeiro de 1964, três meses antes do golpe de Estado, Collares não teve seu mandato cassado pelo novo regime, ao contrário do prefeito Chaise. Em 1965, com a imposição do bipartidarismo, filiou-se ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB), de oposição à ditadura. Dentre as atividades legislativas desenvolvidas neste primeiro mandato, liderou a bancada de seu partido, presidiu a Comissão de Justiça, Redação e Reclamação e integrou uma CPI sobre o aumento das tarifas dos transportes. Em 1966, concorreu a deputado federal, mas a votação recebida, de 16 632 votos, não foi suficiente para elegê-lo, alcançando a primeira suplência; Paulo Brossard foi o último deputado a ser eleito pelo MDB naquele pleito, com 19 014 votos. Em 1968, reelegeu-se vereador com 10 052 votos.
Deputado federal
Em 1970, Collares foi eleito deputado federal com 74 918 votos, a segunda maior votação do estado, superado apenas por Sinval Guazzelli, da ARENA. Empossado na Câmara dos Deputados em 1971, tornou-se vice-líder do MDB em 1973 e integrou a Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania, inclusive como seu vice-presidente. De acordo com Collares, sua atuação parlamentar era "voltada para o social, os trabalhadores, o inquilinato, o funcionário público". Como deputado de oposição, integrou o grupo Autênticos, que defendia medidas mais duras contra a ditadura militar. O objetivo do grupo, conforme Collares, era fazer com que a direção de seu partido "andasse um pouco mais depressa e cutucasse a onça com vara mais curta".
Collares reelegeu-se deputado federal em 1974, com 120 702 votos, a maior votação do Rio Grande do Sul naquela eleição. Em 1976, defendeu a instauração de uma CPI para averiguar a estrutura salarial brasileira. Collares era crítico ao modelo econômico do país que, em sua concepção, era "concentrador de renda e elitista", limitando a liberdade de expressão e de organização dos trabalhadores. Nos anos 1970, apoiou a liberdade sindical, a criação do seguro-desemprego, a participação dos trabalhadores nos lucros das empresas, o direito à estabilidade e a alteração dos critérios de definição do salário-mínimo, de modo a acompanhar o custo de vida. Quando João Batista Figueiredo era presidente da República, entregou-lhe uma carta para alertá-lo de que revoltas populares poderiam ocorrer se não houvesse uma maior distribuição de renda.
Em 1977, Collares e outros líderes oposicionistas, como Aldo Fagundes, Alencar Furtado, Franco Montoro e Ulysses Guimarães, organizaram o programa do MDB que foi transmitido em rede nacional de rádio e televisão. O tom crítico do programa, que defendia a convocação de uma constituinte e abordou temas como o alto custo de vida e a política salarial, levou a ditadura a cassar o mandato de Furtado como deputado federal com base no Ato Institucional n.º 5. Na época, Collares presidia o Instituto Pedroso Horta e, apesar de também ter participado do programa eleitoral, seu tom foi mais ameno, abordando o salário-mínimo.
Em 1978, Collares foi reeleito para seu terceiro mandato, com 112 640 votos, novamente o deputado federal gaúcho mais votado. Na nova legislatura, propôs o restabelecimento das eleições diretas para a presidência da República e argumentou que o pluripartidarismo era inviável "num regime ditatorial, onde as funções essenciais dos partidos estão proibidas". Como o pluripartidarismo foi aprovado em 1979, aliou-se a Brizola para a formação de uma agremiação trabalhista, acreditando que o trabalhismo representava uma "transição pacífica do capitalismo ao socialismo". O plano era reaver o PTB, mas depois que o Judiciário entregou ao grupo de Ivete Vargas o comando do partido, o grupo brizolista fundou o Partido Democrático Trabalhista (PDT), e Collares filiou-se ao novo partido em 1980, liderando sua bancada na Câmara.
Em 1981, Brizola pediu-lhe que fosse candidato a governador na eleição de 1982, a primeira vez que o país elegia os governadores pela via direta desde o estabelecimento da ditadura; Brizola considerava a candidatura do correligionário uma "vitória política das camadas periféricas da sociedade". Collares aceitou a indicação do partido, como forma de marcar posição e dar-lhe visibilidade. Ele recebeu 775 mil votos, ou 22,8% dos votos válidos, perdendo para Pedro Simon e o governador eleito Jair Soares, ex-ministro de Estado da ditadura. Como não existia segundo turno, Soares elegeu-se com apenas 38,2%, ante 37,5% de Simon. Em 2016, recordou: "tiramos os votos que faltavam para ele [Simon] ganhar do Jair. Mas nunca nos passou, nós queríamos tanto somente implantar a presença do trabalhismo".
Prefeito de Porto Alegre thumb|Dilma Rousseff e Leonel Brizola. Collares considerava Brizola sua maior inspiração na política e, como prefeito, nomeou Dilma para seu primeiro cargo executivo
Com o término de seu mandato parlamentar em 1983, Collares foi nomeado assessor da bancada do PDT na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e advogou para o Banco do Estado do Rio de Janeiro. Em julho de 1985, foi escolhido pela convenção do PDT como candidato da agremiação à prefeitura de Porto Alegre na eleição de novembro, a primeira realizada diretamente desde a ditadura; Glênio Peres foi o candidato a vice. A plataforma eleitoral incluía três prioridades: a regularização das vilas clandestinas, a educação e a saúde. A participação direta da população nas decisões governamentais também era um componente destacado.