thumb|direita|200px|Machado de Assis Relíquias de Casa Velha é uma coletânea que reúne dezesseis textos de diferentes gêneros – um poema, nove contos, um discurso, três artigos de crítica literária e duas peças teatrais – do escritor brasileiro Machado de Assis, publicado em 1906. O livro, o penúltimo publicado pelo autor, abre com um soneto em homenagem à sua falecida esposa, A Carolina.

Na advertência que abre o livro, Machado explica o título. “Uma casa tem muita vez as suas relíquias, lembranças de um dia ou de outro, da tristeza que passou, da felicidade que se perdeu. [...] Chama-lhe à minha vida uma casa, dá o nome de relíquias aos inéditos e impressos que aqui vão, ideias, histórias, críticas, diálogos, e verás explicados o livro e o título.” Ou, na explicação de Josué Montello: “A sensação da casa velha, com o pequeno mundo das relíquias de outrora, advinha-lhe do ambiente que o cercava, no retiro de Cosme Velho. Ali, para distrair o tempo, sentindo que a vigília aumentava o sentimento de sua solidão irreparável, andou a juntar as páginas de outrora, que mereceriam a codificação do livro [...]”.Prefácio de Josué Montello das Relíquias de Casa Velha das Edições Críticas de Obras de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977. Algumas edições do livro, em especial as eletrônicas, incluem apenas os contos, omitindo os demais textos.

Textos incluídos

DEDICATÓRIA:

1) A Carolina

Soneto em homenagem à esposa, sua companheira por 35 anos, falecida em outubro de 1904. “Poema clássico, de sabor camoniano.”Ubiratan Machado, Dicionário de Machado de Assis, 2a edição revista e ampliada. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo; Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras; Lisboa: Imprensa Nacional, 2021, verbete “A Carolina”. Ocupa a página de dedicatória do livro. Em carta a Joaquim Nabuco pouco depois de perder a esposa, escreveu Machado: “Foi-se a melhor parte de minha vida, e aqui estou só no mundo. […] Tudo me lembra a minha meiga Carolina. Como estou à beira do eterno aposento, não gastarei muito tempo em recordá-la. Irei vê-la, ela me esperará.”Graça Aranha, Machado de Assis e Joaquim Nabuco: Comentários e Notas à Correspondência entre Estes Dois Escritores. São Paulo, Monteiro Lobato & Cia., 1923, pág. 147.

CONTOS:

2) Pai contra Mãe

Conto de crítica à escravidão (mas escrito quase duas décadas após sua abolição) inédito, não publicado antes na imprensa. Além deste, Machado escreveu mais dois contos denunciando a situação degradante dos escravizados: “Mariana” (primeira versão, no Jornal das Famílias de janeiro de 1871) e “O Caso da Vara” (publicado originalmente na Gazeta de Notícias de 1o de fevereiro de 1891 e incluído na coletânea Páginas Recolhidas). “Pai contra mãe é o conto mais citado, e também o mais panfletário, em termos de libelo contra a escravidão [...] notável por ser um conto cujos personagens não pertencem às classes abastadas: são escravos e pessoas modestas.”Luiz Antonio Aguiar, Almanaque Machado de Assis, Editora Record, 2008, p. 243.

Daniel Piza, em seu Machado de Assis: Um Gênio Brasileiro, assim resume o conto: “É um conto sobre um homem cujo ofício é apanhar escravos fugidos, Candinho. Ele se casa com Clara, ela engravida e protesta contra a instabilidade das remunerações do marido. O filho nasce, os negócios do pai cada vez piores. Candinho então vai atrás de uma mulata fugida, Arminda, para ganhar o prêmio de 100 mil-réis. Quando a apanha, ela conta estar grávida e, na luta com Candinho, termina abortando. Mas o olhar psicológico de Machado é que está no comando: até então Candinho cogitava deixar o filho na roda dos enjeitados; a partir daquela situação, sente “fúria de amor” pelo filho e arranja para si um emplasto moral: “Nem todas as crianças vingam'.”Daniel Piza, Machado de Assis: Um Gênio Brasileiro. 2a edição revista e corrigida pelo autor. São Paulo, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006, p. 355.

“É o contraste entre esse amor carinhoso de pai, querendo salvar o filho e essa ferocidade de homem vendo, sem pena, uma pobre escrava perder o seu, que faz o que há de pungente no conto.”Medeiros e Albuquerque (sob o pseudônimo J. Dos Santos), “Crônica Literária”, A Notícia, 23-24 de fevereiro de 1906, p. 3. Daí o título: o pai, Candinho, contra a mãe, Arminda. Para uma análise acadêmica do conto ver: </ref> TRECHO: "Ora, pegar escravos fugidos era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras."Machado de Assis. Pai contra mãe, letras.ufmg.br.

3) Maria Cora

Conto longo, em seis capítulos, publicado originalmente na revista A Estação entre 15/1 e 31/3/1898 com o título “Relógio Parado”, mas que sofreu modificações ao ser transposto para o livro. História de um homem até então celibatário que se apaixona por uma gaúcha, “morena, robusta, vinte e oito a trinta anos, vestida de escuro”, e para provar seu amor (e também tentar matar o marido de quem ela estava separada), larga seu conforto e vai lutar na Revolução Federalista no Rio Grande do Sul. Em seu desenrolar – o celibato dando lugar à paixão exacerbada, a ida ao campo de batalha como prova de amor, o assassinato frio sob o manto da luta por uma causa – o conto poderia se enquadrar na estética romântica da primeira fase de Machado (como o autor dá a entender no próprio trecho abaixo), mas não no desenlace.

TRECHO: Estávamos em pleno romantismo. Quando eu nasci, os meus não acreditavam em outras provas de amor, e minha mãe contava-me os romances em versos de cavaleiros andantes que iam à Terra Santa libertar o sepulcro de Cristo por amor da fé e da sua dama. Estávamos em pleno romantismo.

4) Marcha Fúnebre

Conto inédito, não publicado antes na imprensa. Aborda o tema da morte, sob o prisma psicológico e filosófico. Depois de saber que um político rival morreu após longa doença do coração e deparar na rua, ao voltar para casa, com um transeunte que “morreu de repente”, o deputado Cordovil fica obcecado com o tema da morte, e passa a noite em claro. Mas acaba morrendo “muitos anos depois”, e Machado encerra o conto com a metáfora do “vinho” filtrado, “ que sai impuro de uma garrafa para entrar purificado em outra”, apenas a borra indo para o cemitério. “A ideia do vinho e da garrafa, conteúdo e continente, da passagem de uma garrafa velha para uma garrafa nova, seria exatamente a metáfora que um espírita usaria para a saída do perispírito do corpo, ou que um católico chamaria de passagem do corpo mortal para o corpo glorioso.”Alexei Bueno em correspondência com o autor do verbete.“Será que um cético como Machado de Assis poderia acreditar na vida após a morte?”“Machado de Assis Online, por Cláudio Soares”, no X (ex-Twitter). Depois do falecimento da esposa, parece que sim, como se depreende também da carta a Joaquim Nabuco citada no item 1) acima.

“Em resumo, Machado de Assis usa a história de Rui para refletir sobre a natureza da morte e como a nossa percepção sobre ela pode mudar ao longo da vida. A morte deixa de ser vista como um fim trágico e passa a ser vista como uma passagem para um estado de purificação.”Inteligência artificial Gemini consultada em 2/2/2025.

TRECHO: Quando veio a falecer, muitos anos depois, pediu e teve a morte, não súbita, mas vagarosa, a morte de um vinho filtrado, que sai impuro de uma garrafa para entrar purificado em outra; a borra iria para o cemitério

5) Um Capitão de Voluntários

Conto sobre a traição (dupla, pelo amigo e pela companheira) inédito, não publicado antes na imprensa. “Em 'Um capitão de voluntários', a personagem feminina, Maria, 'que era um modelo de graças finas, toda vida, toda movimento', é também uma mulher sensualíssima e, como a Genoveva de 'Noite de Almirante' (Histórias sem data, de 1884), é completamente amoral.” O conto começa com o narrador falando sobre uma carta do personagem Simão de Castro sobre um caso de amor efêmero que teve no passado com a companheira (Maria) de um amigo (X..., cujo nome, Emílio, só é revelado ao final). X... vivia maritalmente com Maria, sem serem casados. A partir do segundo parágrafo, o narrador cede lugar à carta, em primeira pessoa, que narra os detalhes daquele caso de traição e seu desenlace, em que o amigo, desiludido, alista-se como “capitão de voluntários” na Guerra do Paraguai, daí o título do conto.

TRECHO: Sentíamos ambos que traíamos, eu, o meu amigo, ela, o seu amigo e protetor.

6) Suje-se Gordo!

Conto inédito, não publicado antes na imprensa, sobre o preceito bíblico “Não julgueis para não serdes julgados”. No terraço do Teatro de São Pedro de Alcântara (no local do atual Teatro João Caetano),Ver "QUAL O TEATRO MAIS ANTIGO DO RIO DE JANEIRO?" no blog LITERATURA, RIO DE JANEIRO & SÃO PAULO. num dos intervalos de uma peça teatral, um amigo conta para o narrador suas duas experiências como jurado no tribunal. Na primeira estava sendo julgado um réu que furtou uma quantia pequena por uma necessidade urgente. O amigo votou pela absolvição, mas o réu foi condenado. Um dos jurados comentou: “Tudo por uma miséria, duzentos mil-réis! Suje-se gordo! Quer sujar-se? Suje-se gordo!”, ou seja, se for para sujar seu nome, não o faça por uma miséria, e sim por uma quantia vultosa, “gorda”. Na segunda vez, por uma coincidência, o réu era aquele jurado que fez o comentário, e estava sendo julgado por um desvio de uma grande quantia de um banco. Desta vez, o amigo votou pela condenação do réu, mas este foi absolvido.

TRECHO: Vi que não era um ladrão reles, um ladrão de nada, sim de grande valor. O verbo é que definia duramente a ação: "Suje-se gordo!" Queria dizer que o homem não se devia levar a um ato daquela espécie sem a grossura da soma. A ninguém cabia sujar-se por quatro patacas. Quer sujar-se? Suje-se gordo!

7) Umas Férias

Conto inédito, não publicado antes na imprensa. À semelhança do "Conto de Escola", é narrado da perspectiva de uma criança. “Conto excepcional na Literatura Brasileira, já que entrega a um menino a narrativa sobre um momento dramático de sua vida familiar.”Luiz Antonio Aguiar, Almanaque Machado de Assis, Editora Record, 2008, p. 243. O narrador, uma criança que “gostava de folgar, não gostava de aprender”, fica feliz quando o tio Zeca vem pegá-lo na escola, bem no meio da aula. Depois apanham também a irmã Felícia. O casal de irmãos fica na expectativa de algo bom, tipo uma festa. O menino se decepciona (tanto quanto se entristece) ao descobrir a razão, o falecimento do pai, e se no início ficou feliz por achar que teria umas pequenas férias, no final se alivia quando enfim retorna à escola.

TRECHO: – Meus filhos, vosso pai morreu!

8) Evolução

Conto sobre “dois conhecidos às voltas com questões políticas e do desenvolvimento do Brasil” publicado originalmente na Gazeta de Notícias de 24 de junho de 1884. O empresário de estradas de ferro Inácio e o político Benedito travam conhecimento numa viagem para Vassouras. Conversam sobre o progresso proporcionado pelas estradas de ferro, e a certa altura Inácio observa que o Brasil está engatinhando e só começará a andar quando tiver muitas estradas de ferro. Tempos depois, ao se encontrarem em Paris, Benedito cita a frase, mas como se fosse dos dois: “Lembra-se do que nós dizíamos na diligência de Vassouras? O Brasil está engatinhando; só andará com estradas de ferro.” No final do conto, Benedito apropriou-se da frase, como se fosse dele. “Evolução” neste conto tem dois sentidos: 1) o sentido de progresso material (“precisamos desenvolver as forças vivas do país, os seus grandes recursos”); 2) o sentido do fenômeno psicológico da evolução da ideia de Inácio que acaba migrando para a cabeça de Benedito.Idem. Também no romance Quincas Borba (cap. XXI) ocorre uma conversa dentro do trem, após a estação de Vassouras, sobre o progresso das estradas de ferro.