O Complexo Naval de Itaguaí (CNI) é uma base de construção, manutenção e operação de submarinos da Marinha do Brasil na baía de Sepetiba, município de Itaguaí, Rio de Janeiro. Ele consiste numa Unidade de Fabricação de Estruturas Metálicas (UFEM) e um Estaleiro e Base Naval (EBN), no qual está a Base de Submarinos da Ilha da Madeira (BSIM), sede do Comando da Força de Submarinos da Marinha. As atividades industriais e de construção são um encargo da Itaguaí Construções Navais (ICN), uma sociedade de propósito específico constituída pela Odebrecht, Naval Group (antiga DCNS) e Marinha.
O projeto do CNI foi um dos componentes do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (ProSub) da Marinha do Brasil, iniciado em 2008 para construir submarinos convencionais e nucleares com transferência de tecnologia francesa. Previu-se que as embarcações seriam montadas e sediadas numa nova base, fora das anteriores na baía da Guanabara. As obras, iniciadas em 2010, foram atrasadas pela crise econômica de meados da década e maculadas por acusações de corrupção. Em 2024 o projeto alcançou 77% da meta física, com conclusão prevista para 2031. Ainda assim, o complexo já está operacional, tendo construído e lançado ao mar vários submarinos da classe Riachuelo.
A construção dos submarinos tem início na Nuclebrás Equipamentos Pesados (Nuclep), exterior ao complexo, mas vizinha imediata à UFEM. As seções de casco são forjadas na Nuclep, preenchidas na UFEM e unificadas no estaleiro de construção da EBN, na área sul do complexo. A área sul também inclui ancoradouros para até dez submarinos, um estaleiro de manutenção e um elevador de submarinos. Entre a UFEM e a área sul está a área norte, que é separada da área sul por um túnel de 703 metros de comprimento. A área norte contém serviços de apoio e portaria. O complexo inteiro — UFEM, área norte a área sul — chega a 750 mil metros de extensão e foi projetado para uma força de trabalho de cerca de cinco mil militares e funcionários civis.
História As primeiras propostas para um complexo naval e industrial na região do atual CNI datam do início do século XX. No período entre as administrações de Júlio César de Noronha (1902–1906) e Veiga Miranda (1921–1922) no Ministério da Marinha, uma corrente do pensamento naval defendia a construção de um "Porto Militar" na Ilha Grande, próxima à atual localização do CNI. Este porto, associado a uma indústria siderúrgica, teria a infraestrutura moderna exigida pelas novas belonaves adquiridas ao longo da corrida armamentista naval da América do Sul. Para seus proponentes, seria a "Kiel da América do Sul", que protegeria a esquadra de um bloqueio à capital federal (o Rio de Janeiro) e isolaria os marinheiros da convulsão política e social daquela cidade. Os defensores do "Porto Militar" não prevaleceram sobre outra corrente, que preferia a renovação do Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ) no interior da baía de Guanabara.
Quando a Marinha decidiu construir submarinos no Brasil, nos anos 1980, as oficinas do AMRJ foram adaptadas para submarinos. Foi ali que se construíram as classes Tupi e Tikuna, de projeto alemão (Tipo 209)., Parte 5. Sua base, na sede do Comando da Força de Submarinos, era a Base Almirante Castro e Silva (BACS), na ilha de Mocanguê, ainda na baía de Guanabara.
A ideia de uma base fora da baía de Guanabara voltaria à pauta com o projeto de construção de um submarino nuclear. Conforme uma publicação da Marinha de 2002, o "local escolhido para a futura Base para Apoio de Submarinos Nucleares (BASN) foi Ponta Grossa na Restinga da Marambaia, ficando como alternativa Aratu, na Bahia. Também foi considerada uma base no litoral de São Sebastião, em São Paulo. A decisão já estava tomada desde 1993, e modelos da base naval existiam no Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP) décadas antes do contrato de construção.
Contratos miniaturadaimagem|Presidente francês Emmanuel Macron no lançamento ao mar do submarino Tonelero (S-42) em Itaguaí (2024)|esquerda O Programa de Desenvolvimento de Submarinos (ProSub), de 2008, incluiu a construção de um novo estaleiro e base naval (EBN), ao lado dos quais haveria uma unidade fabril, a Unidade de Fabricação de Estruturas Metálicas (UFEM). Ali seriam construídos os submarinos da classe Scorpène (designada Riachuelo no Brasil), de projeto francês, culminando na construção de um submarino nuclear. Escolheu-se situar o complexo às margens da baía de Sepetiba em Itaguaí, no Rio de Janeiro, por sua proximidade ao porto de Itaguaí, à Nuclebrás Equipamentos Pesados (Nuclep), estatal originalmente fundada para construir os cascos da classe Tupi, e à Base Aérea de Santa Cruz, a poucos minutos de viagem para os aviões da Força Aérea Brasileira. Segundo a Marinha, "submarinos nucleares só podem ser construídos em estaleiros a isso dedicados e que atendam a requisitos tecnológicos e ambientais bastante específicos, que, hoje, não são atendidos por nenhum dos estaleiros existentes no Brasil. Além disso, a atual base dos submarinos convencionais, na Baía de Guanabara, sequer tem profundidade para um submarino desse tipo".
O projeto é uma parceria da iniciativa pública com grandes empresas nacionais e internacionais, cujo contrato foi assinado em 3 de setembro de 2009. Constituiu-se uma sociedade de propósito específico, a Itaguaí Construções Navais (ICN), com a participação acionária de 59% da Construtora Norberto Odebrecht e 41% da construtora naval francesa DCNS (atual Naval Group). A Marinha tem uma golden share, com capacidade de veto, através da Empresa Gerencial de Projetos Navais (Emgepron). A ICN é a construtora dos submarinos. Outra sociedade, o Consórcio Baía de Sepetiba, assessora a gestão do projeto, que é de responsabilidade de um órgão da Marinha, a Coordenadoria-Geral do Programa de Desenvolvimento do Submarino com Propulsão Nuclear (COGESN).
Obras miniaturadaimagem|Estaleiro e base naval em obras As obras em Itaguaí tiveram início no primeiro trimestre de 2010. Os trabalhos perpassam grandes escavações, drenagens e aterros, movimentando 300 mil metros cúbicos de terra e rocha. Do cais 13 em diante, toda a área sul é um aterro com areia oceânica, rochas e milhares de estacas em concreto para suportar as milhares de toneladas da obra. A área norte, no decurso das obras, serviu de canteiro industrial, onde estacas metálicas e blocos de concreto pré-moldado eram construídos e passavam por pontes rolantes e barcaças especiais até a área sul. Em 2011 a Odebrecht já havia empenhado seis pórticos rolantes, sete guindastes de grande capacidade, dez flutuantes de 900 toneladas, quatro rebocadores, quatro barcos de apoio, três martelos hidráulicos, um martelo vibratório e seis dragas.
O conceito inicial, ainda pouco específico, previa a conclusão das obras em dezembro de 2015, prontificando a UFEM até o final de 2012, o estaleiro até 2014 e a base naval até 2015., Última parte. A UFEM foi inaugurada em 1.° de março de 2013. Os projetos básicos haviam progredido e estimava-se o término das obras para o final de 2021. A próxima inauguração foi do prédio principal do estaleiro de construção, em 12 de dezembro de 2014.
A inclusão do ProSub no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) não o poupou de um corte de 41% no seu orçamento em 2015. A crise econômica nacional atingiu também a Odebrecht, que baixou o número de engenheiros, técnicos e operários envolvidos no projeto de quatro mil a 1 200 ao final de 2015. Mais de 60% das obras foram concluídas até aquele ano, quando o ritmo das obras foi reduzido em 50%, conforme admitido pela Marinha. Os cortes também implicaram na simplificação da estrutura originalmente planejada. Ao mesmo tempo, surgiam suspeitas de irregularidades na construção dos estaleiros. A partir de 2016 a Odebrecht foi investigada pela Operação Lava Jato, e em junho o Tribunal de Contas da União informou que analisava processos relacionados à construção dos submarinos e do estaleiro, um dos quais apurava possíveis sobrepreços e outras irregularidades. A Marinha informou não ter encontrado irregularidades nas suas apurações internas, e negou que as investigações tivessem atrasado o cronograma. A sequência das obras foi readequada para priorizar a entrada em atividade dos submarinos convencionais: primeiro concluir os estaleiros e simuladores para só então consolidar o complexo radiológico e seus anexos.
miniaturadaimagem|Visita de delegações estrangeiras da exposição LAAD Defense & Security (2019)|esquerda Em 2019 a conclusão das obras estava marcada para o final de 2021. A Base de Submarinos da Ilha da Madeira foi inaugurada em 17 de julho de 2020 e atracou submarinos no primeiro semestre de operação. Em 12 de julho de 2021 o Comando da Força de Submarinos foi transferido para a base nova, mas as instalações antigas na ilha de Mocanguê continuaram a operar. Em 2019 a mídia especializada divulgava que todos os submarinos, incluindo as classes Tupi e Tikuna, seriam concentrados em Itaguaí a partir de 2022, o que não chegou a ocorrer. A Base Almirante Castro e Silva ainda sedia as classes antigas de submarino.
A construção da EBN chegou a 77% da meta física em 30 de abril de 2024. O cronograma anterior, de conclusão das obras até 2025, havia sido estendido até 2031. O orçamento total estava em R$ 16,4 bilhões, dos quais dez bilhões haviam sido pagos até 2023.
Até 2023 foram construídos a UFEM, sete cais para submarinos e um cais auxiliar, o túnel de acesso entre as áreas norte e sul, o prédio principal, a mandrilhadora de alta capacidade do estaleiro de construção, uma linha de transmissão de 25 KV, o sistema de transferência dos submarinos, as oficinas e prédios administrativos do estaleiro de construção e centros integrados de controle de dados, de infraestrutura industrial e de operações de segurança. Em 2024 também foram entregues três torres meteorológicas, o canal de macrodrenagem S2, uma linha de transmissão de energia de 138 kV e uma oficina de apoio à manutenção de motores a diesel. O canal de macrodrenagem S2, a oficina de apoio à manutenção de submarinos, o centro de intendência, e os prédios do Esquadrão de Guerra Cibernética seriam concluídos para depois de 2025. Um complexo de manutenção especializada era esperado para 2033.
Submarinos construídos
Quatro submarinos convencionais da classe Riachuelo e um submarino nuclear foram previstos na parceria estratégica Brasil-França de 2008. O programa de reaparelhamento naval projetava uma frota de 21 submarinos, mas nenhum lote adicional foi contratado desde então. Para ocupar o estaleiro quando faltarem encomendas do ProSub, considera-se a construção de embarcações de superfície, como navios-patrulha, para a Marinha do Brasil e/ou a exportação de submarinos. A ambição seria transformar Itaguaí "em uma espécie de Embraer do mar". Em 2025 havia um mercado potencial de até 14 submarinos para a renovação das frotas no entorno estratégico brasileiro (na Argentina, Chile, Peru, Equador e Colômbia). Segundo o diretor brasileiro do Naval Group, "sabemos de planos e intenções, mas, por enquanto, nada de concreto foi fechado".
Cada unidade da classe Riachuelo desloca 1 740 toneladas na superfície e mede mais de 70 metros de comprimento e seis metros de diâmetro de casco. No cronograma original, os quatro submarinos convencionais do contrato seriam lançados ao mar em 2015, 2017, 2019 e 2021. Por inexperiência da indústria brasileira, duas seções do casco foram construídas na França e entregues a Itaguaí em junho de 2013. Os demais cascos foram todos construídos no Brasil. Em 2014 a primeira unidade, o Riachuelo (S-40), já estava 45% concluída.