A língua bukawa, também conhecida como bugawac, bukaua, bukawac, kawa, kawac ou yom gawac, é uma língua austronésia ameaçada de extinção do Leste da Papua-Nova Guiné. Ela é falada nativamente pelo povo bukawa, que representa cerca de 12.000 habitantes da região costeira da Província Morobe, dividindo espaço com outras línguas como tami e labu. Assim como o povo e a língua são chamados de bukawa, há também uma vila com o mesmo nome na região do Cabo de Arkona.
Etimologia miniaturadaimagem|245x245px|Kasali: canoa tradicional do povo bukawa|esquerdaEm bukawa, o prefixo bu- significa ‘água’ ou ‘rio’ (que imagina-se que se refira a uma pequena nascente próximo à aldeia de Bukawa), enquanto o sufixo -kawa (ou -gawa) está presente no nome de várias cidades da região, como Salakawa (salaŋ = ‘baía’, ‘enseada’; nessa região as canoas de comércio bukawas desembarcavam) e Siŋgawa (siŋ = ‘luta’; nessa cidade ocorreu uma grande luta). Um outro nome pelo qual a língua é conhecida é yom gawac, em que yom = ‘falar’, sendo usado para outras línguas geograficamente próximas ao povo bukawa, a exemplo da língua yabêm, que também é chamada de yom apêm.
Além disso, nota-se uma variação no nome da língua entre as consoantes ‘k’ e ‘g’. Essa mudança se dá devido a influência da língua yabêm na região, especialmente na nomeação das cidades, já que o em yabêm normalmente representa o em bukawa.
Distribuição O território bukawa estende-se pela costa do Golfo de Huon, na província Morobe da Papua-Nova Guiné, entre as cidades de Asini e Bukawasip. Contudo, a língua bukawa não é a única falada na região e, atualmente, ela é mais falada entre as pessoas mais velhas, enquanto as mais novas tendem a utilizar o tok pisin ou o inglês.
Da população étnica bukawa de 12.500 pessoas, 12.000 são falantes da língua e, dentre eles, 4.800 são monolíngues. As línguas mais aprendidas como segunda língua são o tok pisin (80%) e o yabêm (15% - 25%).
Línguas Relacionadas As línguas mais próximas do bukawa são a língua yabêm e a língua kela, ambas pertencentes à família linguística Norte-Golfo de Huon, que se originaram na região nordeste do Golfo de Huon. Essas línguas se diferenciam das demais línguas oceânicas por terem características tonais e tendência ao monossilabismo. Contudo, a língua yabêm difundiu-se muito mais que as outras devido a missões religiosas luteranas, na região que a utilizaram, fazendo com que ela fosse considerada uma língua franca na área. Esse fato fez com que muitos falantes de bukawa também aprendessem o yabêm, o que, consequentemente, trouxe influências à própria língua bukawa. Seguem algumas comparações entre o bukawa e o yabêm: miniaturadaimagem|443x443px|Línguas da Papua-Nova Guiné Semelhanças: A sílabas em bukawa e yabêm seguem o mesmo padrão: CV (Consonte-Vogal) para o início e meio de palavras, e CVC (Consoante-Vogal-Consoante para o final de palavras; Observação: A única exceção para a regra acima é no composto om̀ da língua yabêm. Todas as consoantes, exceto o /ʔ/, podem aparecer no início de sílabas; As consoantes que podem terminar uma palavra são: /p/, /b/, /m/, /ŋ/, and /ʔ/.
Diferenças: Plosivas pré-nasalizadas no início de palavras só ocorrem na língua bukawa; Em yabêm, tom alto sucede plosivas desvozeadas (/p/, /pʷ/, /tʰ/, /kʰ/, /kʷ/) e tom baixo sucede plosivas vozeadas (/b/, /bʷ/, /d/, /g/, /gʷ/, /ᵐb/, /ᵐbʷ/, /ⁿd/, /ⁿg/, /ᵑgʷ/), enquanto bukawa não tem padrão definido.
A língua bukawa também influenciou línguas geograficamente próximas, como o labu. Por exemplo: Diferente das línguas de sua família (markham), o labu é uma língua tonal e possui sete vogais, ao invés de 5, o que é um provável retrato da influência bukawa na língua; Labu é a únca língua da família markham a ter numerais próprios para 3 e 4, sendo, esses números, nas demais línguas compostos como "2+1" e "2+2" respectivamente; Diversos radicais verbais do labu são semelhantes aos em bukawa. -nô (em labu) → -nôm (em bukawa) 'beber'
Dialetos
A língua bukawa apresenta alguns dialetos distintos devido à sua separação geográfica. As principais diferenças estão na fonética, tendo poucas variações lexicais e, ainda assim, os dialetos são mutuamente compreensíveis. Eles são classificados em 5 grupos de acordo com a região em que estão presentes. São esses:
Centro
Falado entre as aldeias de Buhalu a Wideru, também abrangendo, principalmente, Bukawa, Ugilim, Mundala e Yambo. Utilizado como referencial para estudos da língua e análise dos demais dialetos.
Centro-Leste
Falado entre as aldeias de Busong a Buac, incluindo primordialmente, principalmente, Bugang. Suas diferenças mais notáveis são: Menos plosivas vozeadas (, , ) pré-nasalizadas; Algumas plosivas iniciais que são vozeadas (, , ) no dialeto do centro são desvozeadas (, , ) no centro-leste; A letra ‘h’ é omitida em algumas palavras; Os falantes usam uma entonação mais baixa (grave).
Leste
Falado entre as aldeias de Ulugidu a Bukawasip, abarcando, sobretudo, Butala, Tigedu e Buseng. O mais divergente do dialeto do centro e com maior influência da língua yabêm, provavelmente devido a sua proximidade geográfica. As principais diferenças são: Maior influência do yabêm na prefixação dos verbos; sôm (central) → gêsôm (leste) 'ele disse' Algumas mudanças de vogais; Os falantes usam uma entonação mais baixa (grave); A sílaba tônica tende a ser na primeira sílaba; Menos plosivas vozeadas (, , ) pré-nasalizadas; damba → daba (pai); dinda → dida (mãe)
Centro-Oeste
Falado entre as aldeias de Tikeleng a Wakangluhu, englobando, especialmente, Talec, Apo e Aluki. Muito parecida com o dialeto do centro. Nota-se, majoritariamente, a seguinte mudança:
‘b’ no início de palavras é comumente trocado por ‘m’.
Oeste
Falado entre as aldeias de Lae a Hengali, abrangendo, principalmente, Butibam, Wagang, Kamkamung e Yanga. As principais alterações são:
‘b’ no início de palavras é comumente trocado por ‘m’; Apresenta algumas mudanças de vogais (por exemplo: o complementador bu é pronunciado como [bi] ou invés de [bu]); Os falantes usam uma entonação mais alta (aguda).
Sudoeste
Falado entre as aldeias de Asini a Busamang, abarcando, em especial, Buakap. O dialeto falado em Busamang diferencia-se ainda mais do falado no centro se comparado aos falados em Asini e Bukap. As maiores mudanças são: Muitas palavras iniciadas por ‘a’ no dialeto do centro são iniciada por ‘la’ no dialeto do sudoeste; amba → lamba (mão); atù → latù (filho) Algumas palavras que expressam posse, semelhantes aos pronomes possessivos do português, são diferentes dos do dialeto do centro; iŋ ndê → iŋ ŋa (dele) A vogal ö usada no dialeto do centro não é usada em Busang, e torna-se ồ, uma vogal com um tom mais baixo. aö neŋ → aồ ŋaŋ (meu)
História thumb|Bukawa, 14/12/1944. Cabana bukawa com Guam (pinturas e esculturas nas laterais).|288x288px Missões Religiosas Luteranas provenientes da Alemanha começaram a chegar na Nova Guiné em 1886, começando pela região central da área da língua yabêm, que só era falada por cerca de 900 pessoas na época. Assim, o yabêm tornou-se a língua dos primeiros evangelistas da região.
A língua yabêm foi muito utilizada para evangelização, pregação, educação e hinos. Em 1930, todas as aldeias bukawas tinham acesso a escolas missionárias que usavam o yabêm para ensinar, o que ocorreu até aproximadamente 1960, quando a língua passou a ser utilizada apenas em hinos, liturgias e pregações. Como consequência, em 1939 a língua era falada por aproximadamente 15.000 pessoas na província de Morobe, sendo considerada língua franca da região. Por isso, a maioria das pessoas acima de 45-50 anos são alfabetizadas em yabêm. Essa grande influência da língua yabêm na cultura bukawa trouxe, também, influências na língua desse último povo.
Fonologia
Consoantes A língua bukawa apresenta os seguintes fonemas consonantais:
+ Inventário consonantal da língua bukawaBilabialLabiovelarAlveolarPalatalVelarGlotalPlosiva NasalTapFricativaAproximantew̥ Aproximante Lateral
Nota-se que os fonemas /t/ e /k/ só aparecem em suas formas aspiradas.
Além dos fonemas presentes na tabela acima, ainda há: Pré-nasalizadas das plosivas: /ᵐb/, /ᵐp/, /ⁿd/, /ⁿt/, /ᵑɡ/, /ᵑk/; Labialização das plosivas: /bʷ/, /pʷ/, /dʷ/, /ɡʷ/, /kʷ/; Pré-nasalizadas e labialização das plosivas: /ᵐbʷ/, /ᵐpʷ/, /ᵑɡʷ/, /ᵑkʷ/; Labialização das nasais: /ᵐw/.
Todas as consoantes podem iniciar palavras, exceto o c, e todas podem ser encontradas entre vogais. Contudo, apenas b, m, ŋ, p e c podem ser encontradas no final de palavras. Apesar disso, k nunca aparece no fim de sílabas, enquanto c só aparece no final de sílabas. ku.ku [kʰukʰu] (redondo); hec.eŋ [heʔẽ] (sim).
Vogais Os fonemas vocálicos da língua bukawa são:
Fonemas vocálicos orais da língua bukawa
<div style="background:transparent;"> Anterior Quase anterior Central Quase posterior Posterior Fechada 300px Quase fechada Semifechada Média Semiaberta Quase aberta Aberta
As vogais tendem a ser nasalizadas quando estão na penúltima posição da palavra, principalmente quando seguidas de uma consoante nasal (a qual é normalmente enfraquecida a ponto de desaparecer em alguns casos).
Alofonia
Dentro dos fonemas bukawa há alguns pares de alófonos. Esses são:
: ocorre no fim de palavras e ocorre nas demais posições; [ŋɡop] (limão, mistura de noz de areca); [pʱuʔ] (notícias). : não há uma regra que defina a variação de e , dependendo apenas do falante, apesar de ser bem mais comum; [döɾö] ~ [dölö] (poderoso). : ocorre no fim de palavras e ocorre nas demais posições; [go] (cipó de arbusto); [ɔm] (domingo)
Tons A língua bukawa é tonal, ou seja, o tom em que a palavra é pronunciada interfere em seu significado, pois há palavras homônimas que são diferenciadas apenas pelo seu tom. O acento agudo (´) representa tons altos e o acento grave (`) representa tons baixos. Observe:
+ Alguns homófonos da língua bukawaTom AltoTranscrição FonéticaTradução para Pt-BrTom BaixoTranscrição FonéticaTradução para Pt-Bratú[atʱú]bebê, filhoatù[atʱù]grandedináŋ[dinã́]minha mãedinàŋ[dinã̀]aquilombác[ᵐbáʔ]pássaro, grupo que voambàc[ᵐbàʔ]esfregarkốm[kʰʊ̃́]cobrirkồm[kʰʊ̃̀]fazertúŋ[tʰṹ]cerca de jardimtùŋ[tʰũ̀]causa dor
Apesar disso, seu tom não é previsível, e mesmo os falantes, por muitas vezes, ignoram os tons das palavras. Contudo, o contexto é suficiente para o entendimento da mensagem e, portanto, para discernir o significado desejado. Por isso, em geral, não há necessidade de representar os tons na escrita.
Ainda assim, há palavras em bukawa que possuem os mesmo fonemas e tons e significados distintos. Por exemplo:
sù [sù] 'concha do mar' sù [sù] 'pulso/tornozelo (articulação externa do membro)' sù [sù] 'botar ovo/dar a luz (animais)'
Entretanto, há alguns padrões que normalmente encontra-se em relação ao tom das palavras em bukawa: As aproximantes desvozeadas (/ʍ/ e /j̥/) comumente possuem um tom alto; awhế [aʍhɪ́] (mulher). A plosiva glotal (/ʔ/) normalmente é precedida por um tom alto; wapác [wapʰáʔ] (preocupar) O modo imperativo dos verbos é expressado com um tom alto. tanôm mbùc [tʰanʊ̃ ᵐbùʔ] (seus olhos estão fechados) → tanôm mbúc [tʰanʊ̃ ᵐbúʔ] (feche os olhos!)
Por fim, assim como no português, a entonação na língua bukawa normalmente diminui no final de afirmações e aumenta no fim de perguntas. Bem como há o aumento da duração de uma vogal para uma ênfase maior.
Ortografia
A ortografia bukawa faz uso do alfabeto romano e foi moldado baseando-se no yabêm, devido a sua influência cultural na região. Há uma correlação entre os fonemas bukawas e a sua ortografia. Observe a tabela:
+Fonemas no IPA e na escrita bukawaIPA, , , Letrasabcdeêghikllhmnŋoôöpstuwwhyyh
Algumas letras representam fonemas diferentes das representações do português brasileiro. Essas são: