Fonologia do grego antigo refere-se à reconstrução da fonologia ou à pronúncia do grego antigo. Este artigo trata principalmente da pronúncia padrão do dialeto ático falado no século V a.C, utilizado por Platão e outros escritores gregos clássicos, mas menciona outros dialetos falados no mesmo período ou antes. A pronúncia do grego antigo não é conhecida por observação direta, mas sim determinada por outros tipos de evidência. Alguns detalhes acerca da pronúncia do grego ático e outros dialetos do grego antigo são desconhecidos, mas em geral é aceito que o ático possui certas características não presentes em português ou em grego moderno, como a distinção entre oclusivas sonoras, surdas ou aspiradas (tais como ), distinção entre consoantes simples e duplas e entre vogais longas e curtas, na maioria das posições em uma palavra, além de um acento baseado em tons, ao invés de intensidade.

O grego koiné, a variante do grego utilizada após as conquistas de Alexandre, o Grande, no século IV a.C., é por vezes considerada como "Grego Antigo", mas sua pronúncia é descrita em fonologia do grego koiné.

O grego antigo era uma língua pluricêntrica, composta por vários dialetos. Todos os dialetos do grego derivam do protogrego e partilham tanto características em comum quanto diferenças na pronúncia. O dialeto dórico, por exemplo, utilizado em Creta, possuía o dígrafo , que provavelmente consistia em um som não presente em ático. A forma mais primitiva de jônico, na qual a Ilíada e a Odisseia foram compostas (grego homérico), e o dialeto eólico de Safo, provavelmente possuíam o fonema /w/ no início de certas palavras, por vezes representado pela letra digamma , mas que foi perdido no dialeto ático padrão.

A natureza pluricêntrica do grego antigo o difere do latim, uma vez que este era composto basicamente de uma única variedade, desde os textos do latim antigo até o período do latim clássico. O latim apenas deu origem a dialetos diferentes quando se espalhou pela Europa, por meio das expansões do Império Romano. Estes dialetos do latim vulgar mais tarde originariam as línguas românicas.

O principais dialetos do grego antigo são o arcadocipriota, eólico, dórico, jônico e ático. Estes formam dois grupos principais: grego oriental, que inclui arcadocipriota, eólico, jônico e ático, e grego ocidental, composto pelos dialetos dórico, grego do noroeste e aqueu.

Todos os dialetos principais, com exceção do arcadocipriota, possuem textos literários. Os dialetos literários do grego antigo não necessariamente representam a pronúncia nativa dos autores que os utilizavam. Um dialeto primariamente jônico-eólico, por exemplo, é usado na poesia épica, enquanto ático puro é usado na poesia lírica. Tanto o ático quanto o jônico são utilizados em prosa, e ático é usado na maior parte das tragédias atenienses, enquanto o dialeto dórico é utilizado nas seções corais.

Grego oriental primitivo A maioria dos dialetos do grego oriental palatalizaram ou assibilaram /t/ para [s] antes de /i/. Grego ocidental, incluindo dórico, não passou por estas mudanças em alguns casos, e, por meio da influência do dórico, nem os dialetos tessálico e beócio do eólico.

Ático , dórico ('ele coloca')

Ático , dórico ('eles comem') Ático , dórico ('vinte')

Arcadocipriota foi um dos primeiros dialetos gregos na Grécia. O grego micênico, a forma de grego falada antes da Idade das Trevas Grega, parece ser uma forma primitiva de arcadocipriota. Tabuletas de argila com grego micênico escrito em Linear B foram encontrados por uma grande área, indo de Tébas, na Grécia central, passando por Micenas e Pilos no Peloponeso, até Cnossos em Creta.Entretanto, durante o período do grego antigo, o arcadocipriota era falado apenas na Arcádia, no interior do Peloponeso e em Chipre. Os dialetos dessas duas áreas permaneceram consideravelmente similares, apesar da grande distância geográfica.

Eólico é intimamente relacionado ao arcadocipriota. Ele era originalmente falado no extremo nordeste do Peloponeso, em Tessália, Lócrida, Fócida, no sul da Etólia e na Beócia, uma região próxima de Atenas. O dialeto foi levado para a Eólia, na costa da Ásia menor e para a ilha próxima de Lesbos. No período do grego antigo, os únicos dialetos eólicos que permaneceram na Grécia foram o tessálico e beócio. Estes adotaram algumas características do dórico, uma vez que estavam localizados próximos à áreas de fala dórica, enquanto os dialetos eólio e lésbico permaneceram puros.

O beócio sofreu mudanças vocálicas similares àquelas que mais tarde ocorreriam no grego koiné, convertendo para , para , e para . Essas mudanças foram refletidas na escrita. O dialeto eólico também manteve .

O grego homérico (também chamado de épico), a forma literária do grego arcaico usada em poesia épica, na Ilíada e Odisseia, é composto principalmente por elementos jônicos e eólicos, com formas arcadocipriotas. Em sua forma original, provavelmente ele possuía a semivogal /w/, como indicado pela métrica em alguns casos. Esse som é por vezes escrito como em inscrições, porém está ausente nos textos homéricos de influência ática.

Grego Ocidental O dialeto dórico, o mais importante membro do grupo grego ocidental, originou-se na Grécia ocidental. Por meio da invasão dórica, o dialeto suplantou os dialetos nativos arcadocipriotas e eólicos de algumas áreas centrais da Grécia, no Peloponeso e em Creta, além de influenciar fortemente os dialetos tessálico e beócio do eólico.

Os dialetos dóricos são classificados de acordo com a vogal que eles recebem como resultado do alongamento compensatório e contração: aqueles que recebem são chamados "antigos" e aqueles que recebem são chamados "novos". Lacônico e cretense, falados na Lacônia, região de Esparta e em Creta são dois dialetos dóricos antigos.

Ático e Jônico Ático e jônico compartilham uma mudança vocálica não presente em nenhum outro dialeto de grego ocidental ou oriental. Ambos elevaram a vogal longa do protogrego para . Mais tarde, o ático reduziu imediatamente depois de /e, i, r/ para , diferenciando-se assim do jônico. Todos os demais dialetos do grego mantiveram a vogal original .

Jônico era falado nas regiões ao redor do Mar Egeu, incluindo Jônia, uma região da Anatólia, a partir da qual ele foi nomeado. Jônico contrasta vogais menos frequentemente do que visto em ático (veja abaixo).

O dialeto ático é a forma padrão ensinada atualmente em cursos de grego antigo, e aquele em que mais literatura foi produzida. Ele era falado em Atenas e Ática, a região circundante. O ático antigo, que foi utilizado pelo historiador Tucídides e pelos tragediógrafos, substituiu os dígrafos nativos áticos /tt e rr/ pelos dígrafos /ss e rs/ de outros dialetos. Escritores posteriores, como Platão, usaram as formas áticas puras.

Grego tardio Koiné, a forma de grego falada durante o período helenístico, se baseava originalmente no dialeto ático, com algumas influências de outros dialetos. Ele sofreu uma série de mudanças, incluindo o mudança de consoantes oclusivas para fricativas e a mudança de várias vogais e ditongos para [i] (iotacismo). No período bizantino ele evoluiu para o grego medieval, que mais tarde se tornaria o grego moderno padrão.

Tsacônio, uma forma de grego moderno mutuamente ininteligível com o grego moderno padrão, derivado dos dialetos lacônios e dóricos, é o único descendente sobrevivente de um dialeto não-ático.

Consoantes O grego ático possuía 15 (ou 17) fonemas consonantais: nove consoantes oclusivas, duas fricativas e quatro ou ou seis soantes. O grego moderno possui praticamente o mesmo número de consoantes, sendo que a principal diferença entre ambos é que o grego moderno possui fricativas sonoras e surdas que evoluíram de oclusivas sonoras e aspiradas do grego antigo.

Na tabela abaixo, estão indicados os fonemas do dialeto ático padrão e seus alofones estão entre parênteses. Os fonemas marcados com asterisco aparecem em outros dialetos ou em formas primitivas do grego, mas não são fonemas padrões do ático. +Fonemas consonantais Labial Coronal Palatal Velar Glotal Oclusiva aspirada surda sonora Nasal ( ) Fricativa surda sonora ( ) Vibrante surda ( ) sonora Aproximante surda * * sonora * *

Consoantes oclusivas

+Tríade de oclusivasoclusivas labiaisoclusivas dentaisoclusivas velares O grego antigo possuía nove oclusivas. Os gramáticos as classificavam em três grupos: surdas aspiradas, surdas não-aspiradas e sonoras. As oclusivas surdas aspiradas eram , as oclusivas surdas não-aspiradas eram e as oclusivas sonoras eram .

Fricativas O grego ático possuía apenas dois fonemas fricativos: a fricativa alveolar surda /s/ e a transição glotal surda /h/.

/h/ é frequentemente chamada de espírito áspero ou rude. O ático, em geral, o manteve, mas alguns dialetos não-áticos o perderam durante o período clássico. O espírito áspero frequentemente ocorria no início de palavras, pois geralmente era suprimido entre vogais, exceto em duas raras palavras. Além disso, quando o radical de uma palavra iniciando com /h/ era o segundo elemento de uma palavra composta, o /h/ às vezes permanecia, provavelmente dependendo do fato do falante reconhecer que a palavra era um composto. Isso pode ser visto em inscrições em ático antigo, onde /h/ era escrito usando a letra eta, que foi a fonte da letra H no alfabeto latino.

Inscrições em ático antigo

, padrão ('fiel a um juramento') , padrão ('assessor') , padrão ('estar presente')

('Eia!') ('pavão')

era uma consoante coronal sibilante surda. Era transcrito usando o símbolo para /s/ em copta e em línguas indo-arianas, como em Dianisiyasa para ('de Dionísio') em uma moeda indiana. Isso indica que o grego possuía um som abafado, ao invés de um som chiado, como o som de s em sapo, ou salto, ao invés do som de ch em chá ou achado. Antes de consoantes sonoras, ele era pronunciado com como [z].

De acordo com W.S. Allen, a letra zeta provavelmente representava o encontro consonantal /sd/ em grego ático, foneticamente [zd]. Para fins métricos, era tratado como uma consoante dupla, formando uma sílaba longa na poesia. No grego arcaico, quando a letra foi adaptada a partir do zaine fenício, o som era provavelmente uma africada [dz]. Em grego koiné, representa /z/. É mais provável que essa evolução tenha ocorrido a partir de [dz], ao invés do ático /sd/.

Ζεύς (' Zeus ') — Arcaico , ático , koiné

nos grupos /ps ks/ eram, por vezes aspirados, como e , mas nesse caso, a aspiração do primeiro elemento não era contrastiva, ou seja, nenhuma palavra distinguia , por exemplo. 

Nasais O grego antigo possuía duas nasais: a nasal bilabial /m/, escrita e a nasal alveolar /n/, escrita . Dependendo do entorno fonético, o fonema /n/ era pronunciado como . Ocasionalmente, o fonema /n/ sofria geminação, como na palavra . Geminação artificial, para fins métricos, também é ocasionalmente encontrada, como na forma , presente no primeiro verso da Odisseia de Homero.

Líquidas O grego antigo possuía as líquidas /l/ e /r/, escritas e respectivamente.

A letra lambda provavelmente representada o som lateral "claro" [l], como no grego moderno e na maioria das línguas europeias modernas, porém o som nunca é vocalizado para [u] ou [w] em final de sílaba como ocorre em algumas variantes do português brasileiro, como em alto [awtu] ou mal [maw].

A letra rho era pronunciada como um trinado alveolar [r], como em grego moderno ou como o r simples entre vogais no português brasileiro (como em caro ou barato). No início de uma palavra, era pronunciado como trinado alveolar surdo . Em alguns casos, inicial era pronunciado como geminado na poesia (fonemicamente , foneticamente ), evidenciado pelo fato de que a sílaba anterior é considerada com longa: por exemplo deve ser pronunciado como em Electra de Eurípedes, verso 772, como na peça As Rãs de Aristófanes, verso 1059, e como na Ilíada, verso 12.159.

Semivogais