A história genética da Europa é a área da arqueogenética que estuda a formação, etnogênese e outras informações genéticas específicas sobre as populações nativas da Europa.
A dispersão principal de humanos para fora da África, ocorrida há cerca de 70 mil anos, deu origem a uma linhagem distinta da dos africanos. Há cerca de anos esta linhagem primitiva ter-se-á dividido nas linhagens da Eurásia Oriental e Ocidental. Todos os humanos que habitam fora da África possuem um pouco de genética dos neandertais.
Os primeiros humanos modernos na Europa (EEMH em inglês), que viveram há entre 40 e 26 mil anos, no chamado Aurignaciano, ainda eram parte do grupo dos "Eurasiáticos Ocidentais", o qual incluía os primeiros grupos humanos da Ásia Central e do Oriente Médio. A divergência das populações eurasiáticas ocidentais ocorreu durante o Último Máximo Glacial, devido a fatores como a pressão seletiva e o efeito fundador, assim surgindo a linhagem pré-histórica da Europa Ocidental, a dos caçadores-coletores ocidentais (WHG em inglês). Estes caçadores-coletores foram substituídos com a chegada dos primeiros agricultores europeus (EEF em inglês), vindos da Anatólia.A substituição populacional no Neolítico e, novamente, na Idade do Bronze, marcou muito as populações da Grã-Bretanha. Como resultado, apenas 10% da ancestralidade das populações nativas britânicas modernas é proveniente dos WHG. Na Idade do Bronze, houve outras grandes substituições populacionais na Europa, com as migrações dos proto-indo-europeus, uma população vinda da estepe pôntica, com uma porcentagem significativa de seu material genético oriunda dos Antigos eurasiáticos do Norte (ANE em inglês), uma população da Sibéria e Ásia Central cujos descendentes diretos mais recentes são os indivíduos das Múmias de Tarim, encontrados na região chinesa de Xinjiang.
Como resultado das migrações ocorridas entre o Mesolítico e a Idade do Bronze, as populações nativas da Europa modernas se distinguem entre si por possuírem diferentes porcentagens de ancestralidade WHG, EEF e ANE.Desde Lazaridis et al. (2014), outros estudos evidenciaram o quadro de mistura entre EEF e WHG. Em uma análise de 2017 de 180 genomas antigos dos períodos Calcolítico e Neolítico da Hungria, Alemanha e Península Ibérica, foram encontradas evidências de um período prolongado de cruzamento EEF-WHG. A miscigenação ocorreu regionalmente, a partir de populações locais de caçadores-coletores, de modo que as populações das três regiões citadas eram geneticamente distinguíveis em todas as fases do Neolítico, com uma proporção gradualmente crescente de ascendência WHG de populações agrícolas ao longo do tempo. Isso sugere que, após a expansão inicial dos primeiros agricultores vindos do Oriente Próximo, não houve mais migrações de longo alcance substanciais o suficiente para homogeneizar a população agrícola, e que as populações agrícolas e de caçadores-coletores existiram lado a lado por muitos séculos, com uma mistura gradual e contínua ao longo do Quinto e Quarto milênios antes de Cristo, ao invés de um único evento de mistura no contato inicial. As taxas de miscigenação variaram de acordo com o local: no final do Neolítico, a ancestralidade WHG em agricultores na Hungria era de aproximadamente 10%, na Alemanha era de cerca de 25% e na Península Ibérica, tão alta quanto 50%. A contribuição genética dos EEF é mais significativa na Europa Mediterrânea e diminui em direção ao norte e nordeste da Europa, onde a ascendência WHG é mais forte; os sardos são a etnia europeia mais próxima dos primeiros agricultores europeus. A ascendência ANE é encontrada em toda a Europa em porcentagens reduzidas, com máximos de cerca de 20% encontrados em povos bálticos e finlandeses.
A pesquisa sobre a história genética da Europa tornou-se possível na segunda metade do século XX, mas só produziu resultados contundentes preliminares na década de 1990, ainda restritos a estudos dos haplogrupos do DNA mitocondrial e cromossomo Y. O estudo do DNA autossômico tornou-se mais acessível na década de 2000 e, desde meados da década de 2010, resultados de resolução anteriormente inatingível, muitos deles baseados em análises dos genomas antigos completos, foram publicados em ritmo acelerado.
Formação genética da Europa Devido à seleção natural, a porcentagem de DNA neandertal nos europeus arcaicos foi diminuindo gradualmente com o passar dos milênios. Há entre 45 mil anos e 7 mil anos, a porcentagem caiu de cerca de 3% a 6% para 2%. A remoção de alelos neandertais ocorreu com mais frequência em torno dos genes do que em outras partes do genoma.
Paleolítico miniaturadaimagem|295x295px|Distribuição do Homem de Neandertal, com os principais sítios arqueológicos em que foram encontrados fósseis dessa espécie. Os neandertais habitavam grande parte da Europa, Oriente Médio e Ásia Central há centenas de milhares de anos, existindo no continente europeu até aproximadamente há 30 mil anos. Eventualmente, foram substituídos pelos humanos anatomicamente modernos, que chegaram pela primeira vez à Europa há cerca de 40 mil anos. Haja vista que as duas espécies de hominídeos provavelmente coexistiram na Europa, antropólogos e arqueólogos há muito perguntam se ambas as espécies interagiram.Mesmo antes do aparecimento dos estudos genéticos, alguns antropólogos acreditavam ter descoberto esqueletos híbridos entre humanos modernos e neandertais. Esses resultados foram considerados "ambíguos". Evidências arqueológicas apontam para uma mudança abrupta de artefatos neandertais para aqueles relacionados aos humanos anatomicamente modernos durante o Paleolítico Superior. Tal questão foi solucionada apenas em 2010, quando foi descoberto que as populações da Eurásia apresentam, em média, uma porcentagem de 1,5-2,1% de genes neandertais. A partir de então, a dúvida passaria a ser se essa miscigenação ocorreu na Europa ou no Levante.
Também houve especulações sobre genes específicos que teriam sido herdados dos neandertais. Por exemplo, um locus MAPT 17q 21.3, dividido em linhagens genéticas profundas H1 e H2. Como a linhagem H2 aparenta ser restrita às populações europeias, vários pesquisadores argumentaram que esta é uma herança neandertal, o que começou em 2005. Entretanto, os resultados preliminares do sequenciamento completo do material genético dos neandertais nos anos 2000 não conseguiram detectar evidências de cruzamentos com humanos modernos. Em 2010, as descobertas de Svante Pääbo (Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva), Richard E. Green (Universidade da Califórnia em Santa Cruz) e David Reich (Escola de Medicina Harvard), feitas por meio da comparação do material genético dos ossos de três neandertais com o de cinco humanos modernos, mostraram uma relação entre neandertais e humanos modernos fora da África. miniaturadaimagem|293x293px|Expansão dos humanos modernos para fora da África e substituição dos neandertais
Paleolítico Superior Acredita-se que os humanos modernos começaram a habitar a Europa a partir de há 40 mil anos, no Paleolítico Superior. Algumas evidências mostram a disseminação da cultura Aurignaciana.
De uma perspectiva dos haplogrupos do cromossomo Y, possivelmente os antigos haplogrupos C1a2, F e/ou E são aqueles cuja presença na Europa é mais antiga, visto que foram encontrados em alguns restos humanos bastante antigos. Entretanto, outros haplogrupos são muito mais comuns entre os homens europeus modernos devido às mudanças demográficas posteriores.
O haplogrupo I (M170), atualmente relativamente comum e difundido na Europa, pode representar um marcador do Paleolítico, pois sua idade foi estimada em 22 mil anos. Embora hoje esteja concentrado na Europa, provavelmente surgiu na região do Oriente Médio ou do Cáucaso, quando divergiu de seu ancestral imediato, o haplogrupo IJ. Nessa mesma época, também surgiu a Cultura Gravetiana. Observação: Os nomes dos haplogrupos estão grafados diferentes neste artigo científico. Por exemplo: o haplogrupo I é referido como "M170".
Pesquisas mais antigas sobre o DNA do cromossomo Y se concentram no haplogrupo R1 (M173), o mais numeroso entre os homens europeus atuais. Acredita-se que tenha surgido há aproximadamente 40 mil anos na Ásia Central. Observação: Os nomes dos haplogrupos estão grafados diferentes neste artigo científico. Por exemplo: o haplogrupo I é referido como "M170". Apesar disso, atualmente estima-se que R1 surgiu mais recentemente: um estudo de 2008 datou ancestral comum mais recente do haplogrupo IJ há 38500 anos e do haplogrupo R1 há 18 mil anos. Isso sugere que os colonos do haplogrupo IJ formaram a primeira onda e o haplogrupo R1 chegou muito mais tarde.
Dessa forma, os dados genéticos sugerem que, do ponto de vista da ascendência patrilinear, grupos de humanos modernos distintos tomaram duas rotas distintas para a Europa: uma, da região do Oriente Próximo para os Balcãs e outra, da Ásia Central pela estepe eurasiática.
Foi descoberto por Martin Richards et al. que entre 15 e 40% das linhagens de DNA mitocondrial existentes remontam às migrações paleolíticas, o que depende da existência de vários eventos fundadores. O haplogrupo mitocondrial U5, datado de há 40 a 50 mil anos, chegou ao continente durante a primeira onda colonização. ainda no Paleolítico Superior, sendo responsável por 5 a 15% do total de linhagens do DNA mitocondrial. Os movimentos do UP médio são marcados pelos haplogrupos HV, I e U4. HV dividiu-se em Pré-V (cerca de 26 mil anos) e o ramo maior H, ambos dispersos pela Europa, possivelmente através de contatos durante o Gravetiano. Observação: Os nomes dos haplogrupos estão grafados diferentes neste artigo científico. Por exemplo: o haplogrupo I é referido como "M170".
O Haplogrupo H do DNA mitocondrial é responsável por aproximadamente metade das linhas de genes na Europa, com muitos subgrupos. As linhagens mitocondriais acima ou seus percussores chegaram teriam chegado à Europa através do Oriente Médio. Isso contrasta com a evidência do cromossomo Y, visto que em torno de 50% das linhagens masculinas são caracterizadas pela superfamília R1, oriundas provavelmente da Ásia Central. Ornella Semino postula que essas diferenças "podem ser parcialmente devido à idade molecular aparente mais recente dos cromossomos Y em relação a outros loci, o que sugere uma substituição mais rápidas dos haplogrupos anteriores de cromossomo Y. Migrações diferenciadas baseadas em gênero também influenciaram os padrões observados em variação dos haplogrupos do DNA mitocondrial e cromossomo Y.
Último Máximo Glacial O Último Máximo Glacial se iniciou há cerca de 32 mil anos, levando ao despovoamento das regiões mais ao norte da Europa por causa do clima mais frio. Com isso, os humanos se refugiaram no norte da Península Ibérica e sudoeste da França, Balcãs, Península Itálica e a região costeira do Mar Negro que vai até a atual Ucrânia. Observação: Os nomes dos haplogrupos estão grafados diferentes neste artigo científico. Por exemplo: o haplogrupo I é referido como "M170".
Este fato diminuiu a diversidade genética na Europa, sendo um "resultado da deriva, consistente com um gargalo populacional inferido durante o Último Máximo Glacial". Ao passo que as geleiras derretiam há entre 16 e 13 mil anos, as regiões mais ao norte da Europa foram sendo gradualmente repovoadas por pessoas vindas das regiões de refúgio mais ao sul. Observação: Os nomes dos haplogrupos estão grafados diferentes neste artigo científico. Por exemplo: o haplogrupo I é referido como "M170".