Sônia Andrade (Rio de Janeiro, 1935 - Rio de Janeiro, 29 de outubro de 2022) foi uma multiartista e pioneira da videoarte no Brasil. Suas produções incluem vários meios e experimentações: desenho, escrita, apropriação de objetos, fotografia, arte-correio, projeção de imagens, instalações, entre outros.

Como ela mesma afirma, não foi especialista em nada, embora tenha experimentado vários meios, e afirmava também não ter o controle sobre o processo de realização de seus trabalhos, que não eram projetados. O único estudo que fez seriamente foi a caligrafia chinesa.

Suas obras apresentam e discutem as relações entre a produção, a circulação, recepção e comercialização da arte, sendo dessa forma bastante política. Embora seja frequentemente associada ao movimento feminista, a artista afirma que nunca foi uma bandeira levantada em suas obras.

Educação e Carreira Sônia Andrade não teve formação específica em artes, e só começou a produzir aos quarenta anos.

Educação 1972 – Começa a formação artística frequentando o ateliê de pintura de Maria Tereza Vieira.

1973 – No final deste ano frequenta as aulas de Anna Bella Geiger, em seu ateliê, indicada por Ivens Machado.

1974 a 1976 – Juntamente com Fernando Cocchiarale forma um grupo composto por Ana Vitoria Mussi, Anna Bella Geiger, Leticia Parente, Miriam Danowski, Ivens Machado e Paulo Herkenhoff. Este grupo se reunia semanalmente. Segundo Sônia afirma, havia total liberdade de criação e os integrantes usavam os meios que queriam usar. Levavam os trabalhos a Anna Bella Geiger, professora de todos, que fazia a crítica. Em uma entrevista Sônia afirma que Anna Bella Geiger, Ivens Machado, Fernando Cocchiarale e ela própria fizeram os primeiros vídeos no Brasil em 1974, no Rio de Janeiro, sendo que em São Paulo só começaram em 1977. Só tinham uma câmera emprestada por Tom Tob Azulay sem ilha de edição, mas fizeram vídeos poéticos e críticos, ainda muito atuais. Este grupo estava numa via diferente da corrente inaugurada pela nova objetividade brasileira (1967).

1978 – Passa a morar entre o Rio de Janeiro e Paris, onde estuda caligrafia chinesa com o mestre Ung No Lee, americano de origem coreana. Ela afirma que esta foi a experiência mais importante que teve.

1986 a 1998 – Muda-se para Zurique com seu segundo marido, onde continua os estudos de caligrafia com a mestra Suishô Tomoko Arii, com a qual diz ter desenvolvido a disciplina necessária para a caligrafia.  Durante este tempo sempre viveu entre o Rio de Janeiro e Zurique.

Carreira Começou tardiamente sua carreira já com cerca de 40 anos. Seu primeiro trabalho foi uma instalação no Museu de Arte Moderna do RJ em 1975. É um conjunto de desenho sobre papel japonês, com as letras do alfabeto, os sinais de pontuação e em neón os 3 acentos da língua portuguesa. Ela usou as 3 letras que haviam sido retiradas do alfabeto (k,w e y) por decisão do governo Getúlio Vargas, que não queria estrangeirismos no alfabeto.

Muitos dos primeiros vídeos de Andrade a mostram realizando ações desajeitadas e dolorosas para invocar reflexões sobre práticas de tortura empregadas pelo governo brasileiro durante a ditadura. Por exemplo, Primeira Seria, uma 'primeira série' de vídeos filmados por Andrade no Rio e em São Paulo apresentou imagens de televisão de Andrade enrolando um fio de náilon no rosto até o desfigurar e tentando se movimentar com os membros e a cabeça presos em gaiolas de pássaros. Esta série é interpretada como crítica ao uso da televisão como ferramenta de condicionamento, um eco da autoridade do regime político.

Em 1974 soube, através de Anna Bella Geiger, que Walter Zanini estava convidando artistas com trabalhos em vídeo para uma exposição de videoarte nos EUA e logo fez seus primeiros vídeos. Entre 1974 a 1977 fez cerca de 8 vídeos. Todos são Sem Título. Quase todos os vídeos da década de 70 e de 80 foram filmados no espaço doméstico, e é a própria artista quem protagoniza as performances. Usou a  câmera sobre tripé sem edição. O fato de usar o corpo, segundo ela, é porque queria ter a possibilidade de colocar diretamente em ação o pensamento. Segundo ela, "Para mim, era um corpo, meu corpo". Sônia foi entre os artistas pioneiros da videoarte a que mais confrontaria a potência midiática da televisão. Durante toda a ditadura no Brasil a televisão teve um papel importante na construção de uma “imagem” que se queria do Brasil. Ela discute e critica este poder que invadia o cotidiano das pessoas e determinava o olhar das pessoas.

A crítica de Andrade à mídia e à televisão também fez parte dos seus primeiros filmes. Em Sem título (1975), Andrade estava sentada em uma mesa comendo uma refeição tradicional brasileira de feijão preto, porco curado, e salsichas enquanto um aparelho de televisão difundia uma série de comédia americana e publicidades no fundo. O cenário bastante cotidiano de repente toma um rumo obscuro quando o desprezo desperta dentro do artista. A televisão, antes inofensiva, torna-se fonte de miséria e opressão, e a artista começa a borrar a sua cabeça com os feijões. Em seguida, ela as empurra na sua boca com a mão, esfrega-os nos olhos, nas orelhas, e dentro das roupas. Finalmente, Andrade joga os feijões para a lente da câmara até obliterar completamente a cena. Em Sem título (1977), Andrade aparece frente a quatro televisões e as liga uma por uma. Em seguida, ela fala diretamente com o público repetindo "desliga a televisão" por mais de dez minutos para destacar a passividade dos telespectadores.

Obras

Conjunto de 8 vídeos - 1974 - 1977 Neste conjunto de vídeos é possível ver a artista com seu corpo sendo colocado em destaque frente à televisão, no qual envolve seu rosto com arames. Vemos neste trabalho o corpo sendo diminuído por uma televisão que censura e que é autoritária devido ao contexto da época da ditadura militar. Num outro vídeo a artista tenta entrar dentro de várias gaiolas, resultando num processo difícil.

Em 1975 começou um projeto com cartões postais europeus, que eram de seu tio Ayres de Andrade Junior, musicólogo e crítico que fundou a Sala Cecília Meireles no RJ. Consistia em enviar para galerias cópias dos postais para vários endereços aleatórios das cidades originais dos postais, e pedia como resposta um cartão atual com a mesma vista do cartão. Era um projeto para a Dokumenta de Kassel, que foi recusado, mas só obteve respostas da Suíça.

Hydragrammas - 1978 - 1993 É uma coleção de 106 objetos coletados pela artista ao longo de 16 anos. Objetos encontrados na rua, no estúdio. Cada objeto é documentado com uma fotografia de arquivo, justaposto a uma palavra escolhida pela artista para realçar algum sentido ou pensamento. A produção de hydragrammas foi feita simultaneamente com outros conjuntos e subconjuntos.

Por volta de 1994, Sônia adquiriu uma coletânea de poemas do escritor inglês John Donne e abriu uma página ao acaso, onde começava o poema SONG. Logo o primeiro verso "Go and catch a falling star" (vá, e agarre uma estrela cadente) a inspirou para uma série de vídeo-instalações. São cristais e drusas, iluminadas por uma luz eletrônica de vídeos, cada uma acompanhada de um verso de John Donne.

Exposições Individuais

2019 — O lugar a que se volta é sempre outro - Galeria Athena - Rio de Janeiro, Brasil ... às contas - Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro - Rio de Janeiro, Brasil

2017 — Sonia Andrade: Cristais, Pedras e Vídeos - Galeria Marcelo Guarnieri - São Paulo, Brasil

2011 — Retrospectiva: 1974-1993 - Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica – Rio de Janeiro, Brasil

2010 — Sonia Andrade: Vídeos - Oi Futuro Flamengo – Rio de Janeiro, Brasil

2008 — Vídeo Instalação Sem título - Galeria Tempo - Rio de Janeiro, Brasil

2005 — Vídeo Instalação Sem Título [Conjunto de cinco vídeo instalações] - Centro Cultural Banco do Brasil - Rio de Janeiro, Brasil

2004 — Vídeo Instalação Sem título [Conjunto de oito vídeo instalações] - Cavalariças - Escola de Artes Visuais do Parque Lage - Rio de Janeiro, Brasil

2001 — Vídeo Instalação Sem Título - Paço Imperial, Ateliê Finep - Rio de Janeiro, Brasil

1999 — Vídeo instalações: Olimpo, Périplo, Apolo, Vênus e Noturno - Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro - Rio de Janeiro, Brasil

1998 — Vídeo instalação, Noturno - Fundação Nacional de Arte - Rio de Janeiro, Brasil

1994 — Hydragrammas - Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo - São Paulo, Brasil

1993 — Hydragrammas - Museu Nacional de Belas Artes - Rio de Janeiro, Brasil

1984 — Situações Negativas: o passo, o salto, a queda, a marcha, o veículo, o repouso, o passeio, inverso - Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro - Rio de Janeiro, Brasil

1980 — Situações Negativas: o passo, o salto, a queda - Espaço Arte Brasileira Contemporânea da Fundação Nacional de Arte - Rio de Janeiro, Brasil

1978 — A Caça - Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro - Rio de Janeiro, Brasil

1977 — 8 Vídeos de Sonia Andrade - Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo - São Paulo, Brasil

1976 — Sem título - Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro - Rio de Janeiro, Brasil

Exposições Coletivas 2020

Pinacoteca: Acervo - Pinacoteca do Estado de São Paulo - São Paulo, Brasil

2019

Filmes e Vídeos de Artistas na Coleção Itaú Cultural - Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro - Rio de Janeiro, Brasil

FEMINISMS! - Centre de Cultura Contemporània de Barcelona (CCCB) - Barcelona, Espanha Novos Meios e Conceitualismo nos Anos 70 - Galeria Superfície - São Paulo, Brasil

2018

Feminist Avant-garde /Art of the 1970s / SAMMLUNG VERBUND Collection, Vienna - The Brno House of Arts - Brno, República Checa

Identity and Alterity: Shifting Representations - Kanal: Centre Pompidou - Bruxelas, Bélgica WOMAN: The Feminist Avant-Garde of the 1970’s - Stavanger Art Museum - Stavanger, Noruega

2017

Coletiva - Galeria Marcelo Guarnieri - São Paulo, Brasil

Pacific Standard Time LA/LA – Video Art in Latin America - LAXART - Los Angeles, E.U.A.

32ª Bienal de São Paulo: Incerteza Viva (itinerância) - Museu de Arte Contemporânea de Serralves - Porto, Portugal Modos de Ver o Brasil: Itaú Cultural 30 Anos - Oca, Parque Ibirapuera - São Paulo, Brasil Video Art in Latin America: Selections from Brazil. Rubell Family Collection, Miami, E.U.A.

2016

Video Art in Latin America: Selections from Brazil - Rubell Family Collection - Miami, E.U.A.

Dissonance, Vídeo Art - Getty Center - Los Angeles, E.U.A. Performed Revised - Kerstin Engholm Gallery - Viena, Áustria 32ª Bienal de São Paulo: INCERTEZA VIVA - Pavilhão Ciccillo Matarazzo - São Paulo, Brasil

2015

Resistente Performed - Migros Museum fur Gegenwartkunst - Zurique, Alemanha

2013

Elles: Mulheres Artistas na Coleção do Centro Pompidou - Centro Cultural Banco do Brasil - Rio de Janeiro, Brasil

Elles: Mulheres Artistas na Coleção do Centro Pompidou - Centro Cultural Banco do Brasil - Belo Horizonte, Brasil

2012-2013

Elles: Mulheres Artistas na Coleção do Centro Pompidou - Seattle Art Museum - Seattle, E.U.A.

2011

Video, an Art, an History: 1965-2010 - Singapore Art Museum - Singapura

2010

Selected from the Centre Pompidou: New Media Collection - Herzlyia Museum of Contemporary Art - Telavive, Israel

Arquivo Geral - Centro Municipal Hélio Oiticica - Rio de Janeiro, Brasil

2009

Elles@centrepompidou - Musée National d’Art Moderne/Centre National de Création Industrielle - Paris, França

2008

Preparações e Tarefas - Caixa Cultural - Ceará, Brasil

VIDÉO – Un art, une histoire – 1965/2007 - Musée Fabre - Montpellier, França WACK! Art and the Feminist Revolution - PS1 Contemporary Art Center - Nova Iorque, E.U.A. WACK! Art and the Feminist Revolution - National Museum of Women in the Arts - Washington D.C., E.U.A. WACK! Art and the Feminist Revolution - Vancouver Art Gallery - Vancouver, Canadá

2007

WACK! Art and the Feminist Revolution - The Museum of Contemporary Art - Los Angeles, E.U.A.