Dom Fernando II (nome pessoal em alemão: Ferdinand August Franz Anton von Sachsen-Coburg-Gotha; – ), também conhecido como Fernando de Saxe-Coburgo-Gota, e apelidado de Rei Artista, foi o segundo marido da rainha D. Maria II e Príncipe Consorte de Portugal, de 1836 até 1837, altura em que se tornou Rei de Portugal e Algarves por direito de sua esposa. Era filho de Fernando de Saxe-Coburgo-Gota e Maria Antónia de Koháry.
De acordo com a lei portuguesa, D. Fernando só se tornou rei após o nascimento de seu primeiro filho, o príncipe D. Pedro, em 1837. O reinado de D. Fernando como marido da rainha D. Maria II terminou com a morte desta, em 1853, mas ele atuou como regente de seu filho e sucessor até 1855.
Mesmo após a morte de D. Maria II e a sucessão de seus filhos, primeiro D. Pedro V e posteriormente D. Luís I, D. Fernando manteve o estilo e o título de rei. Durante os reinados de seus filhos, ele continuou a desempenhar um papel relevante dentro da monarquia portuguesa.
Nascimento e família miniatura|esquerda|220px|Fernando (à esquerda) com seu irmão Augusto, enquanto crianças, por Wilhelm August Rieder, 1824. Na Royal Collection. Fernando nasceu em 29 de outubro de 1816, filho do príncipe Fernando Jorge Augusto de Saxe-Coburgo-Gota e da princesa Maria Antónia Gabriela, filha do príncipe de Koháry, da Hungria. Como todos os príncipes de Coburgo, dizia-se que Fernando se destacava por sua bela aparência.Menzel, Wolfgang (1843). Geschichte der Deutschen bis auf die neuesten Tage (em alemão). Cotta, p. 1225.
Educado nos princípios liberais de seu pai e especialmente orientado por seu tio, Leopoldo I, rei dos belgas, Fernando possuía a formação e as qualidades consideradas adequadas para ser esposo de uma rainha constitucional, apto a lidar com os desafios políticos do período, incluindo a necessidade de conciliar os diferentes interesses e ambições das facções políticas e dos aliados da monarquia.
Casamento Antecedentes miniatura|220px|Rainha D. Maria II em 1829, por Thomas Lawrence. Na Royal Collection. Em 24 de setembro de 1834, faleceu Pedro, duque de Bragança e pai da rainha D. Maria II de Portugal, encontrando-se sua saúde profundamente debilitada em decorrência da Guerra Civil Portuguesa, travada contra seu irmão, D. Miguel. Poucos dias antes, em 18 de setembro de 1834, o Parlamento de Portugal havia aprovado a maioridade de D. Maria II, que passou a reinar sem a presença de um regente. A partir de então, o governo passou a tratar com grande seriedade da questão do casamento da rainha. O noivo escolhido foi o príncipe Augusto de Beauharnais, irmão da duquesa-viúva de Bragança, então com apenas vinte e quatro anos de idade. Augusto chegou ao rio Tejo em 25 de janeiro de 1835 e, no dia seguinte, realizou-se a cerimônia de seu casamento com a rainha. O príncipe foi nomeado marechal-general e comandante-chefe do Exército. No mês de março seguinte, adoeceu gravemente e, no dia 29 do mesmo mês, faleceu.
O governo tratou, com a maior brevidade, do segundo casamento da rainha, questão em torno da qual havia consenso entre todos os partidos. A questão da sucessão ao trono impunha essa decisão, e a escolha do consorte recaiu sobre o príncipe Fernando, da Casa de Saxe-Coburgo-Gota. A convenção matrimonial foi assinada em Coburgo, em 1 de dezembro de 1835, pelos seguintes comissários: o conde de Lavradio, em nome da rainha D. Maria II; o barão von Carlowitz, representando o duque soberano de Saxe-Coburgo-Gota; e o barão von Stockmar, em nome do príncipe Fernando e de seu pai homônimo.
A convenção continha cinco artigos:
O primeiro estabelecia que o casamento seria celebrado em Lisboa, segundo o rito da religião católica apostólica romana. O segundo determinava que, logo após a celebração do matrimônio, o príncipe Fernando receberia da nação a quantia anual de 500 mil réis, a título de dotação. O terceiro dispunha que, caso o príncipe sobrevivesse à rainha, conservaria essa dotação por toda a vida, com direito à habitação em um palácio da Coroa, desde que permanecesse no país; caso se retirasse para o estrangeiro, a dotação seria reduzida à metade, correspondendo a 250 mil réis anuais. O quarto artigo estabelecia que o príncipe teria plena, inteira e livre disposição de seus bens, tanto patrimoniais quanto aqueles adquiridos antes ou depois do casamento. Por fim, o quinto determinava que os príncipes ou princesas nascidos desse matrimônio não poderiam sair do reino sem autorização das Cortes, nem contrair casamento sem permissão especial da rainha, e, após o falecimento desta, sem o consentimento do chefe da Casa reinante em Portugal.
Cerimônia No dia 1 de janeiro de 1836, nove meses e dois dias após a morte do príncipe Augusto, a rainha D. Maria II contraiu casamento por procuração com o príncipe Fernando.
No dia 2 de janeiro, a rainha assinou o respectivo decreto, nomeando o príncipe Fernando marechal-general do Exército português e coronel honorário do Batalhão de Caçadores n.º 5, posto anteriormente exercido pelo falecido duque de Bragança, em homenagem ao referido batalhão.
Em 20 de fevereiro, foi publicado o ceremonial dos festejos relativos à chegada do príncipe, estabelecendo-se dias de gala não apenas para a sua chegada, mas também para os eventos subsequentes. As tropas deveriam formar em alas desde o ponto de desembarque no Arsenal da Marinha até o Paço das Necessidades.
Chegada em Portugal O vapor Manchester, que conduzia a bordo o príncipe Fernando, acompanhado do conde de Lavradio, entrou no Tejo em 8 de abril de 1836, desembarcando o príncipe pouco depois no Arsenal e dirigindo-se ao Paço das Necessidades, onde chegou às três horas e quinze minutos da tarde, retornando ao vapor perto das oito horas. No dia seguinte, 9 de abril, realizou-se a cerimônia do casamento presencial na Sé de Lisboa, observando-se todas as disposições do programa de 20 de fevereiro, em meio ao grande entusiasmo público. O príncipe contava apenas dezenove anos, cinco meses e oito dias quando desposou D. Maria II. O casal real recolheu-se ao Paço por volta das cinco horas da tarde, assistindo ao jantar da corte a duquesa de Bragança, as infantas D. Isabel Maria e D. Ana de Jesus Maria, o duque de Palmela e o duque da Terceira, e os ministros do Reino, da Guerra e dos Estrangeiros.
Príncipe Consorte A tendência de interesse social do príncipe D. Fernando manifestou-se já nos primeiros dias após sua chegada, ao informar-se sobre tudo o que dizia respeito à educação de crianças desamparadas e aos estabelecimentos de assistência. Em 15 de abril, os reais esposos visitaram a Casa Pia, onde o príncipe examinou minuciosamente as condições do estabelecimento, inscrevendo-se espontaneamente como seu protetor e contribuindo com uma quantia significativa para auxiliar nas despesas com os órfãos.
Por carta régia e decreto de 30 de abril de 1836, o príncipe D. Fernando assumiu o comando em chefe do Exército.
Em 4 de maio de 1836, foi eleito presidente da Academia Real das Ciências.
Reinado com Maria II miniatura|esquerda|D. Fernando no interior do Palácio da Ajuda, por Ferdinand Krumholz, 1845. De acordo com a lei portuguesa, enquanto marido da rainha reinante, D. Fernando só poderia receber o título de rei após o nascimento do primeiro herdeiro. Assim, manteve o título de príncipe consorte até o nascimento do futuro D. Pedro V, em 1837.
D. Fernando evitou envolver-se no panorama político, preferindo dedicar-se às artes. Por ocasião da fundação da Academia de Belas-Artes de Lisboa em 25 de outubro de 1836, D. Fernando e a rainha declaram-se seus protectores.
Após uma visita ao Mosteiro da Batalha (que se encontrava abandonado, depois da extinção das ordens religiosas), D. Fernando passa a dedicar parte das suas preocupações às causas de cariz nacionalista, como a protecção do património arquitectónico português edificado, tendo também impulsionado aspectos culturais e financeiros, a par do estímulo à acção desenvolvida por sociedades eruditas, como projectos de restauração e manutenção respeitantes não só à vila da Batalha, mas também ao Convento de Mafra, Convento de Cristo, em Tomar, ao Mosteiro dos Jerónimos, Sé de Lisboa, e Torre de Belém..
Como amante de pintura que era, colaborou com algumas gravuras de sua autoria, na Revista Contemporânea de Portugal e Brasil (1859-1865)..
Regência miniatura|220px|D. Fernando, rei regente de Portugal, 1854. Em 15 de novembro de 1853, após o falecimento de sua esposa, D. Fernando assumiu a regência por um período de dois anos, até que o príncipe herdeiro, D. Pedro, alcançasse a maioridade, o que ocorreu em 17 de setembro de 1855.
Tronos grego e espanhol D. Fernando recusou o trono da Grécia que lhe foi oferecido em 1862, assim como o da Espanha que lhe foi proposto em 1869. A eventual união com a Espanha sob uma única casa reinante já havia suscitado intenso descontentamento entre a população portuguesa e, por essa razão, foi firmemente rejeitada.
Segundo casamento miniatura|esquerda|D. Fernando II ao lado de sua segunda esposa, Elise Hensler, 1882. Em 10 de junho de 1869, o rei D. Fernando contraiu segundas núpcias com a Elise Hensler, titulada condessa de Edla. A cerimónia do casamento realizou-se na capela particular do Paço de Benfica, residência habitual da infanta D. Isabel Maria, outrora regente de Portugal. A infanta foi madrinha do casamento do rei D. Fernando, tendo como padrinho o príncipe de Saxe-Altemburgo.
Morte Desde os sessenta anos que D. Fernando sofria de um cancro facial que o desfigurou bastante, mantendo-o afastado da vida pública. Em 12 de dezembro de 1885, devido à visão dupla provocada pelo tumor, no intervalo de uma ópera, tropeçou ao descer as escadas para o vestíbulo no Teatro de São Carlos, batendo violentamente com a cabeça contra a parede. Ficou em coma e morreu três dias depois. No seu testamento, deixou quase todos os seus bens à viúva, o que provocou uma comoção pública..
O seu corpo jaz ao lado do de D. Maria II, sua primeira esposa, no Panteão Real da Dinastia de Bragança, no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa.
Honras miniatura|220px|D. Fernando ostentando a Banda das Três Ordens. miniatura|140px|Monograma real de D. Fernando. Portuguesas:Staatshandbuch für die Herzogthümer Sachsen-Coburg und Gotha (1865). "Genealogie des Herzogliche Hauses", p. 10. Gotha: Thienemann. Grã-Cruz da Banda das Três Ordens, 9 de dezembro de 1835 – presente de casamento de sua noiva, D. Maria II. Grã-Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada Grã-Cruz da Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa Medalha de Serviços Distintos
Estrangeiras:
: Grã-Cruz da Ordem de Santo Estêvão, 1843"A Szent István Rend tagjai" . : Grande Cordão da Ordem de Leopoldo, 15 de julho de 1835. : Grã-Cruz da Ordem do Cruzeiro do Sul Grã-Cruz da Imperial Ordem de Pedro Primeiro Grã-Cruz da Imperial Ordem da Rosa : Cavaleiro da Ordem do Elefante, 12 de abril de 1841. Ducados ernestinos: Grã-Cruz da Ordem da Casa Ernestina da Saxônia, dezembro de 1835Staatshandbücher ... Sachsen-Coburg und Gotha (1837), "Herzogliche Sachsen-Ernestinischer Hausorden" p. 13. : Grã-Cruz da Legião de Honra : Grã-Cruz da Ordem do Leão Neerlandês
Grã-Cruz da Ordem da Águia Negra, 11 de janeiro de 1845 (com Colar em 1862). Grã-Cruz da Ordem da Águia Vermelha :. Cavaleiro da Ordem de Santo André, setembro de 1850 Cavaleiro da Ordem de Santo Alexandre Nevsky, setembro de 1850 Cavaleiro da Ordem da Águia Branca, setembro de 1850 Cavaleiro da Ordem de Santa Ana (Primeira Classe), setembro de 1850 : Grã-Cruz da Ordem da Anunciação, 16 de agosto de 1849. Grã-Cruz da Ordem dos Santos Maurício e Lázaro, 1849 : Cavaleiro da Ordem da Coroa de Arruda, 1840Staatshandbuch für den Freistaat Sachsen (1863) (in German), "Königliche Ritter-Orden", p. 4. Grã-Cruz da Ordem Militar de Santo Henrique : Cavaleiro da Ordem do Tosão de Ouro, 16 de outubro de 1838.