Joseph Vladimirovich (Volfovich) Trumpeldor (; , ; 21 de novembro de 1880 – 1 de março de 1920) foi um ativista sionista que ajudou a organizar o Zion Mule Corps e a trazer imigrantes judeus para a Palestina. Trumpeldor morreu defendendo a aldeia de Tel Hai em 1920 e assim tornou-se um herói nacional.

Joseph Trumpeldor nasceu em Piatigorsk, no norte do Cáucaso do Império Russo, e foi o quarto dos sete filhos de Wulf e Fedosia Trumpeldor. Seu pai nasceu na Polônia e serviu como cantonista na Guerra do Cáucaso e, como um "judeu útil", foi autorizado a viver fora da Zona de assentamento judeu na Rússia. Sua mãe era cristã ortodoxa. Sua família mudou-se quando ele era bem jovem, tendo passado a maior parte de sua criação na Rostóvia do Dom. A educação de Trumpeldor foi mais russa do que tradicionalmente judaica. Em casa, falavam russo, e não iídiche, que era mais comum entre os judeus do país. Venerava a literatura russa e, por influência de Tolstói, adotou o vegetarianismo e o pacifismo. Ainda assim, teve seis meses de educação religiosa judaica, até ingressar na escola municipal da Rostóvia, onde teve bom desempenho e chegou a passar no exame de admissão para o ensino médio, mas foi impedido de entrar por uma regra, a Numerus Clausus que fixava a cota judaica, limitando o número de judeus que poderiam ingressar em escolas russas, conforme a região. Mais tarde, ao lembrar do episódio, escreveria:

Na mesma época, recebeu com preocupação as notícias de ataques antissemitas (pogroms) acontecendo ao redor da Rússia e em 1897, inspirado pelo discurso de Theodor Herzl no Primeiro Congresso Sionista, chegou a formar um grupo informal de jovens sionistas em sua cidade, que presidiu enquanto estudava em sua cidade. Seguiu os passos de seu irmão e recebeu o diploma técnico em odontologia em 1900.

Em 1902, durante uma convocação militar, considerou declarar objeção de consciência para escapar do serviço obrigatório em razão de seu pacifismo, como muitos judeus faziam. Entretanto, temendo alimentar a ideia de que judeus seriam covardes, mudou de ideia e se alistou no exército russo.

Guerra Russo-Japonesa

Inicialmente, foi inscrito no 76° Regimento de Infantaria, cuja base seria na cidade de Tulchyn. Mas Trumpeldor pediu para servir na Manchúria onde o conflito com o Japão era iminente. Foi designado para o 27° Regimento de Infantaria da Sibéria, um destacamento que guardava as bases navais de Dalian e Port Arthur. Em agosto de 1904, tem início o cerco de Port Arthur, a batalha mais violenta da Guerra Russo-Japonesa, e Trumpeldor pediu para tomar parte na unidade de elite, que recebia as tarefas mais perigosas. Quando o comandante da unidade declarou que ali não haveria traidores, pois não havia judeus, Trumpeldor declarou publicamente sua religião, e nos dias seguintes conquistou o respeito da unidade pelas suas ações na batalha. No dia 20, Trumpeldor foi atingindo por estilhaços e seu braço precisou ser amputado. Depois de passar cem dias no hospital se recuperando, foi liberado do serviço mas pediu por voltar à batalha, requisitando uma pistola e uma espada. Quando foi questionado sobre as suas decisões e informado de que foi fortemente aconselhado a não continuar a lutar devido à sua deficiência, respondeu "mas ainda tenho outro braço para dar à pátria". Foi promovido a cabo e recebeu o comando do 3° pelotão. A um amigo, ainda teria dito: "isso não é nada, você verá como trabalharemos nos campos da Terra de Israel".

thumb|esquerda|Joseph Trumpeldor em cativeiro japonês, c. 1905. Trumpeldor enviou esta foto do cativeiro para seus pais. Acima dele está uma placa da sociedade de prisioneiros judeus que ele ajudou a fundar. Em 2 de janeiro de 1905, Port Arthur se rendeu e Trumpeldor foi levado para dois campos provisórios até que em 1 de fevereiro de 1905 chegou no campo de prisioneiros de Takaishi, nos arredores de Osaka, no Japão. Ele era um dos 1739 prisioneiros judeus no local, e lá permaneceu durante um ano. Os japoneses tratavam bem os prisioneiros e Trumpeldor até recebeu uma prótese para o braço. Ajudou a fundar uma sociedade sionista com 125 membros, que batizou de "Bne Zion Hashevuyim beYapan" ("Filhos de Sião presos no Japão"). O grupo montou uma escola, uma biblioteca, uma agência de empréstimos, um grupo de teatro e um jornal semanal, que veio a ser o primeiro jornal judeu publicado no Japão. Joseph passava seu tempo escrevendo sobre assuntos judaicos para o jornal e organizando aulas de história, geografia e literatura. Ele também fez amizade com vários prisioneiros que partilhavam o seu desejo de fundar uma fazenda comunitária na Palestina. Ao sair do cativeiro, encontrou-se pessoalmente com o Imperador do Japão, que quis conhecer o homem que organizava tão bem os prisioneiros de guerra.

Foi libertado em 23 de dezembro de 1905, e partiu no navio Mongolia para Vladivostok e de lá para a cidade de Harbin, na Manchúria, onde permaneceu por alguns meses. A cidade tinha uma população significativa de judeus. Trumpeldor conversou com eles, explicou o sionismo e os assentamentos judeus na Terra de Israel, e o movimentos HeHalutz, que preparava futuros pioneiros para a vida agrícola na Palestina. Os judeus locais o ouviram com empatia, mas sem muito entusiasmo e não houve adesão à sua proposta.

Voltou à Rússia, e se apresentou em São Petersburgo em 24 de março de 1906, recebendo quatro condecorações por bravura, incluindo a Cruz de São Jorge, o que fez dele o soldado judeu mais condecorado da Rússia. Apesar da perda do braço, foi promovido a oficial da reserva, com a patente de praporshchik. É possível que ele tenha sido o único oficial judeu do exército czarista. Também recebeu convite para seguir a carreira militar, para a qual tinha também o apoio da família e de seus subordinados. Mas ele não se impressionou com toda a comoção ao seu redor e recusou a oferta.

Aliá

Convicto da ideia de fundar uma fazenda comunitária na Palestina, Trumpeldor começou a se preparar para a aliá, fundando o capítulo russo do HeHalutz. Estava determinado a fazer qualquer atividade necessária para concretizar o sonho. Em um diálogo com Jabotinski, teria dito:

Naquele mesmo ano de 1906, terminou os exames do ensino médio e entrou na faculdade de direito para apoiar a ideia, pois achava que algum conhecimento de leis poderia ser necessário para o estabelecimento das propriedades agrícolas. Ele se mantinha com uma pequena pensão militar e com aulas particulares que ministrava. Em 1908, começou um relacionamento amoroso com uma de suas alunas, Lisa Gashlin. Aos fins de semana, ia para uma fazenda comunitária nos arredores da cidade para aprender a trabalhar no campo.

Em 1911, terminou o curso de direito e começou a articular a sua imigração. Iniciou correspondência com Zvi (Grisha) Schatz, outro judeu russo que já havia se estabelecido na Palestina. Em agosto, aproveitou uma viagem de Schatz para sua cidade natal e lá organizou uma conferência, na qual Schatz compartilhou sua experiência sionista com um pequeno grupo de sete pessoas que também se preparavam para a partida. Por fim, imigrou com seus companheiros para a Palestina, então parte do Império Otomano.

Degania Inicialmente estabeleceram-se no primeiro kibutz, chamado Degania, onde, trabalhou por um tempo, e impressionou seus companheiros por sua força física, bem como pelo seu comprometimento ideológico. Tornou-se um modelo de inspiração para os pioneiros sionistas, e defendeu que os judeus empregassem outros judeus no trabalho da terra, ao invés de contratarem árabes. Mas tinha críticas ao método de trabalho, que considerava restringir as iniciativas dos trabalhadores, e à organização que fundou o kibutz, que Trumpeldor considerava uma "organização burguesa e incompetente", e decidiu fundar sua própria comunidade agrícola.

Comuna de Migdal Seu grupo de sete pessoas partiu em 1913 para fundar a Comuna de Migdal, às margens do Mar da Galileia. O começo foi promissor, com as pessoas felizes com o trabalho e com a vista do grande lago. Mas o grupo não foi capaz de suportar o rigor da vida que escolheram. E aos poucos, a personalidade rígida de Trumpeldor foi agravando as condições de trabalho. Ele era demasiadamente crítico com o trabalho e com o comportamento dos demais membros, o que causou o seu isolamento. Bella Kovner, uma farmacêutica que deixou a Rússia por influência de Trumpeldor e era sua namorada em Migdal, o deixou, o que ele entendeu como uma traição. A Comuna de Migdal foi abandonada após cerca de um ano de fundação, e seus membros seguiram para outras comunidades judaicas na região. Trumpeldor retornou a Degania, embora não tenha se tornado um membro do kvutza.

No mesmo ano, foi enviado como representante ao 11° Congresso Sionista, na cidade de Viena. Passou pela Rússia e fez novos encontros com os jovens sionistas, buscando recrutar mais pioneiros, e retornou a Degania.

Primeira Guerra Mundial

thumb|direita|Joseph Trumpeldor em Galípoli em 20 de setembro de 2015, com o uniforme do Zion Mule Corps Em 1914, quando estourou a Primeira Guerra Mundial, ele era, como súdito russo no Império Otomano, um inimigo estrangeiro. Foi um dos 7 mil judeus deportados para a cidade de Alexandria, no Egito. Lá conheceu Fira (Esther) Rozov, filha de um rico fazendeiro judeu de Petah Tikvah e irmã de um seguidor de Zeev Jabotinsky, com quem tomou aulas de francês. Eles se apaixonaram e manteriam um longo romance à distância.

Na cidade, também conheceu o próprio Jabotinsky, com quem desenvolveu a ideia da Legião Judaica para lutar junto aos britânicos contra inimigos comuns. Em março de 1915, apresentaram juntos a proposta para o General Maxwell, comandante inglês em Cairo, que a recusou, mas em resposta sugeriu a formação de uma divisão de transporte para abastecer com munição, armas e mantimentos as tropas inglesas em outros locais da frente turca, não necessariamente na Palestina. Jabotinsky não concordou com a ideia, pois tinha em mente uma unidade de combate, e não de transporte, e queria participar ativamente da expulsão dos otomanos da Terra de Israel, ao passo que a unidade oferecida iria operar perto de Constantinopla, muito longe de Sião.

Mas Trumpeldor abraçou a iniciativa e em abril de 1915 reuniu os 650 judeus que se alistaram. Eles criaram um pequeno vocabulário de termos militares em hebraico, e criaram uma bandeira sionista azul e branca. Apesar de serem um batalhão de transporte, eram treinados e equipados para a batalha. Assim foi formado o Zion Mule Corps, um pelotão de arrieiros conduzindo mulas, que foi considerada a primeira unidade militar totalmente judaica organizada em cerca de dois mil anos, e o início ideológico das Forças de Defesa de Israel. O coronel irlandês John Henry Patterson, um protestante, foi apontando comandante do batalhão, e Trumpeldor recebeu a patente de capitão, e era o segundo no comando.

Com menos de um mês de treinamento, o pelotão foi enviado para a desastrosa Campanha de Galípoli, onde Trumpeldor foi ferido no ombro. Sob comando do tenente-coronel John Henry Patterson, o pelotão chegou em Helles em 27-28 de abril, quatro semanas depois de partir, tendo parado em Mudros quando seu navio encalhou. Foram embarcados no mesmo navio de outro pelotão de transporte animal, o 9th Mule Corps, que tinha destino em Gaba Tepe mas foi desviado para Helles. O pelotão desembarcou sob fogo de artilharia a partir da costa asiática, e com ajuda dos voluntários do 9th Mule Corps, começou a transportar suprimentos imediatamente, para abastecer as Forças Armadas da Austrália e Nova Zelândia, que estavam na linha de frente. O capitão Trumpeldor foi atingido no ombro mas se recusou a deixar o campo de batalha. O Zion Mule Corps permaneceu em Galípoli até a retirada britânica, em janeiro de 1916.