Tradição, Família e Propriedade (TFP), registrada no Brasil como Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, é uma organização civil e política internacional de inspiração católica tradicionalista leiga fundada primeiramente em 26 de julho de 1960 por Plinio Corrêa de Oliveira (1908–1995), escritor, jornalista, professor catedrático e deputado federal constituinte em 1934, natural de São Paulo.
A entidade se baseia na tradição católica e em oposição a ideologias consideradas contrárias à doutrina cristã, como a maçonaria e o igualitarismo (socialismo e comunismo). A sua doutrina está estruturada na obra de seu fundador Revolução e Contra-Revolução, defendendo a ação contrarrevolucionária de leigos motivada pelo apego à ordem cristã e pela rejeição da desordem social.
História Origens A TFP resulta da trajetória de Plinio Corrêa de Oliveira, cuja atuação começou no final da década de 1920. A trajetória que antecede a fundação da TFP em 1960 pode ser dividida em três fases, todas sob a liderança de Plinio: Grupo de Congregados Marianos de Santa Cecília, em São Paulo (1928–1947). Grupo do jornal O Legionário (1933–1947), órgão oficioso da Arquidiocese de São Paulo, com tiragem superior a 17 mil exemplares em 1937. Grupo Catolicismo, iniciado com a fundação do jornal Catolicismo em 1951, posteriormente transformado em revista, ainda em circulação.
Desde o período do Legionário, o grupo precursor da TFP era conhecido como "Grupo do Plinio" e incluía membros destacados, como o engenheiro Adolpho Lindenberg e Bertrand de Orléans e Bragança.
Na fase inicial da organização, Plinio Corrêa de Oliveira se destacou como escritor, conferencista, advogado, professor catedrático de História na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), deputado mais votado na Constituinte de 1934, jornalista, líder dos Congregados Marianos, fundador da Ação Universitária Católica (AUC) na Faculdade de Direito de São Paulo, fundador do mensário Catolicismo, diretor do jornal O Legionário, presidente da Junta Arquidiocesana da Ação Católica e Prior Carmelita Terceiro.
Cisão e legado Após o falecimento de Plinio Corrêa de Oliveira, ocorreu uma cisão na TFP, resultando na formação de dois grupos principais. O primeiro grupo manteve a continuidade da TFP original sob a direção de membros fundadores, originando o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira (IPCO). O segundo grupo se vinculou a João Scognamiglio Clá Dias, posteriormente fundador da Associação Religiosa Arautos do Evangelho. Os membros do primeiro grupo permaneceram como leigos, mantendo a atuação civil e o direcionamento ideológico da TFP original. O segundo grupo teve parte de seus membros ordenada como sacerdotes, com reconhecimento pontifício concedido em 2001 pelo Papa João Paulo II, mas atualmente se encontra sob investigação da Santa Sé desde 2017 em razão de acusações relacionadas a delitos canônicos, práticas de exorcismo irregulares e abusos de menores.
Segundo reportagem da revista Isto É (novembro de 2013), a TFP funcionava sob a liderança de oito fundadores com direito exclusivo a voto, que definiam as diretrizes da organização. Em 1997, um grupo dissidente contestou o estatuto da sociedade alegando que uma associação civil não pode ser administrada sem a consulta de seus membros, levando a disputa ao âmbito judicial. Embora tenham perdido a primeira instância, obtiveram, em 2004, a posse da sigla TFP, de seus bens e da diretoria, enquanto os membros da chamada "velha guarda" criaram a Associação dos Fundadores em 2004. Uma ação judicial posterior proibiu o uso do nome "Tradição, Família e Propriedade" pelos fundadores dissidentes, consolidando a denominação apenas como Associação dos Fundadores.
De acordo com a revista Veja, o grupo dissidente realizou alterações no estatuto e convocou assembleias para eleger nova diretoria, assumindo a sede da entidade em Higienópolis, São Paulo, em um contexto judicial conturbado, com a presença de força policial. Os antigos gestores perderam o direito à sigla, ao brasão e à sede, que posteriormente foi recuperada pela Associação dos FundadoresRevista "Conjur". 11 de março de 2013, 9h31. Elton Bezerra. Disponível em: http://www.conjur.com.br/2013-mar-11/disputa-controle-tfp-decidida-supremo.
O Instituto Plinio Corrêa de Oliveira atua na esfera civil, com campanhas e comunicados sob orientação leiga, presidido por Adolpho Lindenberg. Sua prática litúrgica segue a missa tridentina, e suas posições incluem críticas à reforma agrária, ao ambientalismo, a determinadas políticas do Papa Francisco, a mudanças na estrutura familiar e ao Concílio Vaticano II. O pensamento e as atividades do grupo são divulgados por meio do site oficial do IPCO e pelo antigo mensário Revista Catolicismo. O instituto possui sedes em diversas cidades brasileiras, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e BrasíliaMissa em homenagem ao falecimento de Dr. Plinio Corrêa de OliveiraArtigos contra a reforma agrária no site do InstitutoArtigos contra a psicose ambientalista no site do InstitutoPalestra crítica da Encíclica Laudato Si' promovida pelo InstitutoArtigos em defesa da família no sitePalestra crítica sobre Concílio Vaticano II promovida pelo IPCO.
Os membros vinculados a João Scognamiglio Clá Dias, embora integrem a atual diretoria da TFP, concentraram suas atividades na Associação Religiosa Arautos do Evangelho. Grande parte desse grupo foi ordenada sacerdotalmente, incluindo o próprio líder. A orientação litúrgica adotada é a missa pós-conciliar (Missal do Vaticano II), com adesão ao Concílio Vaticano II e ao ecumenismo, em contraste com as posições de Plinio Corrêa de Oliveira. As atividades e posicionamentos são divulgados pelo site e pela Revista Arautos. Os membros podem ser identificados pelo uso do traje da TFP modificado por João Clá, com a Cruz de Santiago. A ordenação de novos sacerdotes está atualmente suspensa em razão da investigação conduzida pelo VaticanoDo site oficial dos ArautosDo site oficial dos ArautosDiário de Pernambuco, "Instituição foi fundada por ex-militante da TFP", 03/04/2015.Sobre o Concílio: Revolução e Contra-Revolução, apêndice de 1976, Pt.III, Cap.II, item 4. "Dentro da perspectiva de Revolução e Contrarrevolução, o êxito dos êxitos alcançado pelo comunismo pós-staliniano sorridente foi o silêncio enigmático, desconcertante, espantoso e apocalipticamente trágico do Concílio Vaticano II a respeito do comunismo. Este Concílio se quis pastoral e não dogmático. Alcance dogmático ele realmente não o teve. Além disto, sua omissão sobre o comunismo pode fazê-lo passar para a História como o Concílio apastoral (...). É penoso dizê-lo. Mas a evidência dos fatos aponta, neste sentido, o Concílio Vaticano II como uma das maiores calamidades, se não a maior, da História da Igreja. A partir dele penetrou na Igreja, em proporções impensáveis, a “fumaça de Satanás”, que se vai dilatando dia a dia mais, com a terrível força de expansão dos gases. Para escândalo de incontáveis almas, o Corpo Místico de Cristo entrou no sinistro processo da como que autodemolição."Sobre o ecumenismo ver: "Em Defesa da Ação Católica" (1943), Parte IV, e o livro "Baldeação Ideológica Inadvertida e Diálogo" (1965).Sobre a missa nova de Paulo VI: ver De Mattei, Roberto (1997), "O Cruzado do Século XX: Plinio Corrêa de Oliveira", Editora Civilização, Porto, Cap.VI, no.13..
Fundação e atuação internacional A primeira TFP, sob a orientação de Plinio Corrêa de Oliveira, deu origem à criação de diversas TFPs e sociedades congêneres em âmbito internacional. Entre essas, se destacam as seguintes:
Argentina A Sociedad Argentina de Defensa de la Tradición, Familia y Propiedad foi fundada em 3 de abril de 1967. Em julho de 1968, aproximadamente 266.512 cidadãos argentinos, por iniciativa da TFP, solicitaram ao papa Paulo VI a adoção de medidas contra a infiltração comunista em instituições católicas. A TFP Argentina desenvolveu atividades de mobilização pública, incluindo a publicação de manifestos em veículos de imprensa, abordando temas como a oposição ao divórcio, críticas ao governo de Salvador Allende, questionamentos sobre a apuração dos votos nas eleições de 1973 e a divulgação da mensagem de Fátima, além de realizar campanhas em colaboração com sociedades irmãs internacionais.Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, Um homem, uma obra, uma gesta – Homenagem das TFPs a Plinio Corrêa de Oliveira, 1988, São Paulo: Edições Brasil de Amanhã, parte III, cap.1
Chile A Sociedad Chilena de Defensa de la Tradición, Familia y Propiedad foi fundada em 28 de abril de 1967. Sua atuação mais conhecida inclui a publicação do livro Frei, o Kerensky Chileno, escrito pelo membro brasileiro da TFP Fábio Vidigal Xavier da Silveira. A obra teve 10 edições, foi traduzida para três idiomas e alcançou 129 mil exemplares. No livro, o governo do presidente Eduardo Frei Montalva (1964–1970) é criticado, sendo descrito como um período em que o poder político era exercido pela Democracia Cristã, enquanto o poder espiritual estaria concentrado em um episcopado majoritariamente identificado com posições de esquerda, ambos supostamente promovendo reformas e abrindo espaço para o comunismo.
A TFP chilena também publicou materiais argumentando que o apoio fornecido ao governo de Salvador Allende pelo Cardeal Raúl Silva Henríquez, pela maioria do episcopado e por parte do clero teria sido decisivo para a manutenção da coalizão social-comunista no poder. Entre essas publicações se destaca o livro La Iglesia del Silencio en Chile – La TFP proclama la verdad entera (1976), distribuído em cinco países e com 29,5 mil exemplares.
Em março de 1984, ocorreu um atentado a bomba na sede principal da TFP em Santiago, que foi noticiado por veículos de comunicação nacionais e internacionais. Um segundo atentado foi registrado no ano seguinte.Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, Um homem, uma obra, uma gesta – Homenagem das TFPs a Plinio Corrêa de Oliveira, 1988, São Paulo: Edições Brasil de Amanhã, parte III, cap.2Power, Margaret (2011), "Transnational, Conservative, Catholic, and Anti-Communist: Tradition, Family, and Property (TFP)", in Durham, Martin; Power, Margaret, New Perspectives on the Transnational Right, New York: Palgrave-MacMillan, pp. 92–93, ISBN 978-0-230-62370-5
Uruguai A Sociedad Uruguaya de Defensa de la Tradición, Familia y Propiedad foi fundada em 13 de maio de 1970. Entre suas publicações, se destaca- o livro Esquerdismo na Igreja: "companheiro de viagem" do comunismo na longa aventura dos fracassos e das metamorfoses, de 384 páginas, baseado em mais de 300 documentos e ilustrado com fotografias. A obra teve duas edições nacionais e uma edição na Espanha, totalizando 11 mil exemplares. O livro analisa o que os autores identificam como uma crise religioso-ideológica no Uruguai nas últimas décadas, abordando as tensões sociais relacionadas ao comunismo. Conclui examinando o conflito percebido entre a conduta de certos membros do clero, se fundamentando- na Doutrina Católica e no Direito Canônico, e direciona recomendações a bispos e sacerdotes sobre a atuação e a postura eclesiástica.
A publicação alcançou destaque nas livrarias de Montevidéu e Punta del Este, permanecendo em primeiro lugar em vendas por dois meses, e a segunda edição foi comercializada também em trinta cidades do interior do país. Na seção Lo más leído do jornal El País, o livro alcançou a primeira posição.