A língua koyra chiini (em koyra chiini: / AFI: [kojra tʃiːni], figurativamente "língua da cidade"), também conhecido como songai ocidental, é uma língua pertencente ao ramo songai da família nilo-saariana, falada pelo grupo étnico bozo presente nas regiões do rio Níger em Tombuctu e rio acima nas cidades de Diré, Tonka, Goundam e Niafunké, bem como na cidade saariana de Araouane ao norte.

O koyra chiini, com aproximadamente 200 mil falantes, é considerado severamente ameaçado pela UNESCO devido ao declínio no número de falantes e à redução da transmissão para as novas gerações. Fatores como migração, urbanização e a predominância de outras línguas regionais contribuem para essa vulnerabilidade. Apesar disso, a língua apresenta uma notável homogeneidade e pode ser vista como um grupo abrangente de variantes dialetais.

As línguas songais são classificadas de acordo com o sistema desenvolvido por Robert Nicolaï, no qual foi amplamente dividida com base em direções cardeais, incluindo songai do norte, do sul, central, oriental, do leste e ocidental. Esta última categoria refere-se ao koyra chiini, uma língua que apresenta variações dialetais como zarma, koyraboro senni, kaado e djenné chiini. Historicamente, o koyra chiini se desenvolveu no contexto da expansão do Império Songai, que controlou importantes cidades como Gao e Hombori. No entanto, a invasão marroquina no final da Idade Média levou ao colapso do império, marcando o fim do domínio Songai.

Ao contrário da maioria das línguas songais, o koyra chiini não possui tons fonêmicos. Além disso, sua ordem de palavras segue a estrutura sujeito-verbo-objeto (SVO), diferindo do padrão sujeito-objeto-verbo (SOV) encontrado em outras línguas da família. A língua também se caracteriza por ser uma morfologia simples e tradicionalmente uma língua ágrafa, buscando padronizar sua escrita com o alfabeto latino e o árabe.

Etimologia

O termo koyra chiini significa, literalmente, "língua da cidade" em português, no qual koyra (, [kojra]) significa "cidade" e chiini (, [tʃiːni]) significa "língua".

A etimologia de koyra chiini não se refere ao amplo grupo etnolinguístico de falantes da língua songai como um todo, mas sim a grupos sociais e castas dentro dessa sociedade. Entre esses grupos estão os maiga, cissé, touré, sorko e griots, que historicamente desempenharam ocupações específicas relacionadas ao desenvolvimento das cidades ao longo do rio Níger. Além disso, cada casta preservou ritos e costumes próprios, que contribuíram para a organização social e cultural da região. Nesse contexto o termo "songai " surgiu como um exônimo utilizado por falantes de outras línguas para se referir ao koyra chiini, que é o endônimo da língua. Essa denominação reflete a ampla presença de falantes do koyra chiini nas regiões que integraram o Império Songai.

Distribuição

O koyra chiini é uma variedade da língua songai falada principalmente no Mali, ao longo do rio Níger, em cidades como Tombuctu, Diré, Tonka, Goundam e Niafunké, além da localidade de Araouane, ao norte. Em 1999, estimava-se que a língua contava com aproximadamente 200.000 falantes nativos. Embora sua presença seja predominante no Mali, pode haver falantes em comunidades menores em países próximos como Benin, Níger e Burquina Fasso, além das regiões desérticas do sul do Saara, no Níger. Alguns falantes também são encontrados na Nigéria, entre falantes de dendi na cidade de Salaga, em Gana, bem como em algumas vilas do Sudão e ao redor do oásis de Tabelbala, no sudoeste da Argélia. No entanto, esses países não possuem um número significativo de falantes nativos. Em 1986 o koyra chiini era cerca de 80% das línguas nativas em Tombuctu

250px|thumb|Senhor de origem songai do Máli, 2012

O deserto do Saara, ao norte, atua como uma barreira natural que limita a expansão da língua para essas regiões áridas e pouco habitadas. Além disso, a dispersão das comunidades falantes influencia a transmissão intergeracional do idioma, principalmente em áreas em que há a diminuição no número de crianças que aprendem o idioma, devido à influência crescente do francês (por serem ex-colônias francesas) e de outras línguas regionais.

Dialetos A língua koyra chiini e sua relação entre os diferentes dialetos pode ser descrita por meio de subgrupos geográficos e filogenéticos. A lingua faz parte da família nilo-saariana e das línguas songais, que incluem:

- O songai do sul que engloba os dialetos mais falados e amplamente distribuídos ao longo do rio Níger, funcionando como línguas regionais de comunicação. Ele se divide em três subgrupos principais: songai oriental, central e ocidental. - O songhai do norte que representa dialetos mais isolados geograficamente e que sofreram maior influência de línguas berberes e árabes. - O grupo nômade que abrange dialetos falados por comunidades nômades e fortemente influenciados pelas línguas berberes e tamaxeque (tuaregue)

+Comparação entre alguns dos dialetos do songai do sulSongai do sulSongai orientalkoyraboro senniŋaazarma ŋwăSongai centralhonbori senniŋà:tondi soŋay w̃ă:dendiŋwáàSongai ocidentalkoyra chiiniŋaaEquivalente em língua portuguesacomer

Línguas relacionadas O koyra chiini é a língua dominante e a língua franca ao longo do rio Níger, especialmente na região de Tombuctu, Mali. Ele desempenha um papel central na comunicação interétnica, sendo utilizado no comércio, na administração local e em interações cotidianas entre diferentes grupos étnicos da região. Embora seja a língua mais falada nesse contexto, o koyra chiini se relaciona com outras línguas importantes, como o árabe hassani, o tamaxeque e o fula.

+Comparação entre as línguas relacionadasKoyra chiiniaruÁrabe hassaniyarajulinTamasheqadenFulfuldeworbeEquivalente em língua portuguesahomem

História O Império Songai (c. 1460 - 1591 d.C.) foi um dos mais importantes da África Ocidental, sucedendo o Império de Mali e controlando vastas áreas ao longo do rio Níger, incluindo cidades-chave como Tombuctu, Gao e Jené. Sua ascensão foi impulsionada pela expansão territorial iniciada pelo rei Suni Ali e consolidada por Ásquia Maomé I, que fortaleceu o exército e ampliou as fronteiras do império. No entanto, o declínio ocorreu devido a disputas internas, a ocorrência de sucessões instáveis e, por fim, a invasão marroquina em 1591, que marcou o colapso do império.

A língua koyra chiini está diretamente ligada a essa história, pois emergiu e se desenvolveu dentro desse contexto imperial. Como língua predominante em Tombuctu, centro cultural e comercial do império, o koyra chiini consolidou-se como língua franca na região, facilitando a comunicação entre diversos grupos étnicos do império, como os songai, mandê, fulas, mossi e tuaregues. Sua estrutura e vocabulário refletem essa interação multicultural, incorporando influências das línguas mandês, afro-asiáticas e berberes devido ao intenso contato comercial e político ao longo dos séculos.

Mesmo após a queda do Império Songai, o koyra chiini manteve sua relevância na região, sendo falado até hoje, especialmente ao longo do rio Níger, preservando vestígios da rica herança linguística e histórica da civilização Songai.

Proto-songai e koyra chiini

O proto-songai é a forma ancestral reconstruída das línguas songais, pertencente à família nilo-saariana. A evidência linguística mostra que o songai compartilha um número significativo de lexemas básicos com línguas nilo-saarianas geograficamente distantes, diferenciando-o das línguas afro-asiáticas e nigero-congolesas. No entanto, o songai sofreu forte influência externa, especialmente do mande, berbere e até do saariano, indicando uma longa história de contato linguístico.

O koyra chiini faz parte do subgrupo songai do sul e reflete características do proto-songai, mas também incorpora mudanças diacrônicas devido ao contato linguístico, sendo elas, a mudança na ordem das palavras (proto-songai tinha uma ordem SOV (Sujeito-Objeto-Verbo), como outras línguas nilo-saarianas, no entanto, o koyra chiini mudou para uma estrutura SVO (Sujeito-Verbo-Objeto), aproximando-se de padrões observados em línguas mandê e berberes) e a simplificação gramatical (koyra chiini tem menos morfologia flexional do que outras línguas songais, essa simplificação pode ter ocorrido devido ao contato prolongado com falantes de outras línguas, tornando a gramática mais acessível para a comunicação em um ambiente multicultural).

História da documentação

thumb|Manuscrito Kashf al-Ghummah fi Nafa al-Ummah de Tombuctu

Os primeiros registros escritos do koyra chiini estão relacionados aos manuscritos de Tombuctu, que contêm textos em árabe e, em menor escala, em línguas locais, incluindo o songai. Esses manuscritos remontam ao fim do século XIII e ao início do XX e abrangem uma ampla variedade de assuntos, incluindo matemática, astronomia, medicina, literatura, filosofia, e muitos na forma de tratados islâmicos e documentos administrativos. Embora a maioria tenha sido redigida em árabe, algumas notas marginais e anotações revelam elementos do koyra chiini, indicando um uso prático da língua na escrita.

O primeiro estudo sistemático do koyra chiini foi realizado por pesquisadores franceses durante o período colonial no século XIX e início do XX. Exploradores e administradores coloniais franceses documentaram a língua em relatórios etnográficos, mas a primeira gramática acadêmica detalhada foi produzida por Jeffrey Heath em 1998, intitulada "A Grammar of Koyra Chiini", que descreve sua fonologia, morfologia e sintaxe.

O koyra chiini também tem ganhado espaço no ambiente digital. Alguns sites e projetos promovem seu uso e aprendizado, como o aplicativo "Koyra Chiini, Songhay Bible", fornecendo uma tradução da Bíblia para o idioma koyra chiini.

História do ensino

Historicamente, a transmissão do koyra chiini ocorreu principalmente de forma oral, passada entre gerações por meio do convívio social, narrativas, canções e práticas cotidianas. A educação tradicional na região songai estava amplamente ligada às madraças islâmicas, e os estudos religiosos e discussões frequentemente ocorriam em koyra chiini. Durante o período colonial francês, a educação formal na região foi majoritariamente conduzida em francês, que depois, com a independência do Mali, houve um crescente interesse em valorizar e promover as línguas nacionais, incluindo o koyra chiini. Nos últimos anos, o avanço da tecnologia e da internet tem permitido maior acesso a recursos educacionais sobre o koyra chiini.

Fonologia Consoantes A língua koyra chiini conta com 22 consoantes, e que algumas das principais propriedades do sistema consonantal incluem: influência da palatalização e adaptações fonéticas, consoantes nasais, processos de assimilação e empréstimos linguísticos.

+ Fonemas consonantais do koyra chiiniBilabialLabiovelarLabiodentalAlveolarPós-AlveolarPalatalVelarGlotalPlosiva Nasal Fricativa Aproximante Lateral Vibrante

No koyra chiini, os fonemas consonantais menores são: o /p/, presente principalmente em palavras emprestadas do francês ou de outras línguas; o /š/, que representa uma palatalização de /s/ antes de /i/ e /e/; o /x/, que alguns falantes adaptam como [h] ou [k]; o /z/ e o /ž/, que ocorrem em empréstimos árabes e franceses; e o [ŋ], que muitas vezes resulta de uma assimilação superficial de n seguido de uma parada velar, como em /hiŋ͜ ka/ "ser capaz de". Além disso, [ŋ] pode ser usado antes de vogais, como em /ŋaa/ "comer".

O fonema consonantal /r/ tende fortemente a assimilar totalmente a um alveolar seguinte, como nas palavras: /njeer͜ di/ "o antílope" e /yer͜ ta/ "nós".

Nesta língua o /y/ é considerado como uma consoante que tende fortemente a assimilar-se a um palatal seguinte como em /ay͜ jur/ "eu corri".

A assimilação paralela envolvendo /w/ se aplica antes de um labial, como em /čirow͜-bii/ "pássaro - preto". Vogais

O inventário de vogais do koyra chiini, é caracterizado pela distinção entre vogais orais e nasalizadas.