A língua ngardi, também conhecida como ngari, ngarti, ngardily, ngartily ou ngadi, é uma língua aborígene australiana pertencente ao ramo Ngumpim-Yapa da família Pama-Nyungan, utilizada pelo povo ngardi residente nas terras tradicionais ao sul da comunidade de balgo, ao redor da fronteira da Austrália Ocidental e do Território do Norte.
De acordo com o Censo 2021, realizado pela Australian Bureau of Statistics, a língua foi dada como extinta por possuir um total de 0 falantes. Contudo, o ano de extinção é desconhecido devido à lacuna de 5 anos entres os dois últimos censos realizados. A transmissão geracional da língua foi interrompida por fatores sociais associados ao contato colonial durante o século XX, que resultou em uma dispersão geográfica dos povos ngardi para outras comunidades, admitindo-se a mudança para a língua franca de cada uma delas.
O contato com os colonizadores, descrito por meio de documentações históricas de povos próximos, bem como a convivência e assimilação linguística de outros grupos por parte dos ngardi, deriva das influências invasoras das indústrias pastoris e da mineração, além dos efeitos da Missão Balgo.
O sistema fonológico do ngardi exibe muitas propriedades fonêmicas generalizadas de sua família linguística: um sistema vocálico de três vias, numerosos contrastes de lugar, ausência de fricativas e nenhum contraste de sonoridade.
Etimologia Ngardi é um endônimo de etimologia incerta.
O lexema Ngardiji, potencialmente relacionado à língua, é um termo utilizado pelo grupo aborígene australiano warlpiri para se referir ao povo kaytetye, enquanto ngarlina, menos utilizado, é encontrado no povo mudburra e significa 'compatriotas'.
Distribuição A língua ngardi está situada na interseção de vários grupos linguísticos. A oeste e norte estão os outros membros do clado Ngumpin Ocidental de Ngumpin-Yapa: walmajarri e jaru, respectivamente. A leste estão as línguas yapa: warlpiri e warlmanpa; e ao sul e sudoeste estão as línguas do Deserto Ocidental: kukatja, wangkajunga e pintupi.
A extensão da localização geográfica do povo ngardi varia, visto que seguem um estilo de vida seminômade, mas pode ser entendida como limitada por Balgo e às margens sul do Lago Gregory no Norte, sobre a fronteira do Território do Norte e Austrália Ocidental no leste, com a área de Mangkayi ao sul e logo a leste da Canning Stock Route no oeste.
Dialetos Do ponto de vista gramatical e lexical, a língua ngardi apresenta muitas semelhanças com outras línguas aborígenes australianas, estando intimamente relacionada ao eastern walmajarri e nyinin, por exemplo. Com isso, esses podem ser considerados dialetos de uma única língua, ainda que suas respectivas comunidades falantes os considerem línguas distintas. +Comparação entre os dialetos de tchagilin, ngardi e dialetos de nyininyPortuguêsTchagilinNgardiDialetos nyininySturt CreekOld Flora ValleyGordon Downságuangarrpangapangabangabangabamadeirakorndipurnugarnrdi, purnufogo, chamajangilany, warlujangilanyjangilany, warlujangilany, jangalany, warlu, jawumulhernaringangaringkangaringga, ngumbirrngarringangaringga, ngumbirgarotomarbenmalju, mayartaperujanjurajanturajandurajandurasolwarlloo, kangarripurangu, warluwalurr, gangirrinywalurr, gangirrinywalurr, gangirrinyárvoreboonboopurnugarnrdi, bunugarnrdi, bunugarnrdi, bunuluajagalinyakarn, jakarliny, jagilinyjagiliny, yagarn, jalaanjagilinyyalngan
Línguas relacionadas Como uma língua que sofreu grande dispersão geográfica de falantes devido ao contato colonial durante o século XX, o ngardi teve forte relação com outras línguas aborígenes australianas das regiões próximas, como warlpiri, jaru, kukatja, pintupi, walmajarri, wangkajunga, kriol, entre outras variedades do inglês aborígene australiano.
História História da língua Existem poucos relatos escritos explícitos do primeiro contato entre europeus e povos aborígenes, o qual provocou mudanças linguísticas em muitas línguas aborígenes australianas, e nenhum com referência direta ao povo ngardi. Contudo, devido à conexão entre os povos ngardi e os pintupi, o primeiro contato dos colonos com o povo ngardi pode ser obtido a partir do que foi documentado da história dos pintupi.
As primeiras incursões de exploradores europeus nas terras Kutjungka ocorreram em 1855 com a expedição de Sir Augustus Charles, devido à adequação da região para gado e à existência de pronta mão de obra aborígene. Na década de 1890, com a descoberta de ouro nas proximidades do povo ngardi, primeiramente ao norte, em Halls Creek, e depois ao leste, em Yartuluyartulu e Jarmani em 1900, os povos jaru e warlpiri, vizinhos aos ngardi, tiveram contato direto com os colonos europeus. Ocorreu, então, um crescente interesse da viabilidade de pastores no sudeste de Kimberley, o que resultou em uma viagem de Alfred Canning através dos países de Walmajarri e Wangkajunga, ao oeste dos ngardi, em 1906, como uma tentativa de traçar uma rota para expulsar os gados de Kimberley para os mercados do sul. Esse contato, direto e hostil, que inclui menções de cercamentos forçados e coerção, causou a destruição de importantes pontos de coleta de água, levando à saída de várias pessoas de suas terras natais no Deserto Ocidental para assentamentos missionários e estações de gado ao norte. Muitos povos ngardi provavelmente ouviram relatos sobre os europeus e começaram a se mudar para fazendas de gado no sudeste de Kimberley.
50 anos antes, a seca regional que afetou o país Lappi Lappi entre 1895 e 1906 encorajou o povo kukatja a migrar para as Cordilheiras Stansmore, área associada aos ngardi, resultando no contato e aproximação entre esses povos.
No final da década de 1930, a chegada dos missionários palotinos e o estabelecimento da Missão Balgo foi o evento mais perturbador para os ngardi e os kukatja. Ao trazer a influência do modo de vida ocidental mais ao sul por meio da evangelização do povo aborígene, a missão buscou promover a dependência da economia estrangeira e a mudança dos modos de vida desses povos, agindo de forma contrária à promessa de refúgio dos povos ngardi, jaru, kukatja, walmajarri, wangkajunga e pintupi na igreja. Esses povos se aproximaram devido à vivência em bases semipermanentes nas regiões de Palku e Jalyiwarn, resultando na influência linguística entre eles para além dos maus-tratos, exploração e assassinatos vivenciados no local.
Após a perda da influência da igreja em Balgo, ocorreu um movimento nacional para apoiar os aborígenes a se mudarem de volta para suas terras tradicionais. Nesse contexto, muitos povos se uniram em novas comunidades nas regiões de Mulan e de Yagga Yagga, incluindo os ngardi. Entretanto, devido à má gestão governamental, a ocupação das regiões foi encerrada e os ngardi dispersaram-se geograficamente, passando a integrar outras comunidades e a utilizar a língua franca de cada uma delas. Devido a isso, todos os falantes de ngardi eram fluentes em pelo menos três línguas, o que configura a eles o status multilíngue.
Toda essa separação forçada de famílias, em particular a segregação das gerações mais jovens das gerações mais velhas, ocasionou a interrupção drástica da transferência intergeracional da língua. Nesse sentido, o ngardi deixou rapidamente de ser falado como língua principal, sendo substituído pelo kukatja como língua franca das gerações mais jovens. Dessa forma, o contato europeu e as perturbações sociais fundamentais para o povo ngardi tiveram um impacto enorme em quando, como e onde esse povo veio a aprender línguas aborígenes adicionais.
História da documentação Há muito pouca história escrita centrada no povo ou na língua ngardi. No entanto, primeiros relatos históricos do povo podem ser encontrados em 'Napanangka et al.’s (1997) Yarrtji: Six women’s stories from the Great Sandy Desert', uma coleção de histórias de seis mulheres idosas ngardi e kukatja de Balgo e Yakka-Yakka. Incluem-se relatos da vida antes da chegada dos missionários, da fixação das missões e dos primeiros contatos com os europeus. Além disso, foram compilados registros do povo ngardi como parte do processo de reunião de casos para reivindicações de terras: Relatório n° 22: ‘Warlpiri, Kukatja and Ngardi Land Claim’; Relatório n° 42: ‘Tanami Downs Land Claim’; 'Ngururrpa' e 'Lappi Lappi/Ngulupi'.
A primeira gramática ngardi foi escrita como uma tese de mestrado por Thomas Ennever em 2018, chamada 'Nominal and pronominal morphology of Ngardi: A Ngumpin-Yapa language of Western Australia', a partir da gramática de esboço de Cataldi, que fornecia informações essenciais sobre os sistemas nominal, pronominal e verbal da língua. A tese de Ennever foi revisada e complementada por ele em 2021, tornando-se 'A Grammar of Ngardi'. Cabe ressaltar que houve documentação anterior da língua, a mais significativa sendo o dicionário de Cataldi (2011).
Fonologia Consoantes A língua ngardi possui 17 fonemas consonantais, em que prevalecem as consoantes vozeadas. +Quadro consonantal da língua ngardiApicalLaminarPeriféricaAlveolarRetroflexaPalatalBilabialVelarPlosivat ʈ c p k Nasaln ɳ ɲ m ŋ Trinador Aproximanteɻ, j w Laterall ɭ ʎ Com relação aos contrastes de lugar nas séries de oclusivas nasais, o ngardi é do tipo 'duplo-apical', contrastanto apicais retroflexos e não retroflexos, enquanto não possui uma distinção lamino-dental/lamino-palatal.
Cabe ressaltar que, em ngardi, na maioria das palavras sua primeira sílaba soa mais alta.
Vogais O idioma possui três vogais, todas elas tônicas. +Quadro vocálico da língua ngardiAnteriorCentralPosteriorFechada⠀⠀ i ⠀⠀ u Aberta a
Ortografia Atualmente, inexiste um sistema de escrita da língua ngardi, visto que ela foi dada como extinta em 2021. Contudo, tem-se registradas algumas das regras ortográficas anteriores às alterações pós-contato colonial. +Ortografia do ngardiLetraPronúncia (AFI)Aproximação com o inglêsj/c/jam ou chillk/k/kingly/ʎ/millionm/m/manng/ŋ/singny/ɲ/onion ou canyonp/p/pin ou bin ou spinr/ɻ/run ou carrl/ɭ/Não há equivalente; soa como o 'L' no inglês, mas é pronunciado com a ponta da língua dobrada mais para trás na boca.rn/ɳ/Não há equivalente; soa como o 'n', mas é pronunciado com a ponta da língua dobrada mais para trás na boca.rr/r/butterrt/ʈ/Não há equivalente; soa como o 't' ou 'd' no inglês, mas é pronunciado com a ponta da língua dobrada mais para trás na boca.t/t/tin ou din Cabe ressaltar que, em ngardi, não existe diferenciação de pronúncia para uma mesma grafia. Além disso, na maioria das palavras sua primeira sílaba soa mais alta.
Gramática Nominais Nessa língua, os nominais são uma classe de palavras composta predominantemente por substantivos e adjetivos. Todos os nominais podem ter uma variedade de sufixos de caso, embora certos subtipos difiram em relação à variedade exata e ao efeito semântico da sufixação de caso.
Substantivos Os substantivos são tipicamente referenciais, denotando objetos e entidades. Eles cobrem uma ampla gama de subtipos semânticos: substantivos comuns, como kunyarr 'cachorro'; substantivos próprios, que incluem nomes pessoais e de lugares; termos de parentesco, por exemplo wapirra 'pai'; e entidades abstratas, como yalkiri 'céu'. Em ngardi, os substantivos não são categorizados por um sistema de gênero.
Normalmente os substantivos ocupam posições de sujeito (exemplo 1) ou de adjunto (exemplo 2) em orações.
Exemplo 1: Pilaka=ka-nya murrku-ngku kunyarr. O menino carregava o cachorro nos ombros.
Exemplo 2: Minya ngaakman yut=karri-nyanta purnu-ngka. Este sapo está sentado debaixo da árvore.
A maioria dos substantivos pode ser reduplicada para indicar pluralidade ou intensificação. +Pluralização por reduplicaçãoHaste simplesHaste duplicadajingkacriançajingka-jingkacriançasmaljugarotomalju-maljugarotosngawuvelho, pessoa falecidangawu-ngawuancestraispu(r)lkaidosopurlka-purlkaidosos Em alguns casos, os substantivos podem receber o sufixo -pirri para designar os agentes da oração.
Adjetivos